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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

O Homem da Bandeira Vermelha e o Primeiro Criminoso de Trânsito do Mundo


No final do século XIX, as leis britânicas sobre veículos a motor eram extremamente restritivas. Elas refletiam não apenas o medo da população diante das novas “carruagens sem cavalos”, mas também a pressão de interesses já estabelecidos, como as companhias ferroviárias e o setor de transportes movidos a tração animal, que viam nos automóveis uma ameaça econômica e social.

A mais emblemática dessas normas foi a Locomotive Act 1865, popularmente conhecida como Red Flag Act. A lei determinava que veículos motorizados não poderiam exceder 2 milhas por hora (cerca de 3,2 km/h) em áreas urbanas e 4 milhas por hora (aproximadamente 6,4 km/h) em áreas rurais - velocidades inferiores às de uma carruagem puxada por cavalos.

Além disso, cada veículo deveria ser acompanhado por uma tripulação mínima de três pessoas: o condutor, um foguista (no caso de máquinas a vapor) e, a figura mais simbólica da legislação, um homem que deveria caminhar à frente do veículo, a pelo menos 60 jardas (cerca de 55 metros), segurando uma bandeira vermelha durante o dia - ou uma lanterna vermelha à noite - para alertar pedestres e cavalos sobre o suposto perigo iminente.

Na prática, tratava-se de uma legislação que quase inviabilizava o uso dos automóveis nas vias públicas. O progresso técnico avançava, mas a lei mantinha os veículos presos a um ritmo do passado.

Foi nesse contexto que, em 28 de janeiro de 1896, um engenheiro e comerciante de veículos decidiu desafiar o sistema. Walter Arnold, residente em East Peckham, no condado de Kent, era um dos pioneiros do comércio automobilístico no Reino Unido.

Ele importava modelos da empresa alemã fundada por Karl Benz e chegou a fabricar sua própria versão do automóvel, conhecida como “Arnold-Benz”. Naquele frio dia de inverno, Arnold saiu dirigindo seu veículo leve a gasolina, de um cilindro, pelas ruas de Paddock Wood, próximo a Tunbridge Wells.

Ignorando completamente a exigência da bandeira vermelha e a presença de três tripulantes, ele acelerou até a “velocidade vertiginosa” de 8 milhas por hora (cerca de 13 km/h) - quatro vezes o limite urbano permitido pela lei.

A ousadia não passou despercebida. Um policial local avistou o automóvel e, determinado a fazer cumprir a lei, montou em sua bicicleta e iniciou uma perseguição que se estendeu por aproximadamente 5 milhas (cerca de 8 quilômetros) pelas estradas da região.

A cena era, por si só, um símbolo da transição histórica: um representante da ordem pedalando atrás de uma máquina que anunciava o futuro. O agente finalmente conseguiu alcançar Arnold e o deteve.

Dois dias depois, em 30 de janeiro de 1896, ele compareceu ao tribunal, onde enfrentou quatro acusações: conduzir uma “locomotiva” (termo então aplicado a qualquer veículo motorizado) sem cavalo em via pública; operar o veículo com menos de três pessoas a bordo; exceder o limite de velocidade de 2 mph; não exibir claramente o nome e endereço no veículo, como exigia a regulamentação.

O juiz o considerou culpado em todas as acusações. A multa total foi de £4 e 7 xelins - valor que hoje corresponderia aproximadamente a algumas centenas de libras, dependendo do critério de atualização.

Curiosamente, apenas 10 xelins referiam-se especificamente ao excesso de velocidade; o restante dizia respeito às demais infrações e às custas processuais. Algumas versões populares simplificam o episódio dizendo que a multa foi de apenas “1 xelim” pela velocidade, mas os registros indicam um valor maior no total.

O episódio entrou para a história como o primeiro caso documentado de multa por excesso de velocidade em um veículo automotor no mundo - certamente o primeiro no Reino Unido.

Poucos meses depois, em novembro de 1896, o Parlamento aprovou o Locomotive on Highways Act 1896, que revogou as disposições mais restritivas da lei anterior.

A exigência da bandeira vermelha foi abolida, e o limite de velocidade foi elevado para 14 milhas por hora (cerca de 23 km/h). A mudança foi celebrada por entusiastas do automóvel, a ponto de se organizar a chamada “Emancipation Run”, um evento simbólico que marcou a libertação dos carros das antigas amarras legais.

Muitos historiadores consideram que o caso de Walter Arnold ajudou a expor o anacronismo da legislação e a demonstrar que o automóvel não era apenas uma curiosidade perigosa, mas uma tecnologia com potencial transformador.

O episódio simboliza o choque entre inovação e conservadorismo - um padrão que se repete ao longo da história sempre que uma nova invenção ameaça alterar estruturas consolidadas.

Assim, Walter Arnold deixou de ser apenas um infrator para tornar-se uma figura quase lendária: o primeiro multado por excesso de velocidade da história - e, ironicamente, um dos homens que contribuíram para acelerar a aceitação do automóvel e a modernização das leis de trânsito na Grã-Bretanha.

Operação Valquíria



A Operação Valquíria (em alemão, Unternehmen Walküre) foi, originalmente, um plano de contingência do regime da Alemanha Nazista, elaborado durante a Segunda Guerra Mundial com a finalidade de manter a ordem interna do país em caso de emergência.

O plano previa a mobilização do Exército de Reserva (Ersatzheer) para assumir o controle de pontos estratégicos caso houvesse levantes da população civil ou revoltas de trabalhadores estrangeiros - muitos deles submetidos a trabalho forçado e trazidos dos territórios ocupados para atuar na indústria bélica alemã.

O plano foi concebido sob a supervisão do general Friedrich Olbricht, chefe do Escritório Geral do Exército, e recebeu aprovação formal do próprio Adolf Hitler. Em sua forma original, tratava-se apenas de um mecanismo de defesa interna do regime nazista, destinado a preservar a estrutura estatal diante de possíveis tumultos.

