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terça-feira, janeiro 06, 2026

Memória



Todas as pessoas desejam, de alguma forma, deixar vestígios para a posteridade. Um sinal mínimo de que passaram por aqui. Uma marca, ainda que discreta, que resista ao esquecimento.

Há muito se repete a velha história do livro, do filho e da árvore, o trio simbólico que, supostamente, nos garantiria uma espécie de imortalidade. Escreva um livro, plante uma árvore, tenha um filho.

Como se essas três ações fossem suficientes para driblar o tempo e assegurar permanência num mundo que insiste em apagar tudo. Mas filhos crescem e se perdem no mundo, seguindo caminhos que já não nos pertencem.

Árvores são cortadas, queimadas ou tombam silenciosamente com o avanço dos anos. Livros, mesmo os mais bem-intencionados, acabam esquecidos em prateleiras empoeiradas ou mofam em sebos, aguardando leitores que talvez nunca cheguem.

O tempo é implacável com as obras humanas. Ele corrói a matéria, dissolve os nomes e transforma feitos grandiosos em notas de rodapé. Nada do que é físico parece realmente preparado para durar.

Talvez, então, a verdadeira permanência não esteja nas coisas que deixamos, mas nas pessoas que tocamos. A única forma de imortalidade que resiste, de fato, é a memória guardada por aqueles que nos amaram. Um gesto lembrado, uma palavra que ficou, um afeto que se recusa a desaparecer.

Enquanto alguém se lembrar de nós com ternura, seguimos existindo, não nos livros, nem nas árvores, nem nos sobrenomes herdados, mas no território frágil e poderoso da lembrança. E talvez seja ali, nesse espaço invisível e humano, que a eternidade encontre seu único abrigo.

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