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quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Entre Grades e Urnas: Poder, Prisão e Herança Política no Brasil


 

Jair Bolsonaro governou o Brasil por quatro anos (2019-2022). Durante esse período, teve três filhos na política ativa: Flávio Bolsonaro, senador da República; Eduardo Bolsonaro, deputado federal; e Carlos Bolsonaro, que foi vereador por mais de duas décadas no Rio de Janeiro. Recentemente, Carlos renunciou ao mandato para disputar o Senado por Santa Catarina nas eleições de 2026.

Desde o início de seu governo, Bolsonaro enfrentou um cenário político conturbado. Teve embates frequentes com o Supremo Tribunal Federal (STF), com partidos de esquerda e com setores políticos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Também enfrentou dificuldades dentro do próprio Congresso, onde, apesar da força eleitoral inicial, não possuía maioria consolidada e dependia de articulações com o chamado “Centrão”.

Um dos episódios mais marcantes foi a disputa em torno da autonomia da Polícia Federal. Bolsonaro tentou intervir na escolha do diretor-geral da instituição, o que gerou forte reação política e judicial, culminando na saída do então ministro da Justiça, Sergio Moro, que o acusou de interferência política. O caso foi investigado, tornando-se um dos principais focos de tensão institucional.

Durante a pandemia da Covid-19, o conflito entre o Executivo federal, governadores, prefeitos e o Judiciário se intensificou. Decisões do STF confirmaram a competência concorrente de estados e municípios para adotar medidas sanitárias, o que, na prática, limitou a centralização das decisões pelo governo federal.

Bolsonaro criticou duramente as restrições impostas por governadores e manteve posicionamento contrário a lockdowns e à obrigatoriedade de vacinas, postura que lhe rendeu apoio de uma parcela significativa da população, mas também severas críticas.

Ao longo do mandato, Bolsonaro foi alvo de diversas investigações e inquéritos, incluindo apurações sobre ataques ao sistema eleitoral, disseminação de desinformação e possíveis tentativas de interferência institucional.

Após a derrota nas eleições de 2022, o ambiente político se agravou. Os atos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, marcaram profundamente o cenário nacional.

Investigações posteriores apontaram articulações e discursos que, segundo a acusação, teriam contribuído para um ambiente de contestação ao resultado eleitoral.

O ex-presidente foi posteriormente julgado e condenado por tentativa de golpe de Estado, recebendo pena de 27 anos e três meses de prisão, que cumpre no complexo da Papuda, em Brasília.

Sua defesa sustenta que não há provas concretas de participação direta em plano golpista e questiona a validade de delações e interpretações adotadas no julgamento. O Judiciário, por sua vez, afirma que houve conjunto robusto de evidências demonstrando tentativa de ruptura institucional.

Bolsonaro também foi declarado inelegível por decisões da Justiça Eleitoral. Sua situação de saúde é frequentemente mencionada por seus advogados, em razão das múltiplas cirurgias decorrentes do atentado a faca sofrido durante a campanha de 2018.

A Polícia Federal reconhece a necessidade de acompanhamento médico, mas entende que o sistema prisional dispõe de estrutura adequada. Até o momento, pedidos de prisão domiciliar foram negados.

Em 2018, Bolsonaro liderou uma onda eleitoral que impulsionou a eleição de dezenas de parlamentares e governadores alinhados ao seu discurso conservador. Contudo, com o passar do tempo - e especialmente após 2022 - parte desses aliados se distanciou politicamente, refletindo a dinâmica pragmática do Congresso Nacional.

Mesmo preso, Bolsonaro mantém influência significativa sobre uma parcela expressiva do eleitorado conservador. Escolheu o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como seu candidato à Presidência em 2026.

Flávio confirmou a intenção de disputar o cargo e vem adotando uma estratégia considerada mais moderada, buscando diálogo com o centro político e com setores do mercado financeiro - movimento distinto do estilo confrontacional que marcou a campanha de 2018.

Pesquisas eleitorais recentes apresentam cenários variados: alguns levantamentos indicam disputa acirrada, com empate técnico em determinados cenários; outros mostram vantagem para o presidente Lula. A transferência de capital político do pai para o filho é vista como um fator relevante, mas ainda incerto em sua real dimensão.

Caso Flávio venha a vencer as eleições, é provável que enfrente forte escrutínio institucional, especialmente em temas ligados a eventuais propostas de anistia ou revisão das condenações relacionadas aos atos de 2023.

O STF já sinalizou resistência a mudanças que possam ser interpretadas como afronta às decisões judiciais transitadas em julgado. No Congresso, a dinâmica tende a permanecer marcada pelo protagonismo do Centrão, bloco político que historicamente negocia apoio em troca de cargos, verbas e influência.

Independentemente do presidente de plantão, essa lógica tem sido uma constante da política brasileira nas últimas décadas. O Brasil atravessa, assim, um período de polarização intensa, no qual disputas judiciais, eleitorais e narrativas ideológicas se entrelaçam.

A família Bolsonaro permanece politicamente ativa e mobilizada, mas enfrenta um cenário institucional adverso e um país dividido. O patriarca está preso e inelegível por longo período, enquanto o herdeiro político tenta transformar capital simbólico em viabilidade eleitoral concreta.

O desfecho dessa história dependerá não apenas das urnas, mas também da capacidade das instituições e da sociedade de encontrar caminhos de estabilidade, diálogo e reconstrução da confiança pública.

O Conde de Monte Cristo


 

O Conde de Monte Cristo: uma obra-prima eterna da literatura mundial

O Conde de Monte Cristo, do francês Alexandre Dumas (pai), é amplamente considerada uma das obras mais importantes e cativantes da literatura universal.

Escrito em colaboração com Auguste Maquet, este romance de aventura e intriga foi publicado originalmente como folhetim no Journal des Débats entre 1844 e 1846, em partes que mantinham os leitores ansiosos por cada nova entrega - um formato típico da época que transformava a leitura em um evento semanal.

A edição em livro veio logo em seguida, em 1846, consolidando seu sucesso imediato. A narrativa se desenrola na França do período da Restauração Bourbon (1815-1830) e se estende até o reinado de Luís Filipe I, uma era marcada por instabilidade política, rivalidades entre bonapartistas (leais a Napoleão) e monarquistas, além de profundas transformações sociais e econômicas após as Guerras Napoleônicas.

Dumas aproveita esse cenário turbulento para entrelaçar a trama pessoal do protagonista com eventos históricos reais, como as conspirações políticas e o impacto duradouro do legado napoleônico.

A história começa em 1815, em Marselha, com Edmond Dantès, um jovem e talentoso marinheiro de 19 anos, honesto, otimista e prestes a ser promovido a capitão do navio Pharaon.

No auge da felicidade, ele está prestes a se casar com sua noiva, a bela catalã Mercédès, quando uma traição cruel o condena à prisão injusta no temível Château d'If, uma fortaleza-ilha usada como prisão política.

Acusado falsamente de conspiração bonapartista - em uma carta que nunca enviou -, Dantès passa 14 anos em isolamento, sofrendo privações extremas que testam os limites da sanidade humana.

É nessa prisão que ocorre um dos momentos mais marcantes da obra: a amizade com o Abade Faria, um prisioneiro erudito e excêntrico que se torna seu mentor. O abade lhe ensina idiomas, ciências, filosofia, história e esgrima, transformando o marinheiro simples em um homem culto e refinado.

Além disso, revela a localização de um tesouro fabuloso escondido na ilha de Monte Cristo, herança de uma família nobre italiana. Essa revelação muda tudo: após uma fuga ousada e dramática, Dantès recupera a fortuna e, metamorfoseado no misterioso e enigmático Conde de Monte Cristo, retorna à sociedade parisiense com riqueza ilimitada, inteligência afiada e um plano meticuloso de vingança.

O verdadeiro gênio de Dumas reside na construção de uma galeria rica de personagens secundários - cada um com motivações próprias e papéis cruciais no destino de Dantès. Entre eles destacam-se os traidores Fernand Mondego, Danglars e Villefort, cujas vidas aparentemente bem-sucedidas são desmanteladas com precisão cirúrgica pelo Conde.

A trama se desenrola como um jogo de xadrez sofisticado, cheio de disfarces, manipulações financeiras, duelos sociais e revelações chocantes. Os temas centrais - traição, o poder corruptor da ambição e do dinheiro, a justiça humana versus a divina, e especialmente os limites da vingança - são explorados com profundidade psicológica surpreendente para um romance de aventura do século XIX.

Enquanto persegue seus inimigos, Dantès confronta o vazio moral que a retaliação traz, questionando se a justiça pessoal pode coexistir com a paz interior. A jornada culmina em uma reflexão poderosa sobre o perdão e a redenção, mostrando que, por vezes, perdoar é o ato de força mais elevado.

O estilo narrativo de Dumas é vibrante, detalhado e imersivo. Suas descrições transportam o leitor para as celas úmidas e sombrias do Château d'If, para os salões luxuosos da alta sociedade parisiense, para os palácios romanos e para as paisagens exóticas do Mediterrâneo.

A inspiração da obra vem parcialmente de uma história real: o caso de Pierre Picaud, um homem traído e preso injustamente no início do século XIX, cujos elementos Dumas transformou em uma epopeia universal.

Em resumo, O Conde de Monte Cristo transcende o gênero de aventura para se tornar uma profunda meditação sobre a condição humana, a moralidade, a justiça e o custo da vingança.

Mais de 180 anos após sua publicação, a obra continua extremamente relevante, inspirando filmes, séries, peças e adaptações infinitas. Alexandre Dumas criou não apenas uma história inesquecível, mas um espelho da alma humana - capaz de emocionar, intrigar e fazer refletir gerações inteiras.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Personalidade


Nem todos estão predestinados a ter a oportunidade de criar a própria personalidade. A maioria das pessoas permanece presa a uma cópia de um tipo de personalidade já existente - moldada pela família, pela escola, pela sociedade -, sem nunca vivenciar a rigorosa e por vezes dolorosa experiência de se tornar um indivíduo com identidade própria, autêntica e irreproduzível.

Mas aqueles que conseguem trilhar esse caminho inevitavelmente descobrem que a luta pela personalidade autêntica traz consigo um conflito inevitável: o confronto com as vidas “normais” das pessoas comuns e com os valores tradicionais, as convenções burguesas e as expectativas coletivas que essas pessoas defendem com tanto zelo.

A sociedade não perdoa facilmente quem ousa questionar o que é considerado “natural” ou “decente”. Quem busca ser si mesmo acaba parecendo, aos olhos dos outros, estranho, perigoso ou até sinistro - pois sua existência desafia o conforto da uniformidade.

A personalidade verdadeira nasce exatamente desse confronto entre duas forças opostas e irreconciliáveis: de um lado, o impulso interior irresistível de criar uma vida própria, guiada por leis internas e por uma vocação única; do outro, a insistência incansável do mundo exterior - família, instituições, moral vigente - para que nos conformemos, nos adaptemos e renunciemos ao que nos diferencia.

Ninguém desenvolve uma personalidade genuína sem estar disposto a atravessar experiências revolucionárias. Essas experiências não precisam ser grandiosas ou externas (embora muitas vezes o sejam); podem ser rupturas íntimas, crises profundas de sentido, rejeições dolorosas, perdas que despedaçam ilusões, encontros transformadores ou momentos de solidão radical que obrigam o indivíduo a encarar o abismo dentro de si.

Em obras como Demian ou O Lobo da Estepe, Hesse ilustra isso vividamente: o protagonista passa por fases de desespero, alienação, questionamento radical da moral burguesa e, por fim, uma espécie de renascimento espiritual - ainda que nunca definitivo.

A extensão e a intensidade dessas experiências variam enormemente de pessoa para pessoa, assim como a capacidade de suportar o isolamento que elas trazem e de conduzir, depois, uma vida verdadeiramente pessoal e única.

