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terça-feira, outubro 06, 2026

Yap – Ilha da Federados da Micronésia


 

Yap: a ilha onde pedras gigantes têm valor

Yap, é um dos quatro estados que formam os Estados Federados da Micronésia. Localizado na porção mais ocidental da federação, o arquipélago encontra-se aproximadamente entre Guam e Palau, no Oceano Pacífico.

O estado possui cerca de 102 km² de área e é formado principalmente pelas ilhas de Yap, Gagil-Tomil e Rumung. Sua capital é Colônia. Além dessas ilhas, o estado administra diversos atóis e ilhas exteriores, entre eles Ulithi, Woleai, Fais, Ifalik, Lamotrek, Ngulu e Sorol. Em 2010, Yap tinha aproximadamente 11.377 habitantes.

Os habitantes de Yap possuem uma longa tradição de navegação pelo Pacífico. Durante séculos, seus navegadores percorreram enormes distâncias em canoas, utilizando conhecimentos sofisticados de orientação pelas estrelas, correntes marítimas, ventos e ondas.

Essa tradição chegou aos tempos modernos, com embarcações de Yap navegando até as Ilhas Marianas e Palau. A ilha de Yap, conhecida tradicionalmente como Wa'ab, foi povoada por diferentes grupos de migrantes austronésios provenientes de regiões do Sudeste Asiático e do Pacífico.

A língua yap pertence à família das línguas austronésias e apresenta características próprias desenvolvidas ao longo de sua história. As demais ilhas do estado apresentam influências culturais distintas, incluindo fortes elementos polinésios.

Ulithi e Woleai, por exemplo, mantêm estreitas relações culturais e linguísticas com outras comunidades da região da Micronésia. Yap possui cinco línguas oficiais: inglês, yap, ulithiano, woleaiano e satawalês. A economia local baseia-se principalmente na agricultura de subsistência, na pesca e no turismo.

Mas talvez nada desperte tanta curiosidade sobre Yap quanto seu antigo sistema de troca baseado nas famosas pedras rai. Os rai são enormes discos de calcário, geralmente com um orifício no centro. Alguns possuem apenas alguns centímetros de diâmetro; outros podem atingir vários metros e pesar toneladas.

Essas pedras eram tradicionalmente produzidas em outras ilhas, especialmente em Palau, e transportadas por mar até Yap – uma tarefa extremamente perigosa e trabalhosa.

O valor de um rai não dependia apenas de seu tamanho. Sua importância também estava relacionada à história da pedra, à dificuldade de sua obtenção, ao esforço necessário para transportá-la e à reputação das pessoas envolvidas em sua aquisição.

O mais extraordinário é que a pedra nem sequer precisava ser fisicamente transportada para a propriedade mudar de mãos. A comunidade conhecia quem era o proprietário de cada peça, mesmo quando ela permanecia no mesmo lugar.

Assim, os rai funcionavam como uma espécie de registro público de riqueza e propriedade. Grandes pedras podiam representar valores muito elevados e ser utilizadas em importantes acordos, alianças e transações.

Pedras menores tinham usos mais cotidianos. Seu valor, portanto, não era simplesmente uma questão de tamanho, mas de tradição, história e reconhecimento social.

Esse sistema desafia nossa ideia moderna de dinheiro. Não havia cédulas, bancos ou moedas circulando de mão em mão. Havia confiança, memória coletiva e reconhecimento social. Hoje, os rai continuam espalhados pela ilha de Yap, principalmente em locais tradicionais e diante de casas comunitárias.

Yap permanece como um dos lugares mais fascinantes da Micronésia: uma sociedade insular onde antigas tradições de navegação, cultura e economia sobreviveram ao contato com o mundo moderno.

E talvez sua maior lição esteja justamente nas gigantescas pedras que permanecem imóveis: para que algo tenha valor, nem sempre é necessário que possa ser carregado. Às vezes, basta que todos reconheçam que aquilo pertence a alguém.

Um dia de Fúria - Filme



Um Dia de Fúria (Falling Down, 1993) é um drama policial dirigido por Joel Schumacher, com Michael Douglas no papel de William Foster e Robert Duvall como o sargento Martin Prendergast.

Foster é um homem divorciado e desempregado que, em um dia extremamente quente, abandona o carro preso no trânsito de Los Angeles e decide atravessar a cidade a pé para chegar à casa da ex-mulher a tempo do aniversário da filha.

O que começa como uma simples tentativa de chegar à festa transforma-se em uma jornada de violência. Ao longo do caminho, pequenos conflitos e situações cotidianas despertam a revolta de Foster, que passa a reagir de maneira cada vez mais agressiva contra comerciantes, integrantes de gangues, trabalhadores e outras pessoas que cruzam seu caminho.

Por trás de sua fúria estão a perda do emprego, o fracasso do casamento, a sensação de abandono e a incapacidade de aceitar que sua antiga vida chegou ao fim. Suas atitudes também funcionam como uma crítica às desigualdades sociais, à economia, ao consumismo e às contradições do chamado sonho americano.

Enquanto Foster mergulha progressivamente na violência, o sargento Prendergast, em seu último dia antes da aposentadoria, começa a investigar seus passos. O policial também carrega suas próprias frustrações, mas mantém uma percepção mais lúcida sobre os acontecimentos.

O título original, Falling Down – literalmente, “caindo” – relaciona-se ao colapso psicológico do protagonista e à conhecida canção infantil “London Bridge Is Falling Down”, que aparece como motivo recorrente ao longo da história.

O filme provocou discussões justamente por apresentar Foster de maneira ambígua: ao mesmo tempo em que revela as circunstâncias sociais e pessoais que contribuíram para sua revolta, também mostra que sua violência não pode ser justificada.

Como observou Kirk Douglas, pai de Michael Douglas, o personagem é simultaneamente vítima e responsável por seus atos, mas o filme não os legitima.

A produção também enfrentou controvérsias. Organizações coreano-americanas protestaram contra a representação de minorias, especialmente a do proprietário de uma mercearia coreana.

O filme ainda foi associado ao estereótipo do “homem branco furioso”, expressão que passou a ser frequentemente utilizada nas discussões sobre a obra.

Com orçamento de aproximadamente US$ 25 milhões, Um Dia de Fúria arrecadou cerca de US$ 40,9 milhões. A crítica recebeu o filme de maneira dividida, justamente por sua mistura de drama, violência, humor negro e crítica social.

Mais de três décadas depois, Um Dia de Fúria continua provocando uma pergunta incômoda: em que momento a frustração de um homem deixa de ser apenas sofrimento e se transforma em violência?

Talvez seja essa a força do filme: não apresentar um herói, mas um homem em processo de desintegração, enquanto revela uma sociedade na qual pequenas frustrações, quando acumuladas, podem transformar desespero em fúria.

segunda-feira, outubro 05, 2026

A Espera



 

A arte de não esperar

Ela estava sentada sozinha, olhando o movimento das folhas que o vento fazia dançar. Não parecia esperar ninguém. E talvez fosse justamente isso que chamasse a atenção: havia nela uma serenidade estranha, dessas que só aparecem após muitas tempestades.

– Está à espera de alguém? – perguntou-lhe uma voz.

Ela sorriu.

– Já não.

– Como assim?

– Já não espero ninguém. Estou apenas aqui, sentindo a brisa passar.

A resposta parecia simples, mas carregava dentro dela uma vida inteira.

– E a sua família?

Ela demorou alguns segundos antes de responder.

– Tenho família. Filhos, pessoas que amo. Mas deixei de esperá-los.

– Estão zangados com você?

– Não. Estamos bem. Talvez até melhor do que antes. Apenas aprendemos a viver sem a obrigação da presença.

O outro ficou em silêncio. Talvez porque certas respostas não sejam compreendidas de imediato. Algumas precisam envelhecer em nós antes de fazer sentido.

– Mas uma mãe não deve esperar pelos filhos?

Ela olhou novamente para as árvores.

– Durante muitos anos, pensei que sim. Acreditei que esperar fosse uma das formas mais bonitas de amar. Até descobrir que, às vezes, por trás da espera existe uma coisa que não queremos admitir: o desejo de possuir.

Possuir o tempo do outro. Possuir sua presença. Possuir suas escolhas. Foi então que compreendi uma verdade dolorosa: ninguém pertence a ninguém. Nem os filhos pertencem aos pais. Nem os pais pertencem aos filhos.

Somos apenas encontros nesta longa travessia chamada vida. Os filhos chegam pelas nossas mãos, mas não foram feitos para permanecer nelas. Um dia, inevitavelmente, abrem as próprias asas. Partem. Amam outras pessoas. Constroem outras casas. Escolhem outros caminhos.

E nós precisamos aprender a não transformar o amor em uma corrente. Porque amar também é saber abrir a mão. Talvez seja essa uma das mais difíceis lições da existência: compreender que aquilo que mais amamos precisa ser livre para ir embora.

– E quando eles não chegam? – perguntou o outro.

Ela sorriu outra vez.

– Então a vida acontece mesmo assim.

Essa talvez tenha sido a maior descoberta dos seus últimos anos. Quando deixou de esperar, começou a perceber. Percebeu o vento. O silêncio das manhãs. A luz entrando pela janela. O café tomado lentamente.

As lembranças que chegavam sem avisar. Percebeu que a vida não deixa de acontecer porque alguém não veio. Nós é que, muitas vezes, ficamos parados diante de uma porta que talvez nunca mais se abra. E envelhecemos esperando.

Esperamos uma ligação. Uma visita. Um abraço. Um pedido de desculpas. Um amor que partiu. Um filho que se afastou. Um passado que já não pode voltar. Esperamos tanto que, sem perceber, deixamos de viver o que ainda está diante de nós.

Ela havia aprendido, finalmente, que esperar demais pode ser uma maneira silenciosa de abandonar a própria vida. Não se tratava de deixar de amar. Ao contrário. Ela amava mais. Só havia aprendido a amar sem algemas. Porque o amor verdadeiro não diz:

“Fique porque preciso de você.”

Diz:

“Vá, se precisar ir. Seja feliz, mesmo que sua felicidade não aconteça ao meu lado.”

Isso dói. Dói profundamente. Mas há uma beleza quase inexplicável nesse tipo de amor: ele não exige posse para existir. É amor que não prende. Amor que não cobra. Amor que não transforma saudade em culpa. Amor que permite ao outro voar.

– E você nunca se sente sozinha? – perguntou a voz.

Ela respirou profundamente.

– Às vezes.

Olhou para o céu.

– Mas aprendi que solidão não é necessariamente estar sem alguém. Às vezes, a pior solidão é estar cercado de pessoas e continuar esperando que alguma delas preencha o vazio que existe em nós.

Fez uma pausa.

– Hoje, quando estou sozinha, não sinto que estou abandonada. Sinto apenas que estou comigo. E talvez isso seja uma das maiores conquistas de uma vida inteira: aprender a fazer companhia a si mesmo.

Ela levantou-se devagar. O vento continuava passando. Nenhum filho havia chegado. Nenhuma visita inesperada. Nenhuma promessa havia sido cumprida. E, ainda assim, havia paz.

Porque ela finalmente compreendera que algumas pessoas fazem parte da nossa história sem precisar estar presentes em todas as páginas. Algumas ficam. Outras partem. Algumas retornam. Outras permanecem apenas na memória. E tudo bem.

A vida não nos promete permanências. Promete apenas movimento. Por isso, naquela tarde, ela não esperava ninguém. Apenas sentia a brisa passar pelo rosto.

E talvez tenha sido naquele instante que descobriu a mais silenciosa das liberdades: quando deixamos de esperar que alguém volte, descobrimos que ainda temos asas para continuar voando.

O que existe do outro lado da foto?


