Depois
do que vivenciamos com a pandemia de COVID-19, já não me surpreendo com quase
nada. A experiência coletiva daqueles anos deixou uma marca profunda:
aprendemos, talvez da forma mais dura possível, que o impensável pode se tornar
regra da noite para o dia - e que a exceção, quando bem administrada pelo medo,
tende a se eternizar.
Lembra bem? Em 2020 e 2021, sem máscara você
simplesmente não entrava em lugar nenhum. Supermercados, lojas, ônibus, metrô,
aviões. Era uma exigência quase universal.
No
Brasil - especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e nas capitais do Nordeste -,
na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália. Quem descumpria era barrado na
porta, constrangido em público ou multado.
A
normalidade passou a ser policiada, e a obediência, celebrada como virtude
cívica. O discurso era sempre o mesmo: “é temporário”, “é para o seu bem”, “é
por segurança”. E funcionou. Aceitamos.
Hoje, o cenário muda de forma, mas não de
essência. Amanhã - ou melhor, já agora -, sem cartão, Pix ou aplicativo de pagamento,
torna-se cada vez mais difícil comprar qualquer coisa. O dinheiro em espécie
começa a ser recusado, tratado como inconveniente, suspeito ou arcaico.
A
Suécia e a Noruega praticamente eliminaram o papel-moeda. A China avança com o
yuan digital em várias cidades. No Brasil, o Banco Central prepara o DREX, a
moeda digital oficial, enquanto dezenas de países testam ou implantam as
chamadas CBDCs.
O passo seguinte já está desenhado: o dinheiro
programável. Não se trata apenas de pagar digitalmente, mas de permitir que o
próprio sistema determine onde, quando e para que você pode gastar. O controle
deixa de ser externo e passa a ser embutido no próprio meio de troca.
Ontem foi a máscara. Depois, a vacina. Você não
está vacinado? Então perde o direito de viajar, trabalhar, entrar em eventos,
restaurantes, academias, shoppings. Na União Europeia, o Certificado Digital
COVID tornou-se praticamente obrigatório para a vida cotidiana.
Na
Austrália e na Nova Zelândia, houve quarentenas forçadas em hotéis para não vacinados.
No Canadá, caminhoneiros bloquearam estradas em protesto contra os mandatos. No
Brasil, empresas e prefeituras passaram a exigir comprovantes para o retorno
presencial e o acesso a serviços públicos.
Nada disso começou como punição. Começou como “responsabilidade
coletiva”.
Agora, projeta-se o próximo degrau: a identidade
digital integrada. Num cenário mais extremo - mas já tecnicamente possível -,
chips implantados na mão ou dispositivos corporais conectados a sistemas
centrais poderiam se tornar a chave para tudo: transporte, pagamentos, saúde,
trabalho, acesso a espaços. Sem isso, você simplesmente deixa de existir no
sistema.
Na Suécia, mais de quatro mil pessoas já
implantaram voluntariamente microchips RFID na mão para abrir portas, acessar o
metrô, fazer pagamentos ou armazenar dados médicos.
Empresas
como a Biohax venderam a ideia como conveniência, modernidade, liberdade. E
talvez seja - enquanto é opcional. A História mostra que quase toda tecnologia
começa como escolha e termina como exigência.
Quando a recusa passa a ser vista como ameaça, o
indivíduo se transforma em pária. Um “inimigo do sistema”. Direitos humanos
deixam de ser direitos e passam a ser concessões condicionadas ao cumprimento
das regras digitais.
O
roteiro é conhecido: crise, medidas emergenciais “temporárias”, normalização,
aceitação passiva. Quando percebemos, a exceção já virou padrão.
O Fórum Econômico Mundial fala abertamente em
“Grande Reinicialização” e na necessidade de identidades digitais globais como
solução para o mundo pós-pandemia.
Coincidência
ou projeto, pouco importa. O fato concreto é que as liberdades cedidas em nome
da segurança raramente retornam intactas - quando retornam.
Talvez o maior erro seja achar que tudo isso
acontece de uma vez. Não acontece. Vem em parcelas pequenas, aceitáveis,
razoáveis. Vem embalado em boas intenções, gráficos coloridos e slogans
tranquilizadores.
Por isso, desligue a televisão por um instante. Afaste-se um pouco da bolha das redes sociais. Observe o padrão, não o discurso. Porquê da próxima vez, talvez não seja apenas uma restrição passageira. Talvez seja o novo normal - e, desta vez, sem volta.
























.jpg)

