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sábado, março 21, 2026

Amei você!...


Um Amor em Desencontro

Houve um tempo em que eu amei a fúria das suas palavras - aquelas que cortavam como lâminas afiadas, mas que, paradoxalmente, acendiam incêndios dentro de mim. Havia vida nelas. Havia verdade. E, de algum modo estranho, havia também um convite: o de crescer, de me reinventar, de tentar ser maior do que os meus próprios limites.

Amei a intensidade das suas ideias, o modo como você enfrentava o mundo sem pedir licença. Você falava como quem não tem medo de quebrar tudo - inclusive a si mesmo. E eu, que sempre temi os estilhaços, me vi fascinada por essa coragem quase imprudente.

Amei você do início ao fim - e, sobretudo, o meio. Amei os intervalos: os risos roubados no meio de conversas sérias, os silêncios carregados de significados, os olhares que diziam mais do que qualquer frase bem construída. Amei o que não era dito, porque ali morava o que mais importava.

Lembro do primeiro encontro dos nossos olhos. Não foi grandioso, não houve música ou destino declarado - mas, por um segundo, tudo pareceu suspenso. Como se o mundo tivesse respirado fundo só para nos observar.

E eu soube. Ou pensei que soubesse. Amei o arrepio que sua presença provocava, aquele frio inesperado que corria pela pele como um aviso antigo: cuidado, isso vai te mudar. Mas eu nunca fui bom em ouvir avisos.

Amei você mais do que devia - por impulso, por desejo, por falta de freio. E, ao mesmo tempo, menos do que podia - por medo. Medo de desaparecer dentro de você, de deixar de ser quem eu era para caber no espaço que você ocupava.

Você brincava de dizer verdades, escondia sentimentos atrás de ironias, como quem testa o terreno antes de se permitir cair. E eu entendia. Sempre entendi mais do que você dizia.

Amei até o seu ridículo. Porque em você, até o que era falho, exagerado ou deslocado tinha beleza. Era humano. Era real. E eu me agarrava a isso como quem encontra algo raro em meio ao caos.

Mas também houve o outro lado. O momento em que nossos olhares já não se encontravam do mesmo jeito. Quando os seus começaram a escapar - para outros lugares, outras ideias, talvez outras pessoas. E ali, naquele desencontro silencioso, algo em mim começou a ruir.

Amei o seu tudo - sua grandeza, suas promessas, sua intensidade quase insuportável. Mas também amei o seu nada - os dias em que você era ausência, vazio, um enigma que nem você parecia querer resolver.

E, mesmo assim, eu permanecia. Amava até a confusão que você deixava em mim. Meus pensamentos giravam como um redemoinho, e eu já não sabia onde você terminava e onde eu começava. Talvez nunca tenha sabido.

Houve momentos em que tentei te odiar. De verdade. Quis me afastar, criar distância, reconstruir uma versão de mim que não dependesse de você. Mas era inútil. Porque, no fundo, havia algo inevitável nisso tudo - como se te amar fosse menos uma escolha e mais uma condição.

E isso me assustava. Nosso amor não existia isolado. Ele acontecia enquanto o mundo também desmoronava e se reconstruía ao nosso redor.

Eu te amei nas noites de tempestade, quando o céu parecia refletir exatamente o que eu sentia por dentro - caótico, barulhento, impossível de ignorar. Os trovões ecoavam como um coração fora de ritmo.

Te amei em 2020, quando o mundo parou. Quando fomos obrigados a nos afastar fisicamente, mas insistíamos em nos encontrar em telas pequenas, em mensagens apressadas, em ligações que caíam no meio de algo importante. Havia saudade até no silêncio da conexão instável.

Te amei nos dias de protesto, quando sua voz ganhava força, quando suas ideias viravam bandeiras. Eu te via lutar, e isso me fazia te amar ainda mais - mesmo quando eu sabia que, no meio dessa luta, talvez não houvesse espaço para nós dois.

Te amei também nos momentos de pausa. Nos dias em que o mundo chorava perdas coletivas, quando a fragilidade da vida deixava tudo mais urgente e mais pesado. E, curiosamente, mais verdadeiro.

E te amei nas pequenas vitórias: um sorriso inesperado, uma conquista simples, um instante de paz em meio ao caos. Tudo ao nosso redor parecia amplificar o que sentíamos. Mas o amor, assim como o desencontro, não é feito só de beleza.

Ele também cansa. Também exige. Também quebra. Amei você quando estávamos juntos - mas também quando estávamos distantes. Quando a ausência pesava mais do que a presença, quando o silêncio dizia o que nenhum de nós tinha coragem de admitir.

Amei você mesmo quando o mundo nos puxava para direções opostas.
Quando escolhas precisavam ser feitas. Quando crescer significava, inevitavelmente, se afastar.

E talvez o nosso maior desencontro tenha sido esse: descobrir que o amor, por mais intenso que seja, nem sempre é suficiente. Éramos como duas estrelas brilhando com força - mas em constelações diferentes. Visíveis um para o outro, mas impossíveis de tocar.

Ainda assim, esse amor… não foi em vão. Ele foi um farol. Me ensinou a sentir de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Me ensinou que amar não é sobre certezas, mas sobre coragem. Que existe beleza até nas contradições, até no que não dá certo.

