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quarta-feira, janeiro 14, 2026

O medo



Se você ama, terá AIDS; se fuma, terá câncer; se respira, terá poluição - ou, hoje, partículas tóxicas e vírus no ar; - se bebe, terá acidentes - ou cirrose, ou dependência -; se come, terá colesterol - ou obesidade, diabetes, ou alimentos envenenados por agrotóxicos -; se fala, terá desemprego - ou cancelamento, vigilância digital, ou retaliação -; se caminha, terá violência - ou assédio, ou bala perdida -; se pensa, terá angústia; se dúvida, terá loucura; se sente, terá solidão. (Eduardo Galeano)

Essa lista implacável, escrita décadas atrás, continua ecoando com uma força perturbadora. Galeano desenhava o retrato de uma sociedade que transforma cada ato vital em risco calculado, cada prazer em ameaça iminente, cada gesto humano em potencial castigo. Viver, nessa lógica, deixa de ser um direito e passa a ser uma sucessão de advertências.

O medo já não é apenas uma experiência íntima, subjetiva. Ele é fabricado, administrado e distribuído em escala industrial. Alimenta-se de campanhas alarmistas, de manchetes incessantes, de estatísticas descontextualizadas, de algoritmos que aprendem rapidamente aquilo que nos paralisa. O medo, hoje, é um produto eficiente: mantém a atenção, gera consumo, controla comportamentos.

Nos anos 1980 e 1990, quando Galeano mencionava a AIDS como punição pelo amor, o pânico era generalizado. O vírus carregava um julgamento moral embutido: amar demais, amar errado, amar fora da norma.

Embora os avanços médicos tenham transformado radicalmente o tratamento e a expectativa de vida das pessoas soropositivas, o estigma ainda sobrevive, silencioso e cruel, em muitos cantos do mundo.

O mesmo ocorreu com o medo do câncer ligado ao cigarro, que se expandiu e se ramificou. Hoje, tudo parece potencialmente cancerígeno: telas, plásticos, radiação invisível, alimentos ultra processados, microplásticos que já circulam no sangue humano. A sensação é de cerco permanente, como se não houvesse refúgio possível.

A esses temores soma-se o medo climático - se você vive, consome; se consome, destrói; se respira, aquece o planeta. Soma-se também o medo da vigilância total - se você usa o celular, deixa rastros; se fala, é monitorado; se cala, é suspeito.

E, mais recentemente, o medo da precariedade infinita - se trabalha, será substituído por uma máquina; se descansa, será considerado improdutivo; se sonha, estará fora do jogo.

O medo da solidão, paradoxalmente, se aprofunda na era das conexões incessantes. Nunca estivemos tão expostos, tão visíveis, tão disponíveis - e, ao mesmo tempo, tão carentes de presença real, de toque, de escuta verdadeira. Multiplicam-se os contatos, rarefaz-se o encontro.

Ainda assim, Galeano não se detinha apenas na denúncia. Sua escrita nunca foi um convite à rendição. Ele sempre contrapôs o terror paralisante à teimosia humana de continuar vivendo: amando, respirando, pensando, sentindo, apesar de tudo. Em seus textos, o medo é onipresente, mas nunca soberano.

Há sempre a criança que ri na rua, o cachorro que insiste no passeio, a mulher que cultiva flores num terreno abandonado, o gesto pequeno que desafia a lógica do desespero.

Galeano era, nesse sentido, um pessimista da razão e um otimista da ação. Reconhecia a infelicidade produzida pelo sistema - pelo capital, pelo medo vendido como método de controle -, mas acreditava na persistência inexplicável da dignidade humana.

Não estamos condenados sem saída. Estamos ameaçados, sim. Cercados, muitas vezes. Mas a rebeldia cotidiana, o afeto que resiste, a utopia que insiste em reaparecer quando tudo parece perdido continuam sendo formas legítimas de resistência.

Talvez o medo não seja apenas aquilo que nos paralisa. Talvez ele também seja o sinal de que ainda estamos vivos o suficiente para perceber que o mundo poderia - e deveria - ser diferente. 

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