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sexta-feira, janeiro 02, 2026

O beijo da vida!


O Beijo da Vida: a extraordinária história da fotografia que conquistou o Pulitzer em 1968

O trabalho de um fotógrafo vai muito além do domínio das técnicas, dos equipamentos e da composição visual. Exige sensibilidade, atenção constante e, por vezes, uma dose inesperada de acaso, aquele instante irrepetível em que a realidade se impõe diante da lente.

Foi exatamente essa combinação que marcou a carreira do fotógrafo nova-iorquino Rocco Morabito, responsável por uma das imagens mais impactantes do fotojornalismo do século XX.

Há mais de meio século, Morabito conquistou o Prêmio Pulitzer de Fotografia graças a uma imagem captada de forma absolutamente fortuita, em julho de 1967. Naquele dia, ele seguia de carro para cobrir um evento para o Jacksonville Journal, na Flórida, quando avistou uma manifestação de ferroviários à beira da estrada. Como bom repórter visual, decidiu parar para registrar o protesto.

Enquanto realizava as fotografias, um acontecimento inesperado desviou completamente sua atenção. Próximo dali, dois funcionários da companhia elétrica - J.D. Thompson e Randall Champion - realizavam trabalhos de manutenção em linhas de alta tensão.

Em um momento crítico, Champion sofreu um forte choque elétrico, perdeu a consciência e ficou pendurado de cabeça para baixo, sustentado apenas pelo cinturão de segurança preso ao poste.

O choque da cena provocou um alvoroço imediato. Morabito, alertado pelos gritos e pela movimentação, ergueu os olhos e se deparou com uma imagem angustiante: Thompson, visivelmente desesperado, tentava salvar o colega, equilibrando-se com dificuldade enquanto buscava reanimá-lo.

Sem hesitar, o fotógrafo acionou uma ambulância pelo rádio de seu carro e, em seguida, passou a registrar cada segundo daquele dramático esforço pela vida. Foi nesse instante que ocorreu o gesto que eternizaria a cena.

Suspenso no ar, sem qualquer apoio adequado, J.D. Thompson realizou respiração boca a boca em Champion, ainda desacordado e pendurado no poste. Morabito captou o exato momento em que o socorro humano se sobrepôs ao perigo, transformando um ato de emergência em uma imagem de força simbólica avassaladora.

A fotografia recebeu o título de “O Beijo da Vida” (The Kiss of Life) e rapidamente ganhou destaque internacional. A ação rápida e corajosa de Thompson foi decisiva. Randall Champion recuperou a consciência ainda no local, sobreviveu ao acidente e pôde retomar sua vida.

Viveu por mais 34 anos após aquele dia, falecendo em 2002, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco - um desfecho natural, distante do risco extremo que quase o levou prematuramente.

A fotografia de Morabito não apenas lhe rendeu o Pulitzer em 1968, como também se tornou um ícone do fotojornalismo, frequentemente citada como exemplo máximo do poder da imagem em narrar histórias humanas reais, cruas e profundamente emocionantes.

O fotógrafo aposentou-se em 1982 e faleceu em 2009, aos 88 anos, deixando um legado marcado por esse instante decisivo congelado no tempo. Dos três protagonistas daquela cena dramática, J.D. Thompson, o então novato que salvou a vida do colega com coragem e sangue-frio, é o único ainda vivo.

Seu gesto permanece eternizado não apenas na memória da fotografia, mas como um símbolo universal de solidariedade, bravura e do valor inestimável da vida humana.

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