Amei você. E talvez ainda ame. Mas agora de outro lugar - mais silencioso, mais distante. Um lugar onde a memória guarda o que o tempo não conseguiu sustentar.

E, de algum modo, é ali - nesse espaço invisível - que, finalmente, corpo e alma se encontram. Sem urgência. Sem medo. Sem desencontro.

domingo, janeiro 25, 2026

O Amor

 

Você não foi o amor da minha vida, não aquele que permanece em todos os dias, nem o que se instala no tempo como morada definitiva. Também não foi o amor do meu momento exato, aquele que chega quando tudo conspira a favor.

Ainda assim, eu te amei. E continuo amando, mesmo sabendo que o destino nos escreveu em linhas paralelas, próximas o suficiente para se reconhecerem, distantes demais para se encontrarem.

Houve dias em que acreditamos que o acaso poderia ser vencido, que bastaria insistir um pouco mais para que o impossível cedesse. Criamos promessas silenciosas, planos que só existiam no território frágil da imaginação.

Mas a vida, com sua lógica implacável, tratou de nos lembrar que nem todo amor nasce para durar, alguns existem apenas para ensinar. Os acontecimentos nos empurraram para margens opostas: escolhas inadiáveis, tempos desencontrados, silêncios que cresceram onde antes havia palavras.

Não foi falta de sentimento, tampouco ausência de entrega. Foi excesso de realidade. Amamos como se fosse suficiente, mas aprendemos que, às vezes, amar não garante permanência.

Hoje compreendo que certos amores não pedem posse, pedem aceitação. Permanecem não na rotina, mas na memória; não no futuro, mas naquilo que nos transformaram. Você não ficou, mas deixou marcas e, talvez esse seja o modo mais honesto de continuar existindo na vida de alguém.

Assim, sigo em frente com essa certeza agridoce: não fomos, não somos, talvez nunca seremos. Ainda assim, houve amor. E isso, por si só, já foi imenso. Você não foi o amor da minha vida, nem o dos meus dias longos, nem o instante exato em que tudo finalmente se encaixa.

Não foste permanência, nem abrigo. Ainda assim, eu te amei. E te amo, mesmo sabendo que há destinos que se tocam apenas para aprender a se despedir.

Houve um tempo em que acreditamos no quase. Quase nós. Quase para sempre. Vivíamos de promessas não ditas, de olhares que sustentavam mundos inteiros, de planos frágeis que desmoronavam ao primeiro confronto com a realidade.

Amávamos com urgência, como quem sabe que o tempo é curto, mesmo sem admitir. Os acontecimentos chegaram silenciosos, como chegam as coisas definitivas: decisões impostas, caminhos que se bifurcaram, palavras engolidas pelo medo de ferir.

Não foi falta de amor que nos separou, foi o excesso de vida. A vida que exige escolhas duras e não pergunta se o coração está pronto. Aprendi, então, que nem todo amor nasce para permanecer.

Alguns existem para atravessar, como um incêndio breve que ilumina a noite e depois se apaga, deixando o cheiro da fumaça na memória. Você foi esse amor: intenso, verdadeiro, impossível de sustentar no tempo.

Hoje carrego você não como ausência, mas como parte daquilo que me tornei. Porque certos amores não ficam, mas transformam. Não caminham ao nosso lado, mas nos ensinam a andar sozinhos.

E talvez seja esse o sentido mais profundo do amar: aceitar que nem tudo o que é verdadeiro está destinado a durar. Você não foi. Nós não fomos. Ainda assim, houve amor. E isso ninguém nos tira.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Crepúsculo


Contra a fachada do crepúsculo erguem-se sombras, fogo e silêncio. Não um silêncio absoluto, mas um silêncio em combustão, um fogo invisível que faz a sombra respirar, pulsar, como se tivesse vida própria. É um silêncio que não se limita à ausência de som; ele pesa, observa, envolve.

Para atravessar esse muro silencioso, não basta avançar o corpo. É preciso abandonar algo de si. Cada passo exige um desprendimento, uma renúncia íntima, como se o passado precisasse ficar do outro lado para que o presente pudesse existir.

O muro não impede apenas a passagem física; ele testa a coragem de quem ousa atravessá-lo. Nesse limiar entre luz e escuridão, o sujeito se dissolve. A identidade se fragmenta, e o que resta é um estado de espera, um intervalo onde o eu se confronta com o vazio.

Penetrar o silêncio é aceitar o risco da perda, é compreender que nem toda travessia garante retorno.

Como na obra de Paul Auster, o silêncio aqui não é ausência, mas revelação. Ele expõe aquilo que tentamos ocultar de nós mesmos: o medo, a solidão, a consciência de que toda jornada interior cobra um preço.

Para seguir adiante, é inevitável deixar-se para trás, ainda que não se saiba exatamente o que será encontrado do outro lado.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Beijo


 

“Se eu tivesse de ir para o inferno depois de beijar você, eu iria. Pois, então, poderia me gabar diante dos demônios de ter conhecido o paraíso sem jamais ter entrado nele.”

A frase expressa, de forma intensa e paradoxal, a concepção do amor como experiência absoluta, capaz de transcender noções morais, religiosas e até metafísicas.

Nela, o beijo - gesto simples e humano - é elevado à condição de êxtase supremo, tão pleno que justifica qualquer punição futura. O eu lírico não teme o inferno, pois já teria vivido algo maior: o instante em que o amor se confunde com o próprio paraíso.

O contraste entre inferno e paraíso não aparece aqui como mero recurso retórico, mas como um jogo simbólico profundamente shakespeareano. O paraíso não é um lugar distante ou prometido após a morte; ele se manifesta no presente, no corpo e no afeto.

O inferno, por sua vez, perde sua função de castigo eterno e transforma-se em palco de orgulho: mesmo entre demônios, o amante pode afirmar que conheceu aquilo que muitos passam a vida inteira buscando sem jamais alcançar.

Essa inversão de valores é recorrente na obra de Shakespeare, especialmente em suas tragédias e sonetos, onde o amor surge frequentemente associado ao risco, à perda e à transgressão.

Amar, nesse contexto, não é um ato seguro ou confortável, mas uma escolha radical, que aceita as consequências em nome da intensidade do sentir. O prazer e a dor caminham juntos, e a grandeza do amor mede-se justamente pelo que se está disposto a perder por ele.

Além disso, a frase sugere que certas experiências são tão completas em si mesmas que dispensam continuidade. Um único momento pode conter uma vida inteira de sentido.

Beijar, aqui, não é apenas tocar os lábios, mas acessar uma dimensão do humano onde o tempo se suspende e o mundo se reorganiza ao redor do sentimento.

Assim, a citação ecoa uma das ideias centrais da literatura shakespeariana: a de que o amor verdadeiro não obedece a promessas futuras, recompensas celestiais ou temores infernais.

Ele basta a si mesmo. E, uma vez vivido plenamente, nenhum castigo posterior é capaz de diminuí-lo, pois quem já esteve no paraíso do amor carrega essa eternidade consigo, onde quer que esteja.

sábado, janeiro 03, 2026

As Mulheres


 

A noite de quarta-feira me encontrou no aeroporto, esperando por Íris. Sentei-me e fiquei olhando as mulheres que passavam. Nenhuma delas - só uma ou duas - era tão bonita quanto Íris. Havia algo errado comigo: eu pensava demais em sexo.

Cada mulher que eu via, logo a imaginava na cama ao meu lado. Era um jeito interessante de matar o tempo num aeroporto, melhor que ler jornais velhos ou ouvir anúncios idiotas pelo alto-falante.

Mulheres: eu gostava das cores de suas roupas; do jeito como andavam, com aquela mistura de graça e determinação; da crueldade em algumas faces, aquele olhar que cortava como faca.

De vez em quando, surgia um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina, que me fazia parar e pensar no quanto a vida era uma merda desigual. Elas levavam vantagem sobre nós: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas, mais frias quando precisavam ser.

Enquanto os homens assistiam a futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam em nós - concentradas, estudiosas, decididas a nos aceitar, nos descartar, nos trocar, nos matar ou simplesmente nos abandonar.

No fim das contas, pouco importava o que decidissem. Seja lá o que fosse, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura, bebendo sozinho à noite, olhando para o teto e imaginando por que tudo sempre dava errado.

Era assim que o mundo girava: sexo, poder, ilusão. E eu, ali no aeroporto, só esperando a próxima dose de caos.

Mulheres, de Charles Bukowski

Esse trecho é do romance Mulheres (Women, 1978), um dos mais famosos de Charles Bukowski. O narrador é Henry Chinaski, o alter ego semi-autobiográfico do autor: um escritor alcoólatra na casa dos 50 anos, cínico, obcecado por sexo, álcool e corridas de cavalos, que vive uma vida marginal em Los Angeles.

No livro todo, Chinaski, após anos de "seca" sexual, começa a atrair dezenas de mulheres - muitas jovens e admiradoras de sua poesia - graças ao sucesso tardio como escritor.

Elas o procuram por cartas, telefonemas ou viagens, fascinadas pelo homem por trás dos textos crus. Ele as recebe, transa com elas, bebe excessivamente, briga, reconcilia e, no fim, as relações sempre desmoronam em ciúmes, violência ou tédio.

Especificamente sobre Íris - uma das muitas amantes no livro -: ela é uma mulher que Chinaski encontra em uma de suas fases de excessos. Ele vai buscá-la no aeroporto após ela viajar, e o encontro leva a mais sexo intenso, bebedeiras e conversas tagarelas (no original, Íris é descrita como falante, o que irrita um pouco Chinaski).

Logo após essa cena, eles vão para casa dele, bebem, transam, e o padrão se repete: atração inicial explosiva seguida de desgaste. Íris não é uma das relações mais longas (como Lydia ou Sara), mas ilustra o ciclo vicioso do livro - mulheres vindo e indo, sempre deixando Chinaski mais vazio, apesar do prazer momentâneo.

O romance é uma confissão brutal sobre desejo masculino, medo de compromisso, alcoolismo e a impossibilidade de conexões reais. Bukowski escreveu isso em uma fase de fama crescente, refletindo sua própria vida cheia de amantes, brigas e ressacas.

Muitos leitores veem misógino à primeira vista, mas outros interpretam como uma crítica honesta à fragilidade humana (de ambos os sexos).

sábado, dezembro 20, 2025

Amar você!

 


Amar você é algo que não consigo explicar plenamente. É como a magia das ondas do mar - imprevisível e hipnótica, eterna em seu movimento contínuo. As águas avançam e recuam, quebram na praia em espumas que parecem encantadas, e a cada instante se renovam, sem jamais serem as mesmas.

Assim é esse sentimento: vivo, mutável, impossível de conter em palavras definitivas. Amar você é gostar, é querer, é também sofrer. É amar porque esse é o sentimento mais profundo e verdadeiro que um ser humano pode experimentar, capaz de tocar a alma e transformá-la por inteiro.

É querer porque o amor não se acomoda; ele luta, insiste, protege e se reconstrói todos os dias para preservar aquilo que o coração escolheu como essencial.

E é sofrer porque, paradoxalmente, o sofrimento dignifica o amor verdadeiro. Não como punição, mas como aprendizado. É no meio da dor que crescemos, que amadurecemos, que compreendemos a profundidade do que sentimos.

O amor que nunca enfrenta o risco, a perda ou o medo permanece raso; o amor que atravessa a dor se torna mais consciente, mais humano e mais forte.

Amar você é desejar estar sempre ao seu lado, compartilhar cada onda de alegria, cada momento de calmaria e também cada tempestade que a vida insiste em lançar. É aceitar que nem todos os dias serão serenos, mas que ainda assim vale a pena permanecer, remar junto, resistir.

Estar sem você é como uma noite fria e sombria em mar aberto. A escuridão parece infinita, o horizonte desaparece, e o coração se vê envolto por uma angústia silenciosa, um vazio que ecoa por dentro. Resta apenas a luz distante de uma lua melancólica, bela, mas insuficiente para aquecer.

Mas quando você aparece, tudo muda. É como o sol surgindo no horizonte ao amanhecer, dissipando as sombras da noite, aquecendo o coração que estava gelado e devolvendo cor, sentido e esperança ao mundo.

A presença traz vida, clareza e um recomeço silencioso, como se o dia dissesse: ainda vale a pena. Assim como o mar, o amor não é feito apenas de calmaria. Ele carrega marés altas e baixas, ventos contrários e tempestades que testam a resistência de quem ama.

Mas também oferece auroras que lembram, com suavidade, que depois da noite mais longa sempre existe a possibilidade da luz. É nessa dança constante entre dor e êxtase que o amor se revela em sua forma mais verdadeira - não como algo perfeito ou idealizado, mas como algo real, imperfeito, transformador e indispensável.

Amar você é aceitar essa travessia, com todos os riscos e encantos que ela carrega. Amar você é navegar por esse oceano imenso com coragem, sabendo que, mesmo nas noites mais frias e incertas, o sol sempre retorna. 

E quando retorna, ilumina o caminho de volta - não apenas aos seus braços, mas ao sentido mais profundo de continuar sentindo, apesar de tudo.

Francisco Silva Sousa - Foto: Pixabay.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Fresta de sol


 

Era só uma fresta de sol na janela. Mas era tão intensa, tão viva e tão bonita que parecia impossível vir de um único ponto. Por aquele fio dourado cruzava um mundo inteiro: o canto de um passarinho recém-acordado, o perfume leve das flores do campo, uma brisa fresca que parecia chegar de muito longe.

Por ali passava tudo o que ela precisava para despertar, agradecer, levantar e acreditar. Naquele instante, o quarto escuro se encheu de luz como um coração que volta a bater.

Ela abriu os olhos devagar, sentindo o calor dourado tocar sua pele como um carinho antigo, desses que ficam guardados na memória mesmo depois de desaparecerem da vida.

Lembrou-se dos dias cinzentos que haviam ficado para trás, daquelas manhãs pesadas em que até o ar parecia mais espesso, e das noites longas em que o silêncio pesava mais que as cobertas.

Mas agora, com aquela fresta insistente, o mundo lá fora parecia chamá-la pelo nome. Levantou-se devagar, descalça, e caminhou até a janela. A madeira rangia levemente sob seus passos, como se a casa também estivesse acordando.

Abriu a janela um pouco mais e deixou a brisa entrar sem pedir licença. O passarinho, que até então cantarolava tímido, aumentou o tom, como se comemorasse a vitória da luz sobre a sombra.

Lá embaixo, no jardim vizinho, as flores silvestres balançavam ao vento, espalhando seu perfume doce pelo ar. Ela sorriu. Agradeceu em silêncio por mais um dia - por aquela pequena brecha que, de tão simples, transformava tudo.

Vestiu-se sem pressa e saiu para a rua. O sol agora se espalhava por inteiro no céu, sem disfarces. O ar parecia mais leve, e os passos dela também. Na esquina, encontrou um velho amigo que não via havia anos. Ele a reconheceu de imediato.

- Não é possível, é você? - disse, abrindo um sorriso feito de surpresa e saudade.

- Sou eu - ela respondeu, e por um instante sentiu o passado chegar com o mesmo frescor da manhã.

Conversaram ali mesmo, de pé na calçada, como quem reencontra um pedaço importante de si. Trocaram palavras que curaram feridas antigas, relembraram histórias que tinham se perdido no tempo e prometeram não deixar tantos anos passar outra vez.

