Propaganda

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Insanidade



A afirmação de que Deus criou o homem à sua própria imagem tiquetaqueia como uma bomba-relógio nas fundações do Cristianismo - e, em sentido mais amplo, de toda teologia que projeta no divino os traços, paixões e limitações humanas.

Pois, se Deus se parece conosco, então nossas violências, vaidades e crueldades passam a encontrar uma justificativa transcendental. O sagrado deixa de ser medida e torna-se espelho.

A religião, nesse sentido, pode ser compreendida como um subproduto do medo. Medo da morte, do caos, do desconhecido; medo de uma existência sem garantias últimas.

Diante de um universo indiferente e silencioso, o homem cria narrativas que ofereçam ordem, propósito e consolo. O problema não está apenas no nascimento da fé, mas no que se fez dela ao longo do tempo.

Na maior parte da história humana, a religião pode ter funcionado como um mal necessário: estruturou comunidades, estabeleceu códigos morais, conteve impulsos destrutivos e ofereceu esperança onde nada mais havia.

Contudo, permanece a pergunta incômoda: por que, tantas vezes, foi mais má do que o necessário? Por que o remédio se converteu com tanta facilidade em veneno?

Ao se institucionalizar, a religião passou a confundir o divino com o poder, a fé com a obediência, o mistério com o dogma. Aquilo que deveria elevar o espírito tornou-se instrumento de controle.

Cruzadas, inquisições, guerras santas, perseguições, fogueiras, atentados e massacres - todos cometidos sob a convicção de se estar cumprindo uma vontade superior. O medo original transforma-se, então, em terror organizado.

Matar pessoas em nome de Deus não seria uma das definições mais perturbadoras de insanidade? Pois trata-se de uma violência que se julga virtuosa, de um crime cometido com a consciência limpa, de uma barbárie blindada pela certeza moral.

Quando o assassino acredita agir por mandato divino, já não há espaço para o arrependimento, nem para o diálogo, nem para a dúvida, apenas para a aniquilação do outro.

Arthur C. Clarke, com a lucidez que marca seu pensamento, não atacava apenas a fé em si, mas a pretensão humana de falar em nome do absoluto. Seu alerta aponta para um paradoxo central: quanto mais o homem afirma conhecer a vontade de Deus, menos humano ele se torna.

A transcendência, em vez de ampliar a consciência, encolhe-a. Talvez o verdadeiro desafio espiritual do nosso tempo não seja abolir a religião, mas desarmá-la. Libertá-la do medo, do poder e da violência; devolvê-la ao campo da experiência íntima, da ética compassiva e da humildade diante do mistério.

Pois, se Deus existe - ou se o sagrado significa algo - ele certamente não necessita de exércitos, tribunais ou cadáveres para se afirmar. E talvez a maior heresia não seja duvidar de Deus, mas matar em seu nome acreditando honrá-lo.




0 Comentários: