Era sábado à noite
quando aquele padre moderninho, adepto de homilias leves e discursos
atualizados, resolveu fazer uma visita pastoral a um dos membros mais assíduos
da paróquia.
Imaginava encontrar uma família reunida,
talvez um café simples, algumas queixas espirituais e a costumeira conversa
edificante.
Mal tocou a
campainha, porém, foi recebido por uma cena que nenhum seminário ousaria
preparar: o anfitrião surgiu completamente nu,
sorridente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Antes mesmo que
o padre pudesse articular qualquer palavra, foi atingido por uma explosão de
sons vindos do interior da casa: gritaria, música
sensual em volume exagerado e gargalhadas escancaradas. Bastou
um rápido olhar para perceber que ali acontecia uma festa nada convencional,
dessas que jamais entram nos relatórios paroquiais.
- Entre, padre! -
convidou o dono da casa, com a maior naturalidade, abrindo espaço na porta.
O sacerdote
recuou instintivamente, mas a curiosidade - e talvez um resquício de
ingenuidade pastoral - o fez espiar para dentro. Foi então que o anfitrião,
orgulhoso do espetáculo, explicou:
- Estamos
brincando de um joguinho muito interessante! Está vendo aquelas garotas de
olhos vendados? Pois é… elas precisam apalpar o peru dos
homens para descobrir quem é quem. Um desafio de percepção, entende? Quer
participar? É divertidíssimo!
O padre sentiu o
rosto arder. Endireitou o colarinho, pigarreou e respondeu, tentando manter a
dignidade:
- Desculpe, meu
filho, mas creio sinceramente que aqui não é o meu lugar.
Já se preparava
para virar as costas quando ouviu a réplica, carregada de malícia:
- Ora, padre!
Deixe de cerimônias! O senhor está fazendo sucesso… Seu nome já foi citado três vezes nas tentativas de adivinhação!
O padre saiu
apressado, murmurando uma oração que misturava espanto, constrangimento e um
leve questionamento interior. Afinal, naquela noite, quem mais precisaria de
absolvição: os fiéis ou a própria ideia de modernidade?








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