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segunda-feira, janeiro 12, 2026

Insanidade



A afirmação de que Deus criou o homem à sua própria imagem tiquetaqueia como uma bomba-relógio nas fundações do Cristianismo - e, em sentido mais amplo, de toda teologia que projeta no divino os traços, paixões e limitações humanas.

Pois, se Deus se parece conosco, então nossas violências, vaidades e crueldades passam a encontrar uma justificativa transcendental. O sagrado deixa de ser medida e torna-se espelho.

A religião, nesse sentido, pode ser compreendida como um subproduto do medo. Medo da morte, do caos, do desconhecido; medo de uma existência sem garantias últimas.

Diante de um universo indiferente e silencioso, o homem cria narrativas que ofereçam ordem, propósito e consolo. O problema não está apenas no nascimento da fé, mas no que se fez dela ao longo do tempo.

Na maior parte da história humana, a religião pode ter funcionado como um mal necessário: estruturou comunidades, estabeleceu códigos morais, conteve impulsos destrutivos e ofereceu esperança onde nada mais havia.

Contudo, permanece a pergunta incômoda: por que, tantas vezes, foi mais má do que o necessário? Por que o remédio se converteu com tanta facilidade em veneno?

Ao se institucionalizar, a religião passou a confundir o divino com o poder, a fé com a obediência, o mistério com o dogma. Aquilo que deveria elevar o espírito tornou-se instrumento de controle.

Cruzadas, inquisições, guerras santas, perseguições, fogueiras, atentados e massacres - todos cometidos sob a convicção de se estar cumprindo uma vontade superior. O medo original transforma-se, então, em terror organizado.

Matar pessoas em nome de Deus não seria uma das definições mais perturbadoras de insanidade? Pois trata-se de uma violência que se julga virtuosa, de um crime cometido com a consciência limpa, de uma barbárie blindada pela certeza moral.

Quando o assassino acredita agir por mandato divino, já não há espaço para o arrependimento, nem para o diálogo, nem para a dúvida, apenas para a aniquilação do outro.

Arthur C. Clarke, com a lucidez que marca seu pensamento, não atacava apenas a fé em si, mas a pretensão humana de falar em nome do absoluto. Seu alerta aponta para um paradoxo central: quanto mais o homem afirma conhecer a vontade de Deus, menos humano ele se torna.

A transcendência, em vez de ampliar a consciência, encolhe-a. Talvez o verdadeiro desafio espiritual do nosso tempo não seja abolir a religião, mas desarmá-la. Libertá-la do medo, do poder e da violência; devolvê-la ao campo da experiência íntima, da ética compassiva e da humildade diante do mistério.

Pois, se Deus existe - ou se o sagrado significa algo - ele certamente não necessita de exércitos, tribunais ou cadáveres para se afirmar. E talvez a maior heresia não seja duvidar de Deus, mas matar em seu nome acreditando honrá-lo.




A Vida é uma Mulher!


Para contemplar a beleza última de uma obra de arte, de um gesto ou de um instante da existência, não bastam todo o saber acumulado nem toda a boa disposição da alma. O erudito pode passar indiferente diante do sublime, e o sensível pode atravessar o extraordinário sem percebê-lo.

São necessários, antes, os acasos mais raros e felizes - aqueles encontros improváveis em que o mundo exterior e a disposição interior se reconhecem mutuamente. Só então o véu de nuvens se afasta, ainda que por um breve instante, desses cumes excelsos, e nós os vemos refulgir, subitamente, sob o sol pleno.

Não se trata apenas de estar no lugar certo, no momento exato; trata-se de ser, naquele instante, a pessoa capaz de ver. É preciso que a própria alma tenha arrancado, com esforço, risco e sofrimento, o véu que cobria suas próprias alturas.

Apenas quem já enfrentou suas zonas de sombra, quem suportou o desamparo e a vertigem do autoconhecimento, torna-se digno da revelação. E, justamente por isso, necessita agora de uma expressão externa - uma obra, um gesto, um rosto, uma paisagem - como símbolo visível, como ponto de apoio que impeça a dissolução, que permita permanecer senhor de si mesmo em meio ao êxtase.

Mas é tão raro que todos esses elementos convirjam ao mesmo tempo, que me inclino a crer que as maiores culminâncias do que há de bom - um ato verdadeiramente heroico, um lampejo de humanidade plena, a súbita revelação da natureza em sua glória mais pura - permaneceram até hoje, em grande parte, ocultas e veladas à maioria dos homens, e mesmo aos melhores entre eles.

O que se nos revela, revela-se apenas uma vez - e depois torna a se esconder. Essa é a lei cruel e magnífica da existência. Os gregos, em sua sabedoria luminosa e trágica, sabiam disso. Por isso invocavam: “Duas e três vezes tudo o que é belo!”

Tinham razão de sobra para suplicar aos deuses essa repetição milagrosa, pois a realidade profana e cotidiana não nos concede o belo com generosidade. Ou o nega por completo, ou no-lo oferece apenas uma única vez, de modo fugaz, quase irônico, como se quisesse testar nossa capacidade de atenção e gratidão.

Quero dizer com isso que o mundo está repleto de coisas belas - paisagens, rostos, obras-primas, gestos de grandeza - e, no entanto, é terrivelmente pobre em belos instantes, em revelações autênticas e completas dessas mesmas coisas.

A beleza existe em abundância, mas quase sempre permanece encoberta, distante, tímida ou indiferente ao nosso olhar apressado e fatigado. Talvez seja exatamente aí que resida o mais forte encanto da vida.

Sobre ela paira, entretecido de fios de ouro, um véu sutil de belas possibilidades - um véu feito de promessas, resistências, pudor, desdém altivo, compaixão súbita, sedução perigosa. A vida não se entrega inteira: ela se mostra, se insinua, se retrai; provoca, castiga e recompensa. Nessa alternância reside sua inesgotável fascinação.

Sim, a vida é uma mulher.

Essa imagem final, tão provocadora quanto poética, condensa uma das intuições mais profundas de Friedrich Nietzsche. A vida, tal como a mulher em sua visão - nem sempre gentil, nem jamais domesticável -, não é algo que se possui ou se domina por completo.

Ela é movimento, mistério, distância sedutora; recusa e oferta simultâneas. Exige força, coragem, dança, e sobretudo a capacidade de suportar a frustração sem cair no ressentimento. Por isso mesmo, os grandes momentos - aqueles em que o véu se rasga de verdade - são tão preciosos quanto raros.

E é precisamente essa raridade que os torna dignos de serem desejados com toda a força da vontade de potência, com toda a paixão dionisíaca de quem sabe que o belo, assim como a felicidade suprema, quase nunca se repete - e que, quando retorna, nunca o faz da mesma forma.



domingo, janeiro 11, 2026

Minha vida está ficando difícil


Nasci branco, então eu… A partir desse dado biológico elementar, passei a carregar rótulos que não escolhi.

Não votei no PT, no PCdoB ou no PSOL; logo, sou imediatamente classificado como fascista, como se a democracia se resumisse a um único espectro ideológico e toda divergência fosse crime moral.

Sou heterossexual, o que, para alguns, basta para me transformar em homofóbico, não por minhas atitudes, mas por uma identidade presumida e mal interpretada.

Nunca fui sindicalizado. Por isso, sou acusado de trair a causa operária, de ser racista social, de agir como aliado automático do patrão. Como se a dignidade do trabalho estivesse condicionada à filiação, e não à honestidade do esforço cotidiano.

Penso por conta própria e não engulo, sem questionar, tudo o que a mídia ou os formadores de opinião me empurram. Resultado: sou rotulado de reacionário, alguém que ameaça o progresso apenas por exercer o direito de duvidar.

Atenho-me aos meus valores morais e culturais, construídos ao longo de uma vida inteira, e isso me transforma, segundo certos julgamentos apressados, em xenófobo.

Desejo viver em segurança e acredito que criminosos devam responder por seus atos dentro da lei; por isso, dizem que sou um saudosista do DOI-CODI, como se exigir ordem fosse o mesmo que defender a barbárie.

Cumpro as leis e espero que todos - inclusive o governo - também as cumpram. Essa expectativa básica de cidadania basta para que eu seja empurrado para a prateleira da “direita”, como se o respeito às regras fosse um privilégio ideológico, e não um pilar civilizatório.

Acredito na meritocracia, no valor do esforço individual aliado à responsabilidade coletiva. Logo, sou liberal. Fui educado com severidade, disciplina e limites claros. Sou grato aos meus pais, aos meus avós e à escola que me formou.

Mas, sob o olhar de certos discursos contemporâneos, isso me transforma num carrasco de crianças, alguém que teria impedido seu “pleno desabrochar”, como se disciplina e afeto fossem incompatíveis.

Acredito que todo cidadão é corresponsável pela defesa do país, não apenas no sentido bélico, mas também moral, institucional e cultural. Por isso, sou chamado de militarista.

Gosto de me esforçar, de estabelecer metas e superá-las. Isso basta para que eu seja visto como alguém desprovido de solidariedade, insensível àqueles que se contentam em cumprir apenas o mínimo.

Vivi uma vida regrada. Poupei, trabalhei, renunciei a prazeres imediatos em nome de estabilidade futura. Hoje, sou chamado de burguês por comunistas, socialistas e “petralhas”, como se a responsabilidade pessoal fosse uma afronta social.

No fundo, este não é apenas um relato individual. É o retrato de um tempo em que o debate foi substituído pelo rótulo, e a divergência, pela condenação sumária. Um tempo em que identidades valem mais do que argumentos, e em que pensar diferente tornou-se um ato de resistência.

Ainda assim, sigo em frente. Sou grato aos amigos que permanecem, àqueles que não me reduziram a caricaturas ideológicas. E, apesar de tudo, continuo acreditando que pensar, discordar e viver com dignidade não deveria ser um crime, mas um direito.

Tente



Você chega ao mundo completamente nu, sem possuir absolutamente nada. Essa é a única certeza absoluta com que nascemos: nada nos pertence de verdade. Vem ao mundo despido, porém cheio de ilusões.

É por isso que toda criança nasce com as mãozinhas cerradas, os punhos bem apertados, como se estivesse trazendo tesouros escondidos, preciosidades que ninguém mais pode tocar.

