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quinta-feira, janeiro 08, 2026

A Violência

 

A ideia de que a cidade grande corrompe o homem, tornando-o pior, é uma das crenças modernas mais difundidas e, talvez, mais cômodas. Ao atribuir às metrópoles a responsabilidade pela degradação moral do indivíduo, isentamos o próprio ser humano de encarar a sua natureza.

As grandes concentrações urbanas, na verdade, não criam novos vícios: apenas tornam mais visível aquilo que sempre existiu, gestado no egocentrismo primordial e mantido pela ignorância da própria condição humana.

A violência, frequentemente apontada como um produto exclusivo da vida urbana, está espalhada por todos os lugares. Ela não nasce do concreto, do trânsito ou da pressa; nasce do instinto humano, presente desde os primórdