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terça-feira, fevereiro 03, 2026

A vida dupla de Joana de Leeds


 A vida dupla de Joana de Leeds - a freira que enganou a morte

Joana de Leeds foi uma freira inglesa nascida na Grã-Bretanha e residente no convento beneditino de St. Clement, em York, no início do século XIV. Seu nome atravessou os séculos não por feitos religiosos, mas por um episódio extraordinário: por volta de 1318, Joana fingiu a própria morte para escapar da clausura e abandonar a vida monástica.

Pouco se sabe sobre sua origem familiar, infância ou vocação religiosa. As informações que chegaram até nós provêm quase exclusivamente de uma anotação oficial feita pelo então arcebispo de York, William Melton, nos registros de seu arcebispado. Ainda assim, esses documentos revelam uma história que desafia as rígidas estruturas morais e institucionais da Idade Média.

A encenação da morte

Cansada da vida enclausurada e do rigor da disciplina monástica, Joana arquitetou um plano engenhoso e arriscado. Alegando sofrer de uma doença mortal, preparou-se para encenar o próprio falecimento.

Para isso, confeccionou uma boneca ou efígie à sua semelhança, que foi colocada no lugar de seu suposto corpo sem vida. Segundo o relato do arcebispo, várias freiras do convento participaram da encenação - não se sabe se por cumplicidade consciente ou se enganadas pela farsa.

Convencidas da morte da irmã, realizaram o sepultamento da efígie em solo consagrado, rito reservado exclusivamente aos mortos cristãos, o que tornava o ato ainda mais grave aos olhos da Igreja.

Enquanto isso, Joana escapava discretamente do convento e seguia para a cidade de Beverley, onde abandonou o hábito religioso e passou a viver com um homem, rompendo abertamente seus votos de castidade, obediência e pobreza.

A descoberta e a reação da Igreja

O engano veio à tona quando o arcebispo William Melton foi informado da ausência da freira e da suspeita fraude. Indignado, escreveu às autoridades religiosas de Beverley, denunciando o ardil e exigindo o retorno imediato de Joana ao convento de St. Clement.

Em sua carta, Melton foi severo. Descreveu Joana como alguém dominada pelos “prazeres da carne”, incapaz de sustentar a castidade e a disciplina exigidas pela vida monástica.

Classificou-a como apóstata, por ter abandonado voluntariamente seus votos, e acusou-a de colocar em risco não apenas a própria alma, mas também a reputação de toda a ordem beneditina.

Em um dos trechos mais contundentes, o arcebispo escreveu:

“Com mente maliciosa, simulando uma doença corporal, fingiu-se morta sem temer pela salvação de sua alma e, com a ajuda de inúmeros cúmplices, criou um boneco à semelhança de seu corpo.

Não teve vergonha de receber sepultura em espaço sagrado. Desviou arrogantemente seu caminho de vida para a luxúria carnal, afastando-se da pobreza e da obediência. Tendo quebrado seus votos e descartado o hábito religioso, vaga agora livremente, para o notório perigo de sua alma e o escândalo de toda a sua ordem.”

Apesar da indignação expressa, não há registros que confirmem se Joana de Leeds foi de fato capturada ou forçada a retornar ao convento. É possível que o arcebispo tenha considerado seu dever cumprido ao emitir a ordem, sem adotar medidas concretas para assegurar sua execução.

Um convento marcado por escândalos

O caso de Joana de Leeds não foi um episódio isolado. O convento de St. Clement, em York, já havia sido palco de outros escândalos envolvendo freiras que romperam as regras monásticas.

Em 1301, uma freira conhecida apenas como Cecília encontrou-se com um grupo de homens nos portões do priorado. Segundo os registros, arrancou o hábito religioso, vestiu roupas comuns e fugiu para Darlington, onde viveu por cerca de três anos com um homem chamado Gregory de Thornton.

Outro episódio ocorreu em 1310, envolvendo Joana de Saxton, punida pelo então arcebispo William Greenfield por um delito não especificado, mas claramente relacionado à imoralidade.

Sua punição foi posteriormente atenuada mediante imposição de rígidas restrições: ela não poderia deixar o claustro desacompanhada, receber visitas nem manter contato com a Lady de Walleys. Caso essa dama visitasse o convento, Saxton deveria se ausentar.

Entre a obediência e o desejo

A história de Joana de Leeds revela mais do que um simples ato de rebeldia individual. Ela expõe as tensões entre vocação religiosa, desejo pessoal e coerção social na Idade Média, especialmente no contexto feminino. Muitas mulheres ingressavam em conventos não por escolha espiritual, mas por imposição familiar ou ausência de alternativas sociais.

Ao fingir a própria morte, Joana não apenas desafiou a autoridade da Igreja, mas também subverteu simbolicamente o destino que lhe fora imposto. Sua fuga permanece envolta em silêncio e incertezas - não se sabe se foi punida, perdoada ou se conseguiu, enfim, viver a vida que desejava.

Assim, Joana de Leeds permanece como uma figura enigmática: uma freira que ousou morrer para poder viver.

A Caixa de Pandora




O mito da Caixa de Pandora é uma das narrativas mais instigantes da mitologia grega, pois aborda, de forma alegórica, a curiosidade humana, a fragilidade da condição mortal e as consequências de desafiar os desígnios divinos.