Mas, se você abrir com cuidado esses pequenos punhos, não encontrará nada. Apenas o vazio generoso do começo. E todos, absolutamente todos, partem deste mundo com as mãos abertas.

Tente morrer com os punhos cerrados, até hoje ninguém conseguiu. Tente nascer com as mãos já abertas, também ninguém logrou êxito. Esses dois gestos extremos parecem guardar, em si mesmos, toda a sabedoria silenciosa da existência.

Entre o nascimento e a morte, porém, acontece o que realmente importa: a longa jornada em que vamos aprendendo - muitas vezes a duras penas - a abrir as mãos. Ao longo da vida, acumulamos coisas, pessoas, memórias, mágoas, conquistas, amores, rancores, diplomas, casas, carros, sonhos e medos.

Criamos a ilusão de posse: “isto é meu”, “aquilo me pertence”, “não abro mão disso por nada”. Vivemos boa parte do tempo tentando proteger, guardar, controlar, segurar com força.

Mas a vida, com sua sabedoria impiedosa e ao mesmo tempo compassiva, se encarrega de nos ensinar o contrário, através dos acontecimentos que não controlamos:

As perdas que nos devastam e, paradoxalmente, nos esvaziam para algo maior. As separações que doem como facadas e nos obrigam a soltar. As doenças que revelam a fragilidade do corpo que julgávamos eterno.

As mudanças inesperadas de rumo que destroem planos tão cuidadosamente traçados. As despedidas definitivas que nos mostram que até os amores mais profundos têm data de validade neste plano.

As crises financeiras que evaporam o que chamávamos de “segurança”. E, principalmente, o envelhecimento lento e inexorável, que vai abrindo nossas mãos quase sem que percebamos

Cada um desses momentos é um professor severo e amoroso ao mesmo tempo. Eles nos mostram, repetidas vezes, que segurança verdadeira não existe no que podemos perder, e tudo, absolutamente tudo que podemos tocar, mais cedo ou mais tarde será perdido.

Então, para que tanta ansiedade? Para que tanto apego? Para que tanto medo de perder o que, na verdade, nunca foi nosso? Tudo o que usamos aqui é apenas emprestado: o corpo, o tempo, as pessoas que amamos, os bens materiais, até mesmo os talentos que julgamos “nossos”.

Um dia teremos de devolver tudo e, seguiremos viagem com o que realmente carregamos: o que fomos capazes de amar, o quanto conseguimos perdoar, o quanto deixamos de bem pelo caminho, as sementes de gentileza que plantamos sem esperar colheita.

Talvez a verdadeira arte de viver consista exatamente nisso: aprender, aos poucos, a viver com as mãos mais abertas dando, acolhendo, deixando ir, confiando. Porque, no fim das contas, chegamos de mãos vazias e cerradas.

Partimos de mãos vazias e abertas. E o que realmente conta é o que aconteceu entre esses dois vazios: o quanto fomos capazes de abrir o coração enquanto as mãos aprendiam a se soltar.

Que tal começarmos hoje a praticar esse gesto tão simples e tão difícil?
Abrir a mão. Respirar. Deixar ir. E confiar que, no grande esquema da existência, nada do que é essencial pode ser verdadeiramente perdido.

sábado, janeiro 10, 2026

Josef Kramer: a Besta de Bergen-Belsen

Kramer sendo escoltado por soldados ingleses em Bergen-Belsen após ser capturado, 1945.


Josef Kramer foi um dos mais impiedosos criminosos de guerra nazistas, diretamente responsável pela morte de milhares de judeus durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

Seu nome está associado de forma indelével ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde atuou como comandante e ganhou dos próprios prisioneiros o sinistro apelido de “Besta de Belsen”, símbolo máximo da brutalidade desumana do regime nazista em seus estertores.

Nascido em 10 de novembro de 1906, na cidade de Munique, Kramer ingressou no Partido Nazista em 1931 e, no ano seguinte, alistou-se na SS (Schutzstaffel). Após o treinamento interno da organização, iniciou sua carreira como guarda prisional e, com o início da guerra, foi designado para atuar nos campos de concentração, espaços onde a ideologia nazista se materializava em violência sistemática e extermínio.

Em 1934, Kramer foi destacado para o campo de Dachau, onde rapidamente ascendeu na hierarquia. Passou a ocupar cargos de supervisão em outros campos, como Sachsenhausen e Mauthausen, consolidando sua reputação como um oficial rigoroso, violento e absolutamente fiel às diretrizes do regime.

Em 1940, tornou-se assistente de Rudolf Höss em Auschwitz, o maior complexo de extermínio do Terceiro Reich. Dois anos depois, em 1942, foi promovido ao posto de SS-Hauptsturmführer, assumindo responsabilidades diretas sobre as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau.

Durante o período em Auschwitz, Kramer destacou-se pela extrema crueldade com que tratava tanto prisioneiros quanto subordinados. O médico da SS Franz Lucas, posteriormente acusado em julgamentos de crimes de guerra, relatou que evitava ao máximo cumprir ordens dadas por Kramer, chegando a alegar dores estomacais e intestinais para fugir das tarefas impostas.