Contudo, à medida que a guerra avançava e as derrotas militares alemãs se acumulavam - especialmente após Stalingrado - cresceu dentro de setores do Exército (Heer) a convicção de que Hitler conduzia o país à ruína total.

Oficiais como o general Henning von Tresckow, o general Friedrich Olbricht e, posteriormente, o coronel Claus von Stauffenberg passaram a enxergar na Valquíria uma oportunidade para derrubar o regime por meio de um golpe de Estado.

A ideia de assassinar Hitler já vinha sendo discutida desde 1942, e houve tentativas anteriores, como a fracassada ação de 13 de março de 1943. Após essas experiências malsucedidas, os conspiradores concluíram que seria necessário um plano mais abrangente e institucionalmente legitimado.

Assim, modificaram secretamente a Operação Valquíria para que, após a morte de Hitler, o Exército de Reserva pudesse ocupar ministérios, estações de rádio, centrais telefônicas, prédios do partido nazista, quartéis da SS e até campos de concentração.

A morte de Hitler - e não apenas sua prisão - era considerada essencial porque todos os soldados e oficiais alemães haviam prestado juramento de lealdade pessoal a ele (o Führereid). Enquanto estivesse vivo, qualquer ordem contrária poderia ser interpretada como traição direta.

Os conspiradores também redigiram uma declaração que seria divulgada imediatamente após o atentado, afirmando que Hitler havia sido morto por uma conspiração interna da SS, que tentaria tomar o poder.

A intenção era convencer os comandantes regionais de que estavam agindo para proteger o Estado alemão contra um suposto golpe da própria liderança nazista. A execução do plano dependia crucialmente do coronel-general Friedrich Fromm, comandante do Exército de Reserva, pois apenas ele - além de Hitler - tinha autoridade formal para ativar a Operação Valquíria.

Fromm tinha conhecimento da conspiração, mas manteve postura ambígua: não a denunciava à Gestapo, mas também não se comprometia plenamente com os conspiradores. Caso se recusasse a colaborar, deveria ser neutralizado.

Em 20 de julho de 1944, Stauffenberg levou uma bomba escondida em uma pasta para uma reunião no quartel-general de Hitler, a Toca do Lobo, na Prússia Oriental.

A explosão ocorreu, mas circunstâncias imprevistas - como a posição da pasta e a estrutura da sala - impediram que Hitler fosse morto. Embora ferido, ele sobreviveu.

Mesmo assim, acreditando inicialmente no sucesso do atentado, Stauffenberg retornou a Berlim e iniciou a Operação Valquíria. Por algumas horas, o golpe pareceu avançar: ordens foram transmitidas, unidades do Exército de Reserva ocuparam prédios estratégicos e oficiais da SS foram detidos em algumas localidades.

Porém, quando se confirmou que Hitler estava vivo, a situação se inverteu rapidamente. A lealdade ao Führer prevaleceu, e o plano desmoronou. Stauffenberg foi preso e executado na mesma noite.

Olbricht e outros oficiais também foram mortos. Tresckow, ao saber do fracasso, suicidou-se no front oriental. O marechal Erwin von Witzleben foi posteriormente executado após julgamento no infame Tribunal do Povo.

Ludwig Beck, ex-chefe do Estado-Maior, tentou suicídio e acabou sendo morto. Friedrich Fromm, buscando salvar a própria posição, ordenou execuções imediatas de alguns conspiradores, mas ainda assim foi preso depois e também executado.

As represálias foram severas. Milhares de pessoas foram detidas, e estima-se que cerca de 5 mil membros reais ou supostos da resistência alemã tenham sido executados nos meses seguintes. O regime intensificou a repressão, ampliando o poder da SS e da Gestapo.

Historicamente, a Operação Valquíria permanece um dos episódios mais complexos da resistência alemã ao nazismo. Embora seus líderes fossem militares conservadores - muitos deles inicialmente apoiadores do regime - passaram a agir movidos por razões morais, estratégicas e patrióticas, ao perceberem a dimensão dos crimes cometidos e a inevitável derrota da Alemanha.

Em 2008, o episódio foi retratado no cinema no filme Operação Valquíria, estrelado por Tom Cruise, que dramatiza os acontecimentos a partir da perspectiva de Stauffenberg, trazendo ao grande público um dos momentos mais dramáticos da história alemã do século XX.

A Operação Valquíria, apesar de fracassada, simboliza a existência de resistência interna ao regime nazista - ainda que tardia e limitada - e revela o conflito moral enfrentado por parte da elite militar alemã diante da catástrofe que se desenrolava na Europa.


domingo, fevereiro 22, 2026

Falhas Divinas


Quando alguém agradece a Deus por ter sido salvo de uma doença grave, de um acidente ou de uma tragédia, na verdade está celebrando apenas o cumprimento de uma obrigação mínima.

Afinal, se Deus é o criador absoluto de todas as coisas - o universo inteiro, as leis da natureza, a biologia, o tempo e o espaço -, ele também criou (ou ao menos permitiu) as condições para que existissem desgraças, doenças, desastres naturais, pandemias, terremotos, cânceres, guerras e sofrimentos de toda ordem.

Salvar alguém de um mal que ele mesmo instituiu ou consentiu não é um ato extraordinário de bondade; é, no mínimo, reparar parcialmente o dano que o sistema por ele projetado permite ou provoca.

O conceito de livre-arbítrio apresentado pela teologia tradicional também é problemático. Na prática, ele não é verdadeiramente livre: reduz-se a uma escolha binária forçada entre o "bem" (obedecer a Deus, seguir os mandamentos) e o "mal" (desobedecer, pecar).

Quem opta pelo "mal" enfrenta punição eterna ou sofrimento; quem opta pelo "bem" recebe recompensa. Isso se assemelha mais a uma coação disfarçada do que a uma liberdade genuína.

