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quarta-feira, outubro 28, 2026

Doente de delícias



 A Doce Agonia do Desejo: Quando a Dor Também Dá Prazer

De todos os males, o meu é diferente: ele me alegra, e nele me regozijo. Meu infortúnio é aquilo que almejo; minha dor, o alimento de que me nutro!

Não tenho, portanto, do que me queixar, pois meu infortúnio nasce da minha própria vontade. É o meu querer que se transforma em sofrimento, mas encontro tanta satisfação nesse querer que acabo sofrendo com prazer. Há tanta alegria na minha dor que me sinto doente de delícias.

Há sofrimentos que não desejamos evitar, porque, de alguma forma, também nos alimentam. São as dores que nascem dos desejos que insistimos em cultivar, dos amores que não conseguimos abandonar, das lembranças que nos recusamos a esquecer e das esperanças que, mesmo nos ferindo, continuamos a alimentar.

Às vezes, somos nós mesmos que mantemos abertas as feridas que tanto reclamamos de sentir. Sabemos que determinada escolha nos fará sofrer, conhecemos as consequências de certos desejos e, ainda assim, seguimos adiante.

Não porque desconheçamos o preço, mas porque aquilo que desejamos parece valer mais do que a paz que poderíamos encontrar ao renunciar. Há uma estranha contradição na natureza humana: podemos sofrer por aquilo que amamos e, ao mesmo tempo, amar justamente aquilo que nos faz sofrer.

A ausência de alguém pode nos atormentar, mas também nos oferecer a ilusão de que ainda existe um vínculo. A saudade pode nos ferir, mas abandoná-la talvez pareça uma segunda perda, como se deixar de sofrer fosse também deixar de amar.

E assim permanecemos presos a sentimentos contraditórios, divididos entre o desejo de encontrar alívio e o medo de perder aquilo que, apesar de tudo, ainda nos dá sentido.

Mas será que toda dor precisa ser eliminada? Ou existem sofrimentos que aceitamos porque fazem parte de quem somos, daquilo que vivemos e das histórias que não conseguimos encerrar?

Talvez a questão não seja simplesmente evitar a dor, mas compreender por que, tantas vezes, nos apegamos a ela. Há uma diferença entre aceitar o sofrimento inevitável da existência e transformar o sofrimento em condição para continuar amando, desejando ou vivendo.

O perigo começa quando confundimos intensidade com felicidade, apego com amor e sofrimento com prova de que algo realmente importa. No fundo, o ser humano nem sempre procura aquilo que lhe faz bem. Às vezes, procura aquilo que o faz sentir mais intensamente, mesmo que essa intensidade venha acompanhada de lágrimas, inquietação e noites sem descanso.

E talvez seja essa uma das nossas contradições mais profundas: nem sempre queremos nos libertar daquilo que nos aprisiona. Algumas correntes são dolorosas, mas nos acostumamos tanto ao seu peso que a liberdade também começa a nos assustar.

Há dores que desejamos curar. Outras, porém, precisamos primeiro compreender, porque uma parte de nós ainda encontra nelas a razão para continuar desejando.

Afinal, nem todo sofrimento é escolhido conscientemente, mas há momentos em que insistimos naquilo que nos machuca porque ainda não aprendemos a distinguir o que nos faz sentir vivos daquilo que, lentamente, nos consome.

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