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terça-feira, fevereiro 24, 2026

Josef Mengele depois de Auschwitz

 

Em 17 de janeiro de 1945, diante do avanço do Exército Vermelho sobre a Polônia ocupada, Josef Mengele, juntamente com vários outros médicos de Auschwitz, foi transferido para o campo de concentração de Gross-Rosen, localizado na Baixa Silésia.

Com ele, levou duas caixas contendo espécimes biológicos e registros de suas experiências médicas conduzidas em prisioneiros - documentos que evidenciavam a natureza brutal e pseudocientífica de seus experimentos.

A maior parte dos registros médicos de Auschwitz já havia sido destruída pelas SS na tentativa de apagar provas dos crimes cometidos. Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz, revelando ao mundo a dimensão do horror ali praticado.

Mengele permaneceu pouco tempo em Gross-Rosen. Em 18 de fevereiro de 1945, apenas uma semana antes da chegada das tropas soviéticas, fugiu do campo e seguiu para o oeste, disfarçado de oficial da Wehrmacht.

Dirigiu-se a Saaz (atual Žatec), onde confiou temporariamente seus documentos incriminatórios a uma enfermeira com quem havia estabelecido relacionamento.

Ele e sua unidade continuaram a recuar para o oeste, tentando evitar a captura pelos soviéticos. Em junho de 1945, foi detido por forças dos Estados Unidos como prisioneiro de guerra.

Inicialmente registrado sob seu próprio nome, escapou da identificação formal como criminoso de guerra devido à desorganização administrativa dos Aliados no imediato pós-guerra e ao fato de não possuir a tatuagem do grupo sanguíneo, comum entre membros da SS. Assim, não foi associado às listas prioritárias de procurados.

Libertado no final de julho de 1945, obteve documentos falsos sob o nome de “Fritz Ullmann”, posteriormente alterado para “Fritz Hollmann”. Durante meses viveu oculto na Alemanha devastada, chegando inclusive a atravessar a zona ocupada pelos soviéticos para recuperar parte de seus registros de Auschwitz. Estabeleceu-se próximo a Rosenheim, trabalhando como agricultor.

Temendo eventual captura, julgamento e possível condenação à morte, decidiu fugir da Alemanha. Em 17 de abril de 1949, com apoio de uma rede clandestina composta por ex-membros da SS - parte do sistema conhecido posteriormente como “ratlines”, que auxiliava nazistas na fuga para a América do Sul - viajou para Gênova, na Itália.

Ali obteve um passaporte sob o pseudônimo “Helmut Gregor”, emitido com intermediação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Em julho de 1949, embarcou para a Argentina. Sua esposa recusou-se a acompanhá-lo, e o casal se divorciou em 1954.

 Josef Mengele na América do Sul

Em Buenos Aires, Argentina, Mengele inicialmente trabalhou como carpinteiro enquanto residia em uma pensão no subúrbio de Vicente López. Poucas semanas depois, mudou-se para a casa de um simpatizante nazista no bairro de Flórida. Gradualmente, reconstruiu sua vida sob identidade falsa.

Passou a atuar como representante comercial da empresa de equipamentos agrícolas pertencente à sua família na Alemanha e, a partir de 1951, realizou viagens frequentes ao Paraguai como vendedor.

Em 1953, estabeleceu residência em um apartamento no centro de Buenos Aires e, no mesmo ano, investiu recursos familiares na aquisição parcial de uma empresa de carpintaria. Em 1954, alugou uma casa em Olivos.

Documentos divulgados pelo governo argentino em 1992 indicam que Mengele pode ter exercido ilegalmente a medicina durante esse período, inclusive realizando abortos clandestinos.

Em 1956, após obter uma cópia de sua certidão de nascimento junto à embaixada da Alemanha Ocidental, conseguiu autorização de residência argentina sob seu nome verdadeiro. De posse desse documento, obteve também um passaporte da Alemanha Ocidental e viajou à Europa.

Durante essa viagem, foi à Suíça para férias de esqui com seu filho Rolf - a quem fora apresentado como “tio Fritz” - e com sua cunhada viúva Martha. Também passou uma semana em sua cidade natal, Günzburg.

No retorno à Argentina, em setembro de 1956, passou a viver sob seu nome real. Martha e seu filho Karl Heinz juntaram-se a ele cerca de um mês depois, e os dois se casaram em 1958, durante uma viagem ao Uruguai.

Seus interesses comerciais ampliaram-se, incluindo participação na Fadro Farm, empresa farmacêutica. Em 1958, foi interrogado sob suspeita de exercício ilegal da medicina após a morte de uma adolescente em decorrência de um aborto. Foi liberado por falta de provas.

Enquanto isso, seu nome surgia reiteradamente nos depoimentos relacionados aos Julgamentos de Nuremberg, que investigavam e processavam crimes nazistas. Contudo, durante anos prevaleceu a crença - reforçada por declarações de familiares na Alemanha - de que ele estaria morto.

Na Alemanha Ocidental, os caçadores de nazistas Simon Wiesenthal e Hermann Langbein reuniram testemunhos e documentos sobre suas atividades em Auschwitz. Ao examinar registros públicos, Langbein encontrou documentos de divórcio que indicavam um endereço em Buenos Aires.

Sob pressão desses investigadores, a Alemanha Ocidental emitiu um mandado de prisão contra Mengele em 5 de junho de 1959 e iniciou o processo de extradição.

Inicialmente, a Argentina recusou o pedido, alegando que o acusado não residia mais no endereço informado. Quando a extradição foi finalmente aprovada, em 30 de junho de 1960, Mengele já havia fugido novamente - desta vez para o Paraguai, onde obteve cidadania sob o nome “José Mengele” e passou a viver em uma fazenda próxima à fronteira argentina.

Sua fuga continuaria nos anos seguintes, levando-o posteriormente ao Brasil, onde viveu sob identidades falsas até sua morte em 1979 - sem jamais ter sido julgado por seus crimes.


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