Seguindo seu caminho, viu crianças brincando na praça, correndo com uma alegria tão alta que parecia tocar o céu. Riam como se nada no mundo pudesse detê-las. E, ao vê-las, ela percebeu que a vida, apesar de tudo, ainda pulsava forte, teimosa e bonita.

Ao longo do dia, pequenas maravilhas continuaram acontecendo: um café quente servido com gentileza no balcão da padaria; uma conversa inesperada que trouxe novas ideias; um pôr do sol avermelhado que parecia prometer mais frestas amanhã.

E, quando a noite caiu, ela compreendeu com uma certeza tranquila: às vezes, basta uma pequena abertura, quase nada, para que o mundo inteiro entre - e mude tudo.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Viajante

 

Há quem passe como ventania que arranca telhados, vira tudo de cabeça para baixo e deixa ruídos de espanto por onde passou. E há quem passe como brisa mansa, que acaricia o rosto, desfaz dobras da alma e acalma o que o dia tentou endurecer.

Há quem chegue como a seca que racha a terra, que silencia os pássaros e torna o horizonte um pedido de socorro. E há quem chegue como chuva boa, daquela que não assusta, mas que desce devagar, infiltra-se no chão e faz brotar a esperança esquecida.

Há quem seja espinho que fere ao simples roçar, que exige cuidado até quando se aproxima. E há quem seja flor que perfuma mesmo depois de colhida, deixando lembranças suaves que persistem na ausência.

Há quem passe como inverno que congela rios, paralisa caminhos e faz a vida parecer suspensa num tempo frio. E há quem seja primavera pura, que devolve cor ao mundo, devolve som aos ninhos e renova o que se pensava perdido.

Há quem seja nuvem escura que encobre o sol, trazendo sombra até onde antes havia claridade. E há quem seja raio de luz que atravessa tempestades, rompendo o céu fechado e lembrando que a claridade sempre encontra um modo de voltar.

Há quem seja pedra solta que rola e machuca tudo o que encontra, sem direção, sem raiz. E há quem seja raiz forte, profunda, que sustenta o chão quando tudo ao redor parece desabar, evitando que o mundo ceda ao peso das incertezas.

Há quem passe como folha seca levada pelo vento, sem rumo, sem permanência, desaparecendo no próximo sopro. E há quem fique como carvalho antigo, testemunha de séculos, resistente às tempestades e generoso na sombra que oferece.

Há também aqueles que apenas atravessam a vida como rio que corre sem olhar as margens, apressado, indiferente às paisagens que abandona pelo caminho.

E há, por fim, aqueles que não deixam a vida passar sem tocar o mundo: transformam desertos em jardins, acendem fogueirinhas em noites de frio, oferecem abrigo quando o vento é forte e plantam amor onde antes só havia pedra. São esses que, mesmo após a partida, continuam a nascer dentro de nós.

sábado, dezembro 06, 2025

Deixe de ser um copo. Torne-se um lago.


Um velho Mestre, percebendo a profunda tristeza que carregava o coração de seu jovem aprendiz, pediu-lhe que pegasse uma mão cheia de sal e a dissolvesse num copo d’água. Em seguida, ordenou que bebesse. - Qual é o gosto? - perguntou o Mestre, com voz calma. - Salgado, horrível - respondeu o rapaz, franzindo o rosto.

O Mestre apenas sorriu, sem dizer palavra. Levantou-se e fez sinal para que o jovem o seguisse. Caminharam em silêncio até um lago tranquilo, cercado por árvores antigas, cujas águas refletiam o céu da tarde. Ali, o velho pediu que o aprendiz tomasse outra mão cheia de sal - exatamente a mesma quantidade - e a jogasse no lago.

O jovem obedeceu. O sal desapareceu instantaneamente na imensidão daquele corpo d’água. - Agora beba - disse o Mestre. O rapaz se abaixou, colheu água com as mãos em concha e bebeu. A água era fresca, limpa, ligeiramente doce pela brisa que vinha das montanhas. - E então? Qual é o gosto agora? - perguntou o velho.

- Bom, refrescante - respondeu o jovem, surpreso.

- Você sente o sal?

- Nem um pouco.

O Mestre sentou-se na margem, ao lado do aprendiz, e tomou sua mão com carinho. Olhou fundo em seus olhos e falou com voz serena:

- A dor na vida é como esse sal: é real, é inevitável, e todos nós recebemos, mais cedo ou mais tarde, a nossa porção. A quantidade de sofrimento que a vida nos dá não muda tanto de pessoa para pessoa, o que muda é o recipiente que escolhemos para carregá-la.

Quando você coloca toda a sua dor dentro de um copo pequeno - seus pensamentos, seu coração fechado, sua visão estreita do mundo -, ela se torna insuportável, amarga, sufocante.

Mas quando você enlarguece o recipiente - quando abre o coração para a imensidão das coisas boas que ainda existem, para as pessoas que te amam, para as pequenas graças do dia, para a beleza que não morreu -, a mesma dor se dilui. Ela ainda está lá, mas já não tem força para envenenar tudo. Pare de ser um copo, meu jovem. Torne-se um lago.