Um livre-arbítrio autêntico implicaria a existência de múltiplas opções viáveis, todas positivas ou neutras, sem ameaça de castigo desproporcional ou eterno por uma escolha "errada".

Na realidade, o modelo teísta clássico apresenta uma dicotomia coercitiva: obediência sob pena de tormento infinito ou submissão recompensada. Isso não é liberdade; é ultimato.

O argumento mais forte contra a existência de um Deus onisciente, onipotente e misericordioso permanece o clássico problema do mal, formulado já na Antiguidade (atribuído a Epicuro).

Se Deus é onisciente, ele sabia perfeitamente - desde a eternidade - que Adão e Eva (ou a humanidade em geral) iriam pecar, que o mal moral se espalharia, que bilhões sofreriam e que a maioria das almas acabaria condenada (segundo muitas doutrinas).

Se é onipotente, ele poderia ter criado um mundo onde o pecado fosse impossível sem violar a liberdade (por exemplo, um paraíso sem árvore do conhecimento, ou seres que livremente nunca escolhessem o mal).

Se é verdadeiramente misericordioso e amoroso, sem dúvida alguma teria evitado - ou ao menos minimizado drasticamente - tanto sofrimento inocente (crianças com câncer, vítimas de catástrofes, genocídios).

A coexistência desses três atributos (onisciência + onipotência + bondade infinita) com a quantidade e a qualidade do mal observável no mundo é logicamente incompatível.

Teólogos tentaram respostas como a "defesa do livre-arbítrio" (o mal moral seria necessário para que houvesse liberdade genuína) ou a ideia de Leibniz de que este seria "o melhor dos mundos possíveis" (onde o mal serve a um bem maior que não compreendemos).

No entanto, essas defesas esbarram em contraexemplos: por que um Deus onipotente não poderia criar seres livres que, por sua própria natureza, sempre escolhessem o bem?

Ou por que permitir males "desnecessários" (sofrimento animal antes da existência humana, desastres que matam milhares de inocentes) se o objetivo fosse apenas testar ou aperfeiçoar o livre-arbítrio?

Em resumo, a gratidão por "salvações" seletivas, o conceito restritivo de livre-arbítrio e a persistência inexplicável do mal formam um conjunto de incoerências que questionam seriamente as qualidades tradicionalmente atribuídas a Deus.

Se ele existe, ou não é onisciente, ou não é onipotente, ou não é misericordioso - ou, talvez, nenhuma dessas três coisas ao mesmo tempo, segundo a opinião de Perrone

Palmanova

 

Palmanova é uma comuna (município) italiana localizada na região do Friuli-Venezia Giulia, na província (atual entidade descentralizada regional) de Udine, no nordeste da Itália.

Com uma população estimada em cerca de 5.300 a 5.400 habitantes (dados recentes de 2025 indicam aproximadamente 5.312 habitantes), a cidade se estende por uma área de 13 km², resultando em uma densidade populacional de cerca de 400-411 habitantes por km².

Faz fronteira com as comunas de Bagnaria Arsa, Gonars, San Vito al Torre, Santa Maria la Longa, Trivignano Udinese e Visco. Fundada em 7 de outubro de 1593 pela República de Veneza (Sereníssima República), Palmanova foi projetada como uma cidade-fortaleza ideal do final do Renascimento, com o objetivo de proteger as fronteiras orientais contra possíveis invasões otomanas e austríacas.

Seu traçado urbano único, em forma de estrela de nove pontas (nove baluartes), foi concebido por arquitetos e engenheiros venezianos, com destaque para o influente Vincenzo Scamozzi.

Essa forma geométrica perfeita permitia uma defesa mútua entre os pontos da estrela, tornando-a um dos exemplos mais bem-sucedidos de "cidade ideal fortificada" já construída.

As fortificações originais venezianas dos séculos XVI e XVII incluem dois círculos concêntricos de muralhas com nove baluartes e nove ravellins (estruturas defensivas avançadas).

No início do século XIX, Napoleão Bonaparte acrescentou um terceiro círculo externo com nove lunetas (fortificações em meia-lua), ampliando ainda mais o sistema defensivo e consolidando o formato estelar característico.

A cidade permaneceu sob domínio veneziano por cerca de dois séculos. Em 1797, as tropas francesas de Napoleão ocuparam Palmanova durante a campanha da Itália, e em 1797-1798, com o Tratado de Campo Formio, a República de Veneza foi dissolvida.

A fortaleza passou então para o controle austríaco (1798–1805), foi incorporada ao Reino da Itália napoleônico (1806-1814) e, após o plebiscito de 1866, uniu-se definitivamente ao Reino da Itália.

Durante as duas Guerras Mundiais, serviu como base de apoio, inclusive hospitalar, mas preservou sua estrutura intacta. Em 1960, Palmanova foi declarada Monumento Nacional italiano.

Em 9 de julho de 2017, suas fortificações venezianas foram inscritas na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, como parte do sítio transnacional "Obras de Defesa Venezianas entre os séculos XVI e XVII: Stato da Terra - Stato da Mar Ocidental" (junto com cidades como Bergamo e Peschiera del Garda na Itália, e outras na Croácia e Montenegro).

O centro histórico impressiona pela simetria perfeita. A Piazza Grande (ou Piazza d'Armi), de formato hexagonal, é o coração da cidade e ponto de partida das seis ruas radiais principais (embora o desenho estelar tenha nove direções defensivas).

Dela se avista o traçado urbano radiado e concentram-se as principais atrações: A Catedral do Santissimo Redentore (Duomo), com elementos renascentistas e barrocos; A Loggia dei Mercanti (ou Loggia della Gran Guardia);

O Palazzo del Provveditore Generale (antiga residência do governador veneziano); Outros edifícios históricos importantes, como o Museo Storico Civico (que exibe artefatos militares e da história local).