 

Quando olhamos para uma fotografia, vemos apenas aquilo que ela conseguiu registrar. Um rosto, uma paisagem, uma casa, uma rua, um momento congelado no tempo. A imagem nos oferece uma certeza: aquilo que está diante dos nossos olhos realmente aconteceu. Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos:

O que existe do outro lado da foto?

Se virarmos a fotografia, talvez encontremos apenas uma superfície branca. Talvez alguém tenha escrito uma data, um nome ou uma pequena dedicatória. Mas existe algo muito maior que não está registrado nela: tudo aquilo que aconteceu depois daquele instante.

Imagine uma fotografia de uma família reunida em uma tarde qualquer. Todos estão sorrindo. Olhando para aquela imagem muitos anos depois, podemos imaginar que aquele foi um momento feliz.

Entretanto, não sabemos o que aconteceu na semana seguinte. Quem adoeceu? Quem partiu? Quem se apaixonou? Quem se separou? Quem mudou de cidade? Quem morreu? Quem continuou ao lado daqueles que aparecem na fotografia?

A fotografia congelou aquele instante, mas a vida não congelou. É justamente aí que a fotografia se transforma em uma metáfora extraordinária para a existência humana.

Nossa vida também é feita de fotografias. O passado é aquilo que conseguimos enxergar. Conhecemos os acontecimentos que já ocorreram porque podemos recordá-los. Sabemos onde estivemos, quem amamos, quais escolhas fizemos, quais erros cometemos e quais caminhos percorremos.

Mas o futuro é diferente. O futuro é o outro lado da fotografia que ainda não conseguimos virar. Podemos fazer planos, estabelecer metas, imaginar possibilidades e até acreditar que sabemos o que acontecerá amanhã. Mas, na verdade, estamos apenas projetando imagens dentro da nossa cabeça.

Um jovem termina a faculdade e imagina como será sua vida profissional. Ele pensa que trabalhará em determinada empresa, construirá uma carreira e terá estabilidade. Mas uma oportunidade inesperada pode levá-lo para outro caminho.

Uma pessoa conhece alguém e acredita ter encontrado o amor definitivo. Faz planos, imagina envelhecer ao lado daquela pessoa e constrói mentalmente um futuro inteiro. Entretanto, ninguém sabe o que existe depois daquele encontro. A relação pode durar cinquenta anos ou terminar alguns meses depois.

Alguém compra uma passagem e embarca para outra cidade, acreditando que está apenas fazendo uma viagem. Não sabe que, naquele lugar, poderá conhecer uma pessoa importante, receber uma proposta de trabalho, fazer uma amizade ou decidir que mudará completamente sua trajetória.

É assim que a vida funciona. Vivemos sempre diante de uma fotografia que ainda não foi revelada. Talvez seja por isso que o futuro provoque simultaneamente esperança e medo. Se pudéssemos enxergar o que existe após cada momento, talvez muitas de nossas decisões fossem diferentes.

Mas também perderíamos uma das características mais fascinantes da existência: a possibilidade da surpresa. O desconhecido pode trazer sofrimento, mas também pode trazer aquilo que jamais imaginamos.

Quantas vezes algo que parecia uma perda acabou abrindo uma porta? Quantas vezes uma despedida nos conduziu a um novo encontro? Quantas vezes um fracasso nos obrigou a seguir por um caminho que, mais tarde, descobrimos ser melhor?

É impossível saber. O ser humano gostaria de possuir uma espécie de legenda para o futuro. Gostaria que cada fotografia da vida viesse acompanhada de uma explicação: “Depois disso acontecerá aquilo.” Mas a vida não funciona assim.

Recebemos apenas a imagem do presente. O restante permanece oculto. Talvez essa seja uma das maiores limitações – e, ao mesmo tempo, uma das maiores belezas – da existência.

Não sabemos o que há depois da fotografia porque ainda estamos vivendo a história que um dia poderá ser lembrada por meio dela. Hoje, alguém pode estar vivendo um momento aparentemente insignificante.

Uma conversa, um café, uma caminhada, uma despedida, uma decisão. Talvez pareça apenas mais um instante entre milhares de outros. Mas pode não ser. Pode ser justamente o momento que, muitos anos depois, será lembrado como o começo de alguma coisa.

O problema é que só descobriremos isso quando o tempo tiver passado. Por isso, talvez devêssemos olhar para o presente com um pouco mais de atenção. Não porque controlemos o futuro, mas porque o futuro está sendo construído justamente pelos pequenos instantes que hoje parecem comuns.

Não sabemos o que existe do outro lado da fotografia. Não sabemos o que existe após uma escolha, de um encontro, de uma despedida ou de uma manhã aparentemente igual a tantas outras.

Não sabemos sequer quantas fotografias ainda serão acrescentadas ao nosso álbum. E talvez seja exatamente essa incerteza que torna a vida tão extraordinária.

O passado é a fotografia que já podemos contemplar. O presente é o instante em que a fotografia está sendo tirada. E o futuro é aquilo que ainda não podemos ver – porque a imagem ainda não existe.

Talvez viver seja justamente isso: continuar caminhando mesmo sem saber o que existe do outro lado da foto.

domingo, outubro 04, 2026

A Triste Morte de um Gladiador



A Arena Romana: quando a morte se transforma em espetáculo.

Os espectadores, hipercríticos e insaciáveis, não admitiam atos de covardia ou demonstrações de medo por parte dos gladiadores. Sob as ordens dos treinadores, eles eram mantidos em constante tensão, prontos para sentir o estalo do chicote e, em casos extremos, a ameaça dos ferros em brasa, utilizados para despertar o ímpeto adormecido dos combatentes.

Quando um gladiador era abatido, um grito brutal podia se elevar das arquibancadas lotadas. A multidão exigia sangue, enquanto alguns espectadores, tomados pela euforia, gritavam palavras como “Verbera!” – “castigue-o!” –, “Uri!” – “queime-o!” – e “Iugula!” – “degole-o!”.