Em certa ocasião, ao ver seu nome incluído na lista de médicos responsáveis pela seleção de prisioneiros recém-chegados da Hungria - que determinava quem seria enviado ao trabalho forçado e quem seguiria diretamente para a morte - Lucas protestou. A resposta de Kramer foi direta e ameaçadora:

“Eu sei que você está sendo investigado por favorecer prisioneiros. Estou lhe ordenando agora que suba aquela rampa e faça seu trabalho. Se se recusar a obedecer, eu o mato no local.”

Em agosto de 1943, Auschwitz recebeu um grupo de quarenta mulheres destinadas à execução imediata. Kramer, auxiliado por homens da SS, ordenou que fossem despidas e empurradas para dentro das câmaras de gás.

Do lado de fora, observou calmamente, através de um pequeno visor, enquanto as mulheres gritavam em desespero até caírem mortas no chão. Questionado posteriormente sobre o que sentia ao presenciar tais cenas, respondeu com frieza:

- “Eu não sentia nada ao fazer essas coisas. Estava apenas obedecendo ordens. Foi assim que fui treinado.”

Em dezembro de 1944, Josef Kramer assumiu o comando do campo de concentração de Bergen-Belsen. Àquela altura, a Alemanha já caminhava para o colapso, mas as regras impostas por Kramer eram de uma brutalidade extrema.

As condições do campo deterioraram-se rapidamente: fome, doenças e abandono tornaram-se parte da rotina. Sua conduta cruel consolidou definitivamente o apelido de “Besta de Belsen” entre os prisioneiros.

Mesmo com a desintegração da administração nazista, Kramer permaneceu obsessivamente fiel à burocracia. Em março de 1945, registrou friamente em um relatório que, dos 25 mil prisioneiros sob sua custódia, cerca de 300 haviam morrido de tifo apenas na semana anterior.

Com a aproximação do fim da guerra, Bergen-Belsen passou a receber prisioneiros transferidos de outros campos evacuados às pressas diante do avanço dos Aliados. Em meados de abril, o campo abrigava mais de 80 mil pessoas, muito além de sua capacidade.

 

Sepultura simbólica de Anne Frank uma das vítimas de Kramer em Bergen-Belsen


A administração entrou em colapso total. A maioria dos guardas abandonou o campo para evitar represálias, deixando os prisioneiros entregues à própria sorte. Corpos em decomposição espalhavam-se por toda parte; ratos atacavam os vivos, especialmente aqueles fracos demais para se defender. A morte tornou-se onipresente.

Josef Kramer, no entanto, permaneceu no campo até o fim. Quando os soldados britânicos finalmente chegaram para libertar Bergen-Belsen, ele mostrou-se indiferente.

Conduziu-os em uma espécie de “visita” pelo local, exibindo sem qualquer sinal de arrependimento as cenas de degradação absoluta: pilhas de corpos esqueléticos amontoados, valas comuns cheias de cadáveres insepultos e barracões onde sobreviventes mal conseguiam distinguir a vida da morte, física e mentalmente destruídos.

Kramer foi preso juntamente com outros 44 membros da equipe de Bergen-Belsen, incluindo quinze mulheres. Todos foram levados a julgamento por uma corte militar britânica na cidade de Lüneburg. O processo ocorreu entre setembro e novembro de 1945 e ficou conhecido como um dos julgamentos mais emblemáticos do pós-guerra.

Em 17 de novembro de 1945, Josef Kramer foi condenado à morte por crimes contra a humanidade. A sentença foi cumprida em 13 de dezembro de 1945, na prisão de Hamelin. O responsável por sua execução foi o carrasco britânico Albert Pierrepoint, que também executou diversos outros criminosos nazistas.

Assim terminou a trajetória de um homem cuja obediência cega e desumanização extrema contribuíram para um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.


            Josef Kramer – A Besta de Belsen 

Fata Morgana - Trata-se de uma miragem que se deve a uma inversão térmica.



 

A Fata Morgana é um tipo particular de miragem, resultante de um fenômeno físico conhecido como inversão térmica. Seu nome remete à figura lendária da Fada Morgana, personagem da mitologia arturiana, meia-irmã do Rei Arthur, descrita como uma feiticeira capaz de mudar de forma e criar ilusões.

A associação não é casual: assim como a fada das lendas, o fenômeno parece enganar os sentidos, transformando o real em algo instável e mutável. Do ponto de vista científico, a Fata Morgana é um efeito óptico explicado pelo Princípio de Fermat, segundo o qual a luz percorre o caminho de menor tempo.

Quando há uma camada de ar frio, mais denso, próxima à superfície, e outra de ar quente logo acima, forma-se uma espécie de “lente atmosférica”. Essa lente refrata a luz de maneira complexa, fazendo com que objetos distantes - ilhas, falésias, embarcações, icebergs ou até cidades costeiras - pareçam elevados, alongados, multiplicados ou invertidos.

O resultado visual lembra castelos flutuantes ou paisagens saídas de contos de fadas. A Fata Morgana mais famosa ocorre no Estreito de Messina, entre a Calábria e a Sicília.

Desde a Antiguidade, marinheiros relataram visões de cidades suspensas no horizonte, alimentando mitos, medos e narrativas fantásticas. Em épocas em que a navegação dependia quase exclusivamente da observação visual, tais ilusões podiam ser interpretadas como sinais sobrenaturais ou presságios.