As três portas monumentais de entrada - Porta Udine, Porta Cividale e Porta Aquileia - estão perfeitamente conservadas e representam acessos icônicos. É possível percorrer as muralhas a pé ou de bicicleta (o perímetro é acessível gratuitamente), admirar as galerias de saída, pontes venezianas, fossos e as lunetas napoleônicas.

Palmanova é hoje um destino imperdível para quem aprecia história militar, arquitetura renascentista e urbanismo planejado. Reconhecida também como um dos "Borghi più belli d'Italia" (vilarejos mais bonitos da Itália) desde 2018, oferece uma experiência única: caminhar por uma cidade que parece saída de um desenho geométrico perfeito, preservada por mais de quatro séculos.

Vale a pena visitar especialmente durante eventos históricos ou recriações de época que celebram sua fundação veneziana.

sábado, fevereiro 21, 2026

O Cristo Velato


O Cristo Velato (em italiano, Cristo Velato ou Veiled Christ) é uma das obras-primas mais impressionantes da escultura barroca italiana. Criada em 1753 pelo artista napolitano Giuseppe Sanmartino, a escultura representa o corpo de Jesus Cristo após a crucificação, deitado em uma maca funerária e coberto por um fino sudário (véu) que parece quase transparente.

O que torna essa obra extraordinária é a habilidade técnica de Sanmartino em esculpir todo o conjunto - o corpo de Cristo e o véu - a partir de um único bloco de mármore branco.

O véu adere perfeitamente às formas do corpo, revelando com realismo impressionante os detalhes anatômicos: as feridas da crucificação, os traços de sofrimento no rosto, as veias salientes nas mãos e nos pés, e até a sutil expressão de dor e serenidade da vítima.

A gaze diáfana parece flutuar levemente sobre a pele de pedra, criando a ilusão de que estamos olhando através do tecido para contemplar a agonia e a dignidade do corpo morto de Cristo.

Esse efeito de transparência e textura é considerado um dos maiores feitos da escultura ocidental. A encomenda partiu de Raimondo di Sangro, Príncipe de Sansevero, um nobre excêntrico, inventor, maçom e figura lendária do século XVIII em Nápoles.

Inicialmente, o príncipe desejava que o veneziano Antônio Corradini (autor da escultura Modéstia, também na capela) executasse a obra, mas o trabalho acabou sendo confiado ao jovem Sanmartino, que superou as expectativas com uma interpretação mais emotiva e dramática, típica do barroco tardio napolitano.

A lenda mais famosa em torno da obra diz que o véu seria resultado de um processo alquímico secreto do príncipe, que teria ensinado ao escultor como “petrificar” ou “calcificar” um tecido real em mármore cristalino.

Essa história persistiu por mais de 250 anos, alimentada pela fama de Raimondo como alquimista e experimentador ousado. No entanto, documentos históricos (incluindo registros bancários da época) confirmam que a escultura é inteiramente esculpida em mármore, sem truques ou materiais adicionais - puro virtuosismo técnico do artista.

O renomado escultor neoclássico Antônio Canova, ao visitar Nápoles, ficou tão impressionado que tentou comprar a obra e teria declarado que daria dez anos de sua vida para ter criado algo tão perfeito.

Outros visitantes ilustres, como o Marquês de Sade, também exaltaram a finesse dos dobrados do véu e o realismo doloroso da figura. Atualmente, o Cristo Velato permanece como a peça central da Cappella Sansevero (Capela Sansevero), em Nápoles, um pequeno mas extraordinário museu barroco cheio de simbolismos, máquinas anatômicas e outras esculturas impressionantes encomendadas pelo príncipe.

A capela atrai milhares de visitantes todos os anos, muitos dos quais saem emocionados ou perplexos diante dessa “milagre de pedra” que continua a desafiar a percepção humana desde o século XVIII. É, sem dúvida, uma das esculturas mais tocantes e tecnicamente admiráveis de toda a história da arte.

Sutileza



Uma coisa que sempre me causa grande admiração é a habilidade de pessoas verdadeiramente inteligentes em desarmar, de forma diplomática e elegante, indivíduos arrogantes.

Esses seres que parecem se deleitar em macular a imagem alheia, atacando a credibilidade dos outros por puro prazer sádico, inveja ou necessidade de se afirmar.

Infelizmente, encontramos esse tipo de pessoa em praticamente todos os ambientes da vida: nos meios artísticos, políticos, literários, acadêmicos, nas profissões liberais, no ambiente corporativo e até mesmo entre amigos e familiares.

Em qualquer esfera, a atitude desses indivíduos desrespeitosos é profundamente humilhante - não para quem é atacado, mas para quem a pratica, revelando uma profunda insegurança disfarçada de superioridade.

Um exemplo clássico de truculência é gritar ou humilhar publicamente alguém - mesmo que seja um "subordinado" -, achando que isso demonstra poder ou autoridade. Na realidade, tal comportamento só expõe falta de autocontrole, baixa instrução emocional e fraqueza de caráter.

Quem precisa elevar a voz ou rebaixar o outro para se sentir grande, na verdade, está se diminuindo aos olhos de todos. Por outro lado, quando presenciamos alguém que consegue, com calma, inteligência emocional e agilidade mental, desbancar esses arrogantes sem descer ao mesmo nível, sinto um prazer genuíno e quase catártico.

É como assistir a uma lição de mestre: o agressor, que se achava invencível, fica exposto, sem argumentos, e muitas vezes sai de cena com o rabo entre as pernas, pagando um mico público.

Imagino a mente desse "ser infeliz" fervendo de frustração, percebendo tarde demais que sua tentativa de humilhar virou um tiro no próprio pé. Um dos exemplos mais famosos (e brilhantes) dessa arte vem de Winston Churchill, o lendário primeiro-ministro britânico, conhecido por suas respostas afiadas e irônicas.