Nem todos chegam ao fim do caminho; muitos recuam, voltam à segurança do rebanho, preferindo a anestesia da conformidade ao risco da autenticidade. Mas para quem persiste, o preço - solidão, incompreensão, conflito constante - é compensado pela rara liberdade de existir como si mesmo, sem máscaras, em harmonia (ou em tensão criativa) com o próprio destino interior.

Essa é, em essência, a jornada que Hermann Hesse propõe: não uma receita de felicidade, mas um chamado à coragem de se tornar quem se é - mesmo que isso signifique romper com quase tudo o que o mundo considera “normal”.

Exemplos


 Beba água onde o cavalo bebe.

O cavalo nunca se engana: seu instinto o conduz apenas a águas limpas e seguras. Ele rejeita fontes turvas ou contaminadas. Observe a natureza - ela raramente erra. Faça sua cama onde o gato dorme em paz. O gato escolhe, sem esforço, o lugar mais acolhedor, quente e silencioso. Seguir seu exemplo é aprender a respeitar o próprio corpo e a buscar o repouso verdadeiro.

Coma a fruta tocada por um verme.

Se o inseto provou e permaneceu vivo, é sinal de que a fruta está livre de venenos e excessos artificiais. A vida simples reconhece o que é saudável.

Colha os cogumelos onde os insetos pousam.

Os pequenos seres da floresta distinguem com precisão o que nutre do que mata. Eles são guardiões invisíveis de um saber ancestral que o homem moderno desaprendeu a ouvir.

Plante uma árvore onde a toupeira cava.

A toupeira escolhe solos profundos, férteis e bem drenados. Ali, a árvore encontrará sustentação firme e crescerá forte.

Construa sua casa onde as cobras se aquecem ao sol.

As cobras buscam locais equilibrados, protegidos da umidade excessiva e aquecidos pela luz. São espaços de harmonia natural, onde a vida se mantém em estabilidade.

Cave seu poço onde os pássaros se abrigam do calor.

Os pássaros, sensíveis às variações do ambiente, revelam onde há frescor, sombra e água próxima. Eles conhecem os segredos do equilíbrio invisível.

Durma e acorde no ritmo dos pássaros.

Ao respeitar o ciclo natural do dia e da noite, você colherá os verdadeiros “grãos de ouro” da vida: vitalidade, clareza mental, serenidade e gratidão pelo tempo vivido.

Coma mais verde - folhas, verduras e ervas.

Assim, suas pernas serão fortes como as do cervo, e seu coração pulsará com a resistência silenciosa da floresta, que vive em constante harmonia.

Nade com frequência em rios e lagos limpos.

Você se sentirá na terra como o peixe se sente na água: leve, integrado, em paz com o elemento que sustenta a vida.

Olhe mais para o céu e fale menos.

Permita que o azul infinito e o movimento silencioso das nuvens entrem em você. No silêncio, a paz desce ao coração, o espírito se aquieta e a existência se enche de uma serenidade profunda.

Essa sabedoria reflete o modo de vida de São Serafim de Sarov (1754-1833), um dos santos mais venerados da tradição ortodoxa russa. Durante muitos anos, ele viveu como eremita na floresta de Sarov, entregando-se à oração, ao silêncio e à contemplação da criação.

Conta-se que alcançou tamanha harmonia com a natureza que animais selvagens se aproximavam sem temor. Um urso, em especial, tornou-se símbolo dessa comunhão: aproximava-se mansamente, comia de sua mão e permanecia ao seu lado como um companheiro fiel.

Para São Serafim, a natureza não era apenas cenário, mas mestra e revelação do amor divino. Os animais, em sua inocência instintiva, indicam caminhos de simplicidade, pureza e confiança - virtudes que o homem moderno, cercado de ruído e pressa, frequentemente esquece.

Que possamos, como ele, reaprender a escutar os sussurros da criação e, por meio deles, reencontrar o caminho da paz interior, da humildade e da verdadeira alegria.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Ontem Máscara, Hoje Pix, Amanhã Chip: O Caminho da Obediência Coletiva


Depois do que vivenciamos com a pandemia de COVID-19, já não me surpreendo com quase nada. A experiência coletiva daqueles anos deixou uma marca profunda: aprendemos, talvez da forma mais dura possível, que o impensável pode se tornar regra da noite para o dia - e que a exceção, quando bem administrada pelo medo, tende a se eternizar.

Lembra bem? Em 2020 e 2021, sem máscara você simplesmente não entrava em lugar nenhum. Supermercados, lojas, ônibus, metrô, aviões. Era uma exigência quase universal.

No Brasil - especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e nas capitais do Nordeste -, na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália. Quem descumpria era barrado na porta, constrangido em público ou multado.

A normalidade passou a ser policiada, e a obediência, celebrada como virtude cívica. O discurso era sempre o mesmo: “é temporário”, “é para o seu bem”, “é por segurança”. E funcionou. Aceitamos.

Hoje, o cenário muda de forma, mas não de essência. Amanhã - ou melhor, já agora -, sem cartão, Pix ou aplicativo de pagamento, torna-se cada vez mais difícil comprar qualquer coisa. O dinheiro em espécie começa a ser recusado, tratado como inconveniente, suspeito ou arcaico.

A Suécia e a Noruega praticamente eliminaram o papel-moeda. A China avança com o yuan digital em várias cidades. No Brasil, o Banco Central prepara o DREX, a moeda digital oficial, enquanto dezenas de países testam ou implantam as chamadas CBDCs.

O passo seguinte já está desenhado: o dinheiro programável. Não se trata apenas de pagar digitalmente, mas de permitir que o próprio sistema determine onde, quando e para que você pode gastar. O controle deixa de ser externo e passa a ser embutido no próprio meio de troca.

Ontem foi a máscara. Depois, a vacina. Você não está vacinado? Então perde o direito de viajar, trabalhar, entrar em eventos, restaurantes, academias, shoppings. Na União Europeia, o Certificado Digital COVID tornou-se praticamente obrigatório para a vida cotidiana.

Na Austrália e na Nova Zelândia, houve quarentenas forçadas em hotéis para não vacinados. No Canadá, caminhoneiros bloquearam estradas em protesto contra os mandatos. No Brasil, empresas e prefeituras passaram a exigir comprovantes para o retorno presencial e o acesso a serviços públicos.

