O Encontro Inevitável
“Algum dia, em
qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente te encontrarás consigo
mesmo. E esse encontro, só esse, poderá ser a hora mais luminosa e plena da tua
existência - ou a mais dolorosa, cruel e inescapável de todas as tuas horas.”
Pablo Neruda
Essa frase, tão
repetida em livros de autoajuda e reflexões psicológicas, guarda uma verdade
profunda e incômoda: não há fuga permanente de si mesmo. Por mais que a vida
nos empurre para o movimento contínuo - viagens, mudanças de cidade, de
relacionamentos, de trabalho ou até de país -, sempre chega o momento em que o
deslocamento deixa de ser libertação e passa a ser adiamento.
Esse instante
costuma surgir sem aviso. Não respeita agendas nem discursos prontos. É quando
as máscaras caem, as distrações se esgotam e ficamos, finalmente, frente a
frente com nossa essência mais crua: os medos não resolvidos, as feridas
antigas, os desejos abafados, as contradições mal digeridas - e,
paradoxalmente, também nossa capacidade de beleza, coragem e redenção.
Neruda conhecia
bem esse território. Viveu intensamente os extremos da existência: o exílio
forçado, os amores avassaladores, o engajamento político, a solidão, o
reconhecimento mundial com o Prêmio Nobel e as perdas que nunca cicatrizam por
completo.
Sua obra é atravessada por dualidades
constantes: o êxtase amoroso de Vinte poemas de amor e uma canção
desesperada convivendo com a dor da ausência; a celebração do
cotidiano nas Odes
elementares dialogando com o peso da morte, da injustiça e da
violência histórica em sua poesia política. Em Neruda, o homem nunca está
inteiro sem o conflito.
Esse “encontro
consigo mesmo” está longe de ser, necessariamente, um momento romântico de
autodescoberta serena. Muitas vezes é um choque brutal: o luto por quem
acreditávamos ser, a queda das narrativas que sustentavam nosso orgulho ou
nossas escolhas.
Em outros casos, porém, pode ser uma
libertação profunda - quando, exaustos de fugir, aceitamos quem realmente
somos, com limites, falhas e possibilidades.
No tempo das
redes sociais, da performance constante e da autoimagem cuidadosamente
construída, essa frase ganha ainda mais força. Quantas pessoas fogem de si
mesmas por meio de curtidas, consumo excessivo, trabalho compulsivo ou
relacionamentos que funcionam mais como anestesia do que como encontro
verdadeiro?
Quanto mais barulho externo, mais distante
fica o silêncio necessário para ouvir a própria consciência. Mas, cedo ou tarde
- numa madrugada insone, numa viagem solitária, numa perda irreparável, numa
crise existencial, numa doença, numa ruptura ou simplesmente no silêncio que
sobra depois de tanto ruído -, o encontro acontece. E então não há mais para
onde correr.
A beleza (e o
terror) da frase está exatamente nessa palavra: indefectivelmente.
Não é opcional. Não depende de vontade, fé ou preparo. É uma lei da existência
humana. Podemos adiar, disfarçar, negociar, mas não abolir.
E você? Já teve - ou está tendo - esse encontro? Foi mais doce ou mais amargo? Neruda nos lembra que, qualquer que seja a resposta, esse momento é sagrado. Porque, no fim das contas, é o único que não pode ser delegado, encenado ou vivido por outro. É o único que é, inteiramente, nosso.
























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