Você chega ao mundo completamente nu, sem
possuir absolutamente nada. Essa é a única certeza absoluta com que nascemos:
nada nos pertence de verdade. Vem ao mundo despido, porém cheio de ilusões.
É por isso que toda criança nasce com as
mãozinhas cerradas, os punhos bem apertados, como se estivesse trazendo
tesouros escondidos, preciosidades que ninguém mais pode tocar.
Mas, se você abrir com cuidado esses pequenos
punhos, não encontrará nada. Apenas o vazio generoso do começo. E todos,
absolutamente todos, partem deste mundo com as mãos abertas.
Tente morrer com os punhos cerrados, até hoje
ninguém conseguiu. Tente nascer com as mãos já abertas, também ninguém logrou
êxito. Esses dois gestos extremos parecem guardar, em si mesmos, toda a
sabedoria silenciosa da existência.
Entre o nascimento e a morte, porém, acontece
o que realmente importa: a longa jornada em que vamos aprendendo - muitas vezes
a duras penas - a abrir as mãos. Ao longo da vida, acumulamos coisas, pessoas,
memórias, mágoas, conquistas, amores, rancores, diplomas, casas, carros, sonhos
e medos.
Criamos a ilusão de posse: “isto é meu”,
“aquilo me pertence”, “não abro mão disso por nada”. Vivemos boa parte do tempo
tentando proteger, guardar, controlar, segurar com força.
Mas a vida, com sua sabedoria impiedosa e ao
mesmo tempo compassiva, se encarrega de nos ensinar o contrário, através dos
acontecimentos que não controlamos:
As perdas que nos devastam e, paradoxalmente,
nos esvaziam para algo maior. As separações que doem como facadas e nos obrigam
a soltar. As doenças que revelam a fragilidade do corpo que julgávamos eterno.
As mudanças inesperadas de rumo que destroem
planos tão cuidadosamente traçados. As despedidas definitivas que nos mostram
que até os amores mais profundos têm data de validade neste plano.
As crises financeiras que evaporam o que
chamávamos de “segurança”. E, principalmente, o envelhecimento lento e
inexorável, que vai abrindo nossas mãos quase sem que percebamos
Cada um desses momentos é um professor severo
e amoroso ao mesmo tempo. Eles nos mostram, repetidas vezes, que segurança
verdadeira não existe no que podemos perder, e tudo, absolutamente tudo que
podemos tocar, mais cedo ou mais tarde será perdido.
Então, para que tanta ansiedade? Para que
tanto apego? Para que tanto medo de perder o que, na verdade, nunca foi nosso? Tudo
o que usamos aqui é apenas emprestado: o corpo, o tempo, as pessoas que amamos,
os bens materiais, até mesmo os talentos que julgamos “nossos”.
Um dia teremos de devolver tudo e, seguiremos
viagem com o que realmente carregamos: o que fomos capazes de amar, o quanto
conseguimos perdoar, o quanto deixamos de bem pelo caminho, as sementes de
gentileza que plantamos sem esperar colheita.
Talvez a verdadeira arte de viver consista
exatamente nisso: aprender, aos poucos, a viver com as mãos mais abertas dando,
acolhendo, deixando ir, confiando. Porque, no fim das contas, chegamos de mãos
vazias e cerradas.
Partimos de mãos vazias e abertas. E o que
realmente conta é o que aconteceu entre esses dois vazios: o quanto fomos capazes
de abrir o coração enquanto as mãos aprendiam a se soltar.
Que tal começarmos hoje a praticar esse gesto
tão simples e tão difícil?
Abrir a mão. Respirar. Deixar ir. E confiar que, no grande esquema da
existência, nada do que é essencial pode ser verdadeiramente perdido.









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