Nada disso começou como punição. Começou como “responsabilidade coletiva”.

Agora, projeta-se o próximo degrau: a identidade digital integrada. Num cenário mais extremo - mas já tecnicamente possível -, chips implantados na mão ou dispositivos corporais conectados a sistemas centrais poderiam se tornar a chave para tudo: transporte, pagamentos, saúde, trabalho, acesso a espaços. Sem isso, você simplesmente deixa de existir no sistema.

Na Suécia, mais de quatro mil pessoas já implantaram voluntariamente microchips RFID na mão para abrir portas, acessar o metrô, fazer pagamentos ou armazenar dados médicos.

Empresas como a Biohax venderam a ideia como conveniência, modernidade, liberdade. E talvez seja - enquanto é opcional. A História mostra que quase toda tecnologia começa como escolha e termina como exigência.

Quando a recusa passa a ser vista como ameaça, o indivíduo se transforma em pária. Um “inimigo do sistema”. Direitos humanos deixam de ser direitos e passam a ser concessões condicionadas ao cumprimento das regras digitais.

O roteiro é conhecido: crise, medidas emergenciais “temporárias”, normalização, aceitação passiva. Quando percebemos, a exceção já virou padrão.

O Fórum Econômico Mundial fala abertamente em “Grande Reinicialização” e na necessidade de identidades digitais globais como solução para o mundo pós-pandemia.

Coincidência ou projeto, pouco importa. O fato concreto é que as liberdades cedidas em nome da segurança raramente retornam intactas - quando retornam.

Talvez o maior erro seja achar que tudo isso acontece de uma vez. Não acontece. Vem em parcelas pequenas, aceitáveis, razoáveis. Vem embalado em boas intenções, gráficos coloridos e slogans tranquilizadores.

Por isso, desligue a televisão por um instante. Afaste-se um pouco da bolha das redes sociais. Observe o padrão, não o discurso. Porquê da próxima vez, talvez não seja apenas uma restrição passageira. Talvez seja o novo normal - e, desta vez, sem volta.

Aposta de Pascal


“Não se pode provar que Deus existe. Mas, se Deus existe, o crente ganha tudo - o céu - e o descrente perde tudo - o inferno. Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Logo, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.”

O raciocínio é conhecido. Foi formulado no século XVII por Blaise Pascal e atravessou os séculos como se fosse uma peça de genial prudência filosófica. Mas, examinada com cuidado, a chamada “aposta de Pascal” não é um argumento a favor da existência de Deus.

É um argumento a favor da submissão. Não apela à razão, mas ao medo. Não convida à verdade, mas à cautela covarde. Aceitar essa lógica equivaleria a reduzir a fé a um seguro contra incêndio metafísico.

Não se acredita por convicção, assombro ou amor à verdade, mas por precaução. Crê-se não porque Deus seja plausível ou justo, mas porque o castigo pode ser eterno. Com esse tipo de raciocínio, a busca espiritual torna-se um jogo de apostas, e a honestidade intelectual, um luxo dispensável.

Levado às últimas consequências, o argumento conduz ao absurdo: deveríamos escolher a religião que descrevesse o inferno mais aterrador. O critério da verdade seria substituído pelo grau de ameaça. O deus mais cruel venceria. Não o mais sábio, nem o mais justo - apenas o mais vingativo.

Também é falso afirmar que o crente nada perde se Deus não existir. Perde, sim. Perde tempo, energia, recursos, e sobretudo perde está vida quando a subordina a uma promessa incerta de outra.

Perde a chance de enfrentar a finitude com lucidez. Sacrifica a honestidade intelectual em nome da repetição de um mito herdado. Religiões não são apenas crenças abstratas: exigem dinheiro, obediência, rituais, hierarquias, e frequentemente desviam talentos humanos do esforço concreto de melhorar este mundo - o único cuja existência é incontestável.

Não por acaso, o conformismo religioso sempre foi um aliado conveniente dos tiranos. Prometer recompensa no além é uma forma eficaz de anestesiar a revolta no presente.

A resignação travestida de virtude transforma a injustiça em “vontade divina” e o sofrimento em prova de fé. Onde a religião se torna incontestável, a liberdade costuma definhar.

Do outro lado, também é falso dizer que o descrente nada ganha. Rejeitar a religião pode ser uma experiência profundamente libertadora. Não no sentido vulgar da negação vazia, mas no ganho de perspectiva, autonomia moral e coragem intelectual.

A possibilidade de questionar sem culpa, de pensar sem dogmas, de errar sem pedir perdão ao invisível. Não é coincidência que os grandes avanços científicos, éticos e sociais tenham surgido, muitas vezes, da ousadia de quem desafiou verdades sagradas.

Há ainda uma questão moral incontornável: que tipo de ser torturaria eternamente alguém por duvidar honestamente? Se Deus existe e é justo, não pode condenar o cético sincero. Se existe e condena, então não é justo - e, portanto, não merece adoração.

Nesse cenário, os próprios teístas correm risco semelhante ao dos ateus, pois acreditam não por virtude, mas por medo. Pode-se ir além da ironia: e se Deus, cansado de bajulação interesseira, decidisse salvar apenas aqueles que tiveram coragem suficiente para não crer?

Invertendo a aposta, a incredulidade honesta tornar-se-ia a verdadeira virtude. O cálculo de Pascal ruiria por completo. Há ainda um problema teológico que Pascal convenientemente ignorou.

Ele era católico e pressupôs que, se Deus existisse, seria o Deus cristão. Mas e se for Alá? Ou um deus desconhecido? Ou vários? Ou nenhum dos descritos pelas religiões históricas? A aposta, nesse caso, deixa de ser prudente e torna-se temerária. Apostar sem saber as regras do jogo não é sabedoria - é ilusão de controle.

No fim das contas, crer por medo não gera admiração, nem amor, nem elevação moral. Produz obediência ressentida. Um deus que exige fé sob ameaça pode ser temido, mas não venerado.

E talvez a pergunta mais honesta não seja “e se Deus existir?”, mas “que tipo de Deus mereceria existir?”.

