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quinta-feira, janeiro 08, 2026

A Imensidão e o Espelho



Imagine um deus - onipotente, eterno - que cria um universo com 13,8 bilhões de anos, em expansão contínua, cujo horizonte observável se estende por 93 bilhões de anos-luz. Um universo que cresce, se dilata e se afasta de si mesmo, como se estivesse sempre fugindo da própria origem.

Nesse espaço quase inconcebível, há trilhões de galáxias, cada uma carregando centenas de bilhões de estrelas. Só a Via Láctea, nosso endereço cósmico, abriga algo entre 100 e 400 bilhões delas.

Ainda assim, segundo certas leituras espirituais, toda essa vastidão teria sido criada para que um deus pudesse falar intimamente com um único ser humano - e com cada um deles - num planeta diminuto, orbitando uma estrela comum, numa periferia galáctica sem qualquer privilégio aparente.

O contraste é perturbador. Por que tanto universo para tão pouco chão? Por que essa arquitetura colossal para uma presença tão frágil? Talvez o espanto não esteja no tamanho do cosmos, mas na insistência humana em ocupar o centro dele.

As descobertas recentes ampliam ainda mais esse desconforto fértil. O Telescópio Espacial James Webb revelou galáxias que já existiam quando o universo ainda engatinhava, estruturas maduras surgindo apenas algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang.

Pontes cósmicas ligam galáxias anãs; supernovas antigas explodem como cartas enviadas do passado profundo; buracos negros colossais surgem cedo demais, como se o universo tivesse pressa em se tornar complexo.

Tudo indica que o cosmos nunca foi simples. Desde o início, ele parece ter sido excesso. Calcula-se que existam mais estrelas no universo observável do que grãos de areia em todas as praias da Terra.

E o observável pode ser apenas um fragmento, um recorte limitado daquilo que realmente existe. Se o universo for infinito, então nossa matemática, nossa linguagem e até nosso espanto tornam-se insuficientes. Diante disso, algo se quebra. Não necessariamente a fé, mas a vaidade.

Talvez o universo não tenha sido feito para nós. Talvez sejamos nós que, por um breve instante, aprendemos a olhar para ele. Talvez a consciência humana não seja o objetivo final da criação, mas um efeito colateral raro e precioso: o momento em que o cosmos passa a se contemplar.

Nesse sentido, a imensidão não nos diminui. Ela nos desloca. E há uma grande diferença entre ser pequeno e ser irrelevante.

Somos pequenos, sim, mas capazes de formular perguntas maiores do que nós mesmos. Capazes de medir o tempo em bilhões de anos, de ouvir a luz antiga, de intuir mistérios que jamais tocaremos com as mãos.

A existência humana, então, talvez não esteja no centro do universo, mas no centro da pergunta sobre ele. E isso basta.

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