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terça-feira, janeiro 06, 2026

Memória



Todas as pessoas desejam, de alguma forma, deixar vestígios para a posteridade. Um sinal mínimo de que passaram por aqui. Uma marca, ainda que discreta, que resista ao esquecimento.

Há muito se repete a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio simbólico que, supostamente, nos garantiria uma espécie de imortalidade. Escreva um livro, plante uma árvore, tenha um filho.

Como se essas três ações fossem suficientes para driblar o tempo e assegurar permanência num mundo que insiste em apagar tudo. Mas filhos crescem e se perdem no mundo, seguindo caminhos que já não nos pertencem.

Árvores são cortadas, queimadas ou tombam silenciosamente com o avanço dos anos. Livros, mesmo os mais bem-intencionados, acabam esquecidos em prateleiras empoeiradas ou mofam em sebos, aguardando leitores que talvez nunca cheguem.

O tempo é implacável com as obras humanas. Ele corrói a matéria, dissolve os nomes e transforma feitos grandiosos em notas de rodapé. Nada do que é físico parece realmente preparado para durar.

Talvez, então, a verdadeira permanência não esteja nas coisas que deixamos, mas nas pessoas que tocamos. A única forma de imortalidade que resiste, de fato, é a memória guardada por aqueles que nos amaram. Um gesto lembrado, uma palavra que ficou, um afeto que se recusa a desaparecer.

Enquanto alguém se lembrar de nós com ternura, seguimos existindo, não nos livros, nem nas árvores, nem nos sobrenomes herdados, mas no território frágil e poderoso da lembrança. E talvez seja ali, nesse espaço invisível e humano, que a eternidade encontre seu único abrigo.

Waldyr Sant'anna - Ator e Dublador



Quem assistiu à novela Roque Santeiro, exibida pela Rede Globo entre 24 de junho de 1985 e 22 de fevereiro de 1986, certamente se lembra de Terêncio Apolinário, o fiel e temido capataz do “coronel” Sinhozinho Malta, magistralmente interpretado por Lima Duarte.

O personagem, marcado por obediência cega, rigidez moral e presença constante, ganhou força dramática graças à atuação segura e expressiva de Waldyr Sant’anna, que soube imprimir humanidade e tensão a um papel secundário, mas fundamental na engrenagem da trama.

Para muitos, esse foi o melhor papel de sua carreira na televisão. Ainda assim, Waldyr Sant’anna construiu uma trajetória muito mais ampla e diversa, consolidando-se como um artista completo, tanto diante das câmeras quanto atrás dos microfones.

Nascido no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1936, Waldyr iniciou sua carreira artística em São Paulo, em 1956, como disc jockey na Rádio Excelsior. Posteriormente, trabalhou também na Rádio Nacional de São Paulo, onde desenvolveu sua voz marcante, dicção precisa e sensibilidade interpretativa, qualidades que mais tarde o tornariam um dos grandes nomes da dublagem brasileira.

Na televisão, participou de diversas telenovelas de sucesso, entre elas Água Viva, Rosa Baiana, Sol de Verão, Guerra dos Sexos, O Salvador da Pátria e Suave Veneno. Em Roque Santeiro, de Dias Gomes, eternizou o personagem Terêncio, o jagunço leal e silencioso de Sinhozinho Malta, figura emblemática da teledramaturgia nacional.

Também integrou o elenco de Baila Comigo, interpretando Jandir; da minissérie Sex Appeal, como Jonas; e da novela Corpo a Corpo, no papel de Agildo. Já em 2007, fez uma participação especial em Sete Pecados, vivendo um juiz de boxe, demonstrando, mais uma vez, sua versatilidade artística.

Paralelamente à carreira como ator, Waldyr Sant’anna tornou-se um dos mais reconhecidos dubladores do Brasil. Seu trabalho mais famoso foi dar voz a Homer Simpson, no desenho Os Simpsons, personagem com o qual ficou profundamente associado pelo público.

Também dublou Eddie Murphy em diversos filmes, além de emprestar sua voz a inúmeros personagens do cinema e da televisão. Na Globo, participou ainda de vários programas e seriados, como Linha Direta, o seriado Mulher e o infantojuvenil Sítio do Picapau Amarelo, durante a década de 1980, onde deu voz ao personagem Vidro Azul.

