Em 1928, Maurice Ravel já era um compositor consagrado. Aos 53 anos,
havia conquistado reconhecimento internacional, mas sua relação com a
composição estava longe de ser simples. Foi nesse momento que surgiu um convite
que acabaria dando origem a uma das obras mais famosas da música erudita do
século XX.
A responsável foi Ida Rubinstein, célebre bailarina russa e antiga
integrante dos Ballets Russes. Ela queria montar um espetáculo de caráter
espanhol para sua companhia e encomendou a Ravel um novo balé. A estreia estava
prevista para novembro daquele mesmo ano.
Inicialmente, porém, Ravel não pretendia escrever o Boléro. A ideia
original era que ele simplesmente orquestrasse algumas peças da suíte Iberia,
do compositor espanhol Isaac Albéniz. O projeto parecia relativamente simples:
Ravel utilizaria a música de Albéniz e exploraria sua extraordinária capacidade
de orquestração.
Mas surgiu um problema inesperado. Os direitos de utilização da obra de
Albéniz estavam comprometidos por acordos anteriores, relacionados ao maestro
espanhol Enrique Fernández Arbós. Ravel percebeu que não poderia realizar o
projeto da maneira planejada.
E foi justamente esse obstáculo que mudou a história da música. Em vez
de abandonar a encomenda, Ravel decidiu criar uma obra completamente nova. O
resultado foi surpreendente: uma composição construída praticamente sobre um
único ritmo e dois temas melódicos, repetidos continuamente enquanto diferentes
instrumentos assumem a melodia.
A música cresce pouco a pouco, principalmente por meio da orquestração e
do crescendo, até chegar ao clímax final. Ravel escreveu a obra entre julho e
outubro de 1928. O que deveria ser inicialmente um projeto relacionado ao fandango
acabou transformando-se no Boléro, inspirado em uma dança tradicional espanhola.
E há um detalhe extraordinário: Ravel transformou a repetição em uma
experiência musical. O ritmo permanece praticamente inalterado. A melodia volta
inúmeras vezes. O que muda é a maneira como ela é apresentada: começa
discretamente e passa de instrumento para instrumento. Aos poucos, novos
timbres entram em cena, aumentando a tensão e a expectativa.
É como se Ravel perguntasse ao ouvinte: quanto tempo é possível ouvir a
mesma coisa antes que ela se transforme em algo completamente diferente?
A estreia
O Boléro foi apresentado pela primeira vez em 22 de novembro de
1928, na Ópera de Paris, com coreografia de Bronislava Nijinska, cenários de Alexandre
Benois e Ida Rubinstein como protagonista. A obra causou forte impressão e
rapidamente alcançou grande repercussão.
A história do balé era simples e sensual: uma dançarina espanhola começa
a dançar sobre uma mesa em uma taberna, enquanto os homens ao redor observam. A
intensidade da dança cresce juntamente com a música até o desfecho.
Ravel realmente não gostava do Boléro?
Aqui entramos em uma das partes mais interessantes da história. Ravel
tinha consciência de que havia criado algo extremamente diferente. O Boléro
não possui a complexidade harmônica e temática que encontramos em muitas de
suas outras obras.
Sua força está justamente na simplicidade, na repetição e na
extraordinária exploração dos timbres da orquestra. Há relatos de que Ravel
teria chamado a obra de algo semelhante a “dezessete minutos de orquestra sem
música”, além de afirmar, ironicamente, que havia composto apenas uma
obra-prima – o Boléro –, mas que ela seria “vazia de música”.
Essas declarações são frequentemente citadas, embora devam ser tratadas
com algum cuidado, porque fazem parte também da mitologia construída em torno
do compositor.
Outra história famosa diz que Ravel teria apresentado o tema a um amigo,
tocando-o com apenas um dedo ao piano, explicando que pretendia repetir aquele
pequeno motivo continuamente. A própria tradição em torno desse episódio é
discutida por estudiosos e não deve ser apresentada como fato absolutamente
comprovado.
O mais curioso de tudo
O que torna a história do Bolero tão fascinante é justamente o
paradoxo. Ravel criou uma das obras mais reconhecíveis da história da música a
partir de uma ideia extremamente simples.
Não há uma sucessão de grandes temas. Não existe uma narrativa musical
complexa. O ritmo permanece praticamente imóvel. A estrutura parece quase
obsessiva. E, mesmo assim, funciona.
A cada repetição, o ouvido percebe algo diferente. Um novo instrumento
surge. Uma nova combinação de timbres aparece. A dinâmica aumenta. A
expectativa cresce. O que parece repetição é, na verdade, transformação por meio do timbre e da intensidade.
Por isso, talvez seja mais justo dizer que Ravel não escreveu uma música
“simples”. Ele escreveu uma obra deliberadamente minimalista em sua estrutura e
extraordinariamente sofisticada em sua orquestração.
E existe uma ironia histórica maravilhosa nisso tudo: o projeto original
fracassou porque Ravel não conseguiu utilizar a música de Albéniz; desse
fracasso nasceu uma composição que se tornou infinitamente mais famosa do que o
projeto que deveria ter realizado. O Boléro estreou em 1928 e, quase um
século depois, continua sendo imediatamente reconhecido por seus primeiros
compassos.
Ravel queria criar um balé espanhol. Acabou criando uma experiência
musical que parece funcionar como uma espécie de relógio: o ritmo permanece, o
tempo passa e a tensão aumenta até que a música finalmente explode.
Essa é a verdadeira genialidade do Boléro. Não está na quantidade
de notas, mas na capacidade de Ravel de transformar uma ideia aparentemente
banal em uma das experiências sonoras mais hipnóticas já escritas para uma orquestra.




