O fenômeno costuma ser observado nas primeiras horas da manhã, especialmente após noites frias e com tempo calmo. Nessas condições, a separação regular entre camadas de ar favorece a formação da miragem.

É comum em vales de alta montanha, onde a curvatura do relevo intensifica o efeito, compensando parcialmente a curvatura da Terra. Também ocorre com frequência nos mares árticos, sobre águas muito calmas, e nas vastas superfícies geladas da Antártica, onde o contraste térmico é acentuado.

Classificada como uma miragem superior, a Fata Morgana difere das miragens inferiores, mais conhecidas, que criam a ilusão de poças d’água em desertos ou em estradas asfaltadas sob forte calor.

Enquanto estas fazem objetos parecerem refletidos no chão, a Fata Morgana projeta imagens acima do horizonte, distorcendo verticalmente a paisagem. No Brasil, o fenômeno ganhou destaque ao ser tema de uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2015, que levantava a hipótese de a Fata Morgana ter contribuído para o naufrágio do RMS Titanic, em 1912.

A inversão térmica no Atlântico Norte poderia ter distorcido a visão do horizonte, dificultando a percepção correta do iceberg pela tripulação. Embora essa explicação não seja conclusiva, ela reforça como fenômenos ópticos naturais podem influenciar decisões humanas com consequências históricas.

Fisicamente, a Fata Morgana resulta da combinação de refração, reflexão e difusão da luz, processos fundamentais na óptica atmosférica. Mais do que uma curiosidade científica, o fenômeno revela o quanto nossa percepção da realidade é mediada pelas condições do ambiente.

Entre ciência e mito, a Fata Morgana permanece como um lembrete de que nem tudo o que vemos é exatamente aquilo que parece ser.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Justiça?


Por que, no Brasil, existe uma lei que garante a uma pessoa que comete um crime, apenas por possuir “nível superior”, o direito de permanecer em cela especial? Desde quando escolaridade se tornou critério para diferenciar a dignidade de um preso?

Alguém que teve condições, sobretudo em um país profundamente desigual como o nosso, de cursar uma faculdade de Direito, Medicina ou qualquer outra área, teria mais “direito” de roubar, furtar ou fraudar do que um pobre sem instrução formal?

Se a lógica fosse moral, não deveria ser justamente o contrário? Quem teve acesso à educação, oportunidades e privilégios não deveria responder com maior rigor pelos próprios atos?

Existe, afinal, algo como um “crime de nível superior”? O dano causado por um furto praticado por um bacharel é menor do que aquele cometido por um analfabeto? O sofrimento da vítima muda conforme o diploma do agressor?

E o que pensam as vítimas diante dessa distinção? Para elas, a violência, o prejuízo e a humilhação são exatamente os mesmos, independentemente do currículo de quem os causou.

A Constituição afirma, com solenidade, que “todos são iguais perante a lei”. Mas como sustentar essa máxima diante de dispositivos legais que criam privilégios explícitos? Como falar em justiça igualitária quando a própria lei legitima diferenças baseadas em classe social, escolaridade e poder?

Essa contradição revela uma ferida profunda no sistema jurídico brasileiro: leis que, embora legais, são moralmente indefensáveis. Leis que não apenas toleram, mas institucionalizam a desigualdade, excluindo os pobres, os analfabetos e os socialmente invisíveis do conceito prático de cidadania plena.

O que torna um furto cometido por alguém com diploma “melhor” ou “menos grave” do que o mesmo crime praticado por um trabalhador sem estudo? A resposta honesta é simples: nada. A diferença não está no crime, mas no lugar social de quem o comete.

Essa distorção torna-se ainda mais evidente quando observamos a dificuldade quase intransponível de se quebrar o sigilo bancário e patrimonial de parlamentares, juízes ou altos funcionários acusados de enriquecimento ilícito.

Se há indícios claros de que determinado patrimônio não foi obtido de forma legal, por que tanto receio em o investigar? O que se protege, afinal: o direito à privacidade ou a impunidade institucionalizada?

A sensação que se impõe é a de que o sistema foi desenhado para proteger os seus próprios arquitetos. Pessoas que, conhecedoras das brechas da lei, ajudaram a moldá-la de modo a garantir salvaguardas para si mesmas no futuro.

Nesse contexto, o simbólico - e profundamente revelador - “Dia do Pindura”, celebrado em 11 de agosto por estudantes de Direito em diversas cidades brasileiras, ganha contornos ainda mais perturbadores.

Nesse dia, alunos comem e bebem em bares e restaurantes e, ao final, recusam-se a pagar a conta, alegando tratar-se de uma “tradição”. O que isso ensina? Que a lei pode ser dobrada, relativizada ou ignorada quando convém? Que certos grupos estão acima das regras que um dia aplicarão aos outros?

Que tipo de advogados, promotores e juízes nascem de uma formação que naturaliza pequenos abusos em nome de privilégios simbólicos? O que esperar de profissionais que crescem acreditando-se semideuses, acima do bem e do mal, legislando e julgando “os simples mortais”, enquanto se consideram imunes às mesmas normas?

Cada vez mais, a impressão é clara e inquietante: algumas leis no Brasil não foram criadas para garantir justiça, mas para administrar desigualdades; não para proteger a sociedade, mas para blindar seus autores.

