Um Amor em Desencontro
Houve um tempo
em que eu amei a fúria das suas palavras - aquelas que cortavam como lâminas
afiadas, mas que, paradoxalmente, acendiam incêndios dentro de mim. Havia vida
nelas. Havia verdade. E, de algum modo estranho, havia também um convite: o de
crescer, de me reinventar, de tentar ser maior do que os meus próprios limites.
Amei a
intensidade das suas ideias, o modo como você enfrentava o mundo sem pedir
licença. Você falava como quem não tem medo de quebrar tudo - inclusive a si
mesmo. E eu, que sempre temi os estilhaços, me vi fascinada por essa coragem
quase imprudente.
Amei você do
início ao fim - e, sobretudo, o meio. Amei os intervalos: os risos roubados no
meio de conversas sérias, os silêncios carregados de significados, os olhares
que diziam mais do que qualquer frase bem construída. Amei o que não era dito,
porque ali morava o que mais importava.
Lembro do
primeiro encontro dos nossos olhos. Não foi grandioso, não houve música ou
destino declarado - mas, por um segundo, tudo pareceu suspenso. Como se o mundo
tivesse respirado fundo só para nos observar.
E eu soube. Ou
pensei que soubesse. Amei o arrepio que sua presença provocava, aquele frio
inesperado que corria pela pele como um aviso antigo: cuidado, isso vai te
mudar. Mas eu nunca fui bom em ouvir avisos.
Amei você mais
do que devia - por impulso, por desejo, por falta de freio. E, ao mesmo tempo,
menos do que podia - por medo. Medo de desaparecer dentro de você, de deixar de
ser quem eu era para caber no espaço que você ocupava.
Você brincava de
dizer verdades, escondia sentimentos atrás de ironias, como quem testa o
terreno antes de se permitir cair. E eu entendia. Sempre entendi mais do que
você dizia.
Amei até o seu
ridículo. Porque em você, até o que era falho, exagerado ou deslocado tinha
beleza. Era humano. Era real. E eu me agarrava a isso como quem encontra algo
raro em meio ao caos.
Mas também houve
o outro lado. O momento em que nossos olhares já não se encontravam do mesmo
jeito. Quando os seus começaram a escapar - para outros lugares, outras ideias,
talvez outras pessoas. E ali, naquele desencontro silencioso, algo em mim começou
a ruir.
Amei o seu tudo -
sua grandeza, suas promessas, sua intensidade quase insuportável. Mas também
amei o seu nada - os dias em que você era ausência, vazio, um enigma que nem
você parecia querer resolver.
E, mesmo assim,
eu permanecia. Amava até a confusão que você deixava em mim. Meus pensamentos
giravam como um redemoinho, e eu já não sabia onde você terminava e onde eu
começava. Talvez nunca tenha sabido.
Houve momentos
em que tentei te odiar. De verdade. Quis me afastar, criar distância, reconstruir
uma versão de mim que não dependesse de você. Mas era inútil. Porque, no fundo,
havia algo inevitável nisso tudo - como se te amar fosse menos uma escolha e
mais uma condição.
E isso me
assustava. Nosso amor não existia isolado. Ele acontecia enquanto o mundo
também desmoronava e se reconstruía ao nosso redor.
Eu te amei nas
noites de tempestade, quando o céu parecia refletir exatamente o que eu sentia
por dentro - caótico, barulhento, impossível de ignorar. Os trovões ecoavam
como um coração fora de ritmo.
Te amei em 2020,
quando o mundo parou. Quando fomos obrigados a nos afastar fisicamente, mas
insistíamos em nos encontrar em telas pequenas, em mensagens apressadas, em
ligações que caíam no meio de algo importante. Havia saudade até no silêncio da
conexão instável.
Te amei nos dias
de protesto, quando sua voz ganhava força, quando suas ideias viravam
bandeiras. Eu te via lutar, e isso me fazia te amar ainda mais - mesmo quando
eu sabia que, no meio dessa luta, talvez não houvesse espaço para nós dois.
Te amei também
nos momentos de pausa. Nos dias em que o mundo chorava perdas coletivas, quando
a fragilidade da vida deixava tudo mais urgente e mais pesado. E, curiosamente,
mais verdadeiro.
E te amei nas
pequenas vitórias: um sorriso inesperado, uma conquista simples, um instante de
paz em meio ao caos. Tudo ao nosso redor parecia amplificar o que sentíamos. Mas
o amor, assim como o desencontro, não é feito só de beleza.
Ele também
cansa. Também exige. Também quebra. Amei você quando estávamos juntos - mas
também quando estávamos distantes. Quando a ausência pesava mais do que a
presença, quando o silêncio dizia o que nenhum de nós tinha coragem de admitir.
Amei você mesmo
quando o mundo nos puxava para direções opostas.
Quando escolhas precisavam ser feitas. Quando crescer significava,
inevitavelmente, se afastar.
E talvez o nosso
maior desencontro tenha sido esse: descobrir que o amor, por mais intenso que
seja, nem sempre é suficiente. Éramos como duas estrelas brilhando com força -
mas em constelações diferentes. Visíveis um para o outro, mas impossíveis de
tocar.
Ainda assim,
esse amor… não foi em vão. Ele foi um farol. Me ensinou a sentir de um jeito
que eu nunca tinha sentido antes. Me ensinou que amar não é sobre certezas, mas
sobre coragem. Que existe beleza até nas contradições, até no que não dá certo.
Amei você. E
talvez ainda ame. Mas agora de outro lugar - mais silencioso, mais distante. Um
lugar onde a memória guarda o que o tempo não conseguiu sustentar.
E, de algum modo, é ali - nesse espaço invisível - que, finalmente, corpo e alma se encontram. Sem urgência. Sem medo. Sem desencontro.


