Porque, se a divindade precisa do pavor humano para ser cultuada, talvez o problema não esteja na incredulidade - mas na própria ideia de Deus que nos foi ensinada a aceitar sem questionar.

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Bayume Mohamed Husen



 Bayume Mohamed Husen: o homem que serviu a um país que não o quis

A História costuma ser escrita com letras maiúsculas, mas vivida em letras miúdas. Bayume Mohamed Husen pertence a essa segunda categoria: um homem empurrado para as margens de uma narrativa que fez uso de seu corpo, de sua lealdade e de sua imagem - apenas para descartá-lo quando já não servia.

Ele nasceu em 1904, em Dar es Salaam, quando o mundo ainda acreditava que impérios eram eternos. Filho de um askari, cresceu sob a sombra da bandeira alemã fincada em solo africano.

Aprendeu cedo a língua do colonizador, vestiu seu uniforme, marchou em suas guerras. Lutou pela Alemanha na África Oriental como quem acredita que a farda concede pertencimento. Não concedia.

Na Primeira Guerra Mundial, enfrentou a selva, a fome e o fogo inimigo. Em Mahiwa, em 1917, foi ferido. Depois, capturado. A guerra terminou, o império caiu - e Bayume, como tantos outros, foi esquecido. O soldado útil tornou-se um incômodo histórico.

Veio para Berlim em 1929 buscando o que lhe era devido: soldos atrasados, reconhecimento tardio, talvez justiça. Recebeu silêncio burocrático. Ficou. Serviu mesas, ensinou suaíli, emprestou sua voz e seu rosto a um país que gostava de exibir a África, mas não aceitava os africanos.

Casou-se com uma mulher alemã poucos dias antes de Hitler chegar ao poder - ironia cruel do calendário. Constituiu família, perdeu filhos, acumulou ausências.

Husen acreditou, por algum tempo, na farsa neocolonial. Vestiu o uniforme askari, marchou em comícios, participou da Deutsche Afrika-Schau, esse zoológico humano travestido de propaganda política.

A Alemanha nazista precisava de corpos negros para provar ao mundo que ainda era capaz de administrar colônias - mesmo enquanto negava humanidade a esses mesmos corpos.

No cinema, Bayume interpretava sempre o mesmo papel: o nativo, o guia, a sombra. Nunca o protagonista. Nunca o cidadão. Na tela, ajudava a glorificar o colonialismo; fora dela, era barrado, vigiado, humilhado.

Pediu para lutar novamente pela Alemanha, agora na Wehrmacht. Foi recusado. O sangue que servira antes já não era suficientemente puro. O regime tolerava sua imagem, mas não sua vida.

Bastou um relacionamento com uma mulher alemã para que o Estado mostrasse os dentes. “Corrupção racial”, chamaram. A mesma Alemanha que o exibira como prova de sua grandeza colonial o prendeu como prova de sua obsessão racial.

Sem julgamento, Bayume Mohamed Husen foi enviado ao campo de concentração de Sachsenhausen. Ali, desapareceu da História oficial - como tantos outros. Morreu em 24 de novembro de 1944, reduzido a número, a silêncio, a poeira.

Décadas depois, livros e documentários tentaram resgatá-lo. Mas Bayume não precisa apenas ser lembrado; precisa ser entendido. Sua vida escancara o paradoxo do colonialismo e do nazismo: sistemas que exigem lealdade absoluta, mas jamais concedem pertencimento.

Ele foi alemão o suficiente para lutar, servir e entreter - nunca para existir plenamente. A História costuma perguntar quem venceu a guerra. Raramente pergunta quem pagou por ela com a própria identidade.

Bayume Mohamed Husen pagou com tudo: com o corpo, com a fé e, por fim, com a vida. E mesmo assim, por muito tempo, ninguém percebeu sua ausência.

Sirhan Bishara Sirhan


Sirhan Bishara Sirhan nasceu em Jerusalém, em 19 de março de 1944, em uma família palestina cristã. Ele emigrou para os Estados Unidos em 1957, após sua família fugir das consequências da guerra árabe-israelense de 1948.

Sirhan é conhecido como o assassino confesso do senador Robert F. Kennedy, candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata. O atentado ocorreu na madrugada de 5 de junho de 1968, por volta das 00:15 (horário local), no Hotel Ambassador, em Los Angeles, Califórnia.

Robert F. Kennedy acabara de fazer um discurso de vitória na sala de baile do hotel, após conquistar as primárias democratas da Califórnia - uma vitória crucial em sua campanha presidencial.

Ele estava otimista, saudando apoiadores e funcionários, quando se dirigiu por um corredor de serviço (pantry/kitchen área) para encontrar mais jornalistas e simpatizantes. Sirhan Sirhan, então com 24 anos, estava no local e disparou contra Kennedy com um revólver Iver Johnson calibre .22.

O senador foi atingido por três tiros (um na cabeça e dois nas costas; um quarto projétil atravessou sua jaqueta), enquanto outras cinco pessoas ficaram feridas (nenhuma fatalmente).

Kennedy caiu gravemente ferido no chão de concreto. Amigos e assessores, incluindo o escritor George Plimpton, o atleta Rosey Grier e Rafer Johnson, imobilizaram Sirhan imediatamente. Ele foi preso no local e teria dito frases como “Eu fiz isso pelo meu país”.

Robert F. Kennedy foi levado ao Good Samaritan Hospital, mas não resistiu e faleceu cerca de 26 horas depois, na manhã de 6 de junho de 1968.O principal motivo alegado por Sirhan foi político: raiva contra o apoio de Kennedy a Israel, especialmente após a Guerra dos Seis Dias (junho de 1967), na qual Israel ocupou territórios palestinos, incluindo Jerusalém Oriental.

O atentado ocorreu exatamente no aniversário de um ano do início daquela guerra. Sirhan via o apoio americano a Israel (e promessas de Kennedy de enviar aviões de combate ao país) como traição aos palestinos.

