Imagine um deus - onipotente, eterno - que
cria um universo com 13,8 bilhões de anos,
em expansão contínua, cujo horizonte observável se estende por 93 bilhões de anos-luz. Um universo que
cresce, se dilata e se afasta de si mesmo, como se estivesse sempre fugindo da
própria origem.
Nesse espaço
quase inconcebível, há trilhões de galáxias,
cada uma carregando centenas de bilhões de estrelas. Só a Via Láctea, nosso
endereço cósmico, abriga algo entre 100 e 400 bilhões
delas.
Ainda assim, segundo certas leituras
espirituais, toda essa vastidão teria sido criada para que um deus pudesse
falar intimamente com um único ser humano - e com cada um deles - num planeta
diminuto, orbitando uma estrela comum, numa periferia galáctica sem qualquer
privilégio aparente.
O contraste é
perturbador. Por que tanto universo para tão pouco chão? Por que essa
arquitetura colossal para uma presença tão frágil? Talvez o espanto não esteja
no tamanho do cosmos, mas na insistência humana em ocupar o centro dele.
As descobertas
recentes ampliam ainda mais esse desconforto fértil. O Telescópio
Espacial James Webb revelou galáxias que já existiam quando o
universo ainda engatinhava, estruturas maduras surgindo apenas algumas centenas
de milhões de anos após o Big Bang.
Pontes cósmicas ligam galáxias anãs; supernovas
antigas explodem como cartas enviadas do passado profundo; buracos negros
colossais surgem cedo demais, como se o universo tivesse pressa em se tornar
complexo.
Tudo indica que
o cosmos nunca foi simples. Desde o início, ele parece ter sido excesso. Calcula-se
que existam mais estrelas no universo observável do
que grãos de areia em todas as praias da Terra.
E o observável pode ser apenas um fragmento,
um recorte limitado daquilo que realmente existe. Se o universo for infinito,
então nossa matemática, nossa linguagem e até nosso espanto tornam-se
insuficientes. Diante disso, algo se quebra. Não necessariamente a fé, mas a
vaidade.
Talvez o
universo não tenha sido feito para nós. Talvez sejamos nós
que, por um breve instante, aprendemos a olhar para ele. Talvez a consciência
humana não seja o objetivo final da criação, mas um efeito colateral raro e
precioso: o momento em que o cosmos passa a se contemplar.
Nesse sentido, a
imensidão não nos diminui. Ela nos desloca. E há uma grande diferença entre ser
pequeno e ser irrelevante.
Somos pequenos,
sim, mas capazes de formular perguntas maiores do que nós mesmos. Capazes de
medir o tempo em bilhões de anos, de ouvir a luz antiga, de intuir mistérios
que jamais tocaremos com as mãos.
A existência humana, então, talvez não esteja no centro do universo, mas no centro da pergunta sobre ele. E isso basta.









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