Realizou também narrações no seriado Juba e Lula, reforçando sua presença constante na programação da emissora. Em reconhecimento à sua contribuição para a dublagem brasileira, foi homenageado em 2006 no Prêmio Yamato de Dublagem, conhecido como o “Oscar da Dublagem”, ao lado dos dubladores Peterson Adriano e Selma Lopes, um tributo à excelência e longevidade de sua carreira.

Waldyr Sant’anna faleceu em 21 de abril de 2018. À época, surgiram especulações sobre problemas relacionados ao álcool, mas tais informações foram prontamente desmentidas por seus familiares.

Sabe-se que, em 2012, o ator havia enfrentado problemas cardíacos e passado por procedimentos clínicos, o que fragilizou sua saúde nos anos seguintes. Seu legado permanece vivo na memória afetiva do público brasileiro.

Seja no rosto severo de Terêncio Apolinário, seja na voz inconfundível de Homer Simpson, Waldyr Sant’anna deixou uma marca definitiva na história da televisão e da dublagem no Brasil, um artista discreto, consistente e profundamente talentoso.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

ABBA - Grupo sueco de música pop formado em Estocolmo em 1972



O ABBA é um dos grupos mais emblemáticos da história da música pop mundial. Formado em Estocolmo, na Suécia, em 1972, o quarteto era composto por Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad (Frida).

O nome da banda surgiu de forma simples e direta: um acrônimo criado a partir das iniciais do primeiro nome de cada integrante, solução que acabou se tornando uma das marcas mais reconhecíveis da música popular.

A trajetória do grupo mudou definitivamente em 1974, quando o ABBA venceu o Eurovision Song Contest com a canção Waterloo, no The Dome, em Brighton, no Reino Unido.

A vitória não apenas garantiu à Suécia seu primeiro triunfo no concurso, como também projetou o grupo para o cenário internacional. Até hoje, o ABBA é considerado o participante mais bem-sucedido da história do Eurovision.

A partir desse momento, o quarteto passou a dominar as paradas musicais mundiais, especialmente entre 1974 e 1982. Suas canções eram marcadas por melodias cativantes, refrões memoráveis e letras aparentemente simples, mas emocionalmente eficazes.

O som característico do ABBA se destacava pela harmonia impecável das vozes femininas e pela produção sofisticada, fortemente influenciada pela técnica conhecida como wall of sound, popularizada pelo produtor Phil Spector, embora adaptada ao estilo pop europeu do grupo.

Paralelamente ao sucesso artístico, a vida pessoal dos integrantes também ganhava destaque. Björn Ulvaeus e Agnetha Fältskog se casaram pouco antes da consolidação do quarteto, enquanto Benny Andersson e Frida oficializaram sua união em 1978.

Durante anos, os quatro conciliaram a intensa agenda de gravações, turnês e aparições públicas com a formação de suas famílias, algo pouco comum para bandas pop daquele período.

O impacto comercial das gravações foi extraordinário. O ABBA tornou-se um dos maiores nomes da indústria fonográfica, figurando entre os artistas mais lucrativos da história e consolidando-se como um dos principais sucessos do catálogo da Universal Music Group. Na década de 1970, foi a banda que mais vendeu discos em diversos mercados.

Outro feito notável foi o fato de o ABBA se tornar o primeiro grupo pop europeu a alcançar enorme sucesso em países de língua inglesa fora da Europa, como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Canadá e, ainda que em menor escala, os Estados Unidos - um território tradicionalmente resistente a artistas não anglófonos.

Entretanto, no auge da fama, os dois casamentos do grupo chegaram ao fim. As separações afetaram profundamente a dinâmica interna e passaram a se refletir diretamente nas letras, que se tornaram mais intimistas, melancólicas e maduras, abordando temas como perda, solidão e desilusão amorosa.

Essa mudança marcou uma nova fase musical, artisticamente mais complexa, mas comercialmente menos explosiva. Com o tempo, o grupo entrou em um declínio gradual de popularidade, o que levou à decisão de encerrar as atividades. Em dezembro de 1982, ocorreu a última aparição pública do quarteto, marcando oficialmente o fim do ABBA como grupo ativo.

Apesar disso, o legado jamais desapareceu. Na década de 1990, o lançamento de álbuns de compilação reacendeu o interesse do público e apresentou a música do ABBA a novas gerações, levando novamente o grupo ao topo das paradas internacionais.

As vendas globais de seus álbuns são estimadas em cerca de 500 milhões de cópias, consolidando o ABBA como um dos artistas mais bem-sucedidos de todos os tempos.