Eram manifestações de torcedores e, muitas vezes, de apostadores que haviam colocado suas esperanças em determinado combatente. Do outro lado, os partidários do derrotado permaneciam em silêncio, apreensivos diante da possibilidade de perder a aposta ou testemunhar a morte de seu campeão.

O gladiador que já não conseguia continuar a luta podia se render e pedir misericórdia. Nesse momento, o árbitro intervinha entre os combatentes, separando-os com seu bastão. A partir dali, o destino do derrotado passava para as mãos do editor, o responsável pela organização dos jogos.

Muitas vezes, porém, a decisão era influenciada pela vontade do público. Milhares de espectadores manifestavam-se com gritos, gestos e sinais, enquanto todos aguardavam ansiosamente a decisão final.

Se o perdão fosse negado, a lâmina do vencedor penetrava no corpo indefeso do derrotado. O golpe final era rápido, brutal e definitivo, acompanhado pelo clamor da multidão, que podia exigir aos gritos: “Iugula! Iugula!”

O vencedor então erguia o escudo e a espada, tomado pelo êxtase da sobrevivência, enquanto recebia a aclamação da multidão. Depois da volta de honra pela arena, vinha a recompensa: a palma da vitória, os prêmios oferecidos pelo organizador e a passagem pela Porta Triunfalis, destinada aos vencedores.

Para aquele que sobrevivia, haveria ainda um período de descanso antes de retornar à arena. Para o derrotado, entretanto, começava outro destino. Se ainda estivesse vivo, o gladiador mortalmente ferido podia ser retirado da arena e conduzido ao spoliarium, onde os corpos eram despojados de seus pertences e preparados para a remoção.

Fontes antigas também descrevem a presença de funcionários associados a Mercúrio e Plutão, personagens ligados simbolicamente ao destino dos mortos. Esses auxiliares verificavam se o combatente estava realmente morto e, quando necessário, aplicavam golpes finais para pôr fim ao sofrimento.

Depois, o corpo era retirado pela Porta Libitinária, associada à saída dos mortos da arena. O espetáculo terminava. Para a multidão, restavam a euforia, os gritos e as apostas. Para o gladiador derrotado, restava apenas o silêncio.

Assim funcionava parte da lógica brutal dos jogos romanos: a morte de um homem podia transformar-se em entretenimento para milhares de outros.

O Fugitivo de Pompeia


 

Ele tentou fugir. Mas não conseguiu.

Entre os vestígios da erupção do Vesúvio, em Pompeia, foi encontrado o corpo de um homem de aproximadamente 30 anos que parece ter morrido enquanto tentava escapar da catástrofe que, no ano 79 d.C., destruiu a cidade romana.

O homem caminhava sobre uma espessa camada de lapilli – pequenas pedras e fragmentos vulcânicos lançados durante a erupção. Uma de suas pernas apresentava sinais de uma grave infecção, o que provavelmente dificultava seus movimentos e lhe causava intensa dor.

Mesmo assim, ele carregava consigo um pequeno saco com dinheiro: 20 denários de prata e dois asses de bronze. As moedas haviam sido cunhadas em diferentes períodos da história romana, algumas com até dois séculos de diferença entre si.

Entre elas estava um denário legionário de Marco Antônio, associado à sua XXI Legião – uma moeda que já tinha cerca de um século de existência quando Pompeia foi destruída.

Tudo indica que aquele homem estava tentando sobreviver. Em determinado momento, uma violenta onda de material vulcânico atingiu a região. Ele caiu de costas sobre o lapilli, ainda segurando o dinheiro junto ao peito.

Mas o golpe final veio de outra direção. Uma enorme pedra, provavelmente desprendida da estrutura de uma construção, atingiu sua cabeça e a parte superior do corpo. O bloco pesava cerca de 300 quilos e acabou esmagando o fugitivo, prendendo-o sobre a camada de material vulcânico.

Durante muito tempo, a imagem de Pompeia ficou associada às vítimas surpreendidas e mortas quase instantaneamente pelos fluxos piroclásticos – correntes extremamente quentes e rápidas de gases e partículas vulcânicas que atravessaram a cidade.

Mas o homem encontrado entre os escombros conta uma história um pouco diferente. Ele parece ter percebido o perigo. Tentou fugir.

Talvez tenha acreditado que ainda havia uma chance. Levou consigo aquilo que possuía de valor e avançou, apesar da perna ferida, enquanto o Vesúvio transformava Pompeia em um cenário de morte e destruição.

Não sabemos seu nome. Não sabemos para onde pretendia ir. Não sabemos se tinha família esperando por ele. Sabemos apenas que, há quase dois mil anos, um homem correu – ou tentou correr – para escapar de uma das maiores catástrofes da Antiguidade.

E acabou eternizado exatamente no instante em que sua fuga terminou. Pompeia não preservou apenas uma cidade. Preservou também o último esforço de um homem para sobreviver.

sábado, outubro 03, 2026

O vazio existencial - O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio



“O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio.” – Viktor Frankl

Há um vazio que não se vê. Não é a ausência de dinheiro, de conforto ou de pessoas ao redor. É algo mais profundo: a sensação de que a vida perdeu o sentido, de que os dias se repetem sem uma razão suficientemente forte para justificar a caminhada.

Viktor Frankl observou que o vazio existencial se tornou um fenômeno amplamente difundido na sociedade moderna. Para ele, isso pode ser compreendido a partir de duas grandes perdas sofridas pelo ser humano ao longo de sua história.

A primeira ocorreu quando o homem deixou para trás parte dos instintos que orientam naturalmente o comportamento dos animais. O animal possui, em grande medida, mecanismos instintivos que lhe indicam como agir e contribuem para sua sobrevivência.

O ser humano, porém, perdeu essa segurança. Não possui mais o paraíso dos instintos. Precisa escolher. Precisa decidir. Precisa assumir a responsabilidade por aquilo que faz. Mas houve uma segunda perda: o enfraquecimento das tradições.

Durante muito tempo, as tradições funcionaram como referências, indicando ao indivíduo como viver, o que valorizar e quais caminhos seguir. Entretanto, essas referências foram perdendo força.

E então surge o paradoxo: nenhum instinto diz ao homem o que fazer e nenhuma tradição lhe diz claramente o que deveria fazer. Às vezes, ele sequer sabe o que realmente deseja.

Por isso, pode acabar simplesmente fazendo aquilo que os outros fazem – o conformismo – ou aquilo que outros querem que ele faça. É nesse cenário que aparece o vazio existencial.

E, segundo Frankl, ele se manifesta principalmente através do tédio. Schopenhauer já havia observado que a existência humana parecia condenada a oscilar entre dois extremos: a angústia e o tédio. Hoje, o tédio pode assumir uma dimensão ainda mais preocupante.

A sociedade moderna oferece ao indivíduo uma quantidade crescente de possibilidades, entretenimento e tempo livre. A tecnologia e a automação diminuem progressivamente a necessidade de determinadas formas de trabalho. Mas surge uma pergunta que nem sempre sabemos responder: o que faremos com o nosso tempo quando já não precisarmos gastá-lo apenas trabalhando?

Para algumas pessoas, o problema não será encontrar tempo.

Será encontrar um motivo para preenchê-lo. Frankl chama atenção para aquilo que denominou de “neurose dominical”: aquela espécie de vazio ou depressão que pode surgir quando termina a correria da semana e o indivíduo finalmente fica sozinho diante de si mesmo.

Durante os dias úteis, há compromissos, horários, tarefas, reuniões, obrigações e problemas para resolver. Então chega o domingo. O silêncio aparece. E, quando o barulho desaparece, algumas pessoas descobrem aquilo que passaram a semana inteira tentando não perceber: há um vazio dentro delas.

É nesse ponto que a reflexão de Frankl ultrapassa a psicologia e alcança uma questão essencial da existência humana. Depressão, agressividade, vícios e outros comportamentos podem, em determinados casos, estar relacionados a uma profunda frustração existencial.

O mesmo pode acontecer com pessoas que chegam à aposentadoria e, de repente, perdem a função que durante décadas organizou suas vidas. Não é necessariamente a falta do trabalho que dói.

É a sensação de que, sem o trabalho, não resta mais nada que dê sentido aos dias. O vazio, entretanto, aparece raramente com seu verdadeiro rosto. Ele pode esconder-se atrás do dinheiro. Atrás da busca incessante por poder. Atrás da necessidade de reconhecimento. Atrás do consumo. Atrás do prazer. Atrás de relações usadas apenas como distração.

Quando a vontade de encontrar um sentido para a existência é frustrada, o indivíduo pode tentar substituí-la por outras vontades. Alguns buscam poder. Outros buscam dinheiro. Outros procuram prazer.

E, em determinadas situações, até a sexualidade pode transformar-se em uma tentativa de preencher aquilo que, na verdade, não é uma carência do corpo, mas uma carência de significado.

Talvez uma das maiores tragédias do homem moderno seja justamente esta: ele aprendeu a conquistar quase tudo, mas nem sempre aprendeu para que deseja conquistar.

Pode ter conforto e continuar vazio. Pode estar cercado de pessoas e sentir-se sozinho. Pode possuir liberdade e não saber o que fazer com ela. Pode ter tempo e desejar desesperadamente que ele passe.

O problema, portanto, talvez não seja simplesmente a ausência de coisas. Talvez seja a ausência de sentido. E é justamente aí que a pergunta de Frankl continua perturbadoramente atual: quando já não sabemos por que viver, de que adianta saber apenas como viver?

O Fator Deus – José Saramago




Em algum lugar da Índia, uma fila de peças de artilharia está preparada. Atados à boca dos canhões, homens aguardam a ordem de fogo. Eram rebeldes.

Em algum lugar de Angola, soldados portugueses seguram um homem negro enquanto outro, com um machete, prepara-se para decapitá-lo. Em outra fotografia, sua cabeça aparece espetada em um pau, enquanto os soldados sorriem. Era um guerrilheiro.

Em algum lugar de Israel, soldados imobilizam um palestino enquanto outro lhe agride violentamente a mão. Ele havia atirado pedras.

Então chegamos a Nova York.

Em 11 de setembro de 2001, dois aviões comerciais sequestrados por terroristas foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Um terceiro avião atingiu o Pentágono. Milhares de pessoas morreram.

Nas fotografias de guerras e torturas, o horror aparece diante dos nossos olhos. Em Nova York, porém, tudo pareceu inicialmente irreal, como uma cena de cinema. Depois, quando pessoas começaram a saltar das torres em busca de uma morte que lhes parecia inevitável, compreendemos que aquilo não era ficção. O horror estava ali.

E não era novo. Já o havíamos visto em Ruanda, no Vietnã, em Hiroshima e Nagasaki, nos campos de extermínio nazistas, nas execuções, nos massacres e em tantas outras tragédias provocadas pelo próprio ser humano.

De alguma maneira, sempre morreremos. Mas já se perdeu a conta de quantos seres humanos foram mortos das maneiras mais cruéis que outros seres humanos conseguiram imaginar.

Uma dessas formas, talvez a mais absurda, é matar em nome de Deus. Ao longo da história, religiões foram associadas a perseguições, intolerâncias, guerras e violências.

A Inquisição é um dos exemplos mais conhecidos de como religião e poder político puderam unir-se contra a liberdade de consciência e contra o direito de alguém dizer não, discordar ou escolher outro caminho.

Nietzsche afirmou que, se Deus não existisse, tudo seria permitido. Eu diria o contrário: muitas atrocidades foram permitidas e justificadas precisamente em nome de Deus.

