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sábado, fevereiro 07, 2026

Epitáfio



Epitáfios: as últimas palavras gravadas na pedra

E, com uma letra bem pequena, quase imperceptível, lá estava escrito no seu epitáfio: “Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e aqui está.”

Essa frase circula amplamente na internet e em redes sociais atribuída a Dom Casmurro, de Machado de Assis. No entanto, trata-se de uma citação apócrifa, que não aparece no romance nem em nenhuma outra obra conhecida do autor.

Apesar disso, ela captura perfeitamente o espírito irônico e melancólico de Machado, especialmente o tom de fracasso existencial e de ironia amarga que permeia livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas e o próprio Dom Casmurro.

O narrador Bentinho, com seu ciúme obsessivo e sua vida marcada por dúvidas e arrependimentos, poderia muito bem ter inspirado algo semelhante, mas a frase em si é uma criação posterior, provavelmente de autor anônimo, que ganhou vida própria na cultura popular brasileira.

O que são epitáfios?

Epitáfios são inscrições colocadas em túmulos, lápides, mausoléus ou placas comemorativas nos cemitérios, destinadas a homenagear, recordar ou até ironizar a vida da pessoa ali sepultada.

Tradicionalmente escritos em verso (daí o nome, do grego epi = sobre + taphos = túmulo), eles variam de poemas tocantes e piedosos a frases curtas, sarcásticas ou filosóficas.

Podem ser gravados em pedra, bronze ou metal, e muitas vezes revelam mais sobre a personalidade do falecido (ou de quem encomendou a inscrição) do que uma biografia inteira.

Exemplos célebres de epitáfios

Alguns epitáfios tornaram-se famosos pela ousadia, humor negro ou profundidade:

Atribuído a Maximilien Robespierre:

Passant, ne pleure pas ma mort (Passante, não chores minha morte)

Si je vivais, tu serais mort. (Se eu vivesse, tu estarias morto.)

Essa inscrição reflete o terror do período revolucionário francês, quando Robespierre, arquiteto do Reinado do Terror, acabou guilhotinado em 1794. O tom desafiador e vingativo resume sua figura controversa.

Um clássico anônimo ou popular em várias culturas: A vida é noite: o sol tem véu de pedra. Essa frase poética e enigmática evoca a ideia de que a morte cobre a luz da existência com a escuridão definitiva da lápide.

Outros exemplos famosos incluem o de Shakespeare (com um aviso contra quem mexesse nos ossos), o de Groucho Marx (atribuído postumamente: “Eu não queria pertencer a nenhum clube que me aceitasse como membro”) ou epitáfios brasileiros cheios de humor, como “Aqui jaz Fulano, que morreu de repente, de tanto esperar a vez”.

Machado de Assis, aliás, tinha fascínio por epitáfios. Em seus textos, ele os menciona como expressão de um “pio e secreto egoísmo” humano: o desejo de deixar ao menos um vestígio, um “farrapo da sombra que passou”, mesmo depois da morte.

Essas últimas palavras, sejam verdadeiras ou inventadas, continuam a nos fazer refletir sobre fracassos, ambições e o que realmente resta quando tudo termina. Às vezes, uma frase pequena na pedra diz mais do que uma vida inteira de discursos.

Carlos Alexandre - Faleceu em um acidente de carro


Carlos Alexandre - O Homem da Feiticeira

Pedro Soares Bezerra, mais conhecido pelo nome artístico Carlos Alexandre, nasceu em 1º de junho de 1957, em Santa Fé, distrito de Jundiá (RN), embora algumas fontes mencionem Nova Cruz como local associado à sua infância.

Filho de Gennaro Bezerra Martins e Antonieta Feconstinny Bezerra, teve uma origem humilde e uma infância marcada por dificuldades, incluindo separação precoce dos pais e trabalhos desde cedo, como em uma padaria.

Sua carreira na música começou em 1975, ainda adolescente, quando adotou o apelido "Pedrinho". O radialista Carlos Alberto de Sousa o descobriu e o levou para a gravadora RGE, em São Paulo.

Lá, gravou seu primeiro compacto simples com as músicas "Arma de Vingança" e "Canção do Paralítico", que alcançou impressionantes 100 mil cópias vendidas - um grande sucesso para um artista iniciante.

O verdadeiro estouro veio em 1978 com a canção "Feiticeira", que deu título ao seu primeiro LP e vendeu cerca de 250 mil cópias, rendendo disco de ouro e consagrando-o nacionalmente. O álbum foi gravado também em castelhano, ampliando seu alcance para o mercado latino-americano.

Carlos Alexandre tornou-se conhecido como o "Homem da Feiticeira" e integrou a onda da música brega/romântica popular nos anos 1970 e 1980, com letras que falavam de amor sofrido, traição, saudade e paixão.

Em janeiro de 1978, viajou para São Paulo ao lado de outros artistas potiguares, como Gilliard e Edson Oliveira, para gravar seus discos. Sua carreira foi meteórica: em apenas 11 anos (1975–1989), lançou diversos compactos e LPs pela RGE, conquistando 15 discos de ouro e um de platina, com mais de 2 milhões de discos vendidos no total. Sua discografia inclui títulos como:

Feiticeira (1978), Voltei (1979), Já Troquei Você Por Outra (1980), Mulher de Muitos (1981), Revelação de Um Sonho (1982). E outros, como Nosso Quarto É Testemunha (1987) e Sei, Sei (lançado pouco antes de sua morte, em 1988/1989).

Entre seus maiores sucessos estão "Feiticeira", "A Ciganinha", "Cartão Postal", "Sertaneja", "Vá Pra Cadeia", "Toque Em Mim", "Timidez" e "Por Que Você Não Responde".

Ele excursionava intensamente pelo Brasil, especialmente pelo Nordeste, e em algumas viagens era acompanhado pela esposa Solange, com quem se casou em fevereiro de 1978. Segundo relatos da época, Solange ia sempre que ele gravava em São Paulo, mas Carlos Alexandre retornava à Natal para "gastar o que ganhava fora", considerando a capital potiguar seu lugar de descanso e lazer. Morava no bairro Cidade da Esperança, na Zona Oeste de Natal.

