A afirmação de que Deus criou o homem à sua
própria imagem tiquetaqueia como uma bomba-relógio nas fundações do
Cristianismo - e, em sentido mais amplo, de toda teologia que projeta no divino
os traços, paixões e limitações humanas.
Pois, se Deus se parece conosco, então nossas
violências, vaidades e crueldades passam a encontrar uma justificativa
transcendental. O sagrado deixa de ser medida e torna-se espelho.
A religião,
nesse sentido, pode ser compreendida como um subproduto do medo. Medo da morte,
do caos, do desconhecido; medo de uma existência sem garantias últimas.
Diante de um universo indiferente e
silencioso, o homem cria narrativas que ofereçam ordem, propósito e consolo. O
problema não está apenas no nascimento da fé, mas no que se fez dela ao longo
do tempo.
Na maior parte
da história humana, a religião pode ter funcionado como um mal necessário:
estruturou comunidades, estabeleceu códigos morais, conteve impulsos
destrutivos e ofereceu esperança onde nada mais havia.
Contudo, permanece a pergunta incômoda: por
que, tantas vezes, foi mais má do que o necessário? Por que o remédio se
converteu com tanta facilidade em veneno?
Ao se
institucionalizar, a religião passou a confundir o divino com o poder, a fé com
a obediência, o mistério com o dogma. Aquilo que deveria elevar o espírito
tornou-se instrumento de controle.
Cruzadas, inquisições, guerras santas,
perseguições, fogueiras, atentados e massacres - todos cometidos sob a
convicção de se estar cumprindo uma vontade superior. O medo original
transforma-se, então, em terror organizado.
Matar pessoas em
nome de Deus não seria uma das definições mais perturbadoras de insanidade?
Pois trata-se de uma violência que se julga virtuosa, de um crime cometido com
a consciência limpa, de uma barbárie blindada pela certeza moral.
Quando o assassino acredita agir por mandato
divino, já não há espaço para o arrependimento, nem para o diálogo, nem para a
dúvida, apenas para a aniquilação do outro.
Arthur C.
Clarke, com a lucidez que marca seu pensamento, não atacava apenas a fé em si,
mas a pretensão humana de falar em nome do absoluto. Seu alerta aponta para um
paradoxo central: quanto mais o homem afirma conhecer a vontade de Deus, menos
humano ele se torna.
A transcendência, em vez de ampliar a
consciência, encolhe-a. Talvez o verdadeiro desafio espiritual do nosso tempo
não seja abolir a religião, mas desarmá-la. Libertá-la do medo, do poder e da
violência; devolvê-la ao campo da experiência íntima, da ética compassiva e da
humildade diante do mistério.
Pois, se Deus existe - ou se o sagrado significa algo - ele certamente não necessita de exércitos, tribunais ou cadáveres para se afirmar. E talvez a maior heresia não seja duvidar de Deus, mas matar em seu nome acreditando honrá-lo.






