Quando a lei deixa de ser instrumento de equidade e passa a ser mecanismo de autoproteção das elites, o Estado de Direito se transforma em mera ficção jurídica. E onde a justiça se torna privilégio, a democracia deixa de existir, restando apenas a aparência formal de legalidade.

Guerras


A guerra é o território mais cruel da contradição humana. Um espaço onde jovens que jamais se encontraram, que não carregam ódio pessoal uns pelos outros, são lançados à tarefa de matar e morrer.

Não se trata de escolhas individuais, mas de ordens. Decisões tomadas por homens envelhecidos no poder, líderes que se conhecem, que disputam interesses, territórios, ideologias e prestígio e que, apesar de se odiarem, jamais se enfrentam no campo de batalha.

Esses jovens, arrancados de suas casas, interrompem estudos, sonhos, amores e futuros para vestir uniformes que os transformam em números, estatísticas ou heróis póstumos.

No front, o inimigo deixa de ter nome, rosto ou história; torna-se apenas um alvo. A guerra exige essa desumanização para funcionar, pois reconhecer a humanidade do outro tornaria o ato de matar insuportável.

Enquanto isso, longe do cheiro de pólvora e do som dos gritos, os verdadeiros arquitetos do conflito discursam em salas confortáveis, negociam cessar-fogo que não os atingem e calculam perdas como se fossem peças de um tabuleiro.

Suas mãos raramente tremem; seus corpos raramente sangram. A guerra, para eles, é estratégia. Para os jovens, é destino. Ao fim dos combates, restam cicatrizes que nenhum tratado consegue apagar.

Os sobreviventes retornam com o corpo marcado, a mente fragmentada e um silêncio que pesa mais do que qualquer medalha. As famílias enterram filhos, irmãos e pais sob bandeiras que prometem honra, mas não devolvem vidas.

E os velhos, que decidiram tudo, continuam vivos, muitas vezes celebrados como estadistas. A história repete esse padrão com assustadora fidelidade. Mudam-se os mapas, as armas e os discursos, mas a lógica permanece: a juventude paga com sangue por conflitos que não criou.

A guerra, assim, revela não apenas a falência da política, mas também a incapacidade humana de aprender com a própria dor. Talvez o maior escândalo da guerra não seja apenas a morte em massa, mas o fato de que, mesmo conhecendo suas consequências, seguimos aceitando que ela seja decidida por poucos e sofrida por muitos.

Enquanto isso persistir, cada novo conflito será apenas mais um capítulo da mesma tragédia anunciada.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

A Imensidão e o Espelho



Imagine um deus - onipotente, eterno - que cria um universo com 13,8 bilhões de anos, em expansão contínua, cujo horizonte observável se estende por 93 bilhões de anos-luz. Um universo que cresce, se dilata e se afasta de si mesmo, como se estivesse sempre fugindo da própria origem.

Nesse espaço quase inconcebível, há trilhões de galáxias, cada uma carregando centenas de bilhões de estrelas. Só a Via Láctea, nosso endereço cósmico, abriga algo entre 100 e 400 bilhões delas.

Ainda assim, segundo certas leituras espirituais, toda essa vastidão teria sido criada para que um deus pudesse falar intimamente com um único ser humano - e com cada um deles - num planeta diminuto, orbitando uma estrela comum, numa periferia galáctica sem qualquer privilégio aparente.

O contraste é perturbador. Por que tanto universo para tão pouco chão? Por que essa arquitetura colossal para uma presença tão frágil? Talvez o espanto não esteja no tamanho do cosmos, mas na insistência humana em ocupar o centro dele.

As descobertas recentes ampliam ainda mais esse desconforto fértil. O Telescópio Espacial James Webb revelou galáxias que já existiam quando o universo ainda engatinhava, estruturas maduras surgindo apenas algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang.

Pontes cósmicas ligam galáxias anãs; supernovas antigas explodem como cartas enviadas do passado profundo; buracos negros colossais surgem cedo demais, como se o universo tivesse pressa em se tornar complexo.

Tudo indica que o cosmos nunca foi simples. Desde o início, ele parece ter sido excesso. Calcula-se que existam mais estrelas no universo observável do que grãos de areia em todas as praias da Terra.

E o observável pode ser apenas um fragmento, um recorte limitado daquilo que realmente existe. Se o universo for infinito, então nossa matemática, nossa linguagem e até nosso espanto tornam-se insuficientes. Diante disso, algo se quebra. Não necessariamente a fé, mas a vaidade.

Talvez o universo não tenha sido feito para nós. Talvez sejamos nós que, por um breve instante, aprendemos a olhar para ele. Talvez a consciência humana não seja o objetivo final da criação, mas um efeito colateral raro e precioso: o momento em que o cosmos passa a se contemplar.

Nesse sentido, a imensidão não nos diminui. Ela nos desloca. E há uma grande diferença entre ser pequeno e ser irrelevante.

Somos pequenos, sim, mas capazes de formular perguntas maiores do que nós mesmos. Capazes de medir o tempo em bilhões de anos, de ouvir a luz antiga, de intuir mistérios que jamais tocaremos com as mãos.

A existência humana, então, talvez não esteja no centro do universo, mas no centro da pergunta sobre ele. E isso basta.

A Violência

 

A ideia de que a cidade grande corrompe o homem, tornando-o pior, é uma das crenças modernas mais difundidas e, talvez, mais cômodas. Ao atribuir às metrópoles a responsabilidade pela degradação moral do indivíduo, isentamos o próprio ser humano de encarar a sua natureza.

As grandes concentrações urbanas, na verdade, não criam novos vícios: apenas tornam mais visível aquilo que sempre existiu, gestado no egocentrismo primordial e mantido pela ignorância da própria condição humana.

A violência, frequentemente apontada como um produto exclusivo da vida urbana, está espalhada por todos os lugares. Ela não nasce do concreto, do trânsito ou da pressa; nasce do instinto humano, presente desde os primórdios da humanidade.

Antes das cidades, já havia conflitos, disputas por território, dominação e morte. O que as metrópoles fazem é ampliar o palco, nelas, tudo acontece diante de muitos olhos, em ritmo acelerado e sob constante exposição.

Nas grandes cidades, a violência se torna mais perceptível porque há maior densidade populacional, maior desigualdade social e um estado permanente de tensão.

O anonimato urbano permite que atos violentos ocorram sem vínculos afetivos, sem rosto, sem história compartilhada. A indiferença, mais do que a brutalidade, torna-se regra: passa-se ao lado da dor como quem desvia de um obstáculo na calçada.

Entretanto, o erro mais comum é supor que a violência se dilui nos pequenos municípios. Ao contrário, em muitas cidades do interior, onde todos se conhecem e a aparência de harmonia é preservada a qualquer custo, as atitudes violentas assumem formas mais silenciosas e, por vezes, mais cruéis.

A agressão se esconde nos lares, nos abusos naturalizados, nas vinganças pessoais, no controle social rígido e na ausência de mecanismos de denúncia. O que falta em visibilidade sobra em intensidade emocional e em impunidade moral.

Enquanto nas grandes cidades a violência é estatística, no interior ela é memória. Não se esquece quem feriu, quem matou, quem foi humilhado, tudo permanece inscrito no cotidiano, nos olhares desviados, nas histórias sussurradas. A proximidade entre agressor e vítima torna o ato mais íntimo, mais perturbador, mais duradouro.

Assim, não é a cidade que transforma o homem, mas o homem que imprime à cidade a sua própria complexidade, suas virtudes e seus abismos. A violência não pertence ao espaço urbano ou rural; pertence à condição humana.

O ambiente apenas define a forma, o ritmo e o alcance com que ela se manifesta. Negar isso é continuar acreditando que o problema está sempre fora quando, na verdade, ele habita o centro de nós mesmos.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Caryl Chessman - O Bandido da Luz Vermelha



Caryl Whittier Chessman, conhecido simplesmente como Caryl Chessman, foi um criminoso de notável astúcia que acabou se tornando uma figura controversa e midiática nos Estados Unidos da década de 1950.

Sua trajetória influenciou outros criminosos ao redor do mundo, entre eles, no Brasil, João Acácio Pereira da Costa, que mais tarde ficaria conhecido como o Bandido da Luz Vermelha.

Chessman nasceu em Saint Joseph, Michigan, em 27 de maio de 1921. Desde jovem, envolveu-se em delitos diversos, passando por furtos, assaltos e crimes mais graves. Sua vida foi marcada por reincidência criminal, prisões sucessivas e uma escalada de violência que culminaria em sua condenação à morte.

Em 2 de maio de 1960, após anos no corredor da morte, foi executado na câmara de gás, no estado da Califórnia. Eu ainda era muito criança na época, mas lembro-me claramente de ouvir meu pai comentar sobre a execução programada desse homem nos Estados Unidos.

O caso atravessou fronteiras e gerou comoção internacional. Manifestações, abaixo-assinados e apelos foram feitos em diversos países pedindo clemência, como se o condenado fosse um símbolo de injustiça maior.

Pouco se falava, no entanto, das vítimas de seus crimes, pessoas reais, com vidas interrompidas ou marcadas para sempre pela violência que sofreram. Esse fenômeno revela o que se pode chamar de síndrome do bandido-herói: a transformação do criminoso em personagem quase romântico, intelectualmente admirado, enquanto as vítimas são empurradas para o esquecimento.

Chessman soube explorar esse papel como poucos. Durante sua permanência no corredor da morte, recusou advogados, estudou Direito por conta própria e passou a elaborar suas próprias defesas, utilizando a palavra como arma e a escrita como forma de sobrevivência simbólica.

Na prisão, escreveu livros de forte teor autobiográfico, como 2455 – Cela da Morte e A Lei Quer Que Eu Morra, além do romance O Garoto Era um Assassino. As obras tiveram circulação mundial, foram traduzidas para vários idiomas e provocaram reações extremas: despertaram compaixão em alguns leitores e repulsa absoluta em outros.

Chessman passou a ser visto, por parte da opinião pública, mais como escritor e intelectual do que como criminoso condenado.

No Brasil, João Acácio Pereira da Costa, inspirado pela figura de Chessman, construiu sua própria mitologia criminosa. Diferentemente do americano, cumpriu a pena máxima prevista pela legislação brasileira à época, trinta anos de prisão e foi colocado em liberdade.

