É estranho como você ainda ocupa tanto espaço
dentro de mim. Entro em qualquer cômodo da casa e te vejo ali, sorrindo no canto da cozinha,
ou sentada na beira da cama, com aquele jeito que só você tinha de bagunçar
meus pensamentos.
Você se infiltrou em cada quarto da minha
mente, e por mais que eu tente arrumar as gavetas, seu cheiro continua no ar. O
mais difícil é ter aprendido a me esconder de você.
Ando pelos cantos da vida real como quem foge
de um fantasma: atraso o passo quando sinto que vou te encontrar, mudo de
caminho, adio compromissos só para não cruzar com o seu olhar.
Finjo que estou bem, que o tempo passou, mas
na verdade vivo calculando distâncias, horários e ângulos, só para não deixar
rastro. Como se ainda houvesse algo entre nós que pudesse doer em você — ou em
mim.
Às vezes, eu te observo de longe e tento te
reconhecer. Procuro na sua expressão algum vestígio daquela pessoa com quem
dividi noites inteiras, risadas, segredos e silêncios.
Mergulho fundo nos seus olhos, mas não
encontro mais nada. É como olhar para um lugar onde um dia existiu uma casa, e
agora só restam ruínas cobertas de mato.
O que mais me assombra é lembrar que estive
dentro de você, e você dentro de mim. Que nos entregamos sem reservas, pele com
pele, alma com alma. E hoje, quando te vejo passar na rua ou surgir numa foto
qualquer, a pergunta vem como um soco: como tudo pôde morrer de forma tão
trágica?
Como algo que parecia tão vivo, tão urgente,
se desfez no ar sem deixar nem cinzas? O mais estranho de tudo é perceber, com
o tempo, que talvez nada tenha sido real para você.
Aqueles dias, aquelas promessas, os planos que
construímos juntos… para mim eram concretos. Para você, talvez fossem apenas uma
ilusão bonita que durou enquanto foi conveniente.
E eu, tolo, acreditei com todo o peito. Hoje
carrego essa estranheza como uma ferida que cicatriza devagar. Não é mais amor,
nem ódio. É uma saudade misturada com espanto — o espanto de quem sobreviveu a
um incêndio e ainda não entende como as chamas começaram.









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