Em 17 de janeiro de 1945,
diante do avanço do Exército Vermelho sobre a Polônia ocupada, Josef Mengele,
juntamente com vários outros médicos de Auschwitz, foi transferido para o campo
de concentração de Gross-Rosen, localizado na Baixa Silésia.
Com ele, levou duas caixas
contendo espécimes biológicos e registros de suas experiências médicas
conduzidas em prisioneiros - documentos que evidenciavam a natureza brutal e
pseudocientífica de seus experimentos.
A maior parte dos registros
médicos de Auschwitz já havia sido destruída pelas SS na tentativa de apagar
provas dos crimes cometidos. Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho
libertou Auschwitz, revelando ao mundo a dimensão do horror ali praticado.
Mengele permaneceu pouco tempo
em Gross-Rosen. Em 18 de fevereiro de 1945, apenas uma semana antes da chegada
das tropas soviéticas, fugiu do campo e seguiu para o oeste, disfarçado de
oficial da Wehrmacht.
Dirigiu-se a Saaz (atual
Žatec), onde confiou temporariamente seus documentos incriminatórios a uma
enfermeira com quem havia estabelecido relacionamento.
Ele e sua unidade continuaram
a recuar para o oeste, tentando evitar a captura pelos soviéticos. Em junho de
1945, foi detido por forças dos Estados Unidos como prisioneiro de guerra.
Inicialmente registrado sob
seu próprio nome, escapou da identificação formal como criminoso de guerra
devido à desorganização administrativa dos Aliados no imediato pós-guerra e ao
fato de não possuir a tatuagem do grupo sanguíneo, comum entre membros da SS.
Assim, não foi associado às listas prioritárias de procurados.
Libertado no final de julho de
1945, obteve documentos falsos sob o nome de “Fritz Ullmann”, posteriormente
alterado para “Fritz Hollmann”. Durante meses viveu oculto na Alemanha
devastada, chegando inclusive a atravessar a zona ocupada pelos soviéticos para
recuperar parte de seus registros de Auschwitz. Estabeleceu-se próximo a
Rosenheim, trabalhando como agricultor.
Temendo eventual captura,
julgamento e possível condenação à morte, decidiu fugir da Alemanha. Em 17 de
abril de 1949, com apoio de uma rede clandestina composta por ex-membros da SS -
parte do sistema conhecido posteriormente como “ratlines”, que auxiliava
nazistas na fuga para a América do Sul - viajou para Gênova, na Itália.
Ali obteve um passaporte sob o
pseudônimo “Helmut Gregor”, emitido com intermediação do Comitê Internacional
da Cruz Vermelha. Em julho de 1949, embarcou para a Argentina. Sua esposa
recusou-se a acompanhá-lo, e o casal se divorciou em 1954.
Josef Mengele na América do Sul
Em Buenos Aires, Argentina,
Mengele inicialmente trabalhou como carpinteiro enquanto residia em uma pensão
no subúrbio de Vicente López. Poucas semanas depois, mudou-se para a casa de um
simpatizante nazista no bairro de Flórida. Gradualmente, reconstruiu sua vida
sob identidade falsa.
Passou a atuar como
representante comercial da empresa de equipamentos agrícolas pertencente à sua
família na Alemanha e, a partir de 1951, realizou viagens frequentes ao
Paraguai como vendedor.
Em 1953, estabeleceu
residência em um apartamento no centro de Buenos Aires e, no mesmo ano,
investiu recursos familiares na aquisição parcial de uma empresa de
carpintaria. Em 1954, alugou uma casa em Olivos.
Documentos divulgados pelo
governo argentino em 1992 indicam que Mengele pode ter exercido ilegalmente a
medicina durante esse período, inclusive realizando abortos clandestinos.
Em 1956, após obter uma cópia
de sua certidão de nascimento junto à embaixada da Alemanha Ocidental,
conseguiu autorização de residência argentina sob seu nome verdadeiro. De posse
desse documento, obteve também um passaporte da Alemanha Ocidental e viajou à
Europa.
Durante essa viagem, foi à
Suíça para férias de esqui com seu filho Rolf - a quem fora apresentado como
“tio Fritz” - e com sua cunhada viúva Martha. Também passou uma semana em sua
cidade natal, Günzburg.
No retorno à Argentina, em
setembro de 1956, passou a viver sob seu nome real. Martha e seu filho Karl
Heinz juntaram-se a ele cerca de um mês depois, e os dois se casaram em 1958,
durante uma viagem ao Uruguai.
Seus interesses comerciais
ampliaram-se, incluindo participação na Fadro Farm, empresa farmacêutica. Em
1958, foi interrogado sob suspeita de exercício ilegal da medicina após a morte
de uma adolescente em decorrência de um aborto. Foi liberado por falta de
provas.
Enquanto isso, seu nome surgia
reiteradamente nos depoimentos relacionados aos Julgamentos de Nuremberg, que
investigavam e processavam crimes nazistas. Contudo, durante anos prevaleceu a
crença - reforçada por declarações de familiares na Alemanha - de que ele
estaria morto.
Na Alemanha Ocidental, os
caçadores de nazistas Simon Wiesenthal e Hermann Langbein reuniram testemunhos
e documentos sobre suas atividades em Auschwitz. Ao examinar registros
públicos, Langbein encontrou documentos de divórcio que indicavam um endereço
em Buenos Aires.
Sob pressão desses
investigadores, a Alemanha Ocidental emitiu um mandado de prisão contra Mengele
em 5 de junho de 1959 e iniciou o processo de extradição.
Inicialmente, a Argentina
recusou o pedido, alegando que o acusado não residia mais no endereço
informado. Quando a extradição foi finalmente aprovada, em 30 de junho de 1960,
Mengele já havia fugido novamente - desta vez para o Paraguai, onde obteve
cidadania sob o nome “José Mengele” e passou a viver em uma fazenda próxima à
fronteira argentina.
Sua fuga continuaria nos anos
seguintes, levando-o posteriormente ao Brasil, onde viveu sob identidades
falsas até sua morte em 1979 - sem jamais ter sido julgado por seus crimes.



