As canções do grupo foram reinterpretadas por inúmeros artistas ao redor do mundo e serviram de base para o musical Mamma Mia!, que se tornou um fenômeno nos palcos e no cinema.

Ícone cultural na Suécia e referência fundamental na expansão do europop, o ABBA abriu caminho para diversos outros grupos do gênero e teve sua importância histórica reconhecida com a entrada no Rock and Roll Hall of Fame.

Mais do que uma banda, o ABBA permanece como um símbolo atemporal da música pop, capaz de atravessar décadas, estilos e gerações sem perder relevância.

 

Analfabeto

 


Sou biólogo e viajo com frequência pela savana do meu país. Entre trilhas de terra vermelha, rios sazonais e árvores que resistem à seca, encontro pessoas que nunca aprenderam a decifrar as letras impressas nos livros.

Não dominam o alfabeto formal, não reconhecem palavras em páginas encadernadas. Ainda assim, sabem ler - e leem com precisão admirável. Eles leem o chão, interpretando pegadas quase invisíveis; leem o vento, pressentindo mudanças no tempo; leem o silêncio dos animais e o murmúrio das folhas.

Leem o céu, reconhecendo sinais de chuva, de estiagem, de perigo e de abundância. Cada gesto, cada pausa, cada olhar carrega um significado que não se aprende em salas de aula, mas na convivência íntima com a terra e com o tempo.

Nesse universo de outros saberes, percebo o quanto minha formação acadêmica, construída entre laboratórios e livros científicos, é insuficiente. Trago diplomas, conceitos, métodos e classificações, mas tropeço diante de conhecimentos que não cabem em gráficos ou artigos.

Sou incapaz de compreender plenamente a linguagem da savana, a sabedoria transmitida de geração em geração sem jamais ser escrita.

Ali, onde a vida se organiza por sinais ancestrais, sou eu quem não sabe ler. Sou eu o analfabeto, limitado por um tipo de alfabetização que ignora outras formas de inteligência e de entendimento do mundo.

Aprendo, então, que o verdadeiro saber não se mede pela quantidade de palavras conhecidas, mas pela capacidade de escutar, observar e respeitar aquilo que existe fora dos livros.

Essa inversão de papéis me ensina humildade. Mostra que há múltiplas maneiras de ler a realidade e que nenhuma delas é superior às outras. Há mundos que se escrevem com letras, e há mundos que se escrevem com passos, gestos e silêncios. E, muitas vezes, são esses últimos que dizem mais sobre a vida.

Homenagem inspirada na obra de Mia Couto

domingo, janeiro 04, 2026

Nathan Darren Jones - Boagrius de Troy



Celebridades e seus passados improváveis: trabalhos e vidas antes da fama

Quando pensamos em celebridades, é comum imaginá-las sempre cercadas de glamour, sucesso e reconhecimento. No entanto, muitas delas trilharam caminhos surpreendentes e, em alguns casos, extremamente sombrios, antes de alcançarem a fama.

Alguns tiveram empregos comuns, outros viveram experiências excêntricas, e há aqueles cuja trajetória beira o inacreditável. Um exemplo marcante é o do ator e ex-lutador australiano Nathan Jones, cuja história está muito longe de um começo convencional.

No épico Tróia (2004), Brad Pitt, no papel de Aquiles, enfrenta logo no início do filme um guerreiro gigante, imponente e aparentemente invencível. O adversário é interpretado por Nathan Jones, cuja presença física impressiona imediatamente.

Com quase sete pés de altura - aproximadamente 2,13 metros - e mais de trezentas libras, Jones parecia feito sob medida para interpretar figuras brutais e ameaçadoras, algo que, ironicamente, refletia seu passado.

Antes de se tornar ator e atleta, Nathan Jones era conhecido nos anos 1980 como “o criminoso mais procurado da Austrália”. Apelidado de “O Colossus of Boggo Road”, em referência à famosa prisão de Brisbane, ele construiu uma reputação quase lendária.

Relatos da época descrevem sua força descomunal: Jones arrancava portas de celas das dobradiças e conseguia se livrar das algemas usando apenas as próprias mãos, tornando-se um verdadeiro pesadelo para o sistema prisional.

Ainda muito jovem, antes mesmo de completar vinte anos, Jones já era visto como um “monstro absoluto”, não apenas pelo porte físico, mas pela audácia e violência de seus crimes.