Transmitida ao longo dos séculos, essa história permanece atual justamente por tocar em aspectos universais da experiência humana: o desejo de saber, o erro, o sofrimento e a esperança.

Segundo a tradição mitológica, Pandora foi a primeira mulher criada pelos deuses do Olimpo. Sua origem está diretamente ligada à punição imposta por Zeus à humanidade, após Prometeu ter roubado o fogo sagrado dos deuses e oferecido aos homens.

Como parte dessa vingança divina, Zeus ordenou a Hefesto que moldasse Pandora em argila, dando-lhe forma humana. Cada divindade, então, concedeu-lhe um dom: Afrodite ofereceu-lhe a beleza e o poder de sedução; Atena, a habilidade manual e a inteligência; Hermes, a astúcia e a eloquência, mas também a inclinação à curiosidade e à persuasão.

Como presente de núpcias, Zeus entregou a Pandora uma caixa - ou, em versões mais antigas, um jarro (pithos) - acompanhada de uma única e solene advertência: jamais deveria ser aberta.

A proibição, no entanto, tornou-se um convite silencioso ao desconhecido. A curiosidade de Pandora, alimentada por sua própria natureza e pelos dons que lhe haviam sido concedidos, cresceu de forma incontrolável.

Mesmo ciente de que desobedecer aos deuses poderia trazer consequências irreversíveis, ela não resistiu ao impulso de descobrir o conteúdo oculto. Ao abrir a caixa, Pandora libertou todos os males ali aprisionados.

Dores, doenças, guerras, tristezas, vícios, inveja e inúmeras formas de sofrimento espalharam-se rapidamente pelo mundo, passando a afligir a humanidade de maneira profunda e permanente.

Diante do caos que ajudara a desencadear, Pandora foi tomada pelo desespero e pelo remorso, compreendendo, tarde demais, o peso de seu ato. Assustada, ela fechou a caixa às pressas. Nesse instante, percebeu que algo ainda permanecia em seu interior: a esperança.

Diferentemente dos demais males, ela não escapara. Assim, mesmo após a disseminação das calamidades, a humanidade não foi abandonada por completo. A esperança permaneceu como um último consolo, uma força silenciosa capaz de sustentar os homens diante da dor e da adversidade.

O mito da Caixa de Pandora admite múltiplas interpretações simbólicas e morais. Em primeiro lugar, ele reflete a natureza humana e sua inclinação inevitável a explorar o desconhecido, mesmo quando advertida sobre os riscos.

Pandora personifica tanto a curiosidade quanto a impulsividade humanas, enquanto a caixa simboliza os mistérios, as incertezas e os limites que cercam a existência.

Além disso, a presença da esperança confere ao mito uma dimensão profundamente ambígua e filosófica. Para alguns intérpretes, ela é um dom divino que suaviza o sofrimento; para outros, trata-se de uma ilusão necessária, que mantém os homens em movimento, mesmo diante de um mundo marcado pela dor.

Em ambos os casos, a esperança surge como uma força essencial, capaz de oferecer sentido, resistência e a possibilidade de renovação, mesmo nos tempos mais sombrios.

Em última análise, o mito da Caixa de Pandora nos convida a refletir sobre a dualidade da condição humana. Somos constantemente confrontados por perdas, erros e adversidades, mas também possuímos a capacidade de encontrar coragem, aprendizado e esperança diante dessas experiências.

A narrativa funciona como um alerta atemporal: a curiosidade é uma virtude poderosa, motor do conhecimento e do progresso, mas exige responsabilidade e consciência das consequências de nossos atos.

Mais do que uma simples história mitológica, a Caixa de Pandora permanece como um espelho simbólico da própria humanidade - frágil, curiosa, falível, mas ainda capaz de resistir e sonhar. 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Padre Mário Pais de Oliveira – “Fátima nunca mais”


 

Mário Pais de Oliveira, mais conhecido como Padre Mário de Oliveira ou Padre da Lixa, nasceu em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, a 8 de março de 1937. Foi presbítero, filósofo, teólogo, jornalista e escritor português.

Ordenado sacerdote na Igreja Católica, afastou-se progressivamente da ortodoxia institucional, identificando-se com o Jesuísmo - corrente que privilegia a mensagem ética, social e libertadora de Jesus de Nazaré, dissociando-a das estruturas dogmáticas e hierárquicas do catolicismo romano.

Ficou conhecido sobretudo pela sua postura crítica e interventiva durante a ditadura do Estado Novo, numa época em que grande parte do clero português se mantinha alinhada ou silenciosa perante o regime.

Antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, Padre Mário denunciou publicamente a Guerra Colonial, considerando-a injusta, imoral e contrária ao Evangelho. Essa posição valeu-lhe perseguição pela PIDE/DGS, a polícia política do regime, e levou-o a ser julgado duas vezes em Tribunal Plenário, instrumento judicial usado para reprimir opositores políticos.

Exerceu funções como professor de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel II, no Porto. Posteriormente, foi enviado como capelão militar para a guerra colonial, experiência que marcou profundamente o seu percurso.

No contacto direto com soldados portugueses e populações locais, confrontou-se com os dramas humanos da guerra, a violência estrutural do colonialismo e o sofrimento psicológico dos combatentes, reforçando a sua oposição ao conflito e à lógica imperial do regime.

