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sexta-feira, janeiro 16, 2026

Incitatus - O cavalo Senador de Roma


A História, com sua vastidão de episódios e personagens, reserva acontecimentos tão insólitos que beiram o inacreditável. Entre eles está um dos fatos mais curiosos da Roma Antiga: a nomeação de um cavalo como senador.

Seu nome era Incitatus, e sua trajetória tornou-se símbolo não apenas da excentricidade imperial, mas também da decadência política de um dos períodos mais turbulentos do Império Romano.

Roma foi governada, entre os anos 37 e 41 d.C., por Caio Júlio César Augusto Germânico, mais conhecido como Calígula. Terceiro imperador romano e membro da dinastia júlio-claudiana - inaugurada por Augusto -, Calígula subiu ao poder ainda jovem, aos 24 anos, cercado de expectativas.

No entanto, seu reinado logo se transformou em sinônimo de arbitrariedade, extravagância, crueldade e desequilíbrio. O apelido “Calígula”, que significa “botinhas”, foi-lhe dado ainda na infância pelos soldados das legiões comandadas por seu pai, Germânico.

Achavam curioso vê-lo vestido como um pequeno legionário, calçando as caligae, as sandálias militares romanas. O que começou como uma alcunha afetuosa acabou por se tornar o nome pelo qual seria eternamente lembrado, ironicamente associado à tirania e à loucura.

Entre as muitas excentricidades atribuídas ao imperador, nenhuma ganhou tanta notoriedade quanto sua obsessão por um cavalo de corrida chamado Incitatus.

O animal teria sido trazido da Hispânia, região de onde Roma importava, à época, cerca de dez mil cavalos por ano, destinados às corridas, ao exército e às elites aristocráticas.

Segundo o historiador Suetônio, autor de A Vida dos Doze Césares, Calígula dedicava a Incitatus cuidados dignos de um membro da família imperial. O cavalo possuía dezoito criados pessoais, responsáveis por seu trato, alimentação e descanso.

Para evitar qualquer ruído que pudesse perturbá-lo antes das corridas, o imperador ordenava silêncio absoluto nas redondezas de seu estábulo. Incitatus usava um colar adornado com pedras preciosas, dormia envolto em mantas de púrpura - cor reservada exclusivamente à realeza - e era alimentado em comedouros de marfim.

Havia ainda uma estátua em tamanho natural, esculpida em mármore, com pedestal igualmente luxuoso, perpetuando a imagem do cavalo como um verdadeiro símbolo de ostentação imperial.

Entretanto, o episódio mais controverso - e emblemático - foi a decisão de nomear Incitatus senador de Roma. Mais do que um gesto de loucura isolada, muitos historiadores interpretam essa atitude como uma provocação deliberada ao Senado.

Ao elevar um animal à mais alta esfera política, Calígula teria demonstrado seu desprezo pela elite senatorial, insinuando que até um cavalo seria mais digno do cargo do que muitos dos homens que o ocupavam.

Relatos indicam ainda que o imperador cogitou torná-lo cônsul e até sacerdote, cargos de extrema importância política e religiosa. Contudo, seus planos foram interrompidos quando Calígula foi assassinado, aos 28 anos, em uma conspiração liderada pela Guarda Pretoriana, cansada de seus abusos e temerosa por sua própria sobrevivência.

Com a morte do imperador, a improvável carreira política de Incitatus chegou ao fim. O cavalo senador tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da degradação do poder absoluto, da vaidade desenfreada e da fragilidade das instituições quando submetidas à tirania.

Assim, Incitatus permanece na memória histórica não apenas como um episódio curioso, mas como um retrato vívido de um império que, mesmo em seu esplendor, já dava sinais claros de sua própria decadência.


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