Em um episódio clássico - atribuído à sua troca de farpas com a deputada Lady Nancy Astor (a primeira mulher a ocupar um assento na Câmara dos Comuns) -, ela o interrompeu furiosa e disse:

- Se o senhor fosse meu marido, eu colocaria veneno no seu café.

Churchill, sem perder o ritmo nem a compostura, respondeu de imediato:

- Minha senhora, se eu fosse seu marido, com certeza eu o tomaria o café.

Não poderia haver réplica mais perfeita! Em uma única frase, ele devolveu o golpe com humor ácido, inteligência e elegância, transformando o ataque em algo que ridicularizava a própria agressora.

Vale notar que, embora a anedota seja amplamente contada e adorada, alguns historiadores questionam se ocorreu exatamente assim ou se foi adaptada de piadas antigas -, mas o impacto permanece impecável como exemplo de como a inteligência vence a grosseria.

Churchill tinha várias respostas lendárias para desarmar arrogantes. Outro caso famoso ocorreu quando uma parlamentar o acusou de estar bêbado:

- Senhor Churchill, o senhor está bêbado!

Ele retrucou calmamente:

- Sim, madame, estou bêbado. Mas amanhã estarei sóbrio... e a senhora continuará feia.

Esses exemplos mostram que o verdadeiro poder não está na agressão, mas na capacidade de manter a dignidade, usar a mente como arma e transformar veneno em algo que o agressor engole sozinho.

No fim das contas, lidar com arrogantes assim nos lembra uma lição valiosa: a calma inteligente quase sempre triunfa sobre a truculência barulhenta. E quando isso acontece, o espetáculo é inesquecível - e extremamente satisfatório.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Lago Retba, Senegal – Mais Salgado que o Mar Morto


Lago Retba, Senegal - Mais salgado que o Mar Morto em algumas épocas

O Lago Retba, também conhecido como Lac Rose - “Lago Rosa” -, localiza-se no noroeste da África, na região de Dakar, capital do Senegal. Situado a cerca de 29-35 km a nordeste da cidade, na península de Cabo Verde, o lago fica separado do Oceano Atlântico por uma estreita faixa de dunas de areia.

Sua característica mais famosa é a cor rosa ou avermelhada intensa de suas águas, causada pela microalga halófila Dunaliella salina. Essa alga produz grandes quantidades de betacaroteno (um pigmento vermelho-alaranjado) como mecanismo de proteção contra a alta radiação solar e a salinidade extrema.

O betacaroteno ajuda a alga a absorver melhor a luz para a fotossíntese e a produzir energia na forma de ATP. A tonalidade rosa fica mais vibrante durante a estação seca (novembro a junho), quando a evaporação é intensa e a concentração de sal e algas aumenta.

Na estação chuvosa (julho a outubro), a água doce das chuvas dilui o lago, tornando a cor menos pronunciada ou até quase inexistente. Altíssimo teor de sal - Superior ao Mar Morto em períodos de seca

O Lago Retba é um dos corpos d’água mais salgados do planeta.

Durante a estação seca, a salinidade pode atingir 380-400 g/L (38-40%), superando frequentemente o Mar Morto (que varia em torno de 34-35% em média). Essa alta concentração resulta da entrada constante de água salgada do Atlântico (por infiltração através das dunas) combinada com elevada evaporação no clima quente e árido da região.

Assim como no Mar Morto, a densidade da água é tão alta que as pessoas flutuam com extrema facilidade, sem esforço, o que atrai turistas para experiências de “flutuação”.

Extração artesanal de sal e o trabalho dos garimpeiros

O lago é explorado há décadas como importante fonte de sal para o Senegal e países vizinhos da África Ocidental. Cerca de 1.000 a 3.000 trabalhadores (homens e mulheres, muitos vindos de outras regiões ou países próximos) extraem o sal manualmente.

Eles entram nas águas salgadas por 6 a 8 horas diárias, usando ferramentas simples para raspar e coletar os cristais do fundo. Para proteger a pele da agressão do sal concentrado (que causa queimaduras e feridas graves), os coletores aplicam generosamente beurre de karité (manteiga de karité), um produto natural extraído das nozes da árvore de karité.

Essa manteiga atua como emoliente e barreira protetora, sendo essencial para evitar danos graves à pele. O sal coletado é empilhado nas margens em grandes montanhas brancas impressionantes, que secam ao sol antes de ser transportado em caminhões ou barcos para distribuição.

Grande parte é usada na conservação de peixes pela indústria pesqueira local, sendo ingrediente fundamental no preparo do thieboudienne, o prato nacional senegalês à base de peixe, arroz e vegetais.

Vida no lago: adaptações extremas

Apesar da salinidade extrema, o Lago Retba abriga algumas formas de vida adaptadas. Além da Dunaliella salina, existem pequenos crustáceos como artêmias e peixes de água salgada que desenvolveram mecanismos fisiológicos para expelir o excesso de sal e manter o equilíbrio osmótico.

Esses peixes tendem a ser significativamente menores (fenômeno chamado nanismo salino) do que espécies semelhantes em ambientes menos salgados. O lago é bastante pequeno, com área aproximada de 3 km² (cerca de 3 km de comprimento por 1 km de largura em média), e sua profundidade máxima raramente ultrapassa 3 metros.

Turismo e importância atual

Nos últimos anos, o Lago Retba tornou-se um dos principais pontos turísticos do Senegal, atraindo visitantes para banhos flutuantes, fotos nas águas cor-de-rosa e observação das montanhas de sal.

Atividades como passeios de quadriciclo pelas dunas próximas e visitas às aldeias dos trabalhadores do sal também são populares. Recentemente, há preocupações com o impacto do turismo excessivo, mudanças climáticas e extração intensiva.

