O Futuro Refletido em um Velho
Olhar.
Sou Apenas Vosso Espelho
Cheguei ao fim de uma longa estrada. Trago as
mãos cheias de nada e os pés marcados pelos espinhos do caminho. A pele,
enrugada pelo tempo, carrega as cicatrizes de batalhas que poucos conheceram e
de dores que jamais foram contadas.
As forças que um dia me acompanharam partiram
silenciosamente. Em seu lugar, vieram as saudades. Saudades dos rostos que
desapareceram, dos sonhos que ficaram pelo caminho, das vozes que o tempo
calou.
Neste mundo duro e apressado, invento pequenos
pedaços de chão para repousar a alma e crio novas verdades para continuar
existindo.
Quando olho para dentro de mim, encontro um homem
cansado. Vejo a tristeza serena de quem viveu muito e compreendeu demais.
Sinto-me próximo do fim da jornada, como um viajante que já avista o horizonte
derradeiro.
Há momentos em que pareço tocar o fundo do
silêncio, aquele lugar onde as palavras já não conseguem alcançar os
sentimentos. Meu olhar procura outro olhar. Procura alguém que ainda enxergue além das rugas, dos cabelos brancos, além da lentidão dos passos.
Mas quase todos passam apressados ao meu lado sem
me perceber. Torno-me invisível entre as multidões. Já não tenho com quem
dividir certas lembranças, nem com quem conversar sobre tempos que só existem
em minha memória. Os dias se arrastam lentamente, e às vezes sinto que uma
parte de mim morreu muito antes da morte chegar.
Sou velho. Estou velho. Mas não confundam idade
com ausência de vida. Meu coração ainda bate no peito, carregando afetos,
recordações e esperanças. A vida passou veloz, como um rio impossível de deter.
Hoje, minhas mãos já não possuem a mesma firmeza,
meus movimentos já não têm a mesma precisão. Às vezes, derramo a comida sobre a
mesa, esqueço nomes ou repito histórias. Ainda assim, continuo ocupando o meu
lugar, por direito, porque também ajudei a construir o mundo que agora observo.
Carrego dentro de mim a experiência dos anos, a
memória dos que partiram e as lições que só o tempo consegue ensinar. Vi
nascer tecnologias, cidades crescerem, costumes mudarem e gerações se
sucederem. Aprendi que a juventude é passageira, mas a dignidade não deveria
ter prazo de validade.
Sou velho. Estou velho. Mas não sou pedra, não
sou muro, não sou estorvo. Sou um ser humano que continua sentindo, amando,
sonhando e sofrendo. Sou apenas a imagem do que um dia todos poderão se tornar.
Por isso, quando olhares para um velho, não vejas
apenas o peso dos anos. Vê a criança que ele foi, os sonhos que perseguiu, as
lutas que enfrentou e as perdas que suportou. Vê a história viva que caminha
lentamente diante de ti.
Sou apenas o futuro. Sou apenas vosso espelho.









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