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sábado, outubro 03, 2026

O vazio existencial - O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio



“O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio.” – Viktor Frankl

Há um vazio que não se vê. Não é a ausência de dinheiro, de conforto ou de pessoas ao redor. É algo mais profundo: a sensação de que a vida perdeu o sentido, de que os dias se repetem sem uma razão suficientemente forte para justificar a caminhada.

Viktor Frankl observou que o vazio existencial se tornou um fenômeno amplamente difundido na sociedade moderna. Para ele, isso pode ser compreendido a partir de duas grandes perdas sofridas pelo ser humano ao longo de sua história.

A primeira ocorreu quando o homem deixou para trás parte dos instintos que orientam naturalmente o comportamento dos animais. O animal possui, em grande medida, mecanismos instintivos que lhe indicam como agir e contribuem para sua sobrevivência.

O ser humano, porém, perdeu essa segurança. Não possui mais o paraíso dos instintos. Precisa escolher. Precisa decidir. Precisa assumir a responsabilidade por aquilo que faz. Mas houve uma segunda perda: o enfraquecimento das tradições.

Durante muito tempo, as tradições funcionaram como referências, indicando ao indivíduo como viver, o que valorizar e quais caminhos seguir. Entretanto, essas referências foram perdendo força.

E então surge o paradoxo: nenhum instinto diz ao homem o que fazer e nenhuma tradição lhe diz claramente o que deveria fazer. Às vezes, ele sequer sabe o que realmente deseja.

Por isso, pode acabar simplesmente fazendo aquilo que os outros fazem – o conformismo – ou aquilo que outros querem que ele faça. É nesse cenário que aparece o vazio existencial.

E, segundo Frankl, ele se manifesta principalmente através do tédio. Schopenhauer já havia observado que a existência humana parecia condenada a oscilar entre dois extremos: a angústia e o tédio. Hoje, o tédio pode assumir uma dimensão ainda mais preocupante.

A sociedade moderna oferece ao indivíduo uma quantidade crescente de possibilidades, entretenimento e tempo livre. A tecnologia e a automação diminuem progressivamente a necessidade de determinadas formas de trabalho. Mas surge uma pergunta que nem sempre sabemos responder: o que faremos com o nosso tempo quando já não precisarmos gastá-lo apenas trabalhando?

Para algumas pessoas, o problema não será encontrar tempo.

Será encontrar um motivo para preenchê-lo. Frankl chama atenção para aquilo que denominou de “neurose dominical”: aquela espécie de vazio ou depressão que pode surgir quando termina a correria da semana e o indivíduo finalmente fica sozinho diante de si mesmo.

Durante os dias úteis, há compromissos, horários, tarefas, reuniões, obrigações e problemas para resolver. Então chega o domingo. O silêncio aparece. E, quando o barulho desaparece, algumas pessoas descobrem aquilo que passaram a semana inteira tentando não perceber: há um vazio dentro delas.

É nesse ponto que a reflexão de Frankl ultrapassa a psicologia e alcança uma questão essencial da existência humana. Depressão, agressividade, vícios e outros comportamentos podem, em determinados casos, estar relacionados a uma profunda frustração existencial.

O mesmo pode acontecer com pessoas que chegam à aposentadoria e, de repente, perdem a função que durante décadas organizou suas vidas. Não é necessariamente a falta do trabalho que dói.

É a sensação de que, sem o trabalho, não resta mais nada que dê sentido aos dias. O vazio, entretanto, aparece raramente com seu verdadeiro rosto. Ele pode esconder-se atrás do dinheiro. Atrás da busca incessante por poder. Atrás da necessidade de reconhecimento. Atrás do consumo. Atrás do prazer. Atrás de relações usadas apenas como distração.

Quando a vontade de encontrar um sentido para a existência é frustrada, o indivíduo pode tentar substituí-la por outras vontades. Alguns buscam poder. Outros buscam dinheiro. Outros procuram prazer.

E, em determinadas situações, até a sexualidade pode transformar-se em uma tentativa de preencher aquilo que, na verdade, não é uma carência do corpo, mas uma carência de significado.

Talvez uma das maiores tragédias do homem moderno seja justamente esta: ele aprendeu a conquistar quase tudo, mas nem sempre aprendeu para que deseja conquistar.

Pode ter conforto e continuar vazio. Pode estar cercado de pessoas e sentir-se sozinho. Pode possuir liberdade e não saber o que fazer com ela. Pode ter tempo e desejar desesperadamente que ele passe.

O problema, portanto, talvez não seja simplesmente a ausência de coisas. Talvez seja a ausência de sentido. E é justamente aí que a pergunta de Frankl continua perturbadoramente atual: quando já não sabemos por que viver, de que adianta saber apenas como viver?

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