Em seu diário pessoal - conhecido como O Diário de Sirhan Sirhan -, encontrado pela polícia após o crime, ele escreveu repetidamente frases como “RFK deve morrer” (“RFK must die”) e expressou ódio acumulado, fixando Kennedy como alvo principal.

Embora não haja evidências concretas de que Sirhan integrasse grupos palestinos armados ou organizações específicas contra a ocupação israelense, seu ato foi motivado por nacionalismo palestino e ressentimento contra a política externa dos EUA no Oriente Médio.

Durante o julgamento, ele admitiu o crime, embora em momentos posteriores tenha alegado não se lembrar dos disparos ou questionado sua própria confissão.

O julgamento ocorreu em 1969. O promotor principal foi Lynn “Buck” Compton, veterano da Segunda Guerra Mundial (membro da Easy Company da 101ª Divisão Aerotransportada, famoso pelo livro e série Band of Brothers), que mais tarde se tornou juiz no Tribunal de Apelações da Califórnia.

Sirhan foi condenado por assassinato em primeiro grau e cinco tentativas de assassinato, recebendo a pena de morte na câmara de gás. Em 1972, a Suprema Corte da Califórnia invalidou todas as sentenças de morte aplicadas antes de fevereiro daquele ano (decisão relacionada à abolição temporária da pena capital no estado, no caso People v. Anderson).

Assim, a pena de Sirhan foi comutada para prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Ao longo dos anos, Sirhan enfrentou dezenas de audiências de liberdade condicional.

Em 2021, um painel recomendou sua soltura pela primeira vez (após 15 negativas), mas o governador Gavin Newsom vetou a decisão em 2022, alegando que Sirhan ainda representava risco à segurança pública por falta de entendimento suficiente sobre o crime.

Ele foi negado novamente em 2023 e, mais recentemente, em agosto de 2024 (sua 17ª audiência), permanecendo inelegível por pelo menos mais três anos. Atualmente, Sirhan Sirhan, com mais de 80 anos, cumpre pena na Richard J. Donovan Correctional Facility, perto de San Diego, na Califórnia (ele foi transferido de Corcoran há alguns anos).

O caso continua gerando debates, incluindo teorias conspiratórias (como a possibilidade de um segundo atirador, defendida por alguns, incluindo Robert F. Kennedy Jr.), embora a versão oficial mantenha que Sirhan agiu sozinho.

O assassinato de Robert F. Kennedy marcou profundamente a história americana, ocorrendo apenas dois meses após o de Martin Luther King Jr., em um ano de grande turbulência política (1968).


domingo, fevereiro 08, 2026

Algum dia


O Encontro Inevitável

“Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente te encontrarás consigo mesmo. E esse encontro, só esse, poderá ser a hora mais luminosa e plena da tua existência - ou a mais dolorosa, cruel e inescapável de todas as tuas horas.”

Pablo Neruda

Essa frase, tão repetida em livros de autoajuda e reflexões psicológicas, guarda uma verdade profunda e incômoda: não há fuga permanente de si mesmo. Por mais que a vida nos empurre para o movimento contínuo - viagens, mudanças de cidade, de relacionamentos, de trabalho ou até de país -, sempre chega o momento em que o deslocamento deixa de ser libertação e passa a ser adiamento.

Esse instante costuma surgir sem aviso. Não respeita agendas nem discursos prontos. É quando as máscaras caem, as distrações se esgotam e ficamos, finalmente, frente a frente com nossa essência mais crua: os medos não resolvidos, as feridas antigas, os desejos abafados, as contradições mal digeridas - e, paradoxalmente, também nossa capacidade de beleza, coragem e redenção.

Neruda conhecia bem esse território. Viveu intensamente os extremos da existência: o exílio forçado, os amores avassaladores, o engajamento político, a solidão, o reconhecimento mundial com o Prêmio Nobel e as perdas que nunca cicatrizam por completo.

Sua obra é atravessada por dualidades constantes: o êxtase amoroso de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada convivendo com a dor da ausência; a celebração do cotidiano nas Odes elementares dialogando com o peso da morte, da injustiça e da violência histórica em sua poesia política. Em Neruda, o homem nunca está inteiro sem o conflito.

Esse “encontro consigo mesmo” está longe de ser, necessariamente, um momento romântico de autodescoberta serena. Muitas vezes é um choque brutal: o luto por quem acreditávamos ser, a queda das narrativas que sustentavam nosso orgulho ou nossas escolhas.

Em outros casos, porém, pode ser uma libertação profunda - quando, exaustos de fugir, aceitamos quem realmente somos, com limites, falhas e possibilidades.

No tempo das redes sociais, da performance constante e da autoimagem cuidadosamente construída, essa frase ganha ainda mais força. Quantas pessoas fogem de si mesmas por meio de curtidas, consumo excessivo, trabalho compulsivo ou relacionamentos que funcionam mais como anestesia do que como encontro verdadeiro?

Quanto mais barulho externo, mais distante fica o silêncio necessário para ouvir a própria consciência. Mas, cedo ou tarde - numa madrugada insone, numa viagem solitária, numa perda irreparável, numa crise existencial, numa doença, numa ruptura ou simplesmente no silêncio que sobra depois de tanto ruído -, o encontro acontece. E então não há mais para onde correr.

A beleza (e o terror) da frase está exatamente nessa palavra: indefectivelmente. Não é opcional. Não depende de vontade, fé ou preparo. É uma lei da existência humana. Podemos adiar, disfarçar, negociar, mas não abolir.

E você? Já teve - ou está tendo - esse encontro? Foi mais doce ou mais amargo? Neruda nos lembra que, qualquer que seja a resposta, esse momento é sagrado. Porque, no fim das contas, é o único que não pode ser delegado, encenado ou vivido por outro. É o único que é, inteiramente, nosso.

A verdadeira Bíblia


Por milhares de anos, a humanidade vem escrevendo a verdadeira Bíblia - e ela continua sendo escrita dia após dia. Jamais estará concluída enquanto houver no ser humano vida, consciência e fôlego. Trata-se de um livro sem capa, sem dogmas finais, sem autores exclusivos, mas pleno de experiências, erros, descobertas e superações.

