Para contemplar a beleza última de uma obra
de arte, de um gesto ou de um instante da existência, não bastam todo o saber
acumulado nem toda a boa disposição da alma. O erudito pode passar indiferente
diante do sublime, e o sensível pode atravessar o extraordinário sem
percebê-lo.
São necessários,
antes, os acasos mais raros e felizes - aqueles encontros improváveis em que o
mundo exterior e a disposição interior se reconhecem mutuamente. Só então o véu
de nuvens se afasta, ainda que por um breve instante, desses cumes excelsos, e
nós os vemos refulgir, subitamente, sob o sol pleno.
Não se trata apenas de estar no lugar certo,
no momento exato; trata-se de ser, naquele instante, a pessoa capaz de ver. É
preciso que a própria alma tenha arrancado, com esforço, risco e sofrimento, o
véu que cobria suas próprias alturas.
Apenas quem já enfrentou suas zonas de
sombra, quem suportou o desamparo e a vertigem do autoconhecimento, torna-se
digno da revelação. E, justamente por isso, necessita agora de uma expressão
externa - uma obra, um gesto, um rosto, uma paisagem - como símbolo visível,
como ponto de apoio que impeça a dissolução, que permita permanecer senhor de
si mesmo em meio ao êxtase.
Mas é tão raro
que todos esses elementos convirjam ao mesmo tempo, que me inclino a crer que
as maiores culminâncias do que há de bom - um ato verdadeiramente heroico, um
lampejo de humanidade plena, a súbita revelação da natureza em sua glória mais
pura - permaneceram até hoje, em grande parte, ocultas e veladas à maioria dos
homens, e mesmo aos melhores entre eles.
O que se nos
revela, revela-se apenas uma vez - e depois torna a se esconder. Essa é a lei
cruel e magnífica da existência. Os gregos, em sua sabedoria luminosa e trágica,
sabiam disso. Por isso invocavam: “Duas e três vezes tudo o que é belo!”
Tinham razão de
sobra para suplicar aos deuses essa repetição milagrosa, pois a realidade
profana e cotidiana não nos concede o belo com generosidade. Ou o nega por
completo, ou no-lo oferece apenas uma única vez, de modo fugaz, quase irônico,
como se quisesse testar nossa capacidade de atenção e gratidão.
Quero dizer com
isso que o mundo está repleto de coisas belas - paisagens, rostos,
obras-primas, gestos de grandeza - e, no entanto, é terrivelmente pobre em
belos instantes, em revelações autênticas e completas dessas mesmas coisas.
A beleza existe em abundância, mas quase
sempre permanece encoberta, distante, tímida ou indiferente ao nosso olhar
apressado e fatigado. Talvez seja exatamente aí que resida o mais forte encanto
da vida.
Sobre ela paira, entretecido de fios de ouro,
um véu sutil de belas possibilidades - um véu feito de promessas, resistências,
pudor, desdém altivo, compaixão súbita, sedução perigosa. A vida não se entrega
inteira: ela se mostra, se insinua, se retrai; provoca, castiga e recompensa.
Nessa alternância reside sua inesgotável fascinação.
Sim, a vida é
uma mulher.
Essa imagem
final, tão provocadora quanto poética, condensa uma das intuições mais profundas
de Friedrich Nietzsche. A vida, tal como a mulher em sua visão - nem sempre
gentil, nem jamais domesticável -, não é algo que se possui ou se domina por
completo.
Ela é movimento,
mistério, distância sedutora; recusa e oferta simultâneas. Exige força, coragem,
dança, e sobretudo a capacidade de suportar a frustração sem cair no
ressentimento. Por isso mesmo, os grandes momentos - aqueles em que o véu se
rasga de verdade - são tão preciosos quanto raros.
E é precisamente
essa raridade que os torna dignos de serem desejados com toda a força da
vontade de potência, com toda a paixão dionisíaca de quem sabe que o belo,
assim como a felicidade suprema, quase nunca se repete - e que, quando retorna,
nunca o faz da mesma forma.










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