No final do século XIX, as leis britânicas
sobre veículos a motor eram extremamente restritivas. Elas refletiam não apenas
o medo da população diante das novas “carruagens sem cavalos”, mas também a
pressão de interesses já estabelecidos, como as companhias ferroviárias e o
setor de transportes movidos a tração animal, que viam nos automóveis uma
ameaça econômica e social.
A mais
emblemática dessas normas foi a Locomotive Act
1865, popularmente conhecida como Red Flag Act.
A lei determinava que veículos motorizados não poderiam exceder 2 milhas por
hora (cerca de 3,2 km/h) em áreas urbanas e 4 milhas por hora (aproximadamente
6,4 km/h) em áreas rurais - velocidades inferiores às de uma carruagem puxada
por cavalos.
Além disso, cada
veículo deveria ser acompanhado por uma tripulação mínima de três pessoas: o
condutor, um foguista (no caso de máquinas a vapor) e, a figura mais simbólica
da legislação, um homem que deveria caminhar à frente do veículo, a pelo menos
60 jardas (cerca de 55 metros), segurando uma bandeira vermelha durante o dia -
ou uma lanterna vermelha à noite - para alertar pedestres e cavalos sobre o
suposto perigo iminente.
Na prática,
tratava-se de uma legislação que quase inviabilizava o uso dos automóveis nas
vias públicas. O progresso técnico avançava, mas a lei mantinha os veículos
presos a um ritmo do passado.
Foi nesse
contexto que, em 28 de janeiro de 1896, um engenheiro e comerciante de veículos
decidiu desafiar o sistema. Walter Arnold,
residente em East Peckham, no condado de Kent, era um dos pioneiros do comércio
automobilístico no Reino Unido.
Ele importava modelos da empresa alemã
fundada por Karl Benz e chegou a fabricar
sua própria versão do automóvel, conhecida como “Arnold-Benz”. Naquele frio dia
de inverno, Arnold saiu dirigindo seu veículo leve a gasolina, de um cilindro,
pelas ruas de Paddock Wood, próximo a Tunbridge Wells.
Ignorando completamente a exigência da
bandeira vermelha e a presença de três tripulantes, ele acelerou até a
“velocidade vertiginosa” de 8 milhas por hora (cerca de 13 km/h) - quatro vezes
o limite urbano permitido pela lei.
A ousadia não
passou despercebida. Um policial local avistou o automóvel e, determinado a
fazer cumprir a lei, montou em sua bicicleta e iniciou uma perseguição que se
estendeu por aproximadamente 5 milhas (cerca de 8 quilômetros) pelas estradas
da região.
A cena era, por si só, um símbolo da
transição histórica: um representante da ordem pedalando atrás de uma máquina
que anunciava o futuro. O agente finalmente conseguiu alcançar Arnold e o
deteve.
Dois dias depois, em 30 de janeiro de 1896,
ele compareceu ao tribunal, onde enfrentou quatro acusações: conduzir uma
“locomotiva” (termo então aplicado a qualquer veículo motorizado) sem cavalo em
via pública; operar o veículo com menos de três pessoas a bordo; exceder o
limite de velocidade de 2 mph; não exibir claramente o nome e endereço no
veículo, como exigia a regulamentação.
O juiz o
considerou culpado em todas as acusações. A multa total foi de £4 e 7 xelins -
valor que hoje corresponderia aproximadamente a algumas centenas de libras,
dependendo do critério de atualização.
Curiosamente, apenas 10 xelins referiam-se
especificamente ao excesso de velocidade; o restante dizia respeito às demais
infrações e às custas processuais. Algumas versões populares simplificam o
episódio dizendo que a multa foi de apenas “1 xelim” pela velocidade, mas os
registros indicam um valor maior no total.
O episódio
entrou para a história como o primeiro caso documentado de multa por excesso de
velocidade em um veículo automotor no mundo - certamente o primeiro no Reino
Unido.
Poucos meses
depois, em novembro de 1896, o Parlamento aprovou o Locomotive on Highways Act 1896, que revogou as
disposições mais restritivas da lei anterior.
A exigência da bandeira vermelha foi abolida,
e o limite de velocidade foi elevado para 14 milhas por hora (cerca de 23
km/h). A mudança foi celebrada por entusiastas do automóvel, a ponto de se
organizar a chamada “Emancipation Run”, um evento simbólico que marcou a
libertação dos carros das antigas amarras legais.
Muitos
historiadores consideram que o caso de Walter Arnold ajudou a expor o
anacronismo da legislação e a demonstrar que o automóvel não era apenas uma
curiosidade perigosa, mas uma tecnologia com potencial transformador.
O episódio simboliza o choque entre inovação
e conservadorismo - um padrão que se repete ao longo da história sempre que uma
nova invenção ameaça alterar estruturas consolidadas.
Assim, Walter Arnold deixou de ser apenas um infrator para tornar-se uma figura quase lendária: o primeiro multado por excesso de velocidade da história - e, ironicamente, um dos homens que contribuíram para acelerar a aceitação do automóvel e a modernização das leis de trânsito na Grã-Bretanha.


