E, depois de um longo silêncio, o Mestre acrescentou, quase num sussurro:

- Os grandes lagos não negam as tempestades que recebem. Eles apenas têm espaço suficiente para que nenhuma tempestade os transforme inteiramente em lama.

O jovem olhou para as águas tranquilas à sua frente, sentiu o vento tocar seu rosto e, pela primeira vez em muitos meses, respirou fundo e sorriu.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Saudade


Saudade, palavra que não cabe em outras línguas, ferida que não sangra, mas dói o tempo todo. Tu me maltratas em silêncio, apertas o peito como mão invisível, enegreces o dia mais ensolarado, faz o sorriso parecer traição.

Como eu gostaria de te arrancar de mim como quem arranca uma página rasgada do peito, de apagar teu nome do meu sangue, de esquecer o gosto do teu beijo e o jeito como tu dizias “fica”.

Mas tu és mais forte que eu. Tu me dominas, me faz chorar no banho para ninguém ouvir, me faz procurar teu rosto em cada multidão, me faz ligar para o teu número antigo só para escutar a gravação dizendo que não existe mais.

Saudade, tu me fazes falar sozinho no carro, repetir conversas que nunca mais vão acontecer, guardar tua camiseta velha como relíquia, cheirar o travesseiro que ainda guarda teu perfume como quem cheira uma flor que já morreu.

Tu me fazes perder o sentido das coisas. O café fica sem gosto, a música só toca dor, o futuro parece um lugar onde tu não estás e, por isso, não vale a pena chegar. Hoje a saudade veio mais pesada.

Bateu na porta sem avisar, sentou na minha cama, olhou nos meus olhos e disse: “Você ainda não superou, né?” E eu confesso: não. Quero teu cheiro de novo, aquele cheiro de amor recém-acordado, de pele depois do banho, de cabelo molhado encostado no meu peito.

Quero sentir tua respiração calma no meu pescoço, teu coração batendo junto com o meu como duas músicas que só fazem sentido juntas. Quero voltar no tempo nem que seja por um segundo só para te dizer de novo “eu te amo” e ouvir tu dizeres de volta, com aquela voz rouca de quem acabou de acordar: “Eu também, viu?”

Mas o tempo não volta. E tu não voltas. Então fico aqui, com a saudade me comendo vivo, aprendendo a conviver com este vazio que tem teu nome, este buraco no peito que tem exatamente o teu formato.

Saudade. Única dor que a gente sente e, ao mesmo tempo, não quer que passe nunca. Porque, no fundo, ter saudade de ti é a única forma que me resta de ainda te ter.

Francisco Silva Sousa 

sábado, novembro 29, 2025

Enquanto há tempo



O amor deve saber dizer palavras que só existem no “tempo da delicadeza” - esse intervalo secreto em que o coração fala baixo, mas diz tudo. “Prometo te querer até o amor cair doente, doente”, escreveu Rubem Alves, revelando que até o amor, tão forte e resistente, pode adoecer quando é descuidado.

É por isso que, nesse tempo misterioso e frágil, é preciso amar com cuidado: amar com o olhar que acolhe, com os ouvidos que escutam o que o outro não consegue dizer, com as mãos que tateiam o mundo e o corpo amado como quem segura uma asa prestes a se partir.

O amor não vive de grandes discursos, mas de pequenos gestos que evitam feridas:
a paciência que não exige, a presença que não sufoca, a palavra certa que chega antes da dor, o silêncio cúmplice que protege e aproxima.

O “tempo da delicadeza” não é eterno. Ele passa, ele se esconde, ele se perde na pressa, no automatismo, na rudeza do cotidiano. Por isso é urgente cuidar enquanto ainda há tempo - antes que a rotina adoeça o afeto, antes que o excesso de razão asfixie a poesia, antes que as mãos se acostumem à ausência.

Amar, no fundo, é um trabalho de artesão: lapida-se o gesto, aparar-se a palavra, cultiva-se o toque. É um exercício diário de atenção para que o amor não se torne apenas memória do que poderia ter sido.

Que cada encontro seja tratado como um milagre raro, que cada amanhecer ao lado seja entendido como privilégio, que cada fragilidade do outro seja acolhida como parte sagrada da experiência humana.

Porque, quando o amor adoece, quase sempre é de descuido. Mas quando floresce, é porque alguém escolheu ser delicadeza em um mundo que desaprendeu a sentir.O amor deve saber dizer palavras que só existem no “tempo da delicadeza” - esse intervalo secreto em que o coração fala baixo, mas diz tudo. “Prometo te querer até o amor cair doente, doente”, escreveu Rubem Alves, revelando que até o amor, tão forte e resistente, pode adoecer quando é descuidado.

É por isso que, nesse tempo misterioso e frágil, é preciso amar com cuidado: amar com o olhar que acolhe, com os ouvidos que escutam o que o outro não consegue dizer, com as mãos que tateiam o mundo e o corpo amado como quem segura uma asa prestes a se partir.

O amor não vive de grandes discursos, mas de pequenos gestos que evitam feridas:
a paciência que não exige, a presença que não sufoca, a palavra certa que chega antes da dor, o silêncio cúmplice que protege e aproxima.