Em períodos de seca prolongada, o nível da água caiu bastante, e alguns anos mostraram coloração menos intensa. Organizações locais e o governo senegalês têm discutido medidas de sustentabilidade para preservar o ecossistema único e garantir que a atividade econômica continue sem esgotar o recurso.

O Lago Retba permanece um exemplo fascinante de como a natureza cria paisagens e condições extremas, transformando um pequeno lago costeiro em um fenômeno natural e econômico único na África Ocidental.


Não a Religião



Quando me libertei do conforto da religião

Fui criado por pessoas que me diziam que tudo o que acontece é por vontade de Deus - e, quando as coisas não davam certo, simplesmente era chamado de “plano de Deus”.

Essa explicação era reconfortante na superfície: oferecia respostas prontas para o sofrimento, a injustiça e o imprevisível da vida. Mas, mesmo criança, eu já carregava questionamentos profundos.

Desde o jardim de infância, a grande questão que me incomodava era a justiça. Como poderia ser justo que minha salvação eterna dependesse da religião na qual nasci por acaso?

Se eu tivesse sido criado em outra fé - muçulmana, hindu, budista ou em nenhuma -, teria a mesma chance de “ir para o céu” que um cristão? Por que um Deus amoroso e onisciente condicionaria a eternidade a uma loteria geográfica e cultural?

Essas perguntas não vinham de rebeldia, mas de uma busca genuína por coerência e equidade no mundo. Quando finalmente me desprendi daquele suposto “conforto” religioso, não vivi isso como uma perda da fé.

Pelo contrário: foi uma descoberta de mim mesmo. Percebi que não precisava de uma autoridade externa para me guiar ou me consolar. Eu tenho convicção plena de que sou capaz de enfrentar qualquer situação, de aprender com os erros, de me reerguer das quedas e de construir sentido a partir das minhas próprias escolhas.

Há uma paz profunda - quase libertadora - na compreensão de que tenho apenas uma vida, aqui e agora. Não há ensaio, não há recompensa póstuma garantida, não há plano divino que justifique o sofrimento ou absolva a responsabilidade.

Sou o único responsável por ela: pelas minhas ações, pelas relações que cultivo, pelo impacto que deixo no mundo e pela forma como enfrento o inevitável fim. Essa perspectiva não traz desespero; traz urgência e valorização. Cada momento ganha peso real.

O amor, a empatia, a busca por justiça, a criação de beleza ou de conhecimento - tudo isso se torna mais precioso exatamente porque é finito e porque depende de nós.

Não há mais espaço para culpar um “plano maior” pelas falhas humanas ou pelas injustiças sociais; cabe a nós, humanos imperfeitos, corrigi-las. Essa ideia ecoa reflexões que Brad Pitt expressou em entrevistas ao longo dos anos.

Criado em um lar batista conservador no Missouri, ele também questionou o “plano de Deus” quando as coisas não se resolviam como esperado, e chegou a uma visão semelhante: a religião pode oferecer conforto temporário, mas a verdadeira autonomia surge quando assumimos o leme da própria existência.

No fim das contas, não se trata de rejeitar toda espiritualidade ou conexão com algo maior - muitos encontram isso na natureza, na humanidade ou na arte. Trata-se de recusar dogmas que diminuem nossa agência.

Quando paramos de esperar por respostas prontas do alto, começamos a construir as nossas próprias. E nisso reside uma das liberdades mais poderosas que um ser humano pode experimentar.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

A Queda do voo LANSA 508 - A única sobrevivente foi Juliane Koepcke



A Queda do Voo LANSA 508 - A incrível sobrevivência de Juliane Koepcke

O voo LANSA 508 foi um voo doméstico regular de passageiros operado pela companhia peruana Líneas Aéreas Nacionales Sociedad Anónima (LANSA). Ele partiu do Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, no dia 24 de dezembro de 1971 (véspera de Natal), com destino a Iquitos, no Peru, com uma parada programada em Pucallpa.

A aeronave era um Lockheed L-188A Electra, um turboélice de quatro motores capaz de transportar até cerca de 100 pessoas. A bordo estavam 86 passageiros e 6 tripulantes, totalizando 92 ocupantes.

Entre eles, estavam a adolescente alemã-peruana Juliane Koepcke, de 17 anos, que havia acabado de se formar no ensino médio, e sua mãe, Maria Koepcke, uma ornitóloga.

Elas viajavam para se reunir com o pai de Juliane, Hans-Wilhelm Koepcke, biólogo que trabalhava em uma estação de pesquisa na Amazônia peruana. Após cerca de 25 a 40 minutos de voo, a aproximadamente 21.000 pés (cerca de 6.400 metros) de altitude, o avião entrou em uma zona de forte turbulência, trovoadas intensas e raios.

Apesar das condições meteorológicas perigosas visíveis à frente e dos alertas, a tripulação optou por continuar o voo - possivelmente pressionada pelo cronograma apertado das festas de fim de ano e pela reputação questionável da LANSA em cumprir horários.

Por volta das 12h36, um raio atingiu diretamente a asa direita da aeronave, incendiando um dos tanques de combustível. A asa se desprendeu em seguida, causando uma falha estrutural catastrófica: a fuselagem começou a se desintegrar em pleno ar.

O avião entrou em um mergulho descontrolado e caiu na densa floresta amazônica, na região de Puerto Inca, Peru. O acidente matou 91 das 92 pessoas a bordo - todos os 6 tripulantes e 85 passageiros.

Foi considerado o pior desastre aéreo causado por um raio na história da aviação. A única sobrevivente foi Juliane Koepcke. Presa ao seu assento (parte de uma fileira de três), ela caiu de uma altura de cerca de 3.000 metros (aproximadamente 10.000 pés) ainda amarrada ao banco.

