O Beijo da Vida: a extraordinária história da fotografia que conquistou o Pulitzer em 1968
O trabalho de um
fotógrafo vai muito além do domínio das técnicas, dos equipamentos e da
composição visual. Exige sensibilidade, atenção constante e, por vezes, uma dose
inesperada de acaso, aquele instante irrepetível em que a realidade se impõe
diante da lente.
Foi exatamente essa combinação que marcou a
carreira do fotógrafo nova-iorquino Rocco Morabito,
responsável por uma das imagens mais impactantes do fotojornalismo do século
XX.
Há mais de meio
século, Morabito conquistou o Prêmio Pulitzer de
Fotografia graças a uma imagem captada de forma absolutamente
fortuita, em julho de 1967. Naquele dia, ele seguia de carro para cobrir um
evento para o Jacksonville
Journal, na Flórida, quando avistou uma manifestação de
ferroviários à beira da estrada. Como bom repórter visual, decidiu parar para
registrar o protesto.
Enquanto
realizava as fotografias, um acontecimento inesperado desviou completamente sua
atenção. Próximo dali, dois funcionários da companhia elétrica - J.D. Thompson e Randall Champion - realizavam trabalhos de
manutenção em linhas de alta tensão.
Em um momento crítico, Champion sofreu um
forte choque elétrico, perdeu a consciência e ficou pendurado de cabeça para
baixo, sustentado apenas pelo cinturão de segurança preso ao poste.
O choque da cena
provocou um alvoroço imediato. Morabito, alertado pelos gritos e pela
movimentação, ergueu os olhos e se deparou com uma imagem angustiante:
Thompson, visivelmente desesperado, tentava salvar o colega, equilibrando-se
com dificuldade enquanto buscava reanimá-lo.
Sem hesitar, o fotógrafo acionou uma
ambulância pelo rádio de seu carro e, em seguida, passou a registrar cada
segundo daquele dramático esforço pela vida. Foi nesse instante que ocorreu o
gesto que eternizaria a cena.
Suspenso no ar, sem qualquer apoio adequado, J.D. Thompson realizou respiração boca a boca em Champion,
ainda desacordado e pendurado no poste. Morabito captou o exato momento em que
o socorro humano se sobrepôs ao perigo, transformando um ato de emergência em
uma imagem de força simbólica avassaladora.
A fotografia recebeu o título de “O Beijo da Vida” (The Kiss of Life)
e rapidamente ganhou destaque internacional. A ação rápida e corajosa de Thompson
foi decisiva. Randall Champion recuperou a consciência ainda no local,
sobreviveu ao acidente e pôde retomar sua vida.
Viveu por mais 34
anos após aquele dia, falecendo em 2002, aos 64 anos, vítima de
um ataque cardíaco - um desfecho natural, distante do risco extremo que quase o
levou prematuramente.
A fotografia de
Morabito não apenas lhe rendeu o Pulitzer em 1968, como também se tornou um
ícone do fotojornalismo, frequentemente citada como exemplo máximo do poder da
imagem em narrar histórias humanas reais, cruas e profundamente emocionantes.
O fotógrafo aposentou-se em 1982 e faleceu em
2009, aos 88 anos, deixando um legado marcado por esse instante decisivo
congelado no tempo. Dos três protagonistas daquela cena dramática, J.D. Thompson, o então novato que salvou a
vida do colega com coragem e sangue-frio, é o único ainda vivo.
Seu gesto permanece eternizado não apenas na
memória da fotografia, mas como um símbolo universal de solidariedade, bravura
e do valor inestimável da vida humana.








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