Henri Charrière: vida, mito e controvérsia
Henri Charrière nasceu em 16 de novembro de
1906, em Saint-Étienne-de-Lugdarés, no departamento de Ardèche, sul da França.
Tornou-se mundialmente conhecido como o suposto autor do livro Papillon,
publicado em 1969 e posteriormente adaptado para o cinema em 1973.
Escritor tardio, Charrière construiu sua fama
a partir de uma narrativa marcada por sofrimento extremo, fugas audaciosas e
uma permanente afirmação de inocência, elementos que contribuíram tanto para o
sucesso da obra quanto para as dúvidas sobre sua veracidade.
Antes de se tornar um nome célebre da
literatura de memórias, Charrière teve uma juventude conturbada. Filho de uma
família modesta, tinha duas irmãs mais velhas e sofreu um golpe profundo ainda
criança: a morte de sua mãe, quando ele tinha apenas dez anos.
Esse episódio marcou sua personalidade e,
segundo relatos posteriores, contribuiu para sua rebeldia e instabilidade
emocional. Aos 17 anos, em 1923, alistou-se na Marinha Francesa, onde serviu
por cerca de dois anos.
Após deixar o serviço militar, mergulhou no
submundo parisiense do final dos anos 1920 e início dos anos 1930, vivendo como
vagabundo e aplicando pequenos golpes. Foi nesse ambiente de criminalidade,
miséria e violência que seu destino tomou um rumo irreversível.
A condenação e o envio à Guiana Francesa
Segundo a versão apresentada em Papillon,
Charrière foi condenado em 26 de outubro de 1931 pelo assassinato de um cafetão
chamado Roland Le Petit, crime que sempre negou com veemência.
Apesar das provas frágeis e das
inconsistências do processo, foi sentenciado à prisão perpétua com dez anos de
trabalhos forçados, uma pena comum na França da época para crimes considerados
graves.
Pouco depois da condenação, em 22 de dezembro
de 1931, casou-se com Georgette Fourel, então prefeita do 1º arrondissement de
Paris, uma união que mais tarde se dissolveria, culminando no divórcio oficial
em 1970.
Em 1933, após uma passagem pela prisão de
Beaulieu, em Caen, Charrière foi transportado para a Guiana Francesa,
desembarcando no temido complexo penal de Saint-Laurent-du-Maroni, às margens
do rio Maroni.
A colônia penal francesa era conhecida por
suas condições desumanas, altas taxas de mortalidade e pelo uso sistemático do
isolamento como punição psicológica.
Fugas, castigos e versões conflitantes
Em Papillon, Charrière descreve uma série de
fugas espetaculares, iniciadas em 28 de novembro de 1933, ao lado de
companheiros como André Maturette e Joanes Clousiot. Após semanas à deriva, o
grupo teria sido capturado na Colômbia e posteriormente disperso.
Em outra fuga, afirma ter vivido por meses
com uma tribo indígena na Península de La Guajira, experiência que descreve com
tons quase míticos. No entanto, documentos oficiais franceses divulgados
posteriormente contradizem vários desses episódios.
Os registros indicam que Charrière nunca
esteve preso na Ilha do Diabo, como afirma no livro, mas sim em outras unidades
do sistema penal, incluindo a Ilha de São José, onde passou dois anos em
confinamento solitário após uma tentativa de fuga frustrada em 1934.
Ainda segundo os arquivos oficiais, ele
trabalhou como auxiliar de enfermagem no Hospital Colonial André-Bouron, o que
lhe garantiu melhores condições de sobrevivência em comparação aos prisioneiros
enviados a campos madeireiros, onde muitos morriam em poucos meses.
Ali, ouviu inúmeros relatos de fugas de
outros condenados, histórias que, mais tarde, seriam incorporadas à narrativa
de Papillon. A fuga definitiva teria ocorrido entre 18 e 19 de março de 1944,
quando escapou do acampamento florestal de Cascades, acompanhado de outros
quatro prisioneiros.
Exílio, liberdade e reconstrução da vida
Após um período de liberdade provisória,
Charrière recebeu a liberdade total em 1945. Estabeleceu-se na Venezuela, onde
se naturalizou cinco anos depois. Casou-se novamente, dessa vez com uma
venezuelana chamada Rita Bensimon, e abriu restaurantes nas cidades de Caracas
e Maracaibo.
Na Venezuela, passou a ser tratado como uma
celebridade local, frequentemente convidado para programas de televisão. Sua
vida tomou um rumo inesperado quando decidiu transformar suas memórias em
livro.
Papillon: sucesso, cinema e polêmica
Publicado em 1969, Papillon foi um sucesso
imediato, vendendo mais de 1,5 milhão de exemplares apenas na França. O impacto
cultural foi tão grande que um ministro francês chegou a atribuir “o declínio
moral da França” a dois fenômenos: as minissaias e Papillon.
A obra foi adaptada para o cinema em 1973, em
um filme dirigido por Franklin J. Schaffner, estrelado por Steve McQueen no
papel de Charrière e com roteiro de Dalton Trumbo. O próprio Charrière atuou
como consultor durante as filmagens. Em 2017, uma nova adaptação foi lançada,
dirigida por Michael Noer, com Charlie Hunnam no papel principal.
Apesar do sucesso, a autoria de Papillon
permanece profundamente contestada. Pesquisadores e historiadores afirmam que
Charrière teria se apropriado de experiências vividas por outros prisioneiros,
especialmente o escritor René Belbenoît, autor de relatos detalhados sobre a
vida na colônia penal da Guiana Francesa.
Para muitos estudiosos, Papillon seria menos
uma autobiografia fiel e mais um mosaico de histórias alheias, habilmente costuradas
sob um único nome.
Perdão e morte
Em 1970, o sistema de justiça francês
concedeu a Charrière um perdão oficial pela condenação de 1931. Três anos
depois, em 29 de julho de 1973, Henri Charrière morreu em Madri, na Espanha,
vítima de câncer na garganta.
Entre a realidade documentada e o mito
literário, Henri Charrière permanece como uma figura ambígua: símbolo de
resistência e liberdade para alguns, impostor habilidoso para outros.










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