O trágico acidente

No dia 30 de janeiro de 1989, aos 31 anos, Carlos Alexandre faleceu em um grave acidente automobilístico na estrada estadual RN-093, que liga os municípios de Tangará e São José do Campestre, na região da Borborema potiguar (divisa entre Agreste e Trairi, no Rio Grande do Norte).

Ele voltava de um show realizado em Pesqueira (PE) e seguia para casa, em Natal, quando o veículo saiu da pista. O cantor estava sem cinto de segurança, e relatos da época indicam que o corpo foi arremessado para fora do carro, com a cabeça chocando-se violentamente.

O acidente ocorreu por volta das 13h, e ele morreu no local. Pouco antes, havia lançado o disco Sei, Sei, que ainda estava em divulgação. A tragédia interrompeu uma carreira em ascensão e chocou o público nordestino e brasileiro.

O velório foi realizado no ginásio de esportes do bairro Cidade da Esperança, em Natal, e o enterro, no dia 31 de janeiro, no Cemitério de Bom Pastor, reuniu milhares de fãs emocionados.

Segundo matérias jornalísticas da época, o sepultamento foi marcado por um momento tocante: a multidão cantou em coro a música "Feiticeira" enquanto o caixão era baixado à sepultura.

Carlos Alexandre deixou um legado duradouro na música brega romântica, com composições que continuam sendo regravadas e lembradas até hoje. Sua história inspira documentários, livros (como uma biografia lançada em 2015) e homenagens, provando que, apesar da carreira curta, ele marcou profundamente a cultura popular potiguar e nordestina.



Caetão Postal

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Inoportunos


Quando o barulho governa

“Por que meia dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo tinir com seu inoportuno zumbido, enquanto milhares de cabeças de gado, repousando à sombra do carvalho inglês, ruminam em silêncio? Não imagine, portanto, que aqueles que fazem barulho sejam os únicos habitantes do campo, ou que sejam, logicamente, mais numerosos, ou ainda que signifiquem mais do que um pequeno grupo de insetos efêmeros, secos, magros, saltitantes, espalhafatosos e inoportunos.”

- Edmund Burke

No mundo contemporâneo, o campo político passou a ser governado pelo ruído. Não pelo número, não pela consistência das ideias, nem pela densidade moral das propostas, mas pela capacidade de produzir escândalo contínuo.

A metáfora de Edmund Burke encontra hoje sua tradução mais precisa nas redes sociais, nos ciclos de indignação instantânea e na política transformada em espetáculo permanente.

Minorias barulhentas ocupam o espaço público como se fossem a totalidade da sociedade. Gritam, ameaçam, cancelam, distorcem e pressionam até que sua presença artificial seja confundida com maioria legítima.

A repetição cria a ilusão do consenso; o algoritmo substitui o debate; o volume toma o lugar da razão. Não importa a profundidade do argumento, mas sua capacidade de provocar reação.

Enquanto isso, a maioria silenciosa, que trabalha, paga impostos, sustenta serviços públicos e arca com as consequências das decisões políticas, permanece invisível.

Não porque seja irrelevante, mas porque não grita, não viraliza e não se organiza em torno do caos. Seu silêncio, no entanto, tem sido interpretado como concordância, quando muitas vezes é apenas exaustão.

Governantes, reféns do barulho, passam a legislar para os mais ruidosos. Políticas públicas deixam de atender ao interesse coletivo e passam a responder a pressões episódicas, hashtags do dia e crises fabricadas.

A prudência cede lugar à reação imediata; a responsabilidade, à performance; o longo prazo, ao impacto instantâneo. O resultado é um Estado errático, instável e permanentemente acuado.

A imprensa, por sua vez, frequentemente abandona o papel de mediadora crítica para tornar-se amplificadora do ruído. O que grita mais alto vira manchete; o que é complexo vira rodapé. Assim, os gafanhotos não apenas zumbem - eles pautam. E o campo inteiro passa a vibrar ao ritmo de sua agitação frenética.

Burke nos lembra que barulho não é sinônimo de legitimidade. O perigo não está apenas nos insetos espalhafatosos, mas na disposição das instituições em tratá-los como representantes do todo.

Quando isso acontece, a política deixa de ser o espaço do comum e se transforma numa arena de histerias concorrentes, onde vence quem grita mais alto, não quem pensa melhor.

Ignorar os silenciosos é um erro histórico recorrente. Eles podem permanecer calados por muito tempo, mas são eles que sustentam a paisagem social. Quando finalmente reagem, não o fazem em forma de zumbido, mas de ruptura.

A história mostra que regimes não caem por causa do barulho dos poucos, mas pela paciência esgotada dos muitos. No fim, a advertência de Burke é clara e atual: quando o ruído passa a governar, a política deixa de servir à sociedade e passa a servi-lo como espetáculo.

E nenhum campo resiste por muito tempo quando insetos efêmeros são confundidos com raízes profundas.

A ditadura perfeita



A ditadura perfeita no século XXI

“A ditadura perfeita terá a aparência de democracia: uma prisão sem muros, na qual os prisioneiros jamais sonharão em fugir. Um sistema de escravidão em que, graças ao consumo e à diversão, os escravos amarão a própria servidão.”
- Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo

No século XXI, a profecia de Aldous Huxley deixou de ser literatura para tornar-se método. A nova forma de autoritarismo já não precisa de quartéis, censores oficiais ou prisões abarrotadas.

Ela opera sob o verniz da legalidade, da liberdade de mercado e do discurso democrático, enquanto corrói silenciosamente os pilares da autonomia individual e da participação política real. A democracia permanece em cena como espetáculo institucional: eleições periódicas, debates televisionados, discursos inflamados e promessas recicladas.