Contudo, Deus está inocente. Inocente como aquilo que não existe – segundo a visão de Saramago – e que, portanto, não pode ser responsabilizado pelos crimes cometidos em seu nome.

Os deuses, penso, existem no cérebro humano. Prosperam ou desaparecem dentro do mesmo universo que os criou. Mas o “fator Deus” permanece presente na vida humana como se fosse o verdadeiro senhor dela.

Não é necessariamente Deus, mas o “fator Deus”, que transforma crenças em certezas, alimenta intolerâncias e faz com que homens se sintam autorizados a impor aos outros aquilo em que acreditam.

Dir-se-á que um Deus semeou ventos que outro respondeu com tempestades. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa. Foi o “fator Deus”: essa força humana que pode transformar uma crença em instrumento de poder, violência e intolerância.

Ao leitor crente, não peço que se torne ateu. Peço apenas que reflita. Se existe um Deus, talvez exista apenas um, independentemente do nome que cada religião lhe atribuiu. E, na relação entre o ser humano e esse Deus, talvez o nome seja menos importante do que aquilo que fazemos uns aos outros em seu nome.

Por isso, é preciso desconfiar do “fator Deus”.

Porque existem muitos inimigos da liberdade humana, mas poucos são tão persistentes e corrosivos quanto aquele que transforma uma convicção pessoal em verdade absoluta e, depois, utiliza essa verdade para justificar a intolerância.

⟿

Baseado no texto de José de Sousa Saramago, escritor, romancista, poeta, jornalista, dramaturgo e ensaísta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. - 16 de novembro de 1922 – 18 de junho de 2010.

sexta-feira, outubro 02, 2026

Kamunyak: A Leoa que Desafiou o Próprio Instinto


 

A história de Kamunyak é real, e há registros contemporâneos de sua estranha relação com filhotes de órix na Reserva Nacional de Samburu, no Quênia.

O primeiro episódio ocorreu no fim de dezembro de 2001; a história ganhou repercussão internacional em janeiro de 2002. Uma reportagem da African Wildlife Foundation, publicada em 7 de janeiro de 2002, registra que a leoa passou cerca de duas semanas acompanhando um filhote de órix que normalmente seria uma de suas presas.

O que realmente aconteceu

Kamunyak era uma jovem leoa que passou a adotar filhotes de órix-de-Beisa (Oryx gazella beisa). O comportamento era extraordinário porque o órix é um animal que pode fazer parte da dieta dos leões.

Ainda assim, em vez de matar os filhotes, Kamunyak permanecia ao lado deles, protegia-os e, em determinados episódios, chegou a permitir que suas mães biológicas se aproximassem para amamentá-los.

O primeiro filhote permaneceu com ela durante aproximadamente 15-16 dias. Durante esse período, segundo o relato da naturalista Saba Douglas-Hamilton, Kamunyak deixou praticamente de caçar e ficou extremamente magra.

O episódio terminou quando um leão macho encontrou o filhote enquanto Kamunyak estava junto ao rio e o matou. Depois disso, ela voltou a procurar filhotes de órix.

Há registros contemporâneos de pelo menos cinco adoções entre dezembro de 2001 e outubro de 2002. Algumas fontes posteriores relatam uma sexta adoção, mas esse sexto episódio é menos bem documentado.

O segundo filhote, adotado em 14 de fevereiro de 2002, recebeu o nome de Valentine. Como estava enfraquecido e arriscava morrer, os funcionários do Kenya Wildlife Service decidiram retirá-lo da leoa e encaminhá-lo para cuidados humanos.

Outro filhote, adotado durante o período da Páscoa, chegou a ser deixado pela própria mãe para mamar, enquanto Kamunyak permanecia por perto. Há também registros de outras adoções posteriores.

E o nome “Kamunyak”?

Sim. O nome é geralmente traduzido como “a abençoada” ou “a abençoada/miraculosa”, embora as fontes apresentem variações na grafia: Kamunyak e Kamuniak. O nome foi dado por habitantes locais diante daquele comportamento incomum.

Mas existe uma explicação científica?

Não é correto dizer que “ninguém consegue explicar até hoje” como se houvesse uma investigação científica conclusiva sobre Kamunyak. O que as fontes mostram é que o comportamento deixou especialistas perplexos, que várias hipóteses foram levantadas.

Entre as possibilidades discutidas estavam: um forte impulso maternal; uma possível gestação psicológica ou alteração hormonal; a aparência e o comportamento do filhote, que poderiam ter desencadeado um comportamento de cuidado; a possibilidade de o primeiro contato ter ocorrido quando o órix era recém-nascido e ainda carregava odores associados ao nascimento.

Nenhuma dessas hipóteses foi demonstrada como a explicação definitiva. E, conforme uma fonte histórica recente sobre Samburu, não há um estudo científico publicado especificamente sobre Kamunyak que permita afirmar uma causa comprovada.

Há ainda um detalhe particularmente interessante: Kamunyak não simplesmente “esqueceu que o órix era sua presa”. Em alguns episódios, ela demonstrou um comportamento ativo de proteção, inclusive impedindo outros predadores de se aproximarem.

Ela acabou se tornando uma das histórias mais extraordinárias registradas na fauna de Samburu. Foi inclusive filmada por Saba e Dudu Douglas-Hamilton no documentário Heart of a Lioness.

Carl Sagan



Carl Sagan: o homem que ensinou a humanidade a olhar para o Cosmos

Carl Edward Sagan foi um dos mais conhecidos divulgadores científicos do século XX. Astrônomo, cientista, professor e escritor, dedicou grande parte de sua vida ao estudo do Universo e, sobretudo, à tarefa de aproximar a ciência das pessoas comuns.

Autor de centenas de trabalhos científicos e de mais de 20 livros, entre obras de divulgação científica e ficção, Sagan tornou-se uma das figuras mais influentes da ciência popular de seu tempo.

Sua capacidade de explicar questões complexas com clareza, poesia e encantamento fez com que milhões de pessoas passassem a olhar para o céu com uma curiosidade diferente.

