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segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Bayume Mohamed Husen



 Bayume Mohamed Husen: o homem que serviu a um país que não o quis

A História costuma ser escrita com letras maiúsculas, mas vivida em letras miúdas. Bayume Mohamed Husen pertence a essa segunda categoria: um homem empurrado para as margens de uma narrativa que fez uso de seu corpo, de sua lealdade e de sua imagem - apenas para descartá-lo quando já não servia.

Ele nasceu em 1904, em Dar es Salaam, quando o mundo ainda acreditava que impérios eram eternos. Filho de um askari, cresceu sob a sombra da bandeira alemã fincada em solo africano.

Aprendeu cedo a língua do colonizador, vestiu seu uniforme, marchou em suas guerras. Lutou pela Alemanha na África Oriental como quem acredita que a farda concede pertencimento. Não concedia.

Na Primeira Guerra Mundial, enfrentou a selva, a fome e o fogo inimigo. Em Mahiwa, em 1917, foi ferido. Depois, capturado. A guerra terminou, o império caiu - e Bayume, como tantos outros, foi esquecido. O soldado útil tornou-se um incômodo histórico.

Veio para Berlim em 1929 buscando o que lhe era devido: soldos atrasados, reconhecimento tardio, talvez justiça. Recebeu silêncio burocrático. Ficou. Serviu mesas, ensinou suaíli, emprestou sua voz e seu rosto a um país que gostava de exibir a África, mas não aceitava os africanos.

Casou-se com uma mulher alemã poucos dias antes de Hitler chegar ao poder - ironia cruel do calendário. Constituiu família, perdeu filhos, acumulou ausências.

Husen acreditou, por algum tempo, na farsa neocolonial. Vestiu o uniforme askari, marchou em comícios, participou da Deutsche Afrika-Schau, esse zoológico humano travestido de propaganda política.

A Alemanha nazista precisava de corpos negros para provar ao mundo que ainda era capaz de administrar colônias - mesmo enquanto negava humanidade a esses mesmos corpos.

No cinema, Bayume interpretava sempre o mesmo papel: o nativo, o guia, a sombra. Nunca o protagonista. Nunca o cidadão. Na tela, ajudava a glorificar o colonialismo; fora dela, era barrado, vigiado, humilhado.

Pediu para lutar novamente pela Alemanha, agora na Wehrmacht. Foi recusado. O sangue que servira antes já não era suficientemente puro. O regime tolerava sua imagem, mas não sua vida.

Bastou um relacionamento com uma mulher alemã para que o Estado mostrasse os dentes. “Corrupção racial”, chamaram. A mesma Alemanha que o exibira como prova de sua grandeza colonial o prendeu como prova de sua obsessão racial.

Sem julgamento, Bayume Mohamed Husen foi enviado ao campo de concentração de Sachsenhausen. Ali, desapareceu da História oficial - como tantos outros. Morreu em 24 de novembro de 1944, reduzido a número, a silêncio, a poeira.

Décadas depois, livros e documentários tentaram resgatá-lo. Mas Bayume não precisa apenas ser lembrado; precisa ser entendido. Sua vida escancara o paradoxo do colonialismo e do nazismo: sistemas que exigem lealdade absoluta, mas jamais concedem pertencimento.

Ele foi alemão o suficiente para lutar, servir e entreter - nunca para existir plenamente. A História costuma perguntar quem venceu a guerra. Raramente pergunta quem pagou por ela com a própria identidade.

Bayume Mohamed Husen pagou com tudo: com o corpo, com a fé e, por fim, com a vida. E mesmo assim, por muito tempo, ninguém percebeu sua ausência.

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