A guerra é o território mais cruel da
contradição humana. Um espaço onde jovens que jamais se encontraram, que não
carregam ódio pessoal uns pelos outros, são lançados à tarefa de matar e
morrer.
Não se trata de escolhas individuais, mas de
ordens. Decisões tomadas por homens envelhecidos no poder, líderes que se
conhecem, que disputam interesses, territórios, ideologias e prestígio e que,
apesar de se odiarem, jamais se enfrentam no campo de batalha.
Esses jovens,
arrancados de suas casas, interrompem estudos, sonhos, amores e futuros para
vestir uniformes que os transformam em números, estatísticas ou heróis
póstumos.
No front, o inimigo deixa de ter nome, rosto
ou história; torna-se apenas um alvo. A guerra exige essa desumanização para
funcionar, pois reconhecer a humanidade do outro tornaria o ato de matar
insuportável.
Enquanto isso,
longe do cheiro de pólvora e do som dos gritos, os verdadeiros arquitetos do
conflito discursam em salas confortáveis, negociam cessar-fogo que não os
atingem e calculam perdas como se fossem peças de um tabuleiro.
Suas mãos raramente tremem; seus corpos
raramente sangram. A guerra, para eles, é estratégia. Para os jovens, é
destino. Ao fim dos combates, restam cicatrizes que nenhum tratado consegue
apagar.
Os sobreviventes retornam com o corpo
marcado, a mente fragmentada e um silêncio que pesa mais do que qualquer
medalha. As famílias enterram filhos, irmãos e pais sob bandeiras que prometem
honra, mas não devolvem vidas.
E os velhos, que decidiram tudo, continuam
vivos, muitas vezes celebrados como estadistas. A história repete esse padrão
com assustadora fidelidade. Mudam-se os mapas, as armas e os discursos, mas a
lógica permanece: a juventude paga com sangue por conflitos que não criou.
A guerra, assim, revela não apenas a falência
da política, mas também a incapacidade humana de aprender com a própria dor. Talvez
o maior escândalo da guerra não seja apenas a morte em massa, mas o fato de
que, mesmo conhecendo suas consequências, seguimos aceitando que ela seja
decidida por poucos e sofrida por muitos.
Enquanto isso persistir, cada novo conflito será apenas mais um capítulo da mesma tragédia anunciada.









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