Epitáfios: as últimas palavras gravadas na pedra
E, com uma letra bem pequena, quase
imperceptível, lá estava escrito no seu epitáfio: “Tentou ser, não
conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa
vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e
aqui está.”
Essa frase circula amplamente na internet e
em redes sociais atribuída a Dom Casmurro, de Machado de Assis. No entanto,
trata-se de uma citação apócrifa, que não aparece no romance nem em nenhuma
outra obra conhecida do autor.
Apesar disso, ela captura perfeitamente o
espírito irônico e melancólico de Machado, especialmente o tom de fracasso
existencial e de ironia amarga que permeia livros como Memórias Póstumas de
Brás Cubas e o próprio Dom Casmurro.
O narrador Bentinho, com seu ciúme obsessivo
e sua vida marcada por dúvidas e arrependimentos, poderia muito bem ter
inspirado algo semelhante, mas a frase em si é uma criação posterior,
provavelmente de autor anônimo, que ganhou vida própria na cultura popular
brasileira.
O que são epitáfios?
Epitáfios são inscrições colocadas em
túmulos, lápides, mausoléus ou placas comemorativas nos cemitérios, destinadas
a homenagear, recordar ou até ironizar a vida da pessoa ali sepultada.
Tradicionalmente escritos em verso (daí o
nome, do grego epi = sobre + taphos = túmulo), eles variam de poemas tocantes e
piedosos a frases curtas, sarcásticas ou filosóficas.
Podem ser gravados em pedra, bronze ou metal,
e muitas vezes revelam mais sobre a personalidade do falecido (ou de quem
encomendou a inscrição) do que uma biografia inteira.
Exemplos célebres de epitáfios
Alguns epitáfios tornaram-se famosos pela
ousadia, humor negro ou profundidade:
Atribuído a Maximilien Robespierre:
Passant, ne pleure pas ma mort (Passante, não
chores minha morte)
Si je vivais, tu serais mort. (Se eu vivesse,
tu estarias morto.)
Essa inscrição reflete o terror do período
revolucionário francês, quando Robespierre, arquiteto do Reinado do Terror,
acabou guilhotinado em 1794. O tom desafiador e vingativo resume sua figura
controversa.
Um clássico anônimo ou popular em várias
culturas: A vida é noite: o sol tem véu de pedra. Essa frase poética e
enigmática evoca a ideia de que a morte cobre a luz da existência com a
escuridão definitiva da lápide.
Outros exemplos famosos incluem o de
Shakespeare (com um aviso contra quem mexesse nos ossos), o de Groucho Marx
(atribuído postumamente: “Eu não queria pertencer a nenhum clube que me
aceitasse como membro”) ou epitáfios brasileiros cheios de humor, como “Aqui
jaz Fulano, que morreu de repente, de tanto esperar a vez”.
Machado de Assis, aliás, tinha fascínio por
epitáfios. Em seus textos, ele os menciona como expressão de um “pio e secreto
egoísmo” humano: o desejo de deixar ao menos um vestígio, um “farrapo da sombra
que passou”, mesmo depois da morte.
Essas últimas palavras, sejam verdadeiras ou
inventadas, continuam a nos fazer refletir sobre fracassos, ambições e o que
realmente resta quando tudo termina. Às vezes, uma frase pequena na pedra diz
mais do que uma vida inteira de discursos.

























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