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terça-feira, janeiro 13, 2026

Henri Charrière - O Papillon

 


Henri Charrière: vida, mito e controvérsia

Henri Charrière nasceu em 16 de novembro de 1906, em Saint-Étienne-de-Lugdarés, no departamento de Ardèche, sul da França. Tornou-se mundialmente conhecido como o suposto autor do livro Papillon, publicado em 1969 e posteriormente adaptado para o cinema em 1973.

Escritor tardio, Charrière construiu sua fama a partir de uma narrativa marcada por sofrimento extremo, fugas audaciosas e uma permanente afirmação de inocência, elementos que contribuíram tanto para o sucesso da obra quanto para as dúvidas sobre sua veracidade.

Antes de se tornar um nome célebre da literatura de memórias, Charrière teve uma juventude conturbada. Filho de uma família modesta, tinha duas irmãs mais velhas e sofreu um golpe profundo ainda criança: a morte de sua mãe, quando ele tinha apenas dez anos.

Esse episódio marcou sua personalidade e, segundo relatos posteriores, contribuiu para sua rebeldia e instabilidade emocional. Aos 17 anos, em 1923, alistou-se na Marinha Francesa, onde serviu por cerca de dois anos.

Após deixar o serviço militar, mergulhou no submundo parisiense do final dos anos 1920 e início dos anos 1930, vivendo como vagabundo e aplicando pequenos golpes. Foi nesse ambiente de criminalidade, miséria e violência que seu destino tomou um rumo irreversível.

A condenação e o envio à Guiana Francesa

Segundo a versão apresentada em Papillon, Charrière foi condenado em 26 de outubro de 1931 pelo assassinato de um cafetão chamado Roland Le Petit, crime que sempre negou com veemência.

Apesar das provas frágeis e das inconsistências do processo, foi sentenciado à prisão perpétua com dez anos de trabalhos forçados, uma pena comum na França da época para crimes considerados graves.

Pouco depois da condenação, em 22 de dezembro de 1931, casou-se com Georgette Fourel, então prefeita do 1º arrondissement de Paris, uma união que mais tarde se dissolveria, culminando no divórcio oficial em 1970.

Em 1933, após uma passagem pela prisão de Beaulieu, em Caen, Charrière foi transportado para a Guiana Francesa, desembarcando no temido complexo penal de Saint-Laurent-du-Maroni, às margens do rio Maroni.

A colônia penal francesa era conhecida por suas condições desumanas, altas taxas de mortalidade e pelo uso sistemático do isolamento como punição psicológica.

Fugas, castigos e versões conflitantes

Em Papillon, Charrière descreve uma série de fugas espetaculares, iniciadas em 28 de novembro de 1933, ao lado de companheiros como André Maturette e Joanes Clousiot. Após semanas à deriva, o grupo teria sido capturado na Colômbia e posteriormente disperso.

Em outra fuga, afirma ter vivido por meses com uma tribo indígena na Península de La Guajira, experiência que descreve com tons quase míticos. No entanto, documentos oficiais franceses divulgados posteriormente contradizem vários desses episódios.

Os registros indicam que Charrière nunca esteve preso na Ilha do Diabo, como afirma no livro, mas sim em outras unidades do sistema penal, incluindo a Ilha de São José, onde passou dois anos em confinamento solitário após uma tentativa de fuga frustrada em 1934.

Ainda segundo os arquivos oficiais, ele trabalhou como auxiliar de enfermagem no Hospital Colonial André-Bouron, o que lhe garantiu melhores condições de sobrevivência em comparação aos prisioneiros enviados a campos madeireiros, onde muitos morriam em poucos meses.

Ali, ouviu inúmeros relatos de fugas de outros condenados, histórias que, mais tarde, seriam incorporadas à narrativa de Papillon. A fuga definitiva teria ocorrido entre 18 e 19 de março de 1944, quando escapou do acampamento florestal de Cascades, acompanhado de outros quatro prisioneiros.

Exílio, liberdade e reconstrução da vida

Após um período de liberdade provisória, Charrière recebeu a liberdade total em 1945. Estabeleceu-se na Venezuela, onde se naturalizou cinco anos depois. Casou-se novamente, dessa vez com uma venezuelana chamada Rita Bensimon, e abriu restaurantes nas cidades de Caracas e Maracaibo.

Na Venezuela, passou a ser tratado como uma celebridade local, frequentemente convidado para programas de televisão. Sua vida tomou um rumo inesperado quando decidiu transformar suas memórias em livro.

Papillon: sucesso, cinema e polêmica

Publicado em 1969, Papillon foi um sucesso imediato, vendendo mais de 1,5 milhão de exemplares apenas na França. O impacto cultural foi tão grande que um ministro francês chegou a atribuir “o declínio moral da França” a dois fenômenos: as minissaias e Papillon.

A obra foi adaptada para o cinema em 1973, em um filme dirigido por Franklin J. Schaffner, estrelado por Steve McQueen no papel de Charrière e com roteiro de Dalton Trumbo. O próprio Charrière atuou como consultor durante as filmagens. Em 2017, uma nova adaptação foi lançada, dirigida por Michael Noer, com Charlie Hunnam no papel principal.

Apesar do sucesso, a autoria de Papillon permanece profundamente contestada. Pesquisadores e historiadores afirmam que Charrière teria se apropriado de experiências vividas por outros prisioneiros, especialmente o escritor René Belbenoît, autor de relatos detalhados sobre a vida na colônia penal da Guiana Francesa.

Para muitos estudiosos, Papillon seria menos uma autobiografia fiel e mais um mosaico de histórias alheias, habilmente costuradas sob um único nome.

Perdão e morte

Em 1970, o sistema de justiça francês concedeu a Charrière um perdão oficial pela condenação de 1931. Três anos depois, em 29 de julho de 1973, Henri Charrière morreu em Madri, na Espanha, vítima de câncer na garganta.

Entre a realidade documentada e o mito literário, Henri Charrière permanece como uma figura ambígua: símbolo de resistência e liberdade para alguns, impostor habilidoso para outros.

Ainda assim, Papillon segue como uma das narrativas mais impactantes já escritas sobre o sistema penal francês, seja como verdade literal ou como poderosa ficção inspirada em vidas reais.


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