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quinta-feira, junho 04, 2026

Amante Vulgar


O amor que envelhece e o amor que permanece.

“Mau, com efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure. A flor do corpo que ama vem um dia a murchar – e então ele se retira ligeiro como as asas, esquecendo-se das declarações e das muitas juras que fez.” - Platão.

A reflexão de Platão atravessa os séculos com uma atualidade impressionante. Em uma sociedade frequentemente seduzida pelas aparências, pelo culto à juventude e pela valorização excessiva da estética, suas palavras nos convidam a pensar sobre a verdadeira natureza do amor.

O amor que nasce apenas da atração física costuma ser intenso, mas também frágil. Sustenta-se em algo inevitavelmente passageiro: a beleza exterior. O tempo, porém, transforma todas as coisas. Os traços da juventude se modificam, a aparência muda e o corpo, como uma flor, segue o curso natural da vida.

Quando a relação está fundamentada apenas nesse encanto superficial, ela arrisca desaparecer juntamente com aquilo que a originou. Platão distingue esse amor efêmero daquele que se volta para a essência do ser humano.

O amor que admira a inteligência, a bondade, o caráter, os sonhos, as virtudes e até mesmo as imperfeições de alguém possui raízes mais profundas. Ele não depende da passagem dos anos nem das mudanças inevitáveis da existência. Pelo contrário, fortalece-se à medida que duas almas compartilham experiências, desafios, alegrias e aprendizados.

A história humana está repleta de exemplos de relacionamentos que sobreviveram às adversidades justamente porque foram construídos sobre algo maior que a aparência.

O verdadeiro afeto encontra beleza na companhia, na confiança e no respeito mútuo. Ele reconhece que o corpo é apenas uma das dimensões da pessoa, enquanto o espírito abriga aquilo que realmente a torna única.

Isso não significa desprezar a beleza física ou negar a importância da atração. Significa apenas compreender que ela, sozinha, não é suficiente para sustentar um vínculo duradouro. Quando o encantamento exterior é acompanhado pela admiração profunda da personalidade e dos valores do outro, o amor ganha condições de amadurecer e permanecer.

Talvez seja essa a grande lição deixada por Platão: tudo aquilo que depende exclusivamente da aparência está sujeito ao desgaste do tempo. Já o amor que nasce do encontro entre espíritos encontra razões para existir mesmo quando os anos passam.

Enquanto a beleza do corpo pode florescer e murchar, a beleza da alma consegue crescer continuamente, tornando-se ainda mais valiosa com o passar da vida.

Em um mundo que frequentemente confunde paixão com amor e aparência com essência, a antiga sabedoria do filósofo grego continua a lembrar que os sentimentos mais verdadeiros são aqueles que conseguem enxergar além dos olhos e alcançar o que existe de mais profundo no ser humano.

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