Foi condenado a 16 anos de prisão por cometer oito assaltos à mão armada, uma sentença que parecia selar definitivamente seu destino no mundo do crime. Entretanto, foi justamente na prisão que ocorreu o ponto de virada.

Durante o encarceramento, Nathan Jones passou a dedicar-se intensamente ao esporte e ao treinamento físico, encontrando na disciplina e no esforço diário uma alternativa real ao ciclo de violência.

O exercício tornou-se não apenas uma válvula de escape, mas um projeto de vida, uma forma concreta de imaginar um futuro fora do crime. Após conquistar a liberdade, Jones começou a lutar profissionalmente por dinheiro, utilizando sua força e tamanho de maneira legítima.

Esse caminho o levou ao wrestling profissional, onde ganhou notoriedade internacional, incluindo uma passagem pela WWE entre 2002 e 2003. Paralelamente, seu físico imponente abriu portas no cinema, especialmente para papéis de vilões, guerreiros e figuras intimidadoras.

Com o tempo, o antigo criminoso transformou-se em atleta, ator e homem de família. Jones casou-se, teve um filho e passou a viver como um cidadão cumpridor da lei, distante do passado que um dia o definiu.

A transição é tão radical quanto simbólica: de um dos ladrões de banco mais temidos e procurados de seu país para um profissional respeitado no entretenimento e no esporte.

Essa trajetória singular faz da história de Nathan Jones uma espécie de narrativa moderna de redenção, um exemplo extremo de como escolhas, circunstâncias e oportunidades podem redefinir completamente uma vida.

Mais do que um caso curioso entre celebridades, sua história lembra que a fama, em alguns casos, nasce não apenas do talento, mas da capacidade de reconstrução pessoal.

Nathan Darren Jones, nascido em 21 de janeiro de 1970, permanece como um dos exemplos mais surpreendentes de transformação radical antes da fama, alguém cujo passado sombrio contrasta de forma quase cinematográfica com a imagem que hoje o público conhece.



 

O Teste dos sogros




Faltavam poucos dias para o casamento de Adolfo, e a ansiedade típica dos momentos que antecedem uma grande mudança já rondava seus pensamentos. Em uma tarde aparentemente comum, enquanto conversava na sala, sentado no sofá, foi surpreendido por uma situação completamente inesperada.

A mãe de sua noiva, Sônia, uma mulher de pouco mais de quarenta anos, elegante e segura de si, respirou fundo e, com certo constrangimento, iniciou uma conversa delicada:

- Adolfo, quero que você saiba que sempre te considerei um homem muito atraente - hesitou por um instante. - Estou até sem graça de continuar.

Sem imaginar o rumo que aquilo tomaria, ele respondeu, tentando manter a cordialidade:

- Pode falar, dona Sônia. Fique à vontade.

Ela então foi direta, sem rodeios, deixando-o completamente atônito:

- Antes de você se casar, eu gostaria de ficar com você.

Adolfo ficou imóvel, boquiaberto, tentando processar o que acabara de ouvir. Sônia, percebendo o choque, levantou-se e concluiu com frieza calculada:

- Vou para o quarto. Se quiser ir embora, você sabe onde fica a porta. Se decidir me acompanhar, estarei lá.

Ela saiu, deixando no ar um silêncio pesado. Adolfo permaneceu parado por um breve segundo, tempo suficiente para avaliar tudo o que estava em jogo: seu caráter, seu futuro casamento e os valores que dizia defender.

Sem hesitar mais, levantou-se, caminhou rapidamente até a porta e saiu da casa. Ao se aproximar do carro, encontrou alguém inesperado: seu sogro, encostado calmamente no veículo, com um sorriso satisfeito no rosto.

- Parabéns, Adolfo - disse ele. - Queríamos ter certeza de que você era um homem fiel, honesto e leal à minha filha. E você passou no teste.

Nesse momento, Sônia também apareceu, agora com um semblante aliviado, e cumprimentou o futuro genro, como quem encerra um experimento bem-sucedido.

A tensão se dissipou, dando lugar a um misto de alívio e aprendizado.

Moral da história:

Em certas situações da vida, é melhor estar preparado para o inesperado - e, sobretudo, manter os valores no lugar certo, mesmo quando a tentação bate à porta.

É bem melhor carregar as camisinhas no carro do que no bolso.