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terça-feira, agosto 04, 2026

She Wolf (Loba)


A expressão inglesa “She-Wolf” (Loba) tornou-se célebre no teatro e na literatura para designar, quase sempre de forma pejorativa, rainhas de origem francesa que ousaram exercer influência em um universo tradicionalmente reservado aos homens: o da política.

Mais do que um simples apelido, o termo carregava um julgamento moral, sugerindo ambição desmedida, crueldade e uma suposta ameaça à ordem estabelecida.

Durante séculos, a memória coletiva consolidou a imagem de mulheres à frente de exércitos, conselhos reais e decisões de Estado como algo antinatural. Em uma sociedade moldada por valores patriarcais, o poder era visto como atributo exclusivamente masculino.

Assim, quando uma rainha demonstrava habilidade política, firmeza ou liderança, sua atuação era dificilmente reconhecida como fruto de inteligência, estratégia ou competência. Em vez disso, era frequentemente interpretada como uma afronta à ordem social.

Para tornar essa presença feminina mais aceitável nos registros da História, muitos cronistas recorreram a um curioso artifício: masculinizaram essas soberanas.

Retratavam-nas como mulheres que haviam abandonado sua delicadeza para assumir características consideradas próprias dos homens — frieza, dureza e implacabilidade. Era como se a autoridade feminina só pudesse ser compreendida quando dissociada da feminilidade.

Aquelas que não se enquadravam nessa narrativa sofriam destino ainda mais severo. Eram descritas como figuras monstruosas, movidas pela vaidade, pela manipulação ou pela perversidade. Seus atos eram interpretados não como decisões políticas, mas como manifestações de um caráter supostamente corrupto.

Em muitos relatos, transformaram-se em verdadeiras vilãs, responsabilizadas por conspirações, intrigas palacianas e até pelo desencadeamento de guerras civis, ainda que os conflitos tivessem causas muito mais complexas, envolvendo disputas dinásticas, interesses econômicos e rivalidades entre poderosas famílias nobres.

Essa construção histórica revela menos sobre essas rainhas e muito mais sobre a sociedade que escreveu suas histórias. Ao longo dos séculos, inúmeras mulheres tiveram sua imagem moldada por cronistas que enxergavam o poder feminino como uma exceção incômoda — ou, pior, como uma ameaça que precisava ser explicada, condenada ou transformada em lenda.

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