Uma geração que passou: a infância que nunca mais vai voltar
Há uma geração que guarda no coração lembranças de um tempo que não
volta mais. Uma época em que a felicidade morava nas coisas simples, nas
brincadeiras de rua e na liberdade de ser criança.
Era a geração que ia à escola a pé e voltava para casa pensando apenas
em terminar a lição o mais rápido possível para sair e brincar. Uma geração que
passava boa parte do tempo livre na rua, correndo, pulando, inventando jogos e
fazendo amizades que, muitas vezes, duravam a vida inteira.
Era a geração que brincava de esconde-esconde até o anoitecer, jogava
bola na rua, pulava corda, brincava de amarelinha e construía castelos de lama.
A mesma que tomava banho de chuva, mergulhava em rios, lagoas e açudes e
voltava para casa com os pés sujos, os joelhos ralados e um sorriso que não
cabia no rosto.
Havia quem colecionasse bolinhas de gude, quem soltasse pipa, quem
construísse brinquedos com pedaços de madeira e papel. Alguns faziam arapucas
para capturar passarinhos ou saíam pelo mato com estilingues.
Eram costumes de uma época em que a infância acontecia, sobretudo, ao ar
livre – embora hoje também saibamos que a natureza e os animais merecem nosso
cuidado e respeito.
Era a geração dos pirulitos com apito, das guloseimas azedinhas, dos
brinquedos improvisados e das brincadeiras inventadas na hora. Não precisávamos
de celulares, internet ou videogames sofisticados para nos divertir. Bastava
reunir os amigos, ter um pouco de imaginação e encontrar um lugar onde a
brincadeira pudesse começar.
Depois vieram os discos, as fitas cassete, os videocassetes, os
disquetes e os walkmans. Guardávamos fotografias em álbuns, recortávamos
figuras, trocávamos bilhetes e esperávamos ansiosamente por programas de
televisão. Quem não se lembra de ver o pai tentando consertar a TV ou subir no
telhado para ajustar a antena, enquanto alguém gritava da sala: “Agora ficou
bom!”?
Era também a geração que tinha pais que pareciam estar sempre por perto,
mesmo quando a vida era difícil. A geração que ria baixinho debaixo das
cobertas para que eles não percebessem que ainda estava acordada.
Que ouvia histórias dos mais velhos, respeitava os horários de casa e
aprendia, nas pequenas experiências cotidianas, algumas das lições que levaria
para a vida inteira.
Tínhamos pouco, mas compartilhávamos muito. Dividíamos brinquedos,
lanches, segredos e sonhos. As briguinhas aconteciam, como em qualquer
infância, mas muitas vezes bastava um convite para brincar novamente para a amizade recomeçar.
Nem tudo era perfeito, é verdade. Também havia dificuldades, limitações
e tristezas. Mas existiam momentos de alegria que ficaram guardados na memória
como pequenos tesouros.
Hoje, muita coisa mudou. As crianças têm outros brinquedos, outras
formas de comunicação e um mundo inteiro ao alcance das mãos. A tecnologia
trouxe benefícios extraordinários, mas também transformou a maneira como as
pessoas convivem, brincam e constroem suas relações.
Não podemos afirmar que as crianças de antigamente eram mais felizes do
que as de hoje. Cada geração tem suas alegrias e seus desafios. O que podemos
dizer é que a nossa infância teve uma maneira própria de existir, com
experiências que dificilmente se repetirão da mesma forma.
E talvez seja isso que mais emocione quando olhamos para trás: perceber
que o tempo levou as ruas de terra, os velhos quintais, as brincadeiras
intermináveis e muitos daqueles amigos. Alguns seguiram caminhos diferentes;
outros já partiram.
Nossos pais envelheceram, nossas casas mudaram e nós também deixamos de
ser aquelas crianças que acreditavam que o mundo era grande, mas que o dia
nunca terminaria. Ah, que saudade daquele tempo!
Se pudéssemos voltar por alguns minutos, talvez não quiséssemos mudar
absolutamente nada. Gostaríamos apenas de correr mais uma vez pela rua, ouvir a
voz dos nossos pais chamando para entrar, encontrar os amigos de antigamente e
sentir, mesmo que por um instante, aquela alegria simples de não ter pressa de
crescer.
Mas o tempo não volta. A infância passou, e aquela geração também está
passando. O que permanece são as lembranças, as histórias contadas aos filhos e
netos e a saudade de uma época que, apesar de todas as suas imperfeições,
continua viva em nós.
Porque uma geração pode desaparecer, os costumes podem mudar e o mundo
pode se transformar. Mas certas lembranças nunca envelhecem. Elas permanecem
guardadas no coração, lembrando-nos de quem fomos, de onde viemos e de tudo
aquilo que o tempo jamais conseguirá apagar.









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