Durante a queda, ela perdeu a consciência, mas o impacto foi amortecido pela copa das árvores da floresta, que funcionou como uma "rede" natural. Ao acordar no dia seguinte (Natal de 1971), ela estava sozinha no meio da selva, com ferimentos como clavícula quebrada, um corte profundo no braço direito, lesão no olho, concussão cerebral e um ligamento rompido no joelho.

Milagrosamente, suas lesões não eram fatais e permitiram que ela caminhasse. Juliane usou conhecimentos básicos de sobrevivência aprendidos com os pais (que viviam em uma estação de pesquisa na selva): seguiu o curso de um riacho (sabendo que ele levaria a civilização), evitou beber água parada.

Alimentou-se inicialmente de doces encontrados nos destroços e lidou com insetos, chuva e frio noturno vestindo apenas um vestido curto sem mangas e com um único sapato (o outro foi perdido na queda).

Sem óculos, sua visão estava prejudicada. Após 11 dias de caminhada exaustiva pela selva, sofrendo alucinações e enfraquecimento, ela encontrou uma cabana de caçadores/madeireiros.

Exausta e infectada por larvas de mosca no ferimento, foi encontrada por três lenhadores locais, que a trataram minimamente, a levaram de canoa por um rio e a entregaram a um piloto local, que a transportou de avião até um hospital em Pucallpa.

Investigações oficiais peruanas apontaram como causa principal o voo intencional em condições meteorológicas perigosas, criticando a decisão da tripulação e a manutenção questionável da companhia.

Onze dias após o acidente, a LANSA teve sua licença de operação cassada e encerrou as atividades em 1972. Curiosamente, esse não foi o primeiro grave incidente da empresa: em 9 de agosto de 1970, o voo LANSA 502 (também um Lockheed Electra) caiu logo após a decolagem de Cuzco, matando 99 das 100 pessoas a bordo (incluindo 2 em solo).

Apenas o copiloto sobreviveu, gravemente ferido. Sobre sobreviventes adicionais: Algumas fontes indicam que até 14 passageiros (incluindo a mãe de Juliane) sobreviveram inicialmente à queda, mas morreram nos dias seguintes devido a ferimentos graves, falta de socorro e condições da selva, enquanto aguardavam resgate que nunca chegou a tempo.

A história de Juliane Koepcke ganhou fama mundial. Em 1974, foi lançado o filme mexicano "Miles de Millas por la Selva" (conhecido como "Dez Dias de Agonia" ou "Ten Days of Agony" em algumas traduções).

Em 1998, o renomado diretor Werner Herzog dirigiu o documentário "Wings of Hope" ("As Asas da Esperança"), no qual acompanhou Juliane de volta ao local do acidente.

Em 2011, ela publicou suas memórias: "Als ich vom Himmel fiel" (em alemão, pela Piper Verlag), lançado em inglês como "When I Fell from the Sky" (When I Fell from the Sky). O caso também foi destaque no episódio "Clima Extremo" da série "Catástrofes Aéreas" (Air Crash Investigation) do Discovery Channel.

Juliane se formou em biologia, seguiu a carreira dos pais e hoje é uma bióloga respeitada no Peru, casada e mãe. Sua história continua sendo um dos relatos mais impressionantes de sobrevivência na história da aviação e da selva amazônica.


Juliane Koepcke unica sobrevivente

Helena dos Santos – Compositora de Roberto Carlos



Helena dos Santos Oliveira, conhecida simplesmente como Helena dos Santos, foi uma compositora brasileira nascida em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, no dia 7 de janeiro de 1922. Ela se tornou famosa principalmente por suas composições gravadas pelo cantor Roberto Carlos, o "Rei" da música brasileira, com quem manteve uma longa e frutífera parceria artística.

Vida e superação

Helena dos Santos foi uma mulher do povo, humilde e resiliente, que enfrentou inúmeras dificuldades ao longo da vida, mas soube transformar suas dores e experiências em letras e melodias marcantes.

Filha de Francisco dos Santos e Maria Amália dos Santos, cresceu em condições precárias. Ainda criança, perdeu a mãe e passou a viver com a madrasta até os 11 anos de idade.

Aos 12 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro junto com uma irmã e o cunhado, em busca de melhores oportunidades. No Rio, começou a trabalhar cedo: primeiro em uma fábrica de tecidos e depois em uma loja de confecções masculinas na Rua Frei Caneca, onde aprendeu a costurar.

Um grave acidente de trem a deixou quase dois anos sem trabalhar, mas, recuperada, ela se empregou como doméstica. Aos 17 anos, conheceu Lauro de Oliveira, um jovem de Cabo Frio que havia trabalhado na mesma fábrica que ela.

Os dois se namoraram, casaram-se e tiveram seis filhos. Tragicamente, doze anos depois, Lauro faleceu, deixando Helena viúva e grávida do sexto filho. Em situação de extremo desamparo financeiro, ela precisou se virar sozinha para sustentar a família.

Após um período fazendo faxinas, voltou à máquina de costura e passou a confeccionar roupas sob medida para clientes de bairros nobres como Copacabana, Ipanema e Leblon, trabalhando muitas vezes até altas horas da madrugada.

Com apenas o ensino primário concluído em sua cidade natal, Helena não dominava as regras gramaticais formais, mas aprendeu noções de composição, rimas e estrutura de canções com o marido Lauro, que a incentivava artisticamente.

A entrada no mundo da música

Nos anos 1960, o rock e a Jovem Guarda dominavam a cena musical brasileira, especialmente entre os jovens. Inspirada pelo movimento, Helena decidiu compor no estilo da época. Em 1963, finalizou sua primeira música, "Na Lua Não Há", uma canção leve e romântica que questionava se haveria "um broto legal" até na Lua.

Determinada, a ex-faxineira e costureira começou uma verdadeira batalha para encontrar um intérprete. Após muita insistência, durante uma visita à Rádio Nacional, conseguiu apresentar a composição ao então iniciante Roberto Carlos.

