A Doce Agonia do Desejo: Quando a Dor Também Dá Prazer
De todos os males, o meu é
diferente: ele me alegra, e nele me regozijo. Meu infortúnio é aquilo que
almejo; minha dor, o alimento de que me nutro!
Não tenho, portanto, do que me
queixar, pois meu infortúnio nasce da minha própria vontade. É o meu querer que
se transforma em sofrimento, mas encontro tanta satisfação nesse querer que
acabo sofrendo com prazer. Há tanta alegria na minha dor que me sinto doente de
delícias.
Há sofrimentos que não
desejamos evitar, porque, de alguma forma, também nos alimentam. São as dores
que nascem dos desejos que insistimos em cultivar, dos amores que não
conseguimos abandonar, das lembranças que nos recusamos a esquecer e das
esperanças que, mesmo nos ferindo, continuamos a alimentar.
Às vezes, somos nós mesmos que
mantemos abertas as feridas que tanto reclamamos de sentir. Sabemos que
determinada escolha nos fará sofrer, conhecemos as consequências de certos
desejos e, ainda assim, seguimos adiante.
Não porque desconheçamos o
preço, mas porque aquilo que desejamos parece valer mais do que a paz que
poderíamos encontrar ao renunciar. Há uma estranha contradição na natureza
humana: podemos sofrer por aquilo que amamos e, ao mesmo tempo, amar justamente
aquilo que nos faz sofrer.
A ausência de alguém pode nos
atormentar, mas também nos oferecer a ilusão de que ainda existe um vínculo. A
saudade pode nos ferir, mas abandoná-la talvez pareça uma segunda perda, como
se deixar de sofrer fosse também deixar de amar.
E assim permanecemos presos a
sentimentos contraditórios, divididos entre o desejo de encontrar alívio e o
medo de perder aquilo que, apesar de tudo, ainda nos dá sentido.
Mas será que toda dor precisa
ser eliminada? Ou existem sofrimentos que aceitamos porque fazem parte de quem
somos, daquilo que vivemos e das histórias que não conseguimos encerrar?
Talvez a questão não seja
simplesmente evitar a dor, mas compreender por que, tantas vezes, nos apegamos
a ela. Há uma diferença entre aceitar o sofrimento inevitável da existência e
transformar o sofrimento em condição para continuar amando, desejando ou
vivendo.
O perigo começa quando
confundimos intensidade com felicidade, apego com amor e sofrimento com prova
de que algo realmente importa. No fundo, o ser humano nem sempre procura aquilo
que lhe faz bem. Às vezes, procura aquilo que o faz sentir mais intensamente,
mesmo que essa intensidade venha acompanhada de lágrimas, inquietação e noites
sem descanso.
E talvez seja essa uma das
nossas contradições mais profundas: nem sempre queremos nos libertar daquilo
que nos aprisiona. Algumas correntes são dolorosas, mas nos acostumamos tanto
ao seu peso que a liberdade também começa a nos assustar.
Há dores que desejamos curar.
Outras, porém, precisamos primeiro compreender, porque uma parte de nós ainda
encontra nelas a razão para continuar desejando.
Afinal, nem todo sofrimento é escolhido conscientemente, mas há momentos em que insistimos naquilo que nos machuca porque ainda não aprendemos a distinguir o que nos faz sentir vivos daquilo que, lentamente, nos consome.









0 Comentários:
Postar um comentário