O “tempo da delicadeza” não é eterno. Ele passa, ele se esconde, ele se perde na pressa, no automatismo, na rudeza do cotidiano. Por isso é urgente cuidar enquanto ainda há tempo - antes que a rotina adoeça o afeto, antes que o excesso de razão asfixie a poesia, antes que as mãos se acostumem à ausência.

Amar, no fundo, é um trabalho de artesão: lapida-se o gesto, aparar-se a palavra, cultiva-se o toque. É um exercício diário de atenção para que o amor não se torne apenas memória do que poderia ter sido.

Que cada encontro seja tratado como um milagre raro, que cada amanhecer ao lado seja entendido como privilégio, que cada fragilidade do outro seja acolhida como parte sagrada da experiência humana.

Porque, quando o amor adoece, quase sempre é de descuido. Mas quando floresce, é porque alguém escolheu ser delicadeza em um mundo que desaprendeu a sentir.

sábado, novembro 01, 2025

Fascinado


Existe um homem que se sente irresistivelmente magnetizado pelo enlevo da sua juventude, pela sua beleza radiante, pela sua benevolência inefável.
Um homem que está perdidamente apaixonado por ti, que venera com devoção absoluta esses encantos divinos.

Digo-te, com o coração em chamas, que esse homem sou eu! Quantas vezes ao longo do dia eu crio, em devaneios febris, a imagem de que és inteiramente minha?

Sinto, junto à minha face, o milagre da tua, macia como pétalas de rosa ao amanhecer; sobre os meus lábios, a púrpura ardente dos teus, num beijo que rouba o fôlego e acende fogueiras na alma. Aconchego ao meu corpo o teu, palpitante de vida e desejo, entrelaçando-nos como videiras em um jardim secreto.

Imagino-me deliciando com o mel dos teus carinhos, doces e inebriantes como o néctar das flores proibidas; e o meu espírito, ferido pelas agruras da existência, sente que saram todas as chagas ao contato odorífero da tua meiguice, perfumada de jasmim e ternura. Ah, se ao menos esses sonhos se materializassem!

Na quietude da noite, quando as estrelas testemunham os meus suspiros, eu te procuro em visões etéreas: caminhamos de mãos dadas por praias ao luar, onde as ondas sussurram promessas de eternidade; dançamos ao som de uma melodia invisível, teus olhos encontrando os meus em um diálogo sem palavras, cheio de confissões mudas.

Recordo o dia em que te vi pela primeira vez - foi num café antigo, sob a luz dourada do entardecer, quando o aroma de café fresco se misturava ao teu perfume sutil.

Teu sorriso, um raio de sol rompendo nuvens, despertou em mim uma paixão que cresce como uma maré inexorável. Desde então, cada momento sem ti é um vazio que clama pelo teu regresso.

Ó musa da minha alma, permite que eu te corteje com versos e gestos, que prove a realidade desses delírios. Pois o amor que nutro por ti não é efêmero; é um fogo eterno, capaz de iluminar as trevas e curar as dores do mundo.

Vem, une-te a mim, e transformemos essas fantasias em uma sinfonia de felicidade partilhada!Existe um homem que se sente irresistivelmente magnetizado pelo enlevo da sua juventude, pela sua beleza radiante, pela sua benevolência inefável.

Um homem que está perdidamente apaixonado por ti, que venera com devoção absoluta esses encantos divinos.

Digo-te, com o coração em chamas, que esse homem sou eu! Quantas vezes ao longo do dia eu crio, em devaneios febris, a imagem de que és inteiramente minha?

Sinto, junto à minha face, o milagre da tua, macia como pétalas de rosa ao amanhecer; sobre os meus lábios, a púrpura ardente dos teus, num beijo que rouba o fôlego e acende fogueiras na alma. Aconchego ao meu corpo o teu, palpitante de vida e desejo, entrelaçando-nos como videiras em um jardim secreto.

Imagino-me deliciando com o mel dos teus carinhos, doces e inebriantes como o néctar das flores proibidas; e o meu espírito, ferido pelas agruras da existência, sente que saram todas as chagas ao contato odorífero da tua meiguice, perfumada de jasmim e ternura. Ah, se ao menos esses sonhos se materializassem!

Na quietude da noite, quando as estrelas testemunham os meus suspiros, eu te procuro em visões etéreas: caminhamos de mãos dadas por praias ao luar, onde as ondas sussurram promessas de eternidade; dançamos ao som de uma melodia invisível, teus olhos encontrando os meus em um diálogo sem palavras, cheio de confissões mudas.

Recordo o dia em que te vi pela primeira vez - foi num café antigo, sob a luz dourada do entardecer, quando o aroma de café fresco se misturava ao teu perfume sutil.

Teu sorriso, um raio de sol rompendo nuvens, despertou em mim uma paixão que cresce como uma maré inexorável. Desde então, cada momento sem ti é um vazio que clama pelo teu regresso.

Ó musa da minha alma, permite que eu te corteje com versos e gestos, que prove a realidade desses delírios. Pois o amor que nutro por ti não é efêmero; é um fogo eterno, capaz de iluminar as trevas e curar as dores do mundo.

Vem, une-te a mim, e transformemos essas fantasias em uma sinfonia de felicidade partilhada!

terça-feira, outubro 21, 2025

Escrever




As palavras têm uma força que transcende o tempo e o espaço. Elas não apenas comunicam, mas criam mundos, constroem pontes e guardam pedaços da alma.

