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segunda-feira, maio 18, 2026

Estranho


 

É estranho como você ainda ocupa tanto espaço dentro de mim. Entro em qualquer cômodo da casa e te vejo ali, sorrindo no canto da cozinha, ou sentada na beira da cama, com aquele jeito que só você tinha de bagunçar meus pensamentos.

Você se infiltrou em cada quarto da minha mente, e por mais que eu tente arrumar as gavetas, seu cheiro continua no ar. O mais difícil é ter aprendido a me esconder de você.

Ando pelos cantos da vida real como quem foge de um fantasma: atraso o passo quando sinto que vou te encontrar, mudo de caminho, adio compromissos só para não cruzar com o seu olhar.

Finjo que estou bem, que o tempo passou, mas na verdade vivo calculando distâncias, horários e ângulos, só para não deixar rastro. Como se ainda houvesse algo entre nós que pudesse doer em você — ou em mim.

Às vezes, eu te observo de longe e tento te reconhecer. Procuro na sua expressão algum vestígio daquela pessoa com quem dividi noites inteiras, risadas, segredos e silêncios.

Mergulho fundo nos seus olhos, mas não encontro mais nada. É como olhar para um lugar onde um dia existiu uma casa, e agora só restam ruínas cobertas de mato.

O que mais me assombra é lembrar que estive dentro de você, e você dentro de mim. Que nos entregamos sem reservas, pele com pele, alma com alma. E hoje, quando te vejo passar na rua ou surgir numa foto qualquer, a pergunta vem como um soco: como tudo pôde morrer de forma tão trágica?

Como algo que parecia tão vivo, tão urgente, se desfez no ar sem deixar nem cinzas? O mais estranho de tudo é perceber, com o tempo, que talvez nada tenha sido real para você.

Aqueles dias, aquelas promessas, os planos que construímos juntos… para mim eram concretos. Para você, talvez fossem apenas uma ilusão bonita que durou enquanto foi conveniente.

E eu, tolo, acreditei com todo o peito. Hoje carrego essa estranheza como uma ferida que cicatriza devagar. Não é mais amor, nem ódio. É uma saudade misturada com espanto — o espanto de quem sobreviveu a um incêndio e ainda não entende como as chamas começaram.

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