A Igreja de Madeira de Borgund: um tesouro vivo da Noruega medieval
Imagine uma estrutura de madeira que sobreviveu quase nove séculos nos
vales montanhosos da Noruega, enfrentando neve pesada, ventos fortes e o passar
do tempo. Essa é a Igreja de Madeira de Borgund (Borgund stavkirke), localizada
em Lærdal, no condado de Vestland.
Considerada a melhor preservada entre as 28 igrejas de estacas
(stavkirker) que ainda resistem no país, ela encanta visitantes do mundo
inteiro com sua silhueta única e sua história fascinante.
Construída por volta de 1180–1200 (com dendrocronologia indicando
madeira cortada no inverno de 1180–1181), a igreja representa o auge da
arquitetura medieval escandinava em madeira.
Ela pertence ao estilo Sogn e é do tipo de nave tripla, com um volume
central mais alto cercado por naves laterais menores, galerias externas e
telhados escalonados e inclinados, perfeitos para deixar a neve escorrer.
Suas paredes são formadas por postes verticais de madeira (os “staves”),
unidos por cavilhas e tarugos de madeira, sem pregos metálicos — uma técnica
que evita ferrugem e permite a estrutura “respirar”. Tudo era protegido por
alcatrão de pinheiro, que escurece a madeira e a defende contra insetos e
umidade.
Uma ponte entre o mundo viking e o cristianismo.
A Noruega viveu uma profunda transformação entre os séculos X e XI,
quando o cristianismo se espalhou pelo território, muitas vezes impulsionado
por reis como Olaf Tryggvason e Olaf Haraldsson (Santo Olaf). Aldeias inteiras
precisavam de lugares para celebrar a nova fé. Enquanto grande parte da Europa
erguia catedrais de pedra, os noruegueses optaram pela madeira — material que
dominavam como ninguém.
Essa escolha não foi por acaso. Durante séculos, os vikings
aperfeiçoaram técnicas de construção naval e de casas longas, utilizando madeira de
pinho com maestria. Os mesmos mestres carpinteiros que construíam dracares
(navios) com proas em forma de dragão agora erguiam igrejas.
O resultado? As stavkirker carregam ecos claros dessa herança: os
telhados em camadas lembram cascos invertidos, e as cabeças de dragão
esculpidas nas cumeeiras serviam, segundo a tradição, para afastar espíritos
malignos — um belo exemplo de como o paganismo nórdico se misturou sutilmente
ao cristianismo nas primeiras gerações convertidas.
No interior simples e acolhedor de Borgund, ainda é possível sentir essa
atmosfera. Há inscrições rúnicas medievais deixadas por visitantes (uma delas
assinada por um certo Þórir), um púlpito do século XVI e um altar com pintura
da crucificação de 1654. Fora, o único campanário de madeira independente que
sobrevive na Noruega completa o conjunto.
Sobrevivência e preservação
Durante séculos, Borgund foi o coração religioso da comunidade local.
Após a Reforma Protestante de 1536, passou a fazer parte da Igreja Luterana da
Noruega. No entanto, em 1868, com o crescimento da população e uma nova lei que
exigia igrejas maiores, uma nova igreja foi construída ao lado.
A antiga stavkirke foi então desconsagrada. Paradoxalmente, esse
“abandono” a salvou: em vez de ser demolida ou reformada excessivamente, foi
comprada em 1877 pela Sociedade para a Preservação dos Monumentos Antigos da
Noruega, que a transformou em museu e iniciou trabalhos de conservação
cuidadosos.
Hoje, Borgund continua impressionantemente fiel ao seu aspecto medieval.
Graças ao clima seco do vale e aos cuidados constantes, ela se mantém como um
dos melhores exemplos do gênero e serviu de modelo para a restauração de outras
igrejas.
Milhares de visitantes passam por lá todos os anos, caminhando pelo
mesmo chão que peregrinos medievais pisaram ao longo da antiga rota do Rei
(Kongevegen), perto do Sognefjord.
Mais do que uma construção, Borgund conta a história de um povo que
soube adaptar sua ancestral sabedoria em madeira a uma nova religião, criando
algo ao mesmo tempo robusto, belo e profundamente humano.
Parar diante dela é como viajar no tempo — um lembrete vivo de que, às
vezes, as coisas mais duradouras são feitas do material mais simples: madeira,
fé e habilidade transmitida de geração em geração.


























