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segunda-feira, janeiro 12, 2026

A Vida é uma Mulher!


Para contemplar a beleza última de uma obra de arte, de um gesto ou de um instante da existência, não bastam todo o saber acumulado nem toda a boa disposição da alma. O erudito pode passar indiferente diante do sublime, e o sensível pode atravessar o extraordinário sem percebê-lo.

São necessários, antes, os acasos mais raros e felizes - aqueles encontros improváveis em que o mundo exterior e a disposição interior se reconhecem mutuamente. Só então o véu de nuvens se afasta, ainda que por um breve instante, desses cumes excelsos, e nós os vemos refulgir, subitamente, sob o sol pleno.

Não se trata apenas de estar no lugar certo, no momento exato; trata-se de ser, naquele instante, a pessoa capaz de ver. É preciso que a própria alma tenha arrancado, com esforço, risco e sofrimento, o véu que cobria suas próprias alturas.

Apenas quem já enfrentou suas zonas de sombra, quem suportou o desamparo e a vertigem do autoconhecimento, torna-se digno da revelação. E, justamente por isso, necessita agora de uma expressão externa - uma obra, um gesto, um rosto, uma paisagem - como símbolo visível, como ponto de apoio que impeça a dissolução, que permita permanecer senhor de si mesmo em meio ao êxtase.

Mas é tão raro que todos esses elementos convirjam ao mesmo tempo, que me inclino a crer que as maiores culminâncias do que há de bom - um ato verdadeiramente heroico, um lampejo de humanidade plena, a súbita revelação da natureza em sua glória mais pura - permaneceram até hoje, em grande parte, ocultas e veladas à maioria dos homens, e mesmo aos melhores entre eles.

O que se nos revela, revela-se apenas uma vez - e depois torna a se esconder. Essa é a lei cruel e magnífica da existência. Os gregos, em sua sabedoria luminosa e trágica, sabiam disso. Por isso invocavam: “Duas e três vezes tudo o que é belo!”

Tinham razão de sobra para suplicar aos deuses essa repetição milagrosa, pois a realidade profana e cotidiana não nos concede o belo com generosidade. Ou o nega por completo, ou no-lo oferece apenas uma única vez, de modo fugaz, quase irônico, como se quisesse testar nossa capacidade de atenção e gratidão.

Quero dizer com isso que o mundo está repleto de coisas belas - paisagens, rostos, obras-primas, gestos de grandeza - e, no entanto, é terrivelmente pobre em belos instantes, em revelações autênticas e completas dessas mesmas coisas.

A beleza existe em abundância, mas quase sempre permanece encoberta, distante, tímida ou indiferente ao nosso olhar apressado e fatigado. Talvez seja exatamente aí que resida o mais forte encanto da vida.

Sobre ela paira, entretecido de fios de ouro, um véu sutil de belas possibilidades - um véu feito de promessas, resistências, pudor, desdém altivo, compaixão súbita, sedução perigosa. A vida não se entrega inteira: ela se mostra, se insinua, se retrai; provoca, castiga e recompensa. Nessa alternância reside sua inesgotável fascinação.

Sim, a vida é uma mulher.

Essa imagem final, tão provocadora quanto poética, condensa uma das intuições mais profundas de Friedrich Nietzsche. A vida, tal como a mulher em sua visão - nem sempre gentil, nem jamais domesticável -, não é algo que se possui ou se domina por completo.

Ela é movimento, mistério, distância sedutora; recusa e oferta simultâneas. Exige força, coragem, dança, e sobretudo a capacidade de suportar a frustração sem cair no ressentimento. Por isso mesmo, os grandes momentos - aqueles em que o véu se rasga de verdade - são tão preciosos quanto raros.

E é precisamente essa raridade que os torna dignos de serem desejados com toda a força da vontade de potência, com toda a paixão dionisíaca de quem sabe que o belo, assim como a felicidade suprema, quase nunca se repete - e que, quando retorna, nunca o faz da mesma forma.



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