Nele estão inscritos todos os fatos que realmente conhecemos, os acontecimentos que de fato ocorreram; as descobertas científicas que rasgaram o véu da ignorância e as invenções que transformaram radicalmente a maneira como vivemos.

Estão ali as máquinas extraordinárias, cujas engrenagens parecem pulsar com vida própria, fruto da inteligência acumulada de gerações que ousaram imaginar o impossível.

Também fazem parte dessa escritura viva todos os poemas que tocam a alma e expandem o sentir; as joias do intelecto humano; as flores do coração que brotam em gestos simples e profundos; as canções de amor - tristes ou jubilosas - que embalam a memória coletiva.

Estão registrados os grandes dramas da imaginação, as pinturas admiráveis, verdadeiros milagres de forma, cor, luz e sombra; as esculturas que parecem respirar e sentir; os segredos revelados pelas rochas e pelas estrelas, pelo pó e pelas flores, pela chuva e pela neve, pelo frio e pelo fogo, pelas correntes de ar e pela areia do deserto, pelas alturas das montanhas e pelo eterno movimento das ondas do mar.

Nessa Bíblia escrita pela humanidade encontram-se ainda toda a sabedoria que prolonga e enobrece a existência: aquela que previne e cura doenças, que enfrenta a dor e alivia o sofrimento, que transforma o medo em conhecimento. Estão ali as leis verdadeiramente justas, criadas não para oprimir, mas para orientar a convivência humana em direção à harmonia, à dignidade e à equidade.

Ela também reúne todos os pensamentos que alimentam as chamas do amor genuíno; a música que transfigura, arrebata e enfeitiça a alma; as vitórias do coração e da mente sobre a ignorância, o preconceito e o ódio.

Estão registrados os milagres construídos por mãos humanas: as mãos sábias e calejadas daqueles que trabalharam incansavelmente por suas famílias, suas comunidades e pelas gerações futuras.

Fazem parte dessa narrativa as histórias de feitos nobres, de homens e mulheres corajosos e produtivos; os exemplos de amor leal entre companheiros e companheiras; o amor incondicional das mães; os conflitos travados em nome da justiça; os sacrifícios assumidos em defesa da verdade e da liberdade. Cada escolha ética, cada renúncia em favor do bem comum, cada resistência contra a barbárie acrescenta uma nova página a esse livro coletivo.

Tudo isso - e muito mais - constitui os tesouros acumulados do coração e do intelecto humano ao longo dos séculos. São essas realizações, esses lampejos de genialidade, compaixão e coragem que formam as verdadeiras Sagradas Escrituras da raça humana.

Foi essa a visão expressa por Robert G. Ingersoll, conhecido como “o Grande Agnóstico”, em seu ensaio About the Holy Bible (1894). Orador brilhante e defensor intransigente do livre-pensamento, Ingersoll criticava severamente o que via como erros, contradições e crueldades presentes na Bíblia tradicional, sobretudo no Antigo Testamento.

Para ele, a verdadeira revelação não estava em um livro antigo, supostamente ditado por Deus, mas no progresso contínuo da humanidade - nas ciências, nas artes, na ética e nos atos cotidianos de bondade.

Ingersoll via a “Bíblia real” como um livro vivo, escrito coletivamente por todos os povos, em todas as épocas, por meio de suas conquistas, aprendizados e fracassos.

Em vez de uma revelação divina estática e imutável, ele defendia uma escritura em permanente construção, moldada pela razão, pela empatia e pelo esforço humano para melhorar o mundo.

Essa ideia ressoa com força ainda hoje, em um tempo marcado por avanços científicos vertiginosos - como a medicina genômica, a exploração espacial e a inteligência artificial -, por lutas globais em defesa dos direitos humanos e por novas formas de expressão artística que continuam a desafiar e inspirar gerações.

Ao mesmo tempo, ela nos confronta com nossas responsabilidades: cada descoberta pode curar ou destruir; cada tecnologia pode libertar ou controlar; cada escolha moral pode ampliar ou restringir a dignidade humana.

A “verdadeira Bíblia”, segundo Ingersoll, jamais se fecha. Ela se renova a cada vida salva, a cada injustiça combatida, a cada gesto de solidariedade, a cada criação que eleva o espírito humano.

Seu texto não exige fé cega, mas consciência; não impõe dogmas, mas convida à reflexão; não promete salvação em outro mundo, mas aponta para a possibilidade - sempre inacabada - de construir um mundo melhor aqui e agora.

sábado, fevereiro 07, 2026

Epitáfio



Epitáfios: as últimas palavras gravadas na pedra

E, com uma letra bem pequena, quase imperceptível, lá estava escrito no seu epitáfio: “Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e aqui está.”

Essa frase circula amplamente na internet e em redes sociais atribuída a Dom Casmurro, de Machado de Assis. No entanto, trata-se de uma citação apócrifa, que não aparece no romance nem em nenhuma outra obra conhecida do autor.

Apesar disso, ela captura perfeitamente o espírito irônico e melancólico de Machado, especialmente o tom de fracasso existencial e de ironia amarga que permeia livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas e o próprio Dom Casmurro.

O narrador Bentinho, com seu ciúme obsessivo e sua vida marcada por dúvidas e arrependimentos, poderia muito bem ter inspirado algo semelhante, mas a frase em si é uma criação posterior, provavelmente de autor anônimo, que ganhou vida própria na cultura popular brasileira.

O que são epitáfios?

Epitáfios são inscrições colocadas em túmulos, lápides, mausoléus ou placas comemorativas nos cemitérios, destinadas a homenagear, recordar ou até ironizar a vida da pessoa ali sepultada.

Tradicionalmente escritos em verso (daí o nome, do grego epi = sobre + taphos = túmulo), eles variam de poemas tocantes e piedosos a frases curtas, sarcásticas ou filosóficas.

Podem ser gravados em pedra, bronze ou metal, e muitas vezes revelam mais sobre a personalidade do falecido (ou de quem encomendou a inscrição) do que uma biografia inteira.

