Josef Mengele no Brasil: os últimos anos de fuga e o fracasso da captura
Após anos de fuga pela América do Sul, Josef
Mengele encontrou um refúgio no Brasil relativamente seguro, ainda que marcado
por instabilidade, medo constante e deterioração física.
Em 1969, com o apoio do casal de expatriados
húngaros Geza e Gitta Stammer, adquiriu uma propriedade rural na região de
Caieiras, em São Paulo, vivendo como sócio e colaborador nas
atividades da fazenda.
Nesse período, ele utilizava a identidade de Wolfgang
Gerhard, um simpatizante que, ao retornar à Alemanha em 1971 para tratar da
saúde da esposa e do filho, deixou seus documentos pessoais com Mengele — gesto
que reforçou ainda mais o disfarce do fugitivo.
Apesar da aparente estabilidade, a
convivência com os Stammer deteriorou-se ao longo dos anos. Em 1974, após
desentendimentos, o casal mudou-se para a cidade de São Paulo, deixando para
trás a convivência direta com Mengele.
Ainda assim, mantiveram certa ligação:
adquiriram um bangalô no bairro Eldorado e o alugaram a ele, permitindo que
continuasse vivendo discretamente.
Foi nesse endereço que, em 1977, Mengele
recebeu a visita de seu filho, Rolf Mengele, que não o via desde 1956. O
reencontro revelou um homem endurecido em suas convicções.
Segundo relatos, ele se mostrou um nazista
impenitente, afirmando jamais ter prejudicado alguém diretamente e alegando ter
apenas cumprido seu dever — uma postura que evidencia a ausência de
arrependimento mesmo décadas após os crimes associados ao regime nazista.
Enquanto isso, sua saúde declinava progressivamente. Desde o início da década de 1970, sofria com pressão alta e
problemas de equilíbrio decorrentes de uma infecção no ouvido. Em 1976, teve um
acidente vascular cerebral, que agravou ainda mais sua condição física.
O fim chegou em 7 de fevereiro de 1979,
durante uma visita a amigos na cidade litorânea de Bertioga, em São Paulo. Ao
entrar no mar da Praia da Enseada, sofreu outro derrame enquanto nadava e
acabou se afogando.
Sua morte ocorreu de forma solitária e
silenciosa — muito distante dos tribunais que, por décadas, tentaram levá-lo à
justiça.
Mengele foi enterrado em Embu das Artes sob o
nome falso de Wolfgang Gerhard, identidade que utilizava desde 1971. Durante
anos, sua verdadeira identidade permaneceu oculta, alimentando dúvidas e
teorias sobre seu paradeiro. Além desse pseudônimo, também recorreu a outros
nomes falsos ao longo da fuga, como “Dr. Fausto Rindón” e “S. Josi Alvers
Aspiazu”.
A caçada internacional e o papel do Mossad
A busca por Mengele mobilizou diferentes
países e serviços de inteligência, com destaque para o Mossad. Em 1960, sob a
liderança de Isser Harel, a agência realizou uma das operações mais célebres da
história ao capturar Adolf Eichmann em Buenos Aires, Argentina.
A expectativa era que a mesma operação
pudesse levar também à captura de Mengele. Durante os interrogatórios, Eichmann
forneceu informações sobre esconderijos utilizados por fugitivos nazistas,
incluindo pensões que serviam como pontos de apoio. No entanto, a vigilância
desses locais não trouxe resultados concretos: Mengele já havia deixado os
endereços conhecidos e não deixara rastros claros.
Outras tentativas de localização também
fracassaram. Investigações em oficinas e contatos comerciais ligados a ele não
produziram pistas relevantes. Mesmo com recompensas oferecidas pela Alemanha
Ocidental e com a ampliação dos pedidos de extradição para países como o
Brasil, Mengele conseguiu escapar repetidamente.
Um dos fatores que facilitaram sua fuga foi a
rede de apoio formada por antigos simpatizantes do regime nazista. Entre eles,
destacou-se Hans-Ulrich Rudel, que auxiliou a conectá-lo a aliados na América do
Sul, incluindo Wolfgang Gerhard.
A busca ganhou novo impulso quando Zvi
Aharoni, integrante da equipe que capturou Eichmann, passou a liderar as
investigações sobre o paradeiro de Mengele.
Sua equipe chegou a rastrear movimentos
suspeitos no Brasil e identificou um homem europeu vivendo em uma área rural
próxima a São Paulo, possivelmente o fugitivo.
Apesar da descoberta promissora, a operação
foi interrompida em 1962. Questões logísticas, limitações orçamentárias e
prioridades estratégicas — como o agravamento das tensões entre Israel e o
Egito — levaram o Mossad a suspender a missão.
Entre o anonimato e a impunidade.
A história de Josef Mengele é marcada por
contradições profundas: um dos homens mais procurados do pós-guerra conseguiu
viver por décadas sem ser capturado, apoiado por redes de solidariedade
ideológica e favorecido por falhas na cooperação internacional.
Sua morte, longe de qualquer julgamento,
encerrou uma trajetória que permanece como símbolo da impunidade de alguns
criminosos de guerra. Ainda assim, os esforços para localizá-lo e expor sua
história contribuíram para manter viva a memória das vítimas e reforçar a
importância da justiça histórica.










0 Comentários:
Postar um comentário