Quando me dizes que me amas, tua voz aquece meu coração, e eu acredito. Mas, se escreves essas palavras, elas ganham raízes, tornam-se eternas, como uma carta que posso revisitar, reler e sentir novamente, mesmo quando o silêncio se instala.

Se me falares da tua saudade, com um olhar distante ou um suspiro, eu a compreenderei, pois o tom da tua voz carrega verdade. Mas, se a descreveres com tinta e papel, ou mesmo em linhas digitais, essa saudade ganha corpo.

Ela se torna uma história que posso tocar, um vazio que divido contigo, como se, ao ler, eu pudesse caminhar pelas mesmas ruas desertas que tua alma percorre.

E quando a tristeza vier, pesada como uma tempestade, e me contares sobre ela, eu saberei que estás sofrendo. Mas, se a transformares em palavras escritas, se a descreveres com detalhes - o nó na garganta, o peso no peito, as cores opacas do dia -, essa dor se torna compartilhável.

Escrever é um ato de coragem: é dar forma ao intangível, é dividir o fardo. As palavras, ao serem lidas, dissipam um pouco do sofrimento, como se o papel absorvesse parte da tua angústia.

As palavras escritas não apenas expressam, elas constroem. Quem escreve ergue castelos, frágeis ou imponentes, com torres de sonhos e alicerces de memórias.

Quem lê, ao entrar nesses castelos, não é apenas um visitante: torna-se morador, vive as emoções do autor, habita seus mundos. E, ao longo da história, foram as palavras escritas que preservaram amores impossíveis, revoluções, confissões e esperanças.

Pensa nas cartas de amor trocadas em tempos de guerra, nos diários que guardaram segredos de gerações, nos poemas que atravessaram séculos. Elas não apenas contam histórias - elas as mantêm vivas.

Por isso, nunca subestime o poder de escrever. Quando colocas no papel o que sentes, estás criando algo maior que o momento: estás deixando um legado, uma ponte para o outro, um convite para que alguém, em algum lugar, sinta contigo. 

E, ao fazê-lo, transformas o efêmero em eterno, o solitário em compartilhado, o intangível em real.

domingo, outubro 19, 2025

Ninguém perde ninguém


 

Ninguém perde ninguém, porque, em essência, ninguém possui ninguém. Essa é a verdadeira experiência da liberdade: amar, valorizar e compartilhar a vida com alguém sem a necessidade de aprisioná-lo ou transformá-lo em uma extensão de si mesmo.

A ideia de posse, tão profundamente enraizada em nossa cultura, distorce a pureza do amor. Confundimos afeto com controle, presença com vigilância, proximidade com propriedade. Mas o amor, quando é verdadeiro, não precisa de grades; ele floresce justamente no espaço que o outro tem para ser quem é.

A liberdade genuína começa quando compreendemos que a pessoa mais importante do mundo não nos pertence - e, ainda assim, escolhemos estar ao seu lado todos os dias, não por obrigação, mas por afinidade e vontade.

Essa escolha consciente, feita em liberdade, é muito mais poderosa do que qualquer promessa eterna. Ela desafia as convenções sociais que associam o amor à dependência, ao ciúme ou à exclusividade inquestionável.

Entretanto, viver essa verdade não é simples. Somos frutos de um tempo em que o medo da perda, a insegurança e o apego são vistos como provas de amor.

Crescemos ouvindo que amar é "segurar firme", quando na verdade, amar é saber soltar - e ainda assim permanecer. O desafio está em confiar no vínculo invisível que une dois corações livres, sem precisar acorrentar o outro para se sentir seguro.

Quantos amores não se desfazem por excesso de controle? Quantas histórias acabam quando alguém tenta moldar o outro às suas expectativas, sufocando justamente a essência que despertou o amor no início?

O ciúme, o medo e a necessidade de domínio corroem o que há de mais belo nas relações: a autenticidade. A liberdade exige coragem - coragem para permitir que o outro exista em plenitude, para confiar na reciprocidade e para aceitar que o amor verdadeiro não depende da posse, mas da escolha constante.

Essa reflexão vai além dos relacionamentos amorosos. Ela se estende às amizades, aos vínculos familiares e até às relações profissionais. Um pai que compreende que o filho precisa seguir seu próprio caminho, mesmo que distante do que ele sonhou; um amigo que celebra as conquistas do outro sem inveja; um mentor que ensina sem desejar ser eterno - todos eles vivem essa forma de liberdade afetiva.

Quando deixamos de querer “ter” as pessoas, aprendemos a simplesmente compartilhar a vida com elas.

Num mundo cada vez mais conectado, mas paradoxalmente repleto de solidão e carências, entender que ninguém nos pertence é um ato de maturidade emocional. É o primeiro passo para vivermos relações mais honestas, mais leves e menos conflituosas.

Em última instância, a verdadeira liberdade não está em ter, mas em ser - ser presente, ser inteiro, ser suficiente em si mesmo. Quando vivemos assim, o amor deixa de ser uma prisão disfarçada de cuidado e se transforma em um encontro de almas autônomas que caminham lado a lado por escolha.

E é nessa escolha - livre, consciente e impermanente - que reside a beleza efêmera e infinita da vida compartilhada.