Exemplos célebres de epitáfios

Alguns epitáfios tornaram-se famosos pela ousadia, humor negro ou profundidade:

Atribuído a Maximilien Robespierre:

Passant, ne pleure pas ma mort (Passante, não chores minha morte)

Si je vivais, tu serais mort. (Se eu vivesse, tu estarias morto.)

Essa inscrição reflete o terror do período revolucionário francês, quando Robespierre, arquiteto do Reinado do Terror, acabou guilhotinado em 1794. O tom desafiador e vingativo resume sua figura controversa.

Um clássico anônimo ou popular em várias culturas: A vida é noite: o sol tem véu de pedra. Essa frase poética e enigmática evoca a ideia de que a morte cobre a luz da existência com a escuridão definitiva da lápide.

Outros exemplos famosos incluem o de Shakespeare (com um aviso contra quem mexesse nos ossos), o de Groucho Marx (atribuído postumamente: “Eu não queria pertencer a nenhum clube que me aceitasse como membro”) ou epitáfios brasileiros cheios de humor, como “Aqui jaz Fulano, que morreu de repente, de tanto esperar a vez”.

Machado de Assis, aliás, tinha fascínio por epitáfios. Em seus textos, ele os menciona como expressão de um “pio e secreto egoísmo” humano: o desejo de deixar ao menos um vestígio, um “farrapo da sombra que passou”, mesmo depois da morte.

Essas últimas palavras, sejam verdadeiras ou inventadas, continuam a nos fazer refletir sobre fracassos, ambições e o que realmente resta quando tudo termina. Às vezes, uma frase pequena na pedra diz mais do que uma vida inteira de discursos.

Carlos Alexandre - Faleceu em um acidente de carro


Carlos Alexandre - O Homem da Feiticeira

Pedro Soares Bezerra, mais conhecido pelo nome artístico Carlos Alexandre, nasceu em 1º de junho de 1957, em Santa Fé, distrito de Jundiá (RN), embora algumas fontes mencionem Nova Cruz como local associado à sua infância.

Filho de Gennaro Bezerra Martins e Antonieta Feconstinny Bezerra, teve uma origem humilde e uma infância marcada por dificuldades, incluindo separação precoce dos pais e trabalhos desde cedo, como em uma padaria.

Sua carreira na música começou em 1975, ainda adolescente, quando adotou o apelido "Pedrinho". O radialista Carlos Alberto de Sousa o descobriu e o levou para a gravadora RGE, em São Paulo.

Lá, gravou seu primeiro compacto simples com as músicas "Arma de Vingança" e "Canção do Paralítico", que alcançou impressionantes 100 mil cópias vendidas - um grande sucesso para um artista iniciante.

O verdadeiro estouro veio em 1978 com a canção "Feiticeira", que deu título ao seu primeiro LP e vendeu cerca de 250 mil cópias, rendendo disco de ouro e consagrando-o nacionalmente. O álbum foi gravado também em castelhano, ampliando seu alcance para o mercado latino-americano.

Carlos Alexandre tornou-se conhecido como o "Homem da Feiticeira" e integrou a onda da música brega/romântica popular nos anos 1970 e 1980, com letras que falavam de amor sofrido, traição, saudade e paixão.

Em janeiro de 1978, viajou para São Paulo ao lado de outros artistas potiguares, como Gilliard e Edson Oliveira, para gravar seus discos. Sua carreira foi meteórica: em apenas 11 anos (1975–1989), lançou diversos compactos e LPs pela RGE, conquistando 15 discos de ouro e um de platina, com mais de 2 milhões de discos vendidos no total. Sua discografia inclui títulos como:

Feiticeira (1978), Voltei (1979), Já Troquei Você Por Outra (1980), Mulher de Muitos (1981), Revelação de Um Sonho (1982). E outros, como Nosso Quarto É Testemunha (1987) e Sei, Sei (lançado pouco antes de sua morte, em 1988/1989).

Entre seus maiores sucessos estão "Feiticeira", "A Ciganinha", "Cartão Postal", "Sertaneja", "Vá Pra Cadeia", "Toque Em Mim", "Timidez" e "Por Que Você Não Responde".

Ele excursionava intensamente pelo Brasil, especialmente pelo Nordeste, e em algumas viagens era acompanhado pela esposa Solange, com quem se casou em fevereiro de 1978. Segundo relatos da época, Solange ia sempre que ele gravava em São Paulo, mas Carlos Alexandre retornava à Natal para "gastar o que ganhava fora", considerando a capital potiguar seu lugar de descanso e lazer. Morava no bairro Cidade da Esperança, na Zona Oeste de Natal.

O trágico acidente

No dia 30 de janeiro de 1989, aos 31 anos, Carlos Alexandre faleceu em um grave acidente automobilístico na estrada estadual RN-093, que liga os municípios de Tangará e São José do Campestre, na região da Borborema potiguar (divisa entre Agreste e Trairi, no Rio Grande do Norte).

Ele voltava de um show realizado em Pesqueira (PE) e seguia para casa, em Natal, quando o veículo saiu da pista. O cantor estava sem cinto de segurança, e relatos da época indicam que o corpo foi arremessado para fora do carro, com a cabeça chocando-se violentamente.

O acidente ocorreu por volta das 13h, e ele morreu no local. Pouco antes, havia lançado o disco Sei, Sei, que ainda estava em divulgação. A tragédia interrompeu uma carreira em ascensão e chocou o público nordestino e brasileiro.

O velório foi realizado no ginásio de esportes do bairro Cidade da Esperança, em Natal, e o enterro, no dia 31 de janeiro, no Cemitério de Bom Pastor, reuniu milhares de fãs emocionados.

Segundo matérias jornalísticas da época, o sepultamento foi marcado por um momento tocante: a multidão cantou em coro a música "Feiticeira" enquanto o caixão era baixado à sepultura.

Carlos Alexandre deixou um legado duradouro na música brega romântica, com composições que continuam sendo regravadas e lembradas até hoje. Sua história inspira documentários, livros (como uma biografia lançada em 2015) e homenagens, provando que, apesar da carreira curta, ele marcou profundamente a cultura popular potiguar e nordestina.



Caetão Postal