Entretanto, fora do palco, as decisões centrais migram para esferas opacas, conglomerados econômicos, plataformas digitais, fundos financeiros e algoritmos que não se submetem ao voto popular. O cidadão continua sendo chamado às urnas, mas é mantido distante do poder efetivo.

O controle não se impõe pelo medo, mas pela saturação. O excesso de informação substitui o conhecimento; a polarização fabricada sufoca o pensamento crítico; o entretenimento contínuo neutraliza a indignação.

Enquanto se discute superficialmente nas redes, reformas estruturais avançam sem resistência, direitos são relativizados e desigualdades se aprofundam com aparência de normalidade.

A vigilância também mudou de rosto. Não é mais apenas o Estado que observa, mas um ecossistema de empresas que coleta dados, antecipa comportamentos e molda desejos.

A intimidade tornou-se mercadoria; a opinião, um produto; a atenção, a principal moeda política. O cidadão, agora transformado em perfil, é previsível, segmentável e governável sem perceber que está sendo conduzido.

Nesse cenário, a escravidão moderna se disfarça de escolha individual. Trabalha-se mais sob o argumento da “liberdade empreendedora”, consome-se mais em nome da felicidade e aceita-se a precarização como preço do progresso.

A servidão não é imposta - ela é internalizada, defendida e até celebrada como sinal de autonomia. A ditadura perfeita não proíbe a fala; ela a dilui. Não censura ideias; ela as banaliza. Não elimina a democracia; ela a esvazia.

Seu maior êxito é convencer o indivíduo de que o sistema funciona, mesmo quando tudo ao seu redor aponta para o contrário. E assim, entre distrações, slogans e falsas escolhas, a liberdade vai sendo reduzida a um simulacro, confortável, consumível e politicamente inofensivo.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Eternidade


“A esperança que o homem deposita na eternidade, em outro mundo, nasce do desespero que experimenta por não poder ser eterno neste mundo em que vive.”

Alexandre Dumas (1802-1870), célebre autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, foi um escritor romântico que explorou com frequência temas centrais da condição humana: a finitude, o sofrimento, a injustiça, o desejo de transcendência e a luta incessante contra os limites impostos pela existência.

Embora essa frase específica não esteja claramente vinculada a um romance, ensaio ou correspondência conhecida, ela sintetiza com precisão o espírito do romantismo do século XIX, marcado por uma visão melancólica da vida e pela consciência aguda da mortalidade.

Nesse pensamento, Dumas parece operar uma inversão psicológica da fé tradicional. A crença na eternidade não surge como fruto da revelação divina ou da certeza metafísica, mas como consequência direta do desespero humano diante da impossibilidade de permanecer.

O homem não acredita no além porque possui provas, mas porque precisa acreditar. Aceitar a ideia de que tudo se encerra no túmulo - que amores, memórias, dores e conquistas desaparecem no nada - revela-se, para muitos, insuportável.

Essa leitura antecipa reflexões que seriam desenvolvidas por filósofos posteriores. Schopenhauer, por exemplo, via a vida como uma sucessão de sofrimentos sustentados por ilusões necessárias, entre elas a esperança, que prolonga a dor ao prometer um sentido futuro que jamais se realiza plenamente.

Nietzsche, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao afirmar que a esperança pode funcionar como um anestésico moral: algo que adia o confronto direto com a realidade e enfraquece a afirmação da vida tal como ela é.

No contexto histórico de Dumas, essa reflexão ganha contornos ainda mais densos. Ele viveu em uma Europa marcada por revoluções, colapsos políticos, guerras, restaurações monárquicas e profundas transformações sociais.

Era um tempo em que antigas certezas ruíam e novas promessas surgiam sem garantir estabilidade. Diante desse cenário instável e violento, muitos buscavam refúgio na religião, no espiritualismo nascente ou em utopias políticas que prometiam um futuro redentor.

O “outro mundo” - eterno, justo e imutável - funcionava como um antídoto simbólico contra a precariedade do mundo presente. Assim, a esperança na eternidade torna-se um bálsamo psicológico coletivo: uma forma de suportar a brevidade da vida, a fragilidade das conquistas humanas e a consciência dolorosa de que tudo o que é construído pode ruir.

A promessa do além suaviza o peso da perda e confere sentido àquilo que, de outro modo, pareceria absurdo. Em última instância, Dumas nos oferece uma observação lúcida e, ao mesmo tempo, cruel: nossa esperança de eternidade não nasce da certeza, mas da necessidade - da recusa humana em aceitar o nada. Seu pensamento nos provoca a uma reflexão incômoda, porém essencial: projetamos o paraíso futuro porque este presente nos parece insuportável?

Ou, ao contrário, será que reconhecer plenamente nossa fragilidade e finitude poderia nos tornar mais conscientes, mais intensos e verdadeiramente presentes no agora?

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Sumérios e o Tempo



 Os sumérios e o tempo - uma herança que perdura há mais de 5 mil anos.

Os sumérios, uma das primeiras civilizações da história humana - aproximadamente entre 4500 e 1900 a.C., na região da Mesopotâmia, atual sul do Iraque -, foram pioneiros em observar o céu e sistematizar o tempo de forma que ainda influencia nosso dia a dia.

É curioso que dividamos as horas em 60 minutos e os minutos em 60 segundos, e os dias em 24 horas - por que não usar um sistema baseado em 10 - decimal, como nossos dedos - ou em 12? A resposta está no fato de que os inventores desse sistema não usavam base 10 ou 12, mas sim a base 60 (sexagesimal).

Para os sumérios, o número 60 era considerado "perfeito" por sua alta divisibilidade: ele pode ser dividido exatamente por 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 12, 15, 20, 30 e 60, gerando poucas frações complicadas - sem decimais repetitivos, algo problemático para eles, que não lidavam bem com frações infinitas.

Isso facilitava cálculos astronômicos, comerciais e administrativos. Uma teoria comum é que o sistema surgiu da combinação de contagens manuais: uma mão com 5 dedos (base 5) e a outra contando 12 segmentos dos dedos (3 por dedo, usando o polegar como ponteiro), resultando em 5 × 12 = 60.

