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quinta-feira, janeiro 15, 2026

Sabei políticos.


A política, em sua essência frequentemente corrompida, revela-se como a arte sutil de conduzir os menos escrupulosos às posições mais elevadas de poder e de generosa remuneração.

Não raras vezes, o exercício do governo deixa de ser um serviço à coletividade para tornar-se um mecanismo de autopreservação, no qual interesses particulares se sobrepõem ao bem comum.

O governante assemelha-se à abelha: aquela que produz o mínimo de mel é, paradoxalmente, a que mais fere com seu ferrão. Quanto menos entrega à sociedade, mais se arma de privilégios, discursos vazios e instrumentos de coerção para sustentar sua permanência no poder.

Em vez de fertilizar o campo social com ações concretas, prefere impor sua autoridade pela ameaça, pela manipulação ou pela indiferença.

Sabei, ó deputados; sabei, ó governadores; sabei, ó presidente: prestar-vos-eis estreita conta não apenas dos atos que praticastes, mas com rigor ainda maior, daquilo que, por conveniência, covardia ou cálculo político, deixastes de realizar.

A omissão, no exercício do poder, não é neutra; ela produz consequências tão devastadoras quanto os atos deliberadamente injustos. Escolher não agir diante da miséria, da desigualdade, da violência ou da corrupção é, em si, uma forma de ação perversa.

Tal advertência não é nova. Já no século XVII, o Padre Antônio Vieira, em seu Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650), ecoava uma verdade incômoda e atemporal:

“Sabei, cristãos, sabei, príncipes, sabei, ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito mais estreita do que deixastes de fazer.”

Pelo que fizeram, condenam-se muitos; pelo que não fizeram, condenam-se todos. Essa máxima atravessa os séculos como um julgamento silencioso, lembrando que a verdadeira responsabilidade do poder reside menos nos gestos espetaculares e mais na constância das ações que nunca chegaram a existir.

É na ausência de políticas públicas eficazes, no abandono dos mais vulneráveis e no silêncio cúmplice diante das injustiças que se revelam os maiores crimes de um governo.

Os líderes que se omitem não apenas falham; eles perpetuam estruturas de sofrimento, aprofundam desigualdades e legitimam a corrupção como norma. Sua inércia transforma-se em herança social, deixando cicatrizes que perduram muito além de seus mandatos.

Assim, a política, quando desprovida de ética e compromisso humano, deixa de ser instrumento de transformação para tornar-se uma engrenagem de perpetuação do mal, um espaço onde o que não se faz pesa, muitas vezes, mais do que aquilo que se fez.

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