Se você ama, terá AIDS; se fuma, terá câncer; se respira, terá poluição - ou, hoje, partículas tóxicas e vírus no ar; - se bebe, terá acidentes - ou cirrose, ou dependência -; se come, terá colesterol - ou obesidade, diabetes, ou alimentos envenenados por agrotóxicos -; se fala, terá desemprego - ou cancelamento, vigilância digital, ou retaliação -; se caminha, terá violência - ou assédio, ou bala perdida -; se pensa, terá angústia; se dúvida, terá loucura; se sente, terá solidão. (Eduardo Galeano)
Essa lista implacável, escrita décadas atrás,
continua ecoando com uma força perturbadora. Galeano desenhava o retrato de uma
sociedade que transforma cada ato vital em risco calculado, cada prazer em
ameaça iminente, cada gesto humano em potencial castigo. Viver, nessa lógica,
deixa de ser um direito e passa a ser uma sucessão de advertências.
O medo já não é
apenas uma experiência íntima, subjetiva. Ele é fabricado, administrado e
distribuído em escala industrial. Alimenta-se de campanhas alarmistas, de
manchetes incessantes, de estatísticas descontextualizadas, de algoritmos que
aprendem rapidamente aquilo que nos paralisa. O medo, hoje, é um produto
eficiente: mantém a atenção, gera consumo, controla comportamentos.
Nos anos 1980 e
1990, quando Galeano mencionava a AIDS como punição pelo amor, o pânico era
generalizado. O vírus carregava um julgamento moral embutido: amar demais, amar
errado, amar fora da norma.
Embora os avanços médicos tenham transformado
radicalmente o tratamento e a expectativa de vida das pessoas soropositivas, o
estigma ainda sobrevive, silencioso e cruel, em muitos cantos do mundo.
O mesmo ocorreu
com o medo do câncer ligado ao cigarro, que se expandiu e se ramificou. Hoje,
tudo parece potencialmente cancerígeno: telas, plásticos, radiação invisível,
alimentos ultra processados, microplásticos que já circulam no sangue humano. A
sensação é de cerco permanente, como se não houvesse refúgio possível.
A esses temores
soma-se o medo climático - se você vive, consome; se consome, destrói; se
respira, aquece o planeta. Soma-se também o medo da vigilância total - se você
usa o celular, deixa rastros; se fala, é monitorado; se cala, é suspeito.
E, mais recentemente, o medo da precariedade
infinita - se trabalha, será substituído por uma máquina; se descansa, será
considerado improdutivo; se sonha, estará fora do jogo.
O medo da solidão,
paradoxalmente, se aprofunda na era das conexões incessantes. Nunca estivemos
tão expostos, tão visíveis, tão disponíveis - e, ao mesmo tempo, tão carentes
de presença real, de toque, de escuta verdadeira. Multiplicam-se os contatos,
rarefaz-se o encontro.
Ainda assim,
Galeano não se detinha apenas na denúncia. Sua escrita nunca foi um convite à
rendição. Ele sempre contrapôs o terror paralisante à teimosia humana de
continuar vivendo: amando, respirando, pensando, sentindo, apesar de tudo. Em
seus textos, o medo é onipresente, mas nunca soberano.
Há sempre a
criança que ri na rua, o cachorro que insiste no passeio, a mulher que cultiva
flores num terreno abandonado, o gesto pequeno que desafia a lógica do
desespero.
Galeano era, nesse sentido, um pessimista da
razão e um otimista da ação. Reconhecia a infelicidade produzida pelo sistema -
pelo capital, pelo medo vendido como método de controle -, mas acreditava na
persistência inexplicável da dignidade humana.
Não estamos
condenados sem saída. Estamos ameaçados, sim. Cercados, muitas vezes. Mas a
rebeldia cotidiana, o afeto que resiste, a utopia que insiste em reaparecer
quando tudo parece perdido continuam sendo formas legítimas de resistência.
Talvez o medo não seja apenas aquilo que nos paralisa. Talvez ele também seja o sinal de que ainda estamos vivos o suficiente para perceber que o mundo poderia - e deveria - ser diferente.









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