Quando foi levado a tribunal durante a ditadura, recebeu inicialmente apoio de vastos setores progressistas da Igreja Católica, de intelectuais e de movimentos democráticos. Contudo, esse apoio esbateu-se quando as suas posições teológicas e políticas passaram a ser consideradas demasiado heterodoxas.

O então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, figura ele próprio conhecida pela oposição ao Estado Novo, acabou por lhe retirar a paróquia de Macieira da Lixa, sinal claro do isolamento institucional a que Padre Mário foi votado dentro da hierarquia eclesiástica.

Apesar disso, manteve ao longo da vida uma ligação consistente a meios progressistas, ecuménicos e críticos, tanto dentro como fora da Igreja Católica. A sua reflexão teológica, filosófica e política aproximou-o cada vez mais do Jesuísmo, afastando-o do clericalismo, do culto mariano tradicional e da teologia dogmática.

Destacou-se igualmente pela sua intensa atividade como jornalista, sendo diretor do jornal Fraternizar, publicação de inspiração cristã libertadora, que continua a ser editada e que serviu como espaço de denúncia social, reflexão política e crítica eclesial.

A comunidade que dirigiu em Lourosa e na região da Lixa teve um papel relevante na solidariedade internacional, particularmente no apoio aos processos de democratização na América Latina.

Durante as décadas de 1970 e 1980, período marcado por ditaduras militares violentas em vários países latino-americanos, promoveu ações de denúncia, informação e apoio a movimentos populares e cristãos de base, em sintonia com a Teologia da Libertação.

Em abril de 1999, publicou em Portugal, pela Editora Campo das Letras, o livro Fátima nunca mais, obra que provocou forte polémica e alcançou oito edições em apenas doze meses.

No livro, Padre Mário de Oliveira procura desconstruir o mito das aparições de Fátima, apresentando argumentos históricos, psicológicos e sociológicos que, segundo o autor, desmentem a natureza sobrenatural dos acontecimentos de 1917.

Sustenta que a utilização de Jacinta Marto, Francisco Marto e Lúcia de Jesus dos Santos como instrumentos de uma narrativa religiosa institucionalizada teve consequências devastadoras para as suas vidas.

Acusa o clero local de Ourém e a hierarquia da Igreja Católica de abuso psicológico e espiritual, afirmando que os jejuns e práticas religiosas impostas contribuíram para o enfraquecimento físico das crianças, levando à morte prematura de Jacinta e Francisco, vítimas de pneumonia, e ao encerramento de Lúcia num convento, afastando-a da família e da vida civil.

Estas posições valeram-lhe duras críticas, condenações públicas e tentativas de silenciamento, mas também reforçaram o seu estatuto como voz dissidente e incómoda no interior da história recente do catolicismo português.

Morte

Após sofrer um grave acidente de carro a 26 de janeiro de 2022, em Macieira da Lixa, Padre Mário de Oliveira faleceu a 24 de fevereiro de 2022, no Hospital de Penafiel, poucos dias antes de completar 85 anos.

A sua morte encerrou uma vida marcada pela coerência ética, pela resistência à opressão política e religiosa, e por uma visão do cristianismo centrada na liberdade, na justiça social e na dignidade humana.

Diga a verdade aos seus filhos!


 

Diga-lhes a verdade. Diga-lhes que Papai Noel não existe. Diga-lhes que Satanás não é negro - associação construída historicamente para demonizar corpos, culturas e espiritualidades africanas durante a expansão do cristianismo europeu.

Diga-lhes que cada povo possui seus antepassados, sua memória espiritual e seu egregora - conceito presente em diversas tradições africanas e também estudado pela antropologia e pela sociologia das religiões.

Diga-lhes que nossos rituais não são bruxaria. São sistemas simbólicos complexos, organizados, com ética, cosmologia e função social, anteriores às religiões abraâmicas e tão estruturados quanto elas.

Diga-lhes que tudo começou no Egito africano, o Kemet dos próprios egípcios.
A arqueologia, a linguística e a genética apontam o Vale do Nilo como uma civilização africana negra, ligada culturalmente à Núbia, Kush e ao restante do continente.

O historiador senegalês Cheikh Anta Diop demonstrou, por meio de análises craniométricas, estudos de melanina, linguística comparada e fontes greco-romanas, que os antigos egípcios eram africanos negros - tese hoje amplamente debatida, mas sustentada por evidências sólidas.

Autores clássicos como Heródoto, Diodoro da Sicília e Estrabão descrevem os egípcios como de “pele escura” e “cabelos crespos”. Não se trata de ideologia moderna, mas de registros antigos.

Diga-lhes que o Egito foi um centro avançado de ciência, matemática, medicina, filosofia e arquitetura quando a Europa ainda atravessava longos períodos de obscuridade técnica.

Os papiros matemáticos de Rhind e Moscou demonstram domínio de geometria, frações, cálculo de áreas e volumes cerca de 2.000 anos antes da Grécia clássica.

Diga-lhes que Pitágoras, Tales de Mileto e Platão estudaram no Egito. Isso é reconhecido por fontes gregas antigas. Ainda assim, a história preferiu apagar os mestres africanos e glorificar apenas os discípulos europeus.

Diga-lhes que Imhotep, arquiteto da pirâmide de Djoser, médico, engenheiro e filósofo, é o verdadeiro pai da medicina científica, citado em papiros médicos como o Papiro Edwin Smith - mas permanece ausente dos currículos escolares.

