A História, com sua vastidão
de episódios e personagens, reserva acontecimentos tão insólitos que beiram o
inacreditável. Entre eles está um dos fatos mais curiosos da Roma Antiga: a
nomeação de um cavalo como senador.
Seu nome era Incitatus, e sua
trajetória tornou-se símbolo não apenas da excentricidade imperial, mas também
da decadência política de um dos períodos mais turbulentos do Império Romano.
Roma foi governada, entre os
anos 37 e 41 d.C., por Caio Júlio César Augusto Germânico, mais conhecido como Calígula.
Terceiro imperador romano e membro da dinastia júlio-claudiana - inaugurada por
Augusto -, Calígula subiu ao poder ainda jovem, aos 24 anos, cercado de
expectativas.
No entanto, seu reinado logo
se transformou em sinônimo de arbitrariedade, extravagância, crueldade e
desequilíbrio. O apelido “Calígula”, que significa “botinhas”, foi-lhe
dado ainda na infância pelos soldados das legiões comandadas por seu pai,
Germânico.
Achavam curioso vê-lo vestido
como um pequeno legionário, calçando as caligae, as sandálias militares
romanas. O que começou como uma alcunha afetuosa acabou por se tornar o nome
pelo qual seria eternamente lembrado, ironicamente associado à tirania e à
loucura.
Entre as muitas
excentricidades atribuídas ao imperador, nenhuma ganhou tanta notoriedade
quanto sua obsessão por um cavalo de corrida chamado Incitatus.
O animal teria sido trazido da
Hispânia, região de onde Roma importava, à época, cerca de dez mil cavalos por
ano, destinados às corridas, ao exército e às elites aristocráticas.
Segundo o historiador Suetônio,
autor de A Vida dos Doze Césares, Calígula dedicava a Incitatus cuidados
dignos de um membro da família imperial. O cavalo possuía dezoito criados pessoais,
responsáveis por seu trato, alimentação e descanso.
Para evitar qualquer ruído que
pudesse perturbá-lo antes das corridas, o imperador ordenava silêncio absoluto
nas redondezas de seu estábulo. Incitatus usava um colar adornado com pedras
preciosas, dormia envolto em mantas de púrpura - cor reservada exclusivamente à
realeza - e era alimentado em comedouros de marfim.
Havia ainda uma estátua em
tamanho natural, esculpida em mármore, com pedestal igualmente luxuoso,
perpetuando a imagem do cavalo como um verdadeiro símbolo de ostentação
imperial.
Entretanto, o episódio mais
controverso - e emblemático - foi a decisão de nomear Incitatus senador de Roma.
Mais do que um gesto de loucura isolada, muitos historiadores interpretam essa
atitude como uma provocação deliberada ao Senado.
Ao elevar um animal à mais
alta esfera política, Calígula teria demonstrado seu desprezo pela elite
senatorial, insinuando que até um cavalo seria mais digno do cargo do que
muitos dos homens que o ocupavam.
Relatos indicam ainda que o
imperador cogitou torná-lo cônsul e até sacerdote, cargos de extrema
importância política e religiosa. Contudo, seus planos foram interrompidos
quando Calígula foi assassinado, aos 28 anos, em uma conspiração liderada pela Guarda
Pretoriana, cansada de seus abusos e temerosa por sua própria sobrevivência.
Com a morte do imperador, a
improvável carreira política de Incitatus chegou ao fim. O cavalo senador
tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da degradação do poder absoluto, da
vaidade desenfreada e da fragilidade das instituições quando submetidas à
tirania.
Assim, Incitatus permanece na
memória histórica não apenas como um episódio curioso, mas como um retrato
vívido de um império que, mesmo em seu esplendor, já dava sinais claros de sua
própria decadência.










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