Os sumérios (e depois os babilônios, que herdaram e refinaram o sistema) observavam o céu e idealizavam o ano solar com cerca de 360 dias - um número conveniente, pois 360 = 60 × 6. Isso se conecta diretamente à divisão do círculo em 360 graus, que usamos até hoje em geometria, navegação e astronomia.

Eles dividiram o dia (período de luz + escuridão) em 24 horas (12 para o dia claro e 12 para a noite), cada hora em 60 minutos e, mais tarde (influência babilônica e helenística), cada minuto em 60 segundos. Assim, o sistema sexagesimal permitiu uma precisão prática para medir o tempo e os movimentos celestes.

O império sumério original não durou muito - foi sucedido por acadianos, babilônios e outros povos a partir do final do terceiro milênio a.C. -, mas seu legado temporal persistiu por mais de 5.000 anos, atravessando gregos, romanos e chegando à era moderna sem grandes alterações.

Os sumérios são famosos por uma série de inovações que moldaram a civilização. Eles desenvolveram o primeiro sistema de escrita conhecido, o cuneiforme (por volta de 3200–3100 a.C.), feito com cunhas em tábuas de argila, antecedendo os hieróglifos egípcios em cerca de um século ou mais.

A escrita permitiu registrar leis, comércio, literatura (como partes da Epopeia de Gilgamesh), contas administrativas e conhecimento astronômico, possibilitando a transmissão geracional de informações.

Outras invenções atribuídas a eles incluem:

A roda (inicialmente para cerâmica e depois para transporte, como carroças puxadas por animais, por volta de 3500 a.C.);

A roda de oleiro para produção em massa de cerâmica;

A cerveja (uma das bebidas mais antigas documentadas, feita de cevada fermentada, com receitas em tábuas cuneiformes);

Sistemas avançados de irrigação e engenharia hidráulica para controlar as cheias dos rios Tigre e Eufrates;

Conceitos matemáticos em base 60, mas também misturando elementos de base 10;

As primeiras cidades-estados organizadas (como Uruk, Ur e Lagash), com administração complexa, tribunais, prisões, burocracia e divisão social do trabalho;

Provavelmente as primeiras formações militares organizadas e leis codificadas (precedendo o Código de Hamurabi);

Escolas (edubba) para treinar escribas em matemática, literatura e administração.

Quanto à agricultura, os sumérios foram fundamentais na domesticação em larga escala de plantas e animais no Crescente Fértil. Eles cultivaram sistematicamente variedades ancestrais de trigo (como o einkorn e o trigo farro) e cevada, selecionando sementes para plantio contínuo.

Domesticaram ovelhas (de ancestrais semelhantes à cabra-montês), cabras, gado bovino selvagem (auroques) e porcos, criando rebanhos em confinamento e procriação seletiva - uma das primeiras transições da caça-coleta para a agricultura sedentária em escala.

Na astronomia, os sumérios foram inovadores: observavam os movimentos dos astros, registravam eclipses e fases lunares, e influenciaram calendários lunissolares (12 meses lunares de cerca de 29–30 dias, com ajustes intercalares para alinhar com o ano solar).

Eles conheciam os cinco planetas visíveis a olho nu (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno), além do Sol e da Lua (totalizando sete "corpos errantes"). Ideias de que representavam 12 planetas (incluindo corpos hipotéticos) ou uma visão heliocêntrica clara são populares em interpretações alternativas (como selos cilíndricos mostrando o Sol no centro), mas a maioria dos acadêmicos considera isso especulativo ou baseado em mal-entendidos - a visão predominante era geocêntrica, com foco em observações práticas.

Em resumo, os sumérios não apenas inventaram formas de medir o tempo que usamos hoje, mas lançaram as bases para a escrita, a matemática avançada, a urbanização, a agricultura organizada e muitos outros pilares da civilização.

Sua criatividade e capacidade de inovação os colocam entre as culturas mais influentes da Antiguidade e, sem dúvida, de toda a história humana.

Reflita


Na época da ditadura militar (1964-1985), o porte e a posse de armas por civis eram, na prática, muito menos restritos do que hoje. Armas eram vendidas abertamente em lojas, anúncios circulavam em jornais e revistas, e o porte ilegal era tratado apenas como contravenção penal - pena leve, muitas vezes convertida em multa.

O regime, embora autoritário e repressivo, não via na população armada uma ameaça geral, seu medo era específico: que as armas chegassem às mãos dos “subversivos” de esquerda.

Com o fim da ditadura e a redemocratização, especialmente após o Estatuto do Desarmamento de 2003, sancionado no primeiro governo Lula, o cenário mudou radicalmente. Leis e decretos posteriores criminalizaram com mais rigor a posse e o porte por cidadãos comuns, exigindo cursos, testes psicológicos, laudos, taxas elevadas e renovação periódica.

O argumento oficial sempre foi o combate à violência armada. Na prática, porém, o cidadão honesto que quer se defender legalmente enfrenta uma burocracia pesada, enquanto o crime organizado circula armado com fuzis e pistolas de uso restrito.

Durante a ditadura, grupos de esquerda - muitos deles inspirados em ideias leninistas e marxistas - optaram pela luta armada. Organizações como ALN (Aliança Libertadora Nacional), MR-8, VPR, VAR-Palmares e o PCdoB (na Guerrilha do Araguaia) realizaram assaltos a bancos, sequestros de embaixadores, atentados e ações de guerrilha rural entre 1968 e 1974.

Eles justificavam essas ações como resistência a um regime que havia derrubado um presidente eleito e imposto censura, tortura e morte. O regime respondeu com o AI-5 (1968), com a Lei de Segurança Nacional endurecida, com centros de tortura como o DOI-CODI e com operações militares que resultaram em centenas de mortos e desaparecidos.

Hoje, esses mesmos setores - ou seus herdeiros políticos - ocupam o poder e defendem que o cidadão de bem não precisa de arma para se defender.

