Charles Manson e a Construção de um Delírio Coletivo
Charles Manson cultivava
ideias grandiosas e, ao seu redor, formou um grupo de seguidores conhecido como
Família Manson. Eram homens e mulheres, em sua maioria jovens, muitos
provenientes de famílias abastadas, mas marcados por conflitos familiares,
rejeição emocional e rupturas profundas com seus lares.
Esse afastamento os levou a
uma vida errante pelas ruas da Califórnia, em plena efervescência da
contracultura dos anos 1960. Para alguns admiradores, Manson assumia contornos
quase messiânicos.
Havia quem o enxergasse como
uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo, não no sentido religioso
tradicional, mas como alguém que prometia libertar os jovens de antigas amarras
e conduzi-los a “novos horizontes”.
O próprio Manson, no entanto,
negava abertamente essa comparação, embora se aproveitasse da aura de líder
espiritual que o cercava. Em 1966, aos 32 anos, Manson teve a oportunidade de
deixar a prisão, mas, paradoxalmente, demonstrou resistência à liberdade.
Após passar mais da metade da
vida em instituições correcionais, declarou não se sentir capaz de sobreviver
fora delas. Ainda assim, acabou libertado. Uma vez em liberdade, mergulhou no
universo hippie, onde encontrou terreno fértil para recrutar seguidores,
sobretudo jovens mulheres emocionalmente fragilizadas.
O uso recorrente de drogas
psicodélicas, como o LSD, tornou-se uma ferramenta de manipulação e controle
psicológico. Apresentando-se como um guru, Manson pregava o rompimento com o
que chamava de “prisões mentais” impostas pelo capitalismo e pela sociedade
tradicional.
Com o tempo, a Família se
aproximou de discursos místicos e de supostas ciências ocultas, como a
enigmática e pouco documentada chamada “Ordem de Circe do Cachorro
Sanguinário”, elemento que reforçava o caráter esotérico e confuso de suas
crenças.
Em 1968, Manson estabeleceu
uma comunidade alternativa no Spahn Ranch, uma antiga área de filmagens próxima
a Los Angeles. Ali, os membros da Família viviam de pequenos furtos, da coleta
de restos de comida em restaurantes e da exploração ocasional de pessoas que
cruzavam seu caminho.
Foi nesse período que o grupo
conheceu Dennis Wilson, baterista da banda The Beach Boys. Inicialmente
seduzido pelo estilo de vida do grupo, Wilson acabou se afastando ao perceber o
comportamento instável e manipulador de Manson.
Apesar de sua condição
marginal, Charles alimentava o sonho de se tornar uma estrela da música ou do
cinema. Tentou gravar um disco e até produzir um filme, mas encontrou
resistência, sobretudo por parte do produtor Terry Melcher, que recusou lançar
sua carreira artística. Para Manson, essa recusa foi vivida como uma traição
pessoal e uma confirmação de que o sistema conspirava contra ele.
Nesse mesmo período, Manson
passou a defender uma teoria delirante sobre uma iminente guerra racial, na
qual os negros triunfariam sobre os brancos, mas seriam incapazes de governar.
Segundo ele, após o conflito, caberia à Família Manson assumir o controle da
nova ordem mundial.
Essa fantasia ganhou força
quando os Beatles lançaram, em 1968, o álbum The Beatles, conhecido como
Álbum Branco. Canções como Revolution, Piggies e Helter
Skelter passaram a ser interpretadas por Manson como mensagens cifradas
dirigidas diretamente a ele.
Para Manson, Helter Skelter
não era apenas uma música, mas o nome da guerra que destruiria o mundo
conhecido. Ele se via como o “quinto anjo” do apocalipse, enquanto os quatro
Beatles ocupariam as demais posições simbólicas.
Acreditava ainda que, no
deserto da Califórnia, existiria uma entrada secreta para uma cidade
subterrânea de ouro, onde ele e sua Família se esconderiam até o fim do
conflito. Quando a guerra não começou no momento previsto por ele, Manson
concluiu que seria necessário “ensinar” o mundo a agir.
O Crime
Na noite de 9 de agosto de
1969, membros da Família Manson invadiram uma residência localizada na Cielo
Drive, nº 10050, em Bel Air, alugada pelo diretor Roman Polanski. Na casa
estavam sua esposa, Sharon Tate, grávida, e quatro amigos do casal. Todos foram
mortos, e frases foram escritas com o sangue das vítimas nas paredes, entre
elas a palavra “Pigs” (“porcos”).
Na noite seguinte, o grupo
atacou a casa de Rosemary e Leno LaBianca, que também foram assassinados. No
local, surgiram inscrições como “Helter Skelter”, “Death to pigs”
(“morte aos porcos”) e “Rise” (“ascensão”), referências diretas às
músicas dos Beatles. Esses crimes ficaram conhecidos como o Caso Tate–LaBianca.
Segundo o promotor Vincent
Bugliosi, embora Manson não estivesse presente nas cenas dos crimes, ele foi o
mentor intelectual das ações. Bugliosi construiu a tese conhecida como Teoria
Helter Skelter, segundo a qual os assassinatos tinham como objetivo provocar o
caos racial, levando a sociedade a uma explosão de violência entre brancos e
negros.
Julgamento, Condenação e Morte
Charles Manson foi acusado de
seis assassinatos e levado a julgamento ao lado de seus seguidores mais
próximos: Tex Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Leslie Van Houten.
Embora alegasse não ter participado diretamente dos crimes, o júri foi
convencido de que sua influência psicológica foi determinante.
Em 1971, todos foram
condenados à pena de morte, posteriormente convertida em prisão perpétua após
mudanças na legislação da Califórnia. Durante décadas, Manson teve pedidos de
liberdade condicional sistematicamente negados, sendo considerado perigoso até
o fim da vida.
Ele passou grande parte do
tempo encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, em regime de
isolamento parcial, mantendo contato restrito com outros presos de alta
periculosidade. Tornou-se uma figura quase mítica, recebendo cartas, visitas e
até propostas de casamento.
Charles Manson morreu em 19 de
novembro de 2017, aos 83 anos, em um hospital de Bakersfield, na Califórnia,
por causas naturais. Não demonstrou arrependimento público pelos crimes
associados a seu nome.
Sua morte encerrou a
trajetória de um homem que, apesar de não ter cometido pessoalmente os
assassinatos mais famosos, tornou-se um dos maiores símbolos da manipulação, do
fanatismo e da violência do século XX.

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