“O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio.” – Viktor Frankl
Há um vazio que não se vê. Não
é a ausência de dinheiro, de conforto ou de pessoas ao redor. É algo mais
profundo: a sensação de que a vida perdeu o sentido, de que os dias se repetem
sem uma razão suficientemente forte para justificar a caminhada.
Viktor Frankl observou que o
vazio existencial se tornou um fenômeno amplamente difundido na sociedade
moderna. Para ele, isso pode ser compreendido a partir de duas grandes perdas
sofridas pelo ser humano ao longo de sua história.
A primeira ocorreu quando o
homem deixou para trás parte dos instintos que orientam naturalmente o
comportamento dos animais. O animal possui, em grande medida, mecanismos
instintivos que lhe indicam como agir e contribuem para sua sobrevivência.
O ser humano, porém, perdeu
essa segurança. Não possui mais o paraíso dos instintos. Precisa escolher.
Precisa decidir. Precisa assumir a responsabilidade por aquilo que faz. Mas
houve uma segunda perda: o enfraquecimento das tradições.
Durante muito tempo, as
tradições funcionaram como referências, indicando ao indivíduo como viver, o
que valorizar e quais caminhos seguir. Entretanto, essas referências foram
perdendo força.
E então surge o paradoxo: nenhum
instinto diz ao homem o que fazer e nenhuma tradição lhe diz claramente o que
deveria fazer. Às vezes, ele sequer sabe o que realmente deseja.
Por isso, pode acabar simplesmente
fazendo aquilo que os outros fazem – o conformismo – ou aquilo que outros
querem que ele faça. É nesse cenário que aparece o vazio existencial.
E, segundo Frankl, ele se
manifesta principalmente através do tédio. Schopenhauer já havia observado que
a existência humana parecia condenada a oscilar entre dois extremos: a angústia
e o tédio. Hoje, o tédio pode assumir uma dimensão ainda mais preocupante.
A sociedade moderna oferece ao
indivíduo uma quantidade crescente de possibilidades, entretenimento e tempo
livre. A tecnologia e a automação diminuem progressivamente a necessidade de
determinadas formas de trabalho. Mas surge uma pergunta que nem sempre sabemos
responder: o que faremos com o nosso tempo quando já não precisarmos gastá-lo
apenas trabalhando?
Para algumas pessoas, o
problema não será encontrar tempo.
Será encontrar um motivo para
preenchê-lo. Frankl chama atenção para aquilo que denominou de “neurose
dominical”: aquela espécie de vazio ou depressão que pode surgir quando termina
a correria da semana e o indivíduo finalmente fica sozinho diante de si mesmo.
Durante os dias úteis, há
compromissos, horários, tarefas, reuniões, obrigações e problemas para
resolver. Então chega o domingo. O silêncio aparece. E, quando o barulho
desaparece, algumas pessoas descobrem aquilo que passaram a semana inteira
tentando não perceber: há um vazio dentro delas.
É nesse ponto que a reflexão
de Frankl ultrapassa a psicologia e alcança uma questão essencial da existência
humana. Depressão, agressividade, vícios e outros comportamentos podem, em
determinados casos, estar relacionados a uma profunda frustração existencial.
O mesmo pode acontecer com
pessoas que chegam à aposentadoria e, de repente, perdem a função que durante
décadas organizou suas vidas. Não é necessariamente a falta do trabalho que
dói.
É a sensação de que, sem o
trabalho, não resta mais nada que dê sentido aos dias. O vazio, entretanto, aparece raramente com seu verdadeiro rosto. Ele pode esconder-se atrás do
dinheiro. Atrás da busca incessante por poder. Atrás da necessidade de
reconhecimento. Atrás do consumo. Atrás do prazer. Atrás de relações usadas
apenas como distração.
Quando a vontade de encontrar
um sentido para a existência é frustrada, o indivíduo pode tentar substituí-la
por outras vontades. Alguns buscam poder. Outros buscam dinheiro. Outros
procuram prazer.
E, em determinadas situações,
até a sexualidade pode transformar-se em uma tentativa de preencher aquilo que,
na verdade, não é uma carência do corpo, mas uma carência de significado.
Talvez uma das maiores
tragédias do homem moderno seja justamente esta: ele aprendeu a conquistar
quase tudo, mas nem sempre aprendeu para que deseja conquistar.
Pode ter conforto e continuar
vazio. Pode estar cercado de pessoas e sentir-se sozinho. Pode possuir
liberdade e não saber o que fazer com ela. Pode ter tempo e desejar
desesperadamente que ele passe.
O problema, portanto, talvez não seja simplesmente a ausência de coisas. Talvez seja a ausência de sentido. E é justamente aí que a pergunta de Frankl continua perturbadoramente atual: quando já não sabemos por que viver, de que adianta saber apenas como viver?









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