Ele gostou imediatamente da música e decidiu gravá-la no mesmo ano, incluída em seu LP de estreia, Splish Splash (1963). Foi o início de uma parceria de sucesso e de uma amizade sincera que durou décadas.

Roberto Carlos gravou ao todo cerca de dez composições de Helena dos Santos, incluindo sucessos como: "Na Lua Não Há" (1963), "Meu Grande Bem" (1964), "Como É Bom Saber" (1965), "Sorrindo Para Mim" (1965), "Esperando Você" (1966), "Fiquei Tão Triste" (1966), "Agora Eu Sei" (1972, em parceria com Epitácio Magalhães). E outras, com três delas em coautoria com o compositor Edson Ribeiro.

Roberto considerava que Helena lhe trazia "sorte", e as músicas dela ajudaram a consolidar seu estilo romântico e jovem nos anos iniciais da carreira. Com os direitos autorais recebidos, Helena conseguiu melhorar de vida: mudou-se com os filhos para um apartamento no Horto Florestal e também morou em Bangu, no Rio de Janeiro.

Em 1970, publicou o livro O Rei e Eu, serializado em capítulos pela revista Contigo. Nele, ela relatava detalhes da amizade com Roberto Carlos, revelando momentos pessoais, confidências e o impacto que a parceria teve em sua vida.

Legado e falecimento

Helena dos Santos faleceu no Rio de Janeiro em 23 de outubro de 2005, aos 83 anos, em sua residência em Bangu. Apesar de sua trajetória inspiradora - de doméstica e costureira a compositora de hits do maior ídolo da música brasileira -, ela permanece pouco lembrada pelo grande público, o que é uma injustiça diante de sua contribuição à Jovem Guarda e ao cancioneiro popular.

Sua história é um exemplo de superação, talento nato e persistência, mostrando como uma mulher simples, sem formação acadêmica formal na música, pode deixar um legado duradouro ao transformar vivências pessoais em canções que tocaram gerações.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Olhar interior



 “O olhar interior transforma tudo e confere a cada coisa o complemento de beleza que lhe falta para que se torne verdadeiramente digna de nos agradar.” - Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais (1860)

Essa frase surge em um contexto tão polêmico quanto fascinante. Em Os Paraísos Artificiais, Baudelaire analisa os estados alterados de consciência provocados pelo haxixe - e, em menor medida, pelo ópio - não como simples experiências recreativas, mas como fenômenos estéticos e psicológicos.

Seu interesse não está apenas na droga em si, mas no modo como ela afeta a percepção, amplia os sentidos e desperta aquilo que ele chama de l’œil intérieur - o “olho interior”.

Sob a influência do haxixe, segundo Baudelaire, o sujeito experimenta uma espécie de transfiguração universal. Objetos triviais, paisagens comuns ou até situações desagradáveis ganham uma intensidade estética extraordinária.

As cores parecem mais vibrantes, os sons mais profundos, as ideias mais luminosas. O que antes parecia imperfeito ou feio recebe um “suplemento de beleza” imaginado pela mente exaltada. Tudo se reveste de significação. Tudo se torna digno de contemplação.

Ele chega a afirmar que, nesse estado, “tudo se torna matéria para gozo”. O indivíduo sente-se engrandecido, quase soberano em sua própria percepção, como um rei solitário em sua convicção íntima.

Há, contudo, uma ambiguidade: esse sentimento de superioridade pode ser também uma ilusão narcísica, uma exaltação temporária que dissolve os limites entre o real e o imaginado.

Essa reflexão conecta-se profundamente à estética baudelairiana como um todo, especialmente à visão apresentada em As Flores do Mal. Para Baudelaire, a beleza nunca é apenas objetiva ou puramente exterior.

Ela nasce da tensão entre o mundo e a consciência que o percebe. O poeta não é um simples observador; ele é um transfigurador. Sua função é extrair do real uma dimensão oculta, revelar correspondências invisíveis, encontrar o sublime até mesmo no decadente.

O “olhar interior” é, portanto, uma potência criadora. Ele não apenas vê - ele recria. Completa o mundo com aquilo que lhe falta: harmonia, intensidade, mistério, idealidade.

Essa capacidade não depende necessariamente de substâncias externas. Ao contrário, Baudelaire sugere que o verdadeiro artista possui naturalmente esse dom. A imaginação disciplinada, a sensibilidade cultivada e a recusa do prosaico são suficientes para despertar essa visão ampliada.

Ao mesmo tempo, Os Paraísos Artificiais não é uma apologia ingênua das drogas. Baudelaire reconhece os riscos: a dependência, o enfraquecimento da vontade, a perda da autonomia criativa. Para ele, o haxixe oferece apenas uma caricatura do gênio - uma simulação de inspiração.

O que a droga concede de forma artificial e efêmera, o artista autêntico deve conquistar por meio do esforço e da lucidez. Em sentido mais amplo, essa reflexão antecipa discussões modernas sobre subjetividade, arte e percepção.

A psicologia contemporânea, a fenomenologia e até a neurociência confirmariam, séculos depois, que a percepção não é um espelho passivo da realidade, mas uma construção ativa da mente.

O belo não está simplesmente nas coisas; ele emerge da relação entre o objeto e o olhar que o interpreta. Assim, o “olhar interior” pode ser entendido como uma metáfora poderosa para a imaginação humana.

Ele nos lembra que o mundo não é apenas aquilo que vemos, mas também aquilo que somos capazes de acrescentar a ele. A realidade pode ser árida, imperfeita ou banal - mas a consciência criadora tem o poder de insuflar sentido, profundidade e beleza onde antes havia apenas indiferença.

Talvez seja essa a grande lição de Baudelaire: não precisamos transformar o mundo exterior para que ele nos agrade; precisamos, antes, transformar o modo como o contemplamos.