Diga-lhes que Cristóvão Colombo não descobriu as Américas. Povos indígenas já habitavam o continente há dezenas de milhares de anos. Há também estudos controversos, porém relevantes, sobre possíveis contatos africanos pré-colombianos, como os apresentados por Ivan Van Sertima, que analisou evidências botânicas, linguísticas e escultóricas (notadamente as cabeças colossais olmecas).

Diga-lhes que Mansa Musa, imperador do Mali no século XIV, foi o homem mais rico da história registrada. Relatos árabes contemporâneos descrevem que sua peregrinação a Meca foi tão grandiosa que causou inflação no Egito por mais de uma década. O Império do Mali mantinha universidades, bibliotecas e centros de estudo em Timbuktu, Djenné e Gao.

Diga-lhes que a África escrevia antes da chegada dos missionários. Existiam sistemas como o hieróglifo egípcio, o meroítico, o ge’ez, o tifinagh e vastas tradições de manuscritos em árabe e línguas africanas, hoje preservadas em coleções privadas e públicas no Sahel.

Diga-lhes que o concreto (betão) já era utilizado no Egito antigo, como demonstram estruturas duráveis feitas com misturas de calcário e materiais aglutinantes, séculos antes do concreto romano.

Diga-lhes que o ancestral mais antigo da humanidade foi encontrado na África:
Lucy (Australopithecus afarensis), descoberta na Etiópia, e fósseis ainda mais antigos no Chade e no Quênia confirmam cientificamente que a África é o berço da humanidade - consenso absoluto da paleoantropologia moderna.

Diga-lhes também que museus ocidentais estão repletos de arte africana saqueada durante expedições coloniais punitivas. O Relatório Sarr–Savoy (2018), encomendado pelo governo francês, reconhece oficialmente o roubo sistemático de patrimônio cultural africano.

Diga-lhes que o vandalismo nos narizes das estátuas egípcias não é mera erosão. Historiadores da arte e arqueólogos documentaram práticas deliberadas de mutilação simbólica para apagar traços africanos e negar a identidade negra do Egito antigo.

Diga-lhes, por fim, que a união é condição de sobrevivência. Que nenhuma libertação veio por milagre. Que o trabalho, a consciência histórica e a reconstrução da memória são atos revolucionários.

E diga-lhes para não esperar que o maná caia do céu - porque a história não se escreve ajoelhada, mas de pé.

domingo, fevereiro 01, 2026

Entre a Cruz e o Chicote


 

O financiamento e a sustentação da escravidão pelas igrejas católicas e protestantes não constituíram um desvio moral pontual, tampouco um simples “erro de época”. Tratou-se, antes, de um projeto econômico, político e teológico profundamente entranhado nas estruturas de poder do mundo colonial e imperial, no qual a religião desempenhou papel ativo na legitimação e na reprodução da ordem escravocrata.

Durante séculos, ordens religiosas católicas - como jesuítas, beneditinos, carmelitas, mercedários e franciscanos - acumularam vastas propriedades rurais, engenhos de açúcar, fazendas de gado e, sobretudo, pessoas escravizadas, cuja exploração garantia tanto a subsistência cotidiana dos conventos quanto rendimentos significativos.

A disciplina do trabalho forçado sustentava, simultaneamente, a rotina econômica e o calendário litúrgico dessas instituições. No auge do século XIX, por exemplo, a Ordem de São Bento possuía cerca de quatro mil escravizados distribuídos por suas unidades no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Bahia.

Esses cativos, conhecidos como “escravos da religião”, pertenciam coletivamente às ordens - não a indivíduos -, o que moldava de forma particular sua existência: eram obrigados a frequentar missas, participar de orações, receber sacramentos e submeter-se à catequese contínua.

Resistências à conversão, à disciplina religiosa ou ao trabalho podiam resultar em castigos exemplares, aplicados não apenas como punição, mas como pedagogia do medo.

Inserida no regime do padroado real - acordo que subordinava a Igreja Católica à Coroa portuguesa em troca de privilégios políticos, financeiros e administrativos -, a instituição eclesiástica ofereceu fundamentação moral e teológica ao sistema escravista.

Argumentava-se que a escravidão seria um mal menor, um instrumento para retirar africanos e seus descendentes do “paganismo” e conduzi-los à salvação cristã, mesmo que isso implicasse violência, desumanização e perda absoluta da liberdade.

Assim, a cruz caminhava lado a lado com o chicote. A fé operava como uma sofisticada tecnologia de dominação simbólica: ensinava obediência irrestrita, naturalizava a hierarquia social, atribuía sentido redentor ao sofrimento e inculcava a ideia de que a dor, aceita com resignação, seria recompensada no além.

A miséria presente tornava-se, nos sermões, promessa de glória futura. Versículos bíblicos eram cuidadosamente selecionados, descontextualizados e reinterpretados para justificar a submissão - passagens que falavam de servos obedecendo a seus senhores ou a infame “maldição de Cam”, aplicada de forma racista aos povos africanos.

A catequese e o batismo, muitas vezes forçados ou fortemente induzidos, funcionavam como anestesia simbólica para um processo brutal de expropriação econômica, violência física e apagamento cultural.

As igrejas protestantes, embora tenham chegado mais tarde ao Brasil - sobretudo a partir do século XIX, com presbiterianos, batistas, metodistas e outras denominações -, também não ficaram à margem desse processo.