Nascido em Nova York, em 9 de novembro de 1934, Carl Sagan era filho de Samuel Sagan, trabalhador do setor têxtil, e Rachel Molly Gruber Sagan, dona de casa. Sua família tinha origem judaica e ascendência do Leste Europeu.

Desde criança, Sagan demonstrava uma curiosidade extraordinária. Aos cinco anos, visitou uma biblioteca pública pela primeira vez e descobriu os livros sobre as estrelas. A partir daquele momento, o Universo parece ter se tornado uma espécie de chamado permanente em sua vida.

Estudou na Universidade de Chicago, onde obteve sua formação em Ciências e posteriormente realizou estudos de pós-graduação em Física e Astronomia. Concluiu o doutorado em Astronomia e Astrofísica em 1960.

Depois, trabalhou em instituições científicas importantes, incluindo o Observatório Astrofísico Smithsonian, em Cambridge, Massachusetts, e lecionou na Universidade Harvard. Em 1968, ingressou na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, onde desenvolveu grande parte de sua carreira acadêmica.

Foi em Cornell que Sagan se destacou ainda mais pelos estudos sobre planetas e pela chamada exobiologia – área que investigava as possibilidades de existência de vida fora da Terra.

Sua relação com o programa espacial norte-americano começou ainda na década de 1950. Ao longo dos anos, colaborou com projetos da NASA e participou de importantes discussões relacionadas à exploração do Sistema Solar.

Sagan esteve envolvido na preparação científica dos astronautas da missão Apollo 11, que levou os primeiros seres humanos à Lua, em 1969. Também participou de estudos relacionados às missões Mariner, Viking, Voyager e outras sondas destinadas a investigar os planetas e luas do Sistema Solar.

Uma de suas contribuições mais marcantes foi a participação na criação das mensagens destinadas a possíveis civilizações extraterrestres. Em 1972, a sonda Pioneer 10 levou ao espaço uma placa contendo informações simbólicas sobre a humanidade e sobre a localização da Terra.

Posteriormente, Sagan também esteve profundamente envolvido na elaboração do famoso Golden Record, o disco de ouro colocado nas sondas Voyager, lançado em 1977.

Sagan ajudou a ampliar o interesse científico pela possibilidade de vida fora da Terra. Estudou as atmosferas de diferentes planetas e defendeu a possibilidade de que algumas luas do Sistema Solar pudessem abrigar ambientes favoráveis à vida.

Entre suas contribuições científicas, destacou-se também o estudo de Titã, lua de Saturno, e de Europa, uma das luas de Júpiter. Sagan foi um dos cientistas que levantaram hipóteses sobre a possibilidade de existência de ambientes líquidos e condições potencialmente favoráveis à vida nesses mundos – ideias que posteriormente seriam aprofundadas por outras pesquisas.

Mas talvez seu maior legado não esteja apenas nas descobertas científicas. Sagan possuía um talento raro para transformar ciência em narrativa. Conseguia falar sobre bilhões de estrelas, bilhões de anos e distâncias inimagináveis sem afastar o público. Pelo contrário: fazia com que as pessoas sentissem que também pertenciam àquela imensidão.

Em 1980, a série de televisão Cosmos: A Personal Voyage, apresentada e escrita por Sagan em parceria com Ann Druyan e Steven Soter, tornou-se um fenômeno mundial. A produção levou conceitos de astronomia, evolução, história e ciência para milhões de espectadores e recebeu diversos prêmios.

Seu livro Os Dragões do Éden, publicado em 1977, recebeu o Prêmio Pulitzer de Não Ficção em 1978. Já seu romance Contato, publicado em 1985, transformou-se em filme em 1997, estrelado por Jodie Foster.

Sagan também foi um defensor do pensamento crítico e da investigação baseada em evidências. Questionava crenças não sustentadas por provas e alertava para os perigos da pseudociência, da superstição e da aceitação de afirmações extraordinárias sem evidências proporcionais.

Para ele, questionar não significava destruir o encantamento diante do Universo. Era justamente o contrário. A ciência, em sua visão, poderia aumentar nossa capacidade de admirar a realidade.

Em seus últimos anos, Sagan enfrentou uma grave doença. Foi diagnosticado com mielodisplasia, uma enfermidade que compromete a produção das células sanguíneas e que pode evoluir para leucemia. Passou por tratamentos intensivos e recebeu transplantes de medula óssea, inclusive de sua irmã.

Mesmo debilitado, continuou trabalhando e escrevendo. Carl Sagan faleceu em 20 de dezembro de 1996, aos 62 anos, vítima de pneumonia decorrente das complicações de sua doença, no Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, Washington.

Seu livro Bilhões e Bilhões foi publicado postumamente, em 1997, com organização de sua esposa e colaboradora científica, Ann Druyan. Sagan deixou muito mais do que livros, pesquisas e programas de televisão. Deixou uma maneira de pensar.

Ensinou que o conhecimento não precisa matar o mistério. Fazer perguntas não diminui o encanto do mundo. E que, diante da imensidão do Cosmos, talvez uma das maiores conquistas humanas seja simplesmente reconhecer o quanto ainda temos para descobrir.

Quando olhamos para o céu noturno, vemos apenas uma pequena parte de uma realidade quase inimaginável. Carl Sagan passou a vida tentando nos ensinar a olhar para ela.

E talvez esse seja o seu maior legado: lembrar à humanidade que somos pequenos diante do Universo – mas conseguimos compreendê-lo. “Somos feitos de matéria estelar.” E, de alguma maneira, somos também o Universo tentando compreender a si mesmo.



quinta-feira, outubro 01, 2026

Jesse Reno: o inventor da escada rolante


 

Hoje, subir ou descer uma escada rolante é algo tão comum que quase ninguém se presta a pensar em como surgiu essa engenhosa máquina capaz de transportar pessoas entre diferentes níveis.

