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sábado, junho 20, 2026

O Futuro Refletido em um Velho Olhar.



O Futuro Refletido em um Velho Olhar.

Sou Apenas Vosso Espelho

Cheguei ao fim de uma longa estrada. Trago as mãos cheias de nada e os pés marcados pelos espinhos do caminho. A pele, enrugada pelo tempo, carrega as cicatrizes de batalhas que poucos conheceram e de dores que jamais foram contadas.

As forças que um dia me acompanharam partiram silenciosamente. Em seu lugar, vieram as saudades. Saudades dos rostos que desapareceram, dos sonhos que ficaram pelo caminho, das vozes que o tempo calou.

Neste mundo duro e apressado, invento pequenos pedaços de chão para repousar a alma e crio novas verdades para continuar existindo.

Quando olho para dentro de mim, encontro um homem cansado. Vejo a tristeza serena de quem viveu muito e compreendeu demais. Sinto-me próximo do fim da jornada, como um viajante que já avista o horizonte derradeiro.

Há momentos em que pareço tocar o fundo do silêncio, aquele lugar onde as palavras já não conseguem alcançar os sentimentos. Meu olhar procura outro olhar. Procura alguém que ainda enxergue além das rugas, dos cabelos brancos, além da lentidão dos passos.

Mas quase todos passam apressados ao meu lado sem me perceber. Torno-me invisível entre as multidões. Já não tenho com quem dividir certas lembranças, nem com quem conversar sobre tempos que só existem em minha memória. Os dias se arrastam lentamente, e às vezes sinto que uma parte de mim morreu muito antes da morte chegar.

Sou velho. Estou velho. Mas não confundam idade com ausência de vida. Meu coração ainda bate no peito, carregando afetos, recordações e esperanças. A vida passou veloz, como um rio impossível de deter.

Hoje, minhas mãos já não possuem a mesma firmeza, meus movimentos já não têm a mesma precisão. Às vezes, derramo a comida sobre a mesa, esqueço nomes ou repito histórias. Ainda assim, continuo ocupando o meu lugar, por direito, porque também ajudei a construir o mundo que agora observo.

Carrego dentro de mim a experiência dos anos, a memória dos que partiram e as lições que só o tempo consegue ensinar. Vi nascer tecnologias, cidades crescerem, costumes mudarem e gerações se sucederem. Aprendi que a juventude é passageira, mas a dignidade não deveria ter prazo de validade.

Sou velho. Estou velho. Mas não sou pedra, não sou muro, não sou estorvo. Sou um ser humano que continua sentindo, amando, sonhando e sofrendo. Sou apenas a imagem do que um dia todos poderão se tornar.

Por isso, quando olhares para um velho, não vejas apenas o peso dos anos. Vê a criança que ele foi, os sonhos que perseguiu, as lutas que enfrentou e as perdas que suportou. Vê a história viva que caminha lentamente diante de ti.

Sou apenas o futuro. Sou apenas vosso espelho.

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