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sexta-feira, janeiro 09, 2026

Guerras


A guerra é o território mais cruel da contradição humana. Um espaço onde jovens que jamais se encontraram, que não carregam ódio pessoal uns pelos outros, são lançados à tarefa de matar e morrer.

Não se trata de escolhas individuais, mas de ordens. Decisões tomadas por homens envelhecidos no poder, líderes que se conhecem, que disputam interesses, territórios, ideologias e prestígio e que, apesar de se odiarem, jamais se enfrentam no campo de batalha.

Esses jovens, arrancados de suas casas, interrompem estudos, sonhos, amores e futuros para vestir uniformes que os transformam em números, estatísticas ou heróis póstumos.

No front, o inimigo deixa de ter nome, rosto ou história; torna-se apenas um alvo. A guerra exige essa desumanização para funcionar, pois reconhecer a humanidade do outro tornaria o ato de matar insuportável.

Enquanto isso, longe do cheiro de pólvora e do som dos gritos, os verdadeiros arquitetos do conflito discursam em salas confortáveis, negociam cessar-fogo que não os atingem e calculam perdas como se fossem peças de um tabuleiro.

Suas mãos raramente tremem; seus corpos raramente sangram. A guerra, para eles, é estratégia. Para os jovens, é destino. Ao fim dos combates, restam cicatrizes que nenhum tratado consegue apagar.

Os sobreviventes retornam com o corpo marcado, a mente fragmentada e um silêncio que pesa mais do que qualquer medalha. As famílias enterram filhos, irmãos e pais sob bandeiras que prometem honra, mas não devolvem vidas.

E os velhos, que decidiram tudo, continuam vivos, muitas vezes celebrados como estadistas. A história repete esse padrão com assustadora fidelidade. Mudam-se os mapas, as armas e os discursos, mas a lógica permanece: a juventude paga com sangue por conflitos que não criou.

A guerra, assim, revela não apenas a falência da política, mas também a incapacidade humana de aprender com a própria dor. Talvez o maior escândalo da guerra não seja apenas a morte em massa, mas o fato de que, mesmo conhecendo suas consequências, seguimos aceitando que ela seja decidida por poucos e sofrida por muitos.

Enquanto isso persistir, cada novo conflito será apenas mais um capítulo da mesma tragédia anunciada.

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