O amor que envelhece e o amor que permanece.
“Mau, com
efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não
é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure. A flor do corpo que ama
vem um dia a murchar – e então ele se retira ligeiro como as asas,
esquecendo-se das declarações e das muitas juras que fez.” - Platão.
A reflexão de
Platão atravessa os séculos com uma atualidade impressionante. Em uma sociedade
frequentemente seduzida pelas aparências, pelo culto à juventude e pela
valorização excessiva da estética, suas palavras nos convidam a pensar sobre a
verdadeira natureza do amor.
O amor que nasce
apenas da atração física costuma ser intenso, mas também frágil. Sustenta-se em
algo inevitavelmente passageiro: a beleza exterior. O tempo, porém, transforma
todas as coisas. Os traços da juventude se modificam, a aparência muda e o corpo,
como uma flor, segue o curso natural da vida.
Quando a relação
está fundamentada apenas nesse encanto superficial, ela arrisca
desaparecer juntamente com aquilo que a originou. Platão distingue esse amor
efêmero daquele que se volta para a essência do ser humano.
O amor que
admira a inteligência, a bondade, o caráter, os sonhos, as virtudes e até mesmo
as imperfeições de alguém possui raízes mais profundas. Ele não depende da
passagem dos anos nem das mudanças inevitáveis da existência. Pelo contrário,
fortalece-se à medida que duas almas compartilham experiências, desafios,
alegrias e aprendizados.
A história
humana está repleta de exemplos de relacionamentos que sobreviveram às
adversidades justamente porque foram construídos sobre algo maior que a
aparência.
O verdadeiro
afeto encontra beleza na companhia, na confiança e no respeito mútuo. Ele
reconhece que o corpo é apenas uma das dimensões da pessoa, enquanto o espírito
abriga aquilo que realmente a torna única.
Isso não
significa desprezar a beleza física ou negar a importância da atração.
Significa apenas compreender que ela, sozinha, não é suficiente para sustentar
um vínculo duradouro. Quando o encantamento exterior é acompanhado pela
admiração profunda da personalidade e dos valores do outro, o amor ganha
condições de amadurecer e permanecer.
Talvez seja essa
a grande lição deixada por Platão: tudo aquilo que depende exclusivamente da
aparência está sujeito ao desgaste do tempo. Já o amor que nasce do encontro
entre espíritos encontra razões para existir mesmo quando os anos passam.
Enquanto a
beleza do corpo pode florescer e murchar, a beleza da alma consegue
crescer continuamente, tornando-se ainda mais valiosa com o passar da vida.
Em um mundo que frequentemente confunde
paixão com amor e aparência com essência, a antiga sabedoria do filósofo grego
continua a lembrar que os sentimentos mais verdadeiros são aqueles que
conseguem enxergar além dos olhos e alcançar o que existe de mais profundo no
ser humano.









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