Enquanto isso, a grande mídia muitas vezes reforça a narrativa de que “reagir é pior” ou que “a polícia resolve”, mesmo diante de uma realidade em que o Estado é incapaz de garantir a segurança da população que paga impostos e trabalha honestamente.

O resultado é um país onde o criminoso age com impunidade e o trabalhador honesto é transformado em presa fácil - exatamente como gado indo para o matadouro.

Reflita sobre isso: se aqueles que pegaram em armas nos anos 1970 diziam estar lutando “pela democracia”, por que agora, quando a democracia formal existe, o mesmo direito de autodefesa é negado ao cidadão comum?

Se a história ensina que regimes autoritários (de qualquer lado) sempre desarmam a população para manter o controle, talvez seja hora de lembrar que a liberdade também se defende com responsabilidade e preparo - e não apenas com discursos.

O debate sobre armas não é simples, mas ignorar a diferença entre o cidadão armado legalmente e o bandido armado ilegalmente é ignorar a realidade brasileira atual.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

A vida dupla de Joana de Leeds


 A vida dupla de Joana de Leeds - a freira que enganou a morte

Joana de Leeds foi uma freira inglesa nascida na Grã-Bretanha e residente no convento beneditino de St. Clement, em York, no início do século XIV. Seu nome atravessou os séculos não por feitos religiosos, mas por um episódio extraordinário: por volta de 1318, Joana fingiu a própria morte para escapar da clausura e abandonar a vida monástica.

Pouco se sabe sobre sua origem familiar, infância ou vocação religiosa. As informações que chegaram até nós provêm quase exclusivamente de uma anotação oficial feita pelo então arcebispo de York, William Melton, nos registros de seu arcebispado. Ainda assim, esses documentos revelam uma história que desafia as rígidas estruturas morais e institucionais da Idade Média.

A encenação da morte

Cansada da vida enclausurada e do rigor da disciplina monástica, Joana arquitetou um plano engenhoso e arriscado. Alegando sofrer de uma doença mortal, preparou-se para encenar o próprio falecimento.

Para isso, confeccionou uma boneca ou efígie à sua semelhança, que foi colocada no lugar de seu suposto corpo sem vida. Segundo o relato do arcebispo, várias freiras do convento participaram da encenação - não se sabe se por cumplicidade consciente ou se enganadas pela farsa.

Convencidas da morte da irmã, realizaram o sepultamento da efígie em solo consagrado, rito reservado exclusivamente aos mortos cristãos, o que tornava o ato ainda mais grave aos olhos da Igreja.

Enquanto isso, Joana escapava discretamente do convento e seguia para a cidade de Beverley, onde abandonou o hábito religioso e passou a viver com um homem, rompendo abertamente seus votos de castidade, obediência e pobreza.

A descoberta e a reação da Igreja

O engano veio à tona quando o arcebispo William Melton foi informado da ausência da freira e da suspeita fraude. Indignado, escreveu às autoridades religiosas de Beverley, denunciando o ardil e exigindo o retorno imediato de Joana ao convento de St. Clement.

Em sua carta, Melton foi severo. Descreveu Joana como alguém dominada pelos “prazeres da carne”, incapaz de sustentar a castidade e a disciplina exigidas pela vida monástica.

Classificou-a como apóstata, por ter abandonado voluntariamente seus votos, e acusou-a de colocar em risco não apenas a própria alma, mas também a reputação de toda a ordem beneditina.

Em um dos trechos mais contundentes, o arcebispo escreveu:

“Com mente maliciosa, simulando uma doença corporal, fingiu-se morta sem temer pela salvação de sua alma e, com a ajuda de inúmeros cúmplices, criou um boneco à semelhança de seu corpo.

Não teve vergonha de receber sepultura em espaço sagrado. Desviou arrogantemente seu caminho de vida para a luxúria carnal, afastando-se da pobreza e da obediência. Tendo quebrado seus votos e descartado o hábito religioso, vaga agora livremente, para o notório perigo de sua alma e o escândalo de toda a sua ordem.”

Apesar da indignação expressa, não há registros que confirmem se Joana de Leeds foi de fato capturada ou forçada a retornar ao convento. É possível que o arcebispo tenha considerado seu dever cumprido ao emitir a ordem, sem adotar medidas concretas para assegurar sua execução.

Um convento marcado por escândalos

O caso de Joana de Leeds não foi um episódio isolado. O convento de St. Clement, em York, já havia sido palco de outros escândalos envolvendo freiras que romperam as regras monásticas.

Em 1301, uma freira conhecida apenas como Cecília encontrou-se com um grupo de homens nos portões do priorado. Segundo os registros, arrancou o hábito religioso, vestiu roupas comuns e fugiu para Darlington, onde viveu por cerca de três anos com um homem chamado Gregory de Thornton.

Outro episódio ocorreu em 1310, envolvendo Joana de Saxton, punida pelo então arcebispo William Greenfield por um delito não especificado, mas claramente relacionado à imoralidade.

Sua punição foi posteriormente atenuada mediante imposição de rígidas restrições: ela não poderia deixar o claustro desacompanhada, receber visitas nem manter contato com a Lady de Walleys. Caso essa dama visitasse o convento, Saxton deveria se ausentar.

Entre a obediência e o desejo

A história de Joana de Leeds revela mais do que um simples ato de rebeldia individual. Ela expõe as tensões entre vocação religiosa, desejo pessoal e coerção social na Idade Média, especialmente no contexto feminino. Muitas mulheres ingressavam em conventos não por escolha espiritual, mas por imposição familiar ou ausência de alternativas sociais.

Ao fingir a própria morte, Joana não apenas desafiou a autoridade da Igreja, mas também subverteu simbolicamente o destino que lhe fora imposto. Sua fuga permanece envolta em silêncio e incertezas - não se sabe se foi punida, perdoada ou se conseguiu, enfim, viver a vida que desejava.

Assim, Joana de Leeds permanece como uma figura enigmática: uma freira que ousou morrer para poder viver.

