A Feiticeira que Habita os Meus Sonhos
Há pessoas que passam por nossas vidas como quem atravessa uma rua
qualquer. Outras permanecem apenas como uma lembrança distante, uma fotografia
desbotada pelo tempo.
Mas existem aquelas raras presenças que chegam silenciosamente e, sem
pedir licença, modificam para sempre a paisagem da nossa alma.
Foi assim contigo.
Não houve tempestade anunciando tua chegada, nem fogos de artifício
iluminando o céu. Bastou um olhar. Um instante apenas. E tudo aquilo em que eu
acreditava desmoronou com a delicadeza de uma folha levada pelo vento.
Desde então, já não sou o mesmo homem.
As antigas paixões perderam a intensidade. Os desejos que antes pareciam
urgentes tornaram-se pequenos diante da grandeza do sentimento que nasceu em
mim.
As inquietações de outrora deram lugar a uma única necessidade: a de
encontrar teu sorriso, ouvir tua voz e sentir que, em algum lugar deste vasto
mundo, existes também pensando em mim.
Costumam dizer que o amor transforma as pessoas. Talvez seja verdade.
Mas há amores que fazem muito mais do que transformar: reinventam. Eles nos obrigam
a reaprender a respirar, a sonhar e até mesmo a enxergar a vida sob uma luz
completamente diferente.
Tu foste essa reinvenção.
Há dias em que me pego imaginando cenas que ainda não aconteceram.
Caminhos que ainda não percorremos, conversas que permanecem suspensas no
futuro, abraços que só existem na esperança e beijos que o tempo ainda nos
deve.
É curioso como a imaginação pode ser tão generosa. Ela constrói pontes
onde a distância insiste em erguer abismos. Faz florescer jardins em terrenos
áridos e transforma a ausência numa presença constante.
Talvez amar seja exatamente isso: acreditar com o coração naquilo que os
olhos ainda não puderam contemplar.
Por vezes, penso que carregas algum encantamento antigo, desses que os
poetas chamavam de magia e que os cientistas jamais conseguiram explicar. Há em
teus gestos uma simplicidade desarmante, uma suavidade capaz de silenciar as
tempestades que habitam o espírito humano.
Um sorriso teu vale mais que longos discursos. Um afago imaginado basta
para reacender esperanças que pareciam esquecidas. E basta recordar teu olhar
para que meu coração volte a bater com a intensidade de quem descobre, pela
primeira vez, o verdadeiro significado da palavra felicidade.
O amor tem dessas contradições.
Ao mesmo tempo em que nos fortalece, revela nossas fragilidades. Faz-nos
gigantes diante das dificuldades e crianças diante da pessoa amada. Somos
capazes das maiores demonstrações de coragem e, ao mesmo tempo, trememos diante
da possibilidade de perder quem nos faz sorrir.
Foi contigo que compreendi essa estranha alquimia dos sentimentos.
Se fosse necessário atravessar desertos, enfrentaria o calor.
Se precisasse cruzar oceanos, faria das ondas minhas companheiras. Não por
heroísmo, mas porque certas pessoas se tornam o destino, e quando isso
acontece, qualquer caminho deixa de ser longo.
Ainda guardo viva na memória aquela noite em que te vi envolta pelas
brancas espumas do mar.
A lua parecia conspirar com as águas, desenhando uma moldura luminosa ao
redor da tua presença. O vento brincava com teus cabelos, enquanto o oceano, em
sua linguagem silenciosa, parecia reconhecer em ti uma filha das próprias
marés.
Naquele instante, compreendi por que tantos escritores recorreram às
metáforas para falar do amor. Existem sentimentos que escapam às palavras. A
linguagem torna-se pequena diante da imensidão daquilo que a alma experimenta.
Talvez por isso eu insista em escrever.
Escrevo porque algumas emoções não cabem no peito. Escrevo porque cada
linha é uma tentativa de eternizar o que o tempo insiste em transformar em
lembrança. Escrevo porque, enquanto existirem palavras, existirá também uma
forma de permanecer ao teu lado, ainda que apenas através da memória e da
imaginação.
E se um dia alguém me perguntar quando começou essa história,
responderei sem hesitar: começou no instante em que nossos olhares se
encontraram.
Naquele breve segundo, o destino escreveu um capítulo que o tempo jamais
conseguirá apagar.
Porque existem pessoas que apenas passam por nossas vidas. E existem
aquelas que passam a morar para sempre dentro de nós.
Francisco Silva Sousa.









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