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sábado, janeiro 10, 2026

Josef Kramer: a Besta de Bergen-Belsen

Kramer sendo escoltado por soldados ingleses em Bergen-Belsen após ser capturado, 1945.


Josef Kramer foi um dos mais impiedosos criminosos de guerra nazistas, diretamente responsável pela morte de milhares de judeus durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

Seu nome está associado de forma indelével ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde atuou como comandante e ganhou dos próprios prisioneiros o sinistro apelido de “Besta de Belsen”, símbolo máximo da brutalidade desumana do regime nazista em seus estertores.

Nascido em 10 de novembro de 1906, na cidade de Munique, Kramer ingressou no Partido Nazista em 1931 e, no ano seguinte, alistou-se na SS (Schutzstaffel). Após o treinamento interno da organização, iniciou sua carreira como guarda prisional e, com o início da guerra, foi designado para atuar nos campos de concentração, espaços onde a ideologia nazista se materializava em violência sistemática e extermínio.

Em 1934, Kramer foi destacado para o campo de Dachau, onde rapidamente ascendeu na hierarquia. Passou a ocupar cargos de supervisão em outros campos, como Sachsenhausen e Mauthausen, consolidando sua reputação como um oficial rigoroso, violento e absolutamente fiel às diretrizes do regime.

Em 1940, tornou-se assistente de Rudolf Höss em Auschwitz, o maior complexo de extermínio do Terceiro Reich. Dois anos depois, em 1942, foi promovido ao posto de SS-Hauptsturmführer, assumindo responsabilidades diretas sobre as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau.

Durante o período em Auschwitz, Kramer destacou-se pela extrema crueldade com que tratava tanto prisioneiros quanto subordinados. O médico da SS Franz Lucas, posteriormente acusado em julgamentos de crimes de guerra, relatou que evitava ao máximo cumprir ordens dadas por Kramer, chegando a alegar dores estomacais e intestinais para fugir das tarefas impostas.

Em certa ocasião, ao ver seu nome incluído na lista de médicos responsáveis pela seleção de prisioneiros recém-chegados da Hungria - que determinava quem seria enviado ao trabalho forçado e quem seguiria diretamente para a morte - Lucas protestou. A resposta de Kramer foi direta e ameaçadora:

“Eu sei que você está sendo investigado por favorecer prisioneiros. Estou lhe ordenando agora que suba aquela rampa e faça seu trabalho. Se se recusar a obedecer, eu o mato no local.”

Em agosto de 1943, Auschwitz recebeu um grupo de quarenta mulheres destinadas à execução imediata. Kramer, auxiliado por homens da SS, ordenou que fossem despidas e empurradas para dentro das câmaras de gás.

Do lado de fora, observou calmamente, através de um pequeno visor, enquanto as mulheres gritavam em desespero até caírem mortas no chão. Questionado posteriormente sobre o que sentia ao presenciar tais cenas, respondeu com frieza:

- “Eu não sentia nada ao fazer essas coisas. Estava apenas obedecendo ordens. Foi assim que fui treinado.”

Em dezembro de 1944, Josef Kramer assumiu o comando do campo de concentração de Bergen-Belsen. Àquela altura, a Alemanha já caminhava para o colapso, mas as regras impostas por Kramer eram de uma brutalidade extrema.

As condições do campo deterioraram-se rapidamente: fome, doenças e abandono tornaram-se parte da rotina. Sua conduta cruel consolidou definitivamente o apelido de “Besta de Belsen” entre os prisioneiros.

Mesmo com a desintegração da administração nazista, Kramer permaneceu obsessivamente fiel à burocracia. Em março de 1945, registrou friamente em um relatório que, dos 25 mil prisioneiros sob sua custódia, cerca de 300 haviam morrido de tifo apenas na semana anterior.

Com a aproximação do fim da guerra, Bergen-Belsen passou a receber prisioneiros transferidos de outros campos evacuados às pressas diante do avanço dos Aliados. Em meados de abril, o campo abrigava mais de 80 mil pessoas, muito além de sua capacidade.

 

Sepultura simbólica de Anne Frank uma das vítimas de Kramer em Bergen-Belsen


A administração entrou em colapso total. A maioria dos guardas abandonou o campo para evitar represálias, deixando os prisioneiros entregues à própria sorte. Corpos em decomposição espalhavam-se por toda parte; ratos atacavam os vivos, especialmente aqueles fracos demais para se defender. A morte tornou-se onipresente.

Josef Kramer, no entanto, permaneceu no campo até o fim. Quando os soldados britânicos finalmente chegaram para libertar Bergen-Belsen, ele mostrou-se indiferente.

Conduziu-os em uma espécie de “visita” pelo local, exibindo sem qualquer sinal de arrependimento as cenas de degradação absoluta: pilhas de corpos esqueléticos amontoados, valas comuns cheias de cadáveres insepultos e barracões onde sobreviventes mal conseguiam distinguir a vida da morte, física e mentalmente destruídos.

Kramer foi preso juntamente com outros 44 membros da equipe de Bergen-Belsen, incluindo quinze mulheres. Todos foram levados a julgamento por uma corte militar britânica na cidade de Lüneburg. O processo ocorreu entre setembro e novembro de 1945 e ficou conhecido como um dos julgamentos mais emblemáticos do pós-guerra.

Em 17 de novembro de 1945, Josef Kramer foi condenado à morte por crimes contra a humanidade. A sentença foi cumprida em 13 de dezembro de 1945, na prisão de Hamelin. O responsável por sua execução foi o carrasco britânico Albert Pierrepoint, que também executou diversos outros criminosos nazistas.

Assim terminou a trajetória de um homem cuja obediência cega e desumanização extrema contribuíram para um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.


            Josef Kramer – A Besta de Belsen 

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