A Caixa de Pandora




O mito da Caixa de Pandora é uma das narrativas mais instigantes da mitologia grega, pois aborda, de forma alegórica, a curiosidade humana, a fragilidade da condição mortal e as consequências de desafiar os desígnios divinos.

Transmitida ao longo dos séculos, essa história permanece atual justamente por tocar em aspectos universais da experiência humana: o desejo de saber, o erro, o sofrimento e a esperança.

Segundo a tradição mitológica, Pandora foi a primeira mulher criada pelos deuses do Olimpo. Sua origem está diretamente ligada à punição imposta por Zeus à humanidade, após Prometeu ter roubado o fogo sagrado dos deuses e oferecido aos homens.

Como parte dessa vingança divina, Zeus ordenou a Hefesto que moldasse Pandora em argila, dando-lhe forma humana. Cada divindade, então, concedeu-lhe um dom: Afrodite ofereceu-lhe a beleza e o poder de sedução; Atena, a habilidade manual e a inteligência; Hermes, a astúcia e a eloquência, mas também a inclinação à curiosidade e à persuasão.

Como presente de núpcias, Zeus entregou a Pandora uma caixa - ou, em versões mais antigas, um jarro (pithos) - acompanhada de uma única e solene advertência: jamais deveria ser aberta.

A proibição, no entanto, tornou-se um convite silencioso ao desconhecido. A curiosidade de Pandora, alimentada por sua própria natureza e pelos dons que lhe haviam sido concedidos, cresceu de forma incontrolável.

Mesmo ciente de que desobedecer aos deuses poderia trazer consequências irreversíveis, ela não resistiu ao impulso de descobrir o conteúdo oculto. Ao abrir a caixa, Pandora libertou todos os males ali aprisionados.

Dores, doenças, guerras, tristezas, vícios, inveja e inúmeras formas de sofrimento espalharam-se rapidamente pelo mundo, passando a afligir a humanidade de maneira profunda e permanente.

Diante do caos que ajudara a desencadear, Pandora foi tomada pelo desespero e pelo remorso, compreendendo, tarde demais, o peso de seu ato. Assustada, ela fechou a caixa às pressas. Nesse instante, percebeu que algo ainda permanecia em seu interior: a esperança.

Diferentemente dos demais males, ela não escapara. Assim, mesmo após a disseminação das calamidades, a humanidade não foi abandonada por completo. A esperança permaneceu como um último consolo, uma força silenciosa capaz de sustentar os homens diante da dor e da adversidade.

O mito da Caixa de Pandora admite múltiplas interpretações simbólicas e morais. Em primeiro lugar, ele reflete a natureza humana e sua inclinação inevitável a explorar o desconhecido, mesmo quando advertida sobre os riscos.

Pandora personifica tanto a curiosidade quanto a impulsividade humanas, enquanto a caixa simboliza os mistérios, as incertezas e os limites que cercam a existência.

Além disso, a presença da esperança confere ao mito uma dimensão profundamente ambígua e filosófica. Para alguns intérpretes, ela é um dom divino que suaviza o sofrimento; para outros, trata-se de uma ilusão necessária, que mantém os homens em movimento, mesmo diante de um mundo marcado pela dor.

Em ambos os casos, a esperança surge como uma força essencial, capaz de oferecer sentido, resistência e a possibilidade de renovação, mesmo nos tempos mais sombrios.

Em última análise, o mito da Caixa de Pandora nos convida a refletir sobre a dualidade da condição humana. Somos constantemente confrontados por perdas, erros e adversidades, mas também possuímos a capacidade de encontrar coragem, aprendizado e esperança diante dessas experiências.

A narrativa funciona como um alerta atemporal: a curiosidade é uma virtude poderosa, motor do conhecimento e do progresso, mas exige responsabilidade e consciência das consequências de nossos atos.

Mais do que uma simples história mitológica, a Caixa de Pandora permanece como um espelho simbólico da própria humanidade - frágil, curiosa, falível, mas ainda capaz de resistir e sonhar. 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Padre Mário Pais de Oliveira – “Fátima nunca mais”


 

Mário Pais de Oliveira, mais conhecido como Padre Mário de Oliveira ou Padre da Lixa, nasceu em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, a 8 de março de 1937. Foi presbítero, filósofo, teólogo, jornalista e escritor português.

Ordenado sacerdote na Igreja Católica, afastou-se progressivamente da ortodoxia institucional, identificando-se com o Jesuísmo - corrente que privilegia a mensagem ética, social e libertadora de Jesus de Nazaré, dissociando-a das estruturas dogmáticas e hierárquicas do catolicismo romano.

Ficou conhecido sobretudo pela sua postura crítica e interventiva durante a ditadura do Estado Novo, numa época em que grande parte do clero português se mantinha alinhada ou silenciosa perante o regime.

Antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, Padre Mário denunciou publicamente a Guerra Colonial, considerando-a injusta, imoral e contrária ao Evangelho. Essa posição valeu-lhe perseguição pela PIDE/DGS, a polícia política do regime, e levou-o a ser julgado duas vezes em Tribunal Plenário, instrumento judicial usado para reprimir opositores políticos.

Exerceu funções como professor de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel II, no Porto. Posteriormente, foi enviado como capelão militar para a guerra colonial, experiência que marcou profundamente o seu percurso.

No contacto direto com soldados portugueses e populações locais, confrontou-se com os dramas humanos da guerra, a violência estrutural do colonialismo e o sofrimento psicológico dos combatentes, reforçando a sua oposição ao conflito e à lógica imperial do regime.

Quando foi levado a tribunal durante a ditadura, recebeu inicialmente apoio de vastos setores progressistas da Igreja Católica, de intelectuais e de movimentos democráticos. Contudo, esse apoio esbateu-se quando as suas posições teológicas e políticas passaram a ser consideradas demasiado heterodoxas.

O então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, figura ele próprio conhecida pela oposição ao Estado Novo, acabou por lhe retirar a paróquia de Macieira da Lixa, sinal claro do isolamento institucional a que Padre Mário foi votado dentro da hierarquia eclesiástica.