Muitas delas carregavam consigo heranças teológicas oriundas do sul escravocrata dos Estados Unidos, onde leituras racistas da Bíblia haviam sido amplamente usadas para legitimar a escravidão.

No Brasil imperial, há registros de comunidades protestantes que possuíam escravizados ou que aceitavam senhores de escravos como membros plenos, sem questionar de forma contundente o sistema.

Posições abolicionistas mais firmes só se tornaram visíveis quando a abolição já se consolidava como consenso político e social. Ainda hoje, movimentos como o Movimento Negro Evangélico pressionam denominações - entre elas Presbiteriana, Batista e Luterana - a abrirem seus arquivos históricos, a fim de esclarecer o grau de envolvimento institucional e os benefícios econômicos obtidos.

Em ambos os casos - católico e protestante -, a religião não foi mera cúmplice passiva. Atuou como força legitimadora, fornecendo arcabouço moral, simbólico e ideológico ao escravagismo, ajudando a sustentar elites econômicas, o Estado colonial e as próprias instituições eclesiais.

A Bíblia, a cruz e a catequese funcionaram como instrumentos de controle social, moldando consciências para aceitar a dominação como expressão da vontade divina.

Esse legado histórico exige reflexão crítica permanente, especialmente em um país como o Brasil, onde a escravidão não foi um episódio periférico, mas o eixo estruturante de desigualdades que persistem até hoje.

Embora as igrejas contemporâneas, em sua maioria, condenem qualquer forma de escravidão como intrinsecamente maligna, o reconhecimento honesto e público desse passado é fundamental - não apenas como exercício de memória, mas como alerta sobre o perigo constante de instrumentalizar a fé para legitimar novas formas de opressão.

Crueldade, privilégio e impunidade: dois crimes, o mesmo abismo moral


 

O caso do indígena Pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, e o do cão comunitário Orelha, brutalmente espancado e morto por adolescentes de classe alta em Florianópolis, embora separados por quase três décadas, revelam semelhanças perturbadoras.

Ambos escancaram a banalização da violência, a desumanização - ou desvalorização da vida - e o sentimento de impunidade que parece acompanhar determinados estratos privilegiados da sociedade brasileira.

Não se trata apenas de crimes isolados, mas de sintomas de uma estrutura social adoecida, na qual jovens amparados por sobrenomes influentes, recursos financeiros e redes de proteção agem como se estivessem acima da lei, da empatia e da própria noção de humanidade.

O fogo contra o invisível

Na madrugada de 20 de abril de 1997, Galdino Jesus dos Santos, liderança da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe, de 44 anos, dormia em um banco de ponto de ônibus na quadra 703 Sul, em Brasília.

Ele havia viajado da Bahia à capital federal junto a outras lideranças indígenas para participar de reuniões com autoridades governamentais, reivindicando a demarcação de terras ancestrais em meio a violentos conflitos fundiários no sul baiano.

Após as comemorações do Dia do Índio na sede da Funai, Galdino não conseguiu retornar à pensão onde estava hospedado, fechada durante a noite. Cansado, decidiu descansar ali mesmo - decisão que lhe custaria a vida.

Cinco jovens, com idades entre 16 e 19 anos - Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira, Tomás Oliveira de Almeida, Antônio Novely Vilanova Cardoso (filho de um juiz federal) e Gutemberg Nader Almeida Júnior - resolveram “se divertir”.

Jogaram líquido inflamável sobre o corpo de Galdino e atearam fogo, afirmando posteriormente que acreditavam se tratar de um mendigo e que queriam apenas “dar um susto”.

Galdino teve 95% do corpo queimado, a maioria em terceiro grau. Ainda consciente, foi levado ao Hospital Regional da Asa Norte, onde morreu horas depois, em estado de extrema dor e lucidez - uma das faces mais cruéis desse crime.

Em 2001, os autores foram condenados a 14 anos de prisão por homicídio com dolo eventual. No entanto, progressões de pena, benefícios legais e a posterior reinserção social de alguns - inclusive a ocupação de cargos públicos - reacenderam o debate nacional sobre seletividade penal e impunidade.

O local do crime foi transformado na Praça do Compromisso, rebatizada em 2023 como Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos, com uma escultura em sua memória - um gesto simbólico que, embora necessário, não repara a falha estrutural do Estado.

A violência como “brincadeira”

Quase trinta anos depois, em 4 de janeiro de 2026, outro episódio de brutalidade chocou o país. Na Praia Brava, bairro turístico de alto padrão no norte de Florianópolis, o cão comunitário Orelha, conhecido por sua docilidade e cuidado coletivo dos moradores, foi espancado até a morte por quatro adolescentes de 14 a 17 anos, também oriundos de famílias influentes.

Utilizando paus ou objetos contundentes, os jovens atingiram repetidamente a cabeça do animal, provocando ferimentos irreversíveis que levaram à eutanásia para cessar seu sofrimento. Não satisfeitos, ainda tentaram afogar outro cão, posteriormente chamado Caramelo, que sobreviveu e acabou adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina.

Quando o caso veio à tona, dois dos adolescentes estavam em viagem à Disney, nos Estados Unidos. Ao retornarem, tiveram celulares apreendidos. A investigação apontou atos infracionais de maus-tratos a animais, dano e coação de testemunhas, envolvendo inclusive pais e um tio dos envolvidos, posteriormente indiciados.