Uma das figuras fundamentais nessa história foi Jesse Wilford Reno, engenheiro norte-americano que, ainda no final do século XIX, imaginou uma maneira completamente diferente de transportar pessoas: uma espécie de elevador inclinado, capaz de conduzi-las para cima ou para baixo sem que precisassem subir degrau por degrau.

Em 1891, Reno patenteou seu projeto, denominado inclined elevator – ou “elevador inclinado”. O equipamento não possuía os degraus móveis das escadas rolantes atuais.

Tratava-se de uma superfície inclinada e contínua, dotada de uma espécie de plataforma móvel sobre a qual as pessoas permaneciam durante o deslocamento.

Alguns anos depois, em 1895, uma versão de seu invento foi apresentada ao público em Coney Island, Nova York. Instalada no parque de diversões Old Iron Pier, a máquina chamou a atenção dos visitantes e demonstrou que era possível transportar pessoas mecanicamente por uma superfície inclinada.

Era apenas o começo.

A tecnologia ainda estava muito distante da escada rolante moderna. Outros inventores contribuíram para seu desenvolvimento, entre eles Charles Seeberger, que aperfeiçoou o conceito de escada móvel com degraus e trabalhou posteriormente com a Otis Elevator Company.

A evolução da tecnologia foi resultado, portanto, de diferentes projetos, patentes e aperfeiçoamentos realizados ao longo dos anos. A invenção de Reno não surgiu pronta, nem se transformou imediatamente em um equipamento presente no cotidiano.

Como acontece com muitas grandes invenções, foi sendo modificada até adquirir a forma que conhecemos hoje. Jesse Reno morreu em 1947, aos 82 anos, mas sua contribuição permaneceu registrada na história da engenharia.

Hoje, quando entramos em um shopping, aeroporto, estação de metrô ou loja e simplesmente colocamos os pés sobre uma escada que começa a se mover, raramente pensamos na engenhosidade existente por trás daquele gesto tão banal.

A escada rolante representa uma ideia aparentemente simples, mas revolucionária para sua época: e se fosse possível transformar uma escada em uma máquina capaz de transportar pessoas?

A resposta começou a surgir no final do século XIX, quando inventores como Jesse Reno imaginaram maneiras de fazer aquilo que parecia improvável: fazer uma escada se mover.

E, às vezes, é justamente assim que nascem as grandes invenções: não de uma solução perfeita, mas de uma pergunta que alguém teve coragem de fazer.

Joseph Boxhall



Joseph Boxhall: O homem que voltou do Titanic

Naquela noite, o oceano parecia infinito. O Titanic avançava silenciosamente pelo Atlântico Norte, carregando mais de duas mil pessoas e a confiança de uma época que acreditava ter construído um navio quase impossível de destruir.

Na ponte de comando estava Joseph Groves Boxhall. Tinha apenas 28 anos. Era o quarto oficial do Titanic e vinha de uma família onde o mar fazia parte da própria história.

Desde os 15 anos, Boxhall conhecia a vida a bordo de navios. Havia viajado pelo mundo, aprendido a navegar e construído uma carreira respeitável na marinha mercante. Mas naquela madrugada ele descobriria que nenhum treinamento seria suficiente para prepará-lo para o que estava prestes a acontecer.

14 de abril de 1912.

Pouco antes da meia-noite, o vigia avistou algo no horizonte. Um iceberg. O alerta foi dado. As ordens foram transmitidas. O navio tentou desviar. Mas era tarde demais. Às 23h40, aproximadamente, o casco do Titanic encontrou o gelo. O impacto não pareceu, naquele primeiro instante, anunciar uma catástrofe. Mas, abaixo da linha d'água, o destino do navio já estava selado.

Boxhall recebeu a missão de verificar os danos. Percorreu áreas do navio e começou a compreender que aquilo não era apenas uma colisão. Era uma emergência.

Enquanto passageiros ainda tentavam compreender o que estava acontecendo, a tripulação trabalhava contra o relógio. Boxhall participou dos esforços para avaliar a situação e recebeu a responsabilidade de lançar foguetes de sinalização, numa tentativa desesperada de chamar a atenção de algum navio que pudesse estar próximo.

No horizonte, porém, não havia resposta. O Titanic continuava afundando. Então veio uma das decisões que marcariam para sempre a vida daquele jovem oficial. Boxhall recebeu o comando do bote salva-vidas nº 2.

O bote foi baixado ao mar. Atrás dele ficava o Titanic. À frente, apenas a escuridão do Atlântico. Poucas horas depois, o navio desapareceria sob as águas.

Na manhã de 15 de abril, o RMS Carpathia chegou à região e começou a recolher os sobreviventes. Boxhall estava vivo. Mas o homem que entrou naquele bote não era mais o mesmo que havia embarcado no Titanic alguns dias antes.

Ele havia testemunhado uma das maiores tragédias marítimas da história. E teria de conviver com essa lembrança pelo resto da vida. Depois do desastre, Boxhall prestou depoimento nos inquéritos realizados nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Continuou trabalhando no mar e, durante a Primeira Guerra Mundial, chegou a comandar um navio. Mas o Titanic nunca deixou completamente sua história. Durante muitos anos, evitou falar sobre a tragédia.

Décadas mais tarde, entretanto, passou a colaborar com historiadores e participou como consultor na produção de *A Night to Remember*, filme de 1958 que retratou o naufrágio.

Joseph Groves Boxhall faleceu em 1967, aos 83 anos. Mas existe um detalhe particularmente simbólico em sua história. Suas cinzas foram espalhadas no Atlântico, na região do naufrágio do Titanic, conforme sua vontade.

Depois de mais de meio século, ele voltou ao lugar onde sua vida havia mudado para sempre. Naquela noite de 1912, Boxhall deixou o Titanic dentro de um pequeno bote. Em 1967, retornou ao oceano como cinzas.

O navio desapareceu nas profundezas. Mas algumas histórias nunca afundam. A de Joseph Boxhall é uma delas.