Apesar disso, manteve ao longo da vida uma ligação consistente a meios progressistas, ecuménicos e críticos, tanto dentro como fora da Igreja Católica. A sua reflexão teológica, filosófica e política aproximou-o cada vez mais do Jesuísmo, afastando-o do clericalismo, do culto mariano tradicional e da teologia dogmática.

Destacou-se igualmente pela sua intensa atividade como jornalista, sendo diretor do jornal Fraternizar, publicação de inspiração cristã libertadora, que continua a ser editada e que serviu como espaço de denúncia social, reflexão política e crítica eclesial.

A comunidade que dirigiu em Lourosa e na região da Lixa teve um papel relevante na solidariedade internacional, particularmente no apoio aos processos de democratização na América Latina.

Durante as décadas de 1970 e 1980, período marcado por ditaduras militares violentas em vários países latino-americanos, promoveu ações de denúncia, informação e apoio a movimentos populares e cristãos de base, em sintonia com a Teologia da Libertação.

Em abril de 1999, publicou em Portugal, pela Editora Campo das Letras, o livro Fátima nunca mais, obra que provocou forte polémica e alcançou oito edições em apenas doze meses.

No livro, Padre Mário de Oliveira procura desconstruir o mito das aparições de Fátima, apresentando argumentos históricos, psicológicos e sociológicos que, segundo o autor, desmentem a natureza sobrenatural dos acontecimentos de 1917.

Sustenta que a utilização de Jacinta Marto, Francisco Marto e Lúcia de Jesus dos Santos como instrumentos de uma narrativa religiosa institucionalizada teve consequências devastadoras para as suas vidas.

Acusa o clero local de Ourém e a hierarquia da Igreja Católica de abuso psicológico e espiritual, afirmando que os jejuns e práticas religiosas impostas contribuíram para o enfraquecimento físico das crianças, levando à morte prematura de Jacinta e Francisco, vítimas de pneumonia, e ao encerramento de Lúcia num convento, afastando-a da família e da vida civil.

Estas posições valeram-lhe duras críticas, condenações públicas e tentativas de silenciamento, mas também reforçaram o seu estatuto como voz dissidente e incómoda no interior da história recente do catolicismo português.

Morte

Após sofrer um grave acidente de carro a 26 de janeiro de 2022, em Macieira da Lixa, Padre Mário de Oliveira faleceu a 24 de fevereiro de 2022, no Hospital de Penafiel, poucos dias antes de completar 85 anos.

A sua morte encerrou uma vida marcada pela coerência ética, pela resistência à opressão política e religiosa, e por uma visão do cristianismo centrada na liberdade, na justiça social e na dignidade humana.

Diga a verdade aos seus filhos!


 

Diga-lhes a verdade. Diga-lhes que Papai Noel não existe. Diga-lhes que Satanás não é negro - associação construída historicamente para demonizar corpos, culturas e espiritualidades africanas durante a expansão do cristianismo europeu.

Diga-lhes que cada povo possui seus antepassados, sua memória espiritual e seu egregora - conceito presente em diversas tradições africanas e também estudado pela antropologia e pela sociologia das religiões.

Diga-lhes que nossos rituais não são bruxaria. São sistemas simbólicos complexos, organizados, com ética, cosmologia e função social, anteriores às religiões abraâmicas e tão estruturados quanto elas.

Diga-lhes que tudo começou no Egito africano, o Kemet dos próprios egípcios.
A arqueologia, a linguística e a genética apontam o Vale do Nilo como uma civilização africana negra, ligada culturalmente à Núbia, Kush e ao restante do continente.

O historiador senegalês Cheikh Anta Diop demonstrou, por meio de análises craniométricas, estudos de melanina, linguística comparada e fontes greco-romanas, que os antigos egípcios eram africanos negros - tese hoje amplamente debatida, mas sustentada por evidências sólidas.

Autores clássicos como Heródoto, Diodoro da Sicília e Estrabão descrevem os egípcios como de “pele escura” e “cabelos crespos”. Não se trata de ideologia moderna, mas de registros antigos.

Diga-lhes que o Egito foi um centro avançado de ciência, matemática, medicina, filosofia e arquitetura quando a Europa ainda atravessava longos períodos de obscuridade técnica.

Os papiros matemáticos de Rhind e Moscou demonstram domínio de geometria, frações, cálculo de áreas e volumes cerca de 2.000 anos antes da Grécia clássica.

Diga-lhes que Pitágoras, Tales de Mileto e Platão estudaram no Egito. Isso é reconhecido por fontes gregas antigas. Ainda assim, a história preferiu apagar os mestres africanos e glorificar apenas os discípulos europeus.

Diga-lhes que Imhotep, arquiteto da pirâmide de Djoser, médico, engenheiro e filósofo, é o verdadeiro pai da medicina científica, citado em papiros médicos como o Papiro Edwin Smith - mas permanece ausente dos currículos escolares.

Diga-lhes que Cristóvão Colombo não descobriu as Américas. Povos indígenas já habitavam o continente há dezenas de milhares de anos. Há também estudos controversos, porém relevantes, sobre possíveis contatos africanos pré-colombianos, como os apresentados por Ivan Van Sertima, que analisou evidências botânicas, linguísticas e escultóricas (notadamente as cabeças colossais olmecas).

Diga-lhes que Mansa Musa, imperador do Mali no século XIV, foi o homem mais rico da história registrada. Relatos árabes contemporâneos descrevem que sua peregrinação a Meca foi tão grandiosa que causou inflação no Egito por mais de uma década. O Império do Mali mantinha universidades, bibliotecas e centros de estudo em Timbuktu, Djenné e Gao.

Diga-lhes que a África escrevia antes da chegada dos missionários. Existiam sistemas como o hieróglifo egípcio, o meroítico, o ge’ez, o tifinagh e vastas tradições de manuscritos em árabe e línguas africanas, hoje preservadas em coleções privadas e públicas no Sahel.