O crime gerou comoção nacional, protestos e a mobilização de artistas, ativistas e cidadãos comuns sob a hashtag #JustiçaPorOrelha, evidenciando o aumento de episódios de violência extrema cometidos por jovens - muitas vezes registrados ou estimulados pela lógica de espetáculo das redes sociais.

A lógica da desumanização

Um era um ser humano - mas tratado como alguém de “segunda categoria”, por ser indígena, vítima histórica do racismo estrutural e da invisibilidade social em um país que ainda falha em reconhecer plenamente os direitos de seus povos originários.

O outro era um animal - dócil, inofensivo e comunitário - visto como descartável por viver nas ruas, reduzido à condição de objeto, o que permitiu aos agressores enquadrar sua barbárie como simples “brincadeira”.

Em ambos os casos, o denominador comum é o mesmo: a desumanização do outro e a certeza, explícita ou implícita, de que as consequências seriam mínimas. Filhos de juízes, empresários ou famílias influentes crescem, muitas vezes, em bolhas onde o poder protege, relativiza e silencia.

Para onde estamos indo?

Que tipo de sociedade estamos formando quando jovens capazes de tamanha crueldade são tratados como exceções, e não como sintomas? Esses adolescentes poderão, amanhã, ocupar cargos de poder - políticos, médicos, gestores, juízes. Que valores carregarão consigo?

Esses episódios não são desvios isolados. Eles refletem uma crise ética profunda, alimentada por desigualdades sociais, educação falha em empatia, elitismo, especismo e pela normalização da violência no espaço digital e no cotidiano.

Caminhamos para um futuro sombrio se não houver responsabilização rigorosa, políticas educacionais humanizadoras e um enfrentamento real das estruturas que naturalizam a violência contra os mais vulneráveis - sejam indígenas, animais ou minorias sociais.

A pergunta que ecoa é incômoda, mas necessária: se a impunidade persistir, estaremos abrindo caminho para novos horrores coletivos, para genocídios seletivos, para a repetição de tragédias que a história já nos ensinou a temer?

Ainda há tempo de refletir, corrigir rotas e construir uma sociedade verdadeiramente justa e compassiva. Mas o silêncio, a conivência e o esquecimento jamais serão neutros.

sábado, janeiro 31, 2026

Casa Grande.


O medo dos senhores e os fantasmas do poder

O homem nunca é cruel e injusto com impunidade. A violência praticada contra o outro não se encerra no ato em si: ela retorna, silenciosa e persistente, na forma de ansiedade, culpa e medo.

Aqueles que abusam do poder passam a ser perseguidos por terrores imaginários, obsessões paranoicas e fantasmas que eles próprios criaram. A injustiça, ainda que socialmente legitimada, cobra um preço psicológico alto de quem a exerce.

Nas plantações de cana-de-açúcar, o senhor castigava o escravizado com brutalidade, reduzindo-o à condição de ferramenta viva, força de trabalho descartável. Tratava-o como besta de carga, impunha-lhe jornadas exaustivas, castigos físicos e humilhações constantes.

No entanto, por trás da aparência de domínio absoluto, escondia-se um medo profundo e permanente. O senhor temia o ódio silencioso do escravizado, a vingança que poderia brotar a qualquer momento, na escuridão da noite ou na solidão dos campos.

Quanto maior era a subjugação dos negros, maior também era o temor que eles inspiravam. O poder, paradoxalmente, não trazia tranquilidade, mas insegurança. Os senhores sabiam, ainda que não o admitissem, que a violência sem limites gera ressentimento, e que o ressentimento pode se transformar em revolta.

A lembrança de levantes, fugas, quilombos e assassinatos de feitores alimentava uma atmosfera constante de tensão nas fazendas. Mas o medo não se limitava à possibilidade concreta de rebelião.

Havia algo mais profundo, quase inconfessável. Muitos senhores acreditavam que os escravizados detinham poderes ocultos, forças invisíveis herdadas da África, associadas à feitiçaria, aos rituais, aos encantamentos e aos saberes ancestrais.

A religiosidade africana, incompreendida e demonizada, transformava-se, no imaginário da “casa-grande”, em ameaça sobrenatural. Talvez alguns escravizados tenham, de fato, se vingado de seus tiranos, seja por meio da violência direta, seja por estratégias sutis de resistência, sabotagem ou envenenamento.

No entanto, o medo que reinava nas plantações tinha origem em camadas mais profundas da alma senhorial. Não era apenas o receio da morte física, mas o pavor do desconhecido, do que não podia ser controlado ou racionalizado.

A África, com seus mistérios, símbolos e crenças, perturbava o sono dos senhores. Aquilo que eles tentaram esmagar com o chicote retornava como pesadelo. O escravizado, mesmo acorrentado, permanecia, aos olhos do opressor, como portador de uma força que escapava ao domínio material.

Assim, a “casa-grande”, símbolo de poder e riqueza, tornava-se também um espaço assombrado, habitado por culpas, medos e fantasmas criados pela própria violência que sustentava sua existência.

No fim, a escravidão não desumanizou apenas os escravizados. Ela corroeu também a humanidade dos senhores, aprisionando-os em uma existência marcada pelo medo constante - prova silenciosa de que nenhum sistema de opressão se mantém sem cobrar um preço psicológico e moral de quem o impõe.