Poucos dias depois, acabou assassinado em um bar da cidade onde residia. Foi então que surgiram discursos indignados em sua defesa: “O pobrezinho, depois de trinta anos na prisão, não sabia mais viver em comunidade.” A afirmação soa frágil. Durante três décadas, ele viveu em uma comunidade, ainda que distinta da sociedade livre.

A prisão também é um espaço social, com regras, hierarquias, convivência e conflitos. Ninguém cumpre pena no isolamento absoluto do deserto humano. Voltando a Chessman, sua fama cresceu justamente após sua prisão, o que diz muito sobre o fascínio que o crime exerce quando envolto em inteligência, eloquência e narrativa bem construída.

Sua execução, acompanhada em tempo real por rádios e jornais, marcou um dos episódios mais emblemáticos do debate sobre a pena de morte no século XX. No fim, permanece a pergunta incômoda: até que ponto a palavra bem escrita é capaz de reconfigurar a imagem de um criminoso?

E quantas vezes a sociedade se deixa seduzir pela história do algoz, esquecendo-se silenciosamente das vítimas que jamais tiveram voz, livros ou leitores?

George McLaurin


Em 1948, um marco silencioso, porém profundamente simbólico, foi registrado na história da educação e dos direitos civis nos Estados Unidos. Pela primeira vez, um homem negro foi admitido na Universidade de Oklahoma.

Seu nome era George McLaurin. A conquista, no entanto, veio acompanhada de uma humilhação institucionalizada: embora matriculado, McLaurin foi obrigado a assistir às aulas sentado longe de seus colegas brancos, em áreas separadas dentro das salas, da biblioteca e até do refeitório.

A segregação não era apenas social, era oficialmente imposta. McLaurin estava presente, mas isolado; incluído no papel, porém excluído na prática. Ainda assim, enfrentou o ambiente hostil com uma determinação incomum.

Olhares desconfiados, silêncios constrangedores e a indiferença de alguns professores faziam parte de sua rotina acadêmica. Apesar de todas essas barreiras, George McLaurin destacou-se de forma extraordinária.

Seu nome passou a constar na lista de honra da Universidade de Oklahoma como um dos três melhores alunos de sua turma, um feito que desmontava, com fatos, os preconceitos que sustentavam a segregação racial.

Sobre aquele período, McLaurin recordaria palavras duras e reveladoras:

“Alguns colegas olhavam para mim como se eu fosse um monstro. Ninguém me dirigia a palavra. Os professores pareciam não se importar comigo e nem sempre esclareciam minhas dúvidas. Mas eu me dediquei tanto que, com o tempo, eles começaram a me procurar para que eu explicasse a matéria e esclarecesse as perguntas deles.”

Sua trajetória não foi apenas acadêmica; foi um ato de resistência. Em um país ainda profundamente dividido pela cor da pele, McLaurin provou que o intelecto não reconhece segregações impostas pela ignorância.

Sua presença e excelência ajudaram a fortalecer a luta contra a doutrina do “separados, mas iguais”, que poucos anos depois seria definitivamente questionada pela Suprema Corte dos Estados Unidos.

A história de George McLaurin permanece atual e necessária. Ela nos lembra que o conhecimento pode ser um instrumento poderoso de transformação social e que a educação, quando aliada à coragem, é capaz de romper muros erguidos por séculos de preconceito.

Como ele próprio ensinou, com a força de sua vida e de seu exemplo: “A única arma capaz de transformar o mundo é a educação.”

terça-feira, janeiro 06, 2026

Memória



Todas as pessoas desejam, de alguma forma, deixar vestígios para a posteridade. Um sinal mínimo de que passaram por aqui. Uma marca, ainda que discreta, que resista ao esquecimento.

Há muito se repete a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio simbólico que, supostamente, nos garantiria uma espécie de imortalidade. Escreva um livro, plante uma árvore, tenha um filho.

Como se essas três ações fossem suficientes para driblar o tempo e assegurar permanência num mundo que insiste em apagar tudo. Mas filhos crescem e se perdem no mundo, seguindo caminhos que já não nos pertencem.

Árvores são cortadas, queimadas ou tombam silenciosamente com o avanço dos anos. Livros, mesmo os mais bem-intencionados, acabam esquecidos em prateleiras empoeiradas ou mofam em sebos, aguardando leitores que talvez nunca cheguem.

O tempo é implacável com as obras humanas. Ele corrói a matéria, dissolve os nomes e transforma feitos grandiosos em notas de rodapé. Nada do que é físico parece realmente preparado para durar.

Talvez, então, a verdadeira permanência não esteja nas coisas que deixamos, mas nas pessoas que tocamos. A única forma de imortalidade que resiste, de fato, é a memória guardada por aqueles que nos amaram. Um gesto lembrado, uma palavra que ficou, um afeto que se recusa a desaparecer.

Enquanto alguém se lembrar de nós com ternura, seguimos existindo, não nos livros, nem nas árvores, nem nos sobrenomes herdados, mas no território frágil e poderoso da lembrança. E talvez seja ali, nesse espaço invisível e humano, que a eternidade encontre seu único abrigo.