Diga-lhes que o concreto (betão) já era utilizado no Egito antigo, como demonstram estruturas duráveis feitas com misturas de calcário e materiais aglutinantes, séculos antes do concreto romano.

Diga-lhes que o ancestral mais antigo da humanidade foi encontrado na África:
Lucy (Australopithecus afarensis), descoberta na Etiópia, e fósseis ainda mais antigos no Chade e no Quênia confirmam cientificamente que a África é o berço da humanidade - consenso absoluto da paleoantropologia moderna.

Diga-lhes também que museus ocidentais estão repletos de arte africana saqueada durante expedições coloniais punitivas. O Relatório Sarr–Savoy (2018), encomendado pelo governo francês, reconhece oficialmente o roubo sistemático de patrimônio cultural africano.

Diga-lhes que o vandalismo nos narizes das estátuas egípcias não é mera erosão. Historiadores da arte e arqueólogos documentaram práticas deliberadas de mutilação simbólica para apagar traços africanos e negar a identidade negra do Egito antigo.

Diga-lhes, por fim, que a união é condição de sobrevivência. Que nenhuma libertação veio por milagre. Que o trabalho, a consciência histórica e a reconstrução da memória são atos revolucionários.

E diga-lhes para não esperar que o maná caia do céu - porque a história não se escreve ajoelhada, mas de pé.

domingo, fevereiro 01, 2026

Entre a Cruz e o Chicote


 

O financiamento e a sustentação da escravidão pelas igrejas católicas e protestantes não constituíram um desvio moral pontual, tampouco um simples “erro de época”. Tratou-se, antes, de um projeto econômico, político e teológico profundamente entranhado nas estruturas de poder do mundo colonial e imperial, no qual a religião desempenhou papel ativo na legitimação e na reprodução da ordem escravocrata.

Durante séculos, ordens religiosas católicas - como jesuítas, beneditinos, carmelitas, mercedários e franciscanos - acumularam vastas propriedades rurais, engenhos de açúcar, fazendas de gado e, sobretudo, pessoas escravizadas, cuja exploração garantia tanto a subsistência cotidiana dos conventos quanto rendimentos significativos.

A disciplina do trabalho forçado sustentava, simultaneamente, a rotina econômica e o calendário litúrgico dessas instituições. No auge do século XIX, por exemplo, a Ordem de São Bento possuía cerca de quatro mil escravizados distribuídos por suas unidades no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Bahia.

Esses cativos, conhecidos como “escravos da religião”, pertenciam coletivamente às ordens - não a indivíduos -, o que moldava de forma particular sua existência: eram obrigados a frequentar missas, participar de orações, receber sacramentos e submeter-se à catequese contínua.

Resistências à conversão, à disciplina religiosa ou ao trabalho podiam resultar em castigos exemplares, aplicados não apenas como punição, mas como pedagogia do medo.

Inserida no regime do padroado real - acordo que subordinava a Igreja Católica à Coroa portuguesa em troca de privilégios políticos, financeiros e administrativos -, a instituição eclesiástica ofereceu fundamentação moral e teológica ao sistema escravista.

Argumentava-se que a escravidão seria um mal menor, um instrumento para retirar africanos e seus descendentes do “paganismo” e conduzi-los à salvação cristã, mesmo que isso implicasse violência, desumanização e perda absoluta da liberdade.

Assim, a cruz caminhava lado a lado com o chicote. A fé operava como uma sofisticada tecnologia de dominação simbólica: ensinava obediência irrestrita, naturalizava a hierarquia social, atribuía sentido redentor ao sofrimento e inculcava a ideia de que a dor, aceita com resignação, seria recompensada no além.

A miséria presente tornava-se, nos sermões, promessa de glória futura. Versículos bíblicos eram cuidadosamente selecionados, descontextualizados e reinterpretados para justificar a submissão - passagens que falavam de servos obedecendo a seus senhores ou a infame “maldição de Cam”, aplicada de forma racista aos povos africanos.

A catequese e o batismo, muitas vezes forçados ou fortemente induzidos, funcionavam como anestesia simbólica para um processo brutal de expropriação econômica, violência física e apagamento cultural.

As igrejas protestantes, embora tenham chegado mais tarde ao Brasil - sobretudo a partir do século XIX, com presbiterianos, batistas, metodistas e outras denominações -, também não ficaram à margem desse processo.

Muitas delas carregavam consigo heranças teológicas oriundas do sul escravocrata dos Estados Unidos, onde leituras racistas da Bíblia haviam sido amplamente usadas para legitimar a escravidão.

No Brasil imperial, há registros de comunidades protestantes que possuíam escravizados ou que aceitavam senhores de escravos como membros plenos, sem questionar de forma contundente o sistema.

Posições abolicionistas mais firmes só se tornaram visíveis quando a abolição já se consolidava como consenso político e social. Ainda hoje, movimentos como o Movimento Negro Evangélico pressionam denominações - entre elas Presbiteriana, Batista e Luterana - a abrirem seus arquivos históricos, a fim de esclarecer o grau de envolvimento institucional e os benefícios econômicos obtidos.

Em ambos os casos - católico e protestante -, a religião não foi mera cúmplice passiva. Atuou como força legitimadora, fornecendo arcabouço moral, simbólico e ideológico ao escravagismo, ajudando a sustentar elites econômicas, o Estado colonial e as próprias instituições eclesiais.

A Bíblia, a cruz e a catequese funcionaram como instrumentos de controle social, moldando consciências para aceitar a dominação como expressão da vontade divina.

Esse legado histórico exige reflexão crítica permanente, especialmente em um país como o Brasil, onde a escravidão não foi um episódio periférico, mas o eixo estruturante de desigualdades que persistem até hoje.

Embora as igrejas contemporâneas, em sua maioria, condenem qualquer forma de escravidão como intrinsecamente maligna, o reconhecimento honesto e público desse passado é fundamental - não apenas como exercício de memória, mas como alerta sobre o perigo constante de instrumentalizar a fé para legitimar novas formas de opressão.