Adão e Eva e o Paraíso


As histórias bíblicas que as pessoas aceitam sem questionar nem um milímetro

Uma das narrativas bíblicas mais conhecidas - e, ao mesmo tempo, mais aceitas sem maiores questionamentos - é a de Adão e Eva no Jardim do Éden. Para muitos leitores contemporâneos, essa história soa mais como um conto moral ou até infantil do que como um relato histórico literal ou uma construção teológica profundamente elaborada.

Ainda assim, ela permanece como um dos pilares simbólicos do pensamento judaico-cristão. Segundo o livro do Gênesis (capítulos 2 e 3), Deus cria o primeiro homem, Adão, do pó da terra, insuflando nele o fôlego da vida.

Em seguida, ao perceber que o homem estava só, forma Eva a partir de uma costela de Adão, estabelecendo entre eles uma relação de unidade e complementaridade.

Ambos passam a viver no Jardim do Éden, descrito como um paraíso primordial: árvores frutíferas em abundância, rios que irrigam a terra, animais convivendo em harmonia e, sobretudo, uma relação direta e sem intermediários com Deus.

A única restrição imposta é clara e específica: eles podem comer livremente de todas as árvores do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus adverte de forma explícita: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Trata-se de um limite simples, quase pedagógico, que introduz a noção de obediência e escolha. Por um tempo indeterminado, tudo permanece em ordem. Adão e Eva obedecem sem aparente conflito, vivendo num estado de inocência em que não conhecem a vergonha, o medo ou a culpa.

Mas então surge a serpente, descrita como o animal mais astuto do jardim. Em interpretações teológicas posteriores, especialmente no cristianismo, ela passa a ser associada a Satanás, embora o texto bíblico original não faça essa identificação de forma explícita.

A serpente se aproxima de Eva - que, naquele momento, aparece sozinha ou separada de Adão - e inicia um diálogo sutil e estratégico. Primeiro, distorce a ordem divina: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?”.

Eva responde corretamente em parte, mas já acrescenta algo que Deus não havia dito, ao afirmar que não poderiam sequer tocar no fruto. A dúvida começa a se infiltrar.

A serpente então nega diretamente a consequência anunciada por Deus: “Vocês não morrerão. Deus sabe que, no dia em que comerem, seus olhos se abrirão e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal”. O argumento não apela à fome, mas ao desejo de autonomia, de sabedoria, de igualdade com o divino.

Eva observa o fruto. O texto é cuidadoso ao descrevê-lo como “bom para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento”. Ela come e oferece a Adão, que aceita sem resistência ou questionamento. O ato é simples, quase banal, mas suas consequências são imediatas e profundas.

Seus olhos se abrem, não no sentido glorioso prometido, mas para uma nova consciência: percebem que estão nus, algo que antes não causava desconforto. Surge a vergonha, o medo e a necessidade de se esconder. Costuram folhas para cobrir o corpo e tentam se ocultar da presença de Deus, algo impensável até então.

Quando confrontados, ninguém assume plenamente a responsabilidade. Adão culpa Eva e, de forma indireta, o próprio Deus: “A mulher que me deste…”. Eva, por sua vez, culpa a serpente. Deus então pronuncia as consequências - chamadas tradicionalmente de maldições.

A serpente é condenada a rastejar e a viver em inimizade com a descendência da mulher. Eva passa a enfrentar dor no parto e uma relação de submissão ao marido. Adão é condenado ao trabalho árduo: a terra, antes generosa, agora produzirá espinhos, e ele só obterá sustento com esforço, até retornar ao pó de onde veio.

Por fim, o casal é expulso do Éden, não apenas como punição, mas para impedir que coma da árvore da vida e viva eternamente naquele estado de ruptura. Começa, então, a história da humanidade “fora do paraíso”.

A narrativa segue com o nascimento dos filhos: Caim, Abel, Sete e outros. Rapidamente, o conflito se intensifica. O primeiro assassinato ocorre quando Caim mata Abel, movido por ciúme e ressentimento.

A violência, a inveja e a morte entram definitivamente na experiência humana, moldando um mundo marcado por sofrimento, trabalho duro e escolhas morais complexas.

Muitos crentes aceitam essa história de forma literal, como um fato histórico absoluto, e veem Adão e Eva como os grandes responsáveis por todos os males do mundo.

São considerados a origem do chamado “pecado original”, transmitido a toda a humanidade como uma herança espiritual inevitável. Não é raro que sejam tratados como vilões, especialmente Eva, frequentemente culpabilizada com maior rigor, reforçando visões tradicionais e desiguais sobre gênero e responsabilidade.

No entanto, há uma ironia profunda que raramente é discutida: se Adão e Eva não tivessem desobedecido, não existiria a humanidade tal como a conhecemos. Não haveria história, nem povos, nem profetas, nem reis de Israel. Não existiriam igrejas, padres, pastores, papas, nem a própria ideia de salvação, redenção ou Messias.

Dentro da lógica da teologia cristã, a “queda” acaba se tornando o ponto de partida para todo o plano divino, culminando na vinda de Cristo, apresentado como o “novo Adão”, aquele que vem restaurar o que foi perdido.

Assim, o que parece uma narrativa simples sobre desobediência e punição revela camadas muito mais complexas: livre-arbítrio, tentação, desejo de conhecimento, responsabilidade moral, sofrimento e o nascimento da consciência humana.

Talvez a grande questão não seja apenas por que Adão e Eva desobedeceram, mas se a chamada “queda” foi realmente uma tragédia absoluta - ou o preço inevitável para que a humanidade adquirisse consciência, escolha e, sobretudo, história.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

A Pedra de Santana



 

A Pedra da Santana (também conhecida como Pedra do Sobrado, Pedra do Bandeira ou simplesmente Dólmen de Santana) é um impressionante monumento megalítico localizado em uma propriedade particular na comunidade rural de Santana, a aproximadamente 13-15 km do centro do município de Paramirim, no estado da Bahia, Brasil.

Situada no topo da Serra da Santana, na região da Chapada Diamantina Meridional, a formação está a cerca de 950 metros acima do nível do mar. Paramirim fica a aproximadamente 800 km de Salvador, em uma área de relevo acidentado, com acesso por estrada de terra que exige veículo adequado (4x4 recomendado em épocas chuvosas).

O local é de difícil acesso, o que contribui para o seu caráter isolado e misterioso. A Pedra da Santana é classificada como um dólmen, um tipo de estrutura megalítica caracterizada por uma grande laje horizontal (a "mesa") apoiada sobre pedras verticais menores, formando uma espécie de câmara ou mesa de pedra.

No Brasil, é considerada o exemplo mais notável e raro desse tipo de construção - muitas fontes a descrevem como o único dólmen brasileiro autêntico ou o principal, embora haja menções a estruturas semelhantes isoladas em outros estados, como no Ceará (Senador Pompeu) ou Goiás (Anicuns).

Na América do Sul, exemplos comparáveis são extremamente escassos, tornando-a um patrimônio arqueológico único no continente.

Acesso e trilha

A trilha até o topo da serra tem cerca de 2-2,5 km de ida (e o mesmo para a volta), com partes estreitas, íngremes e exigentes fisicamente, especialmente na etapa final.

O percurso leva em média 40-60 minutos em ritmo acelerado para quem está em boa forma, mas pode demorar mais para a maioria das pessoas. Recomenda-se levar água, protetor solar, calçados adequados e, idealmente, um guia local (muitos moradores da comunidade, como proprietários de terras próximas, oferecem acompanhamento).

No topo, a vista panorâmica é deslumbrante, com paisagens serranas da Chapada Diamantina se estendendo ao horizonte. Nas proximidades, há outras formações rochosas empilhadas, mas nenhuma tão imponente ou bem preservada quanto a Pedra da Santana.

Características e mistério da origem

O que torna a Pedra da Santana especialmente intrigante é a ausência aparente de marcas de ferramentas humanas na base ou nas pedras de suporte. Não há sinais claros de cortes, perfurações ou danos que indiquem intervenção recente ou mecânica moderna.

A laje superior parece perfeitamente equilibrada sobre as pedras verticais, sem argamassa ou fixação artificial visível. Essa configuração sugere equilíbrio natural ou, para alguns especuladores, arranjo intencional por povos antigos.

Contexto arqueológico e megalítico

Os dólmens são monumentos típicos do período Neolítico (aproximadamente 10.000-2.000 a.C. na Europa, Ásia e Norte da África), frequentemente associados a sepulturas coletivas, rituais ou marcações astronômicas. Exemplos famosos incluem Stonehenge (Inglaterra), Carnac (França) e dólmens na Coreia e na Índia.

Na América, estruturas megalíticas são raras e geralmente não se enquadram no mesmo período neolítico clássico, pois as civilizações pré-colombianas (como maias, incas ou povos andinos) usavam técnicas diferentes, com pedras trabalhadas e encaixadas com precisão, mas sem o formato clássico de dólmen europeu.

No Brasil, sítios megalíticos incluem alinhamentos de pedras na Bahia (como em Monte Alto, sudoeste do estado), círculos em Minas Gerais e Amapá, e outros vestígios na Chapada Diamantina.

A Pedra da Santana desafia explicações puramente geológicas para muitos observadores, pois sua posição elevada e o equilíbrio preciso sugerem intervenção humana pré-histórica.

Alguns pesquisadores e entusiastas propõem que possa indicar contatos ou difusões culturais antigas entre continentes, em uma era em que o mundo não era tão "primitivo" ou isolado quanto a narrativa tradicional sugere - embora a ciência mainstream atribua a maioria dessas formações a processos geológicos naturais (erosão diferencial, deslizamentos ou empilhamento por forças tectônicas) ou a povos indígenas locais com técnicas rudimentares.

Importância atual

Hoje, a Pedra da Santana é um ponto turístico emergente de Paramirim, atraindo trilheiros, amantes da natureza, pesquisadores de mistérios arqueológicos e até romarias religiosas (especialmente na Semana Santa, quando fiéis sobem para celebrar a Via-Sacra até um cruzeiro próximo).

A prefeitura local promove o local como cartão-postal, mas enfatiza a preservação: não se deve subir ou escalar a estrutura para evitar danos. Há relatos antigos de vandalismo ou tentativas de destruição, o que reforça a necessidade de proteção.

Em resumo, a Pedra da Santana permanece um enigma fascinante: seja uma obra impressionante da natureza, um vestígio de uma civilização pré-histórica brasileira ou um raro dólmen em terras americanas, ela convida à reflexão sobre nossas origens e sobre como o planeta guarda segredos ainda não totalmente explicados. Visitar o local é uma experiência que combina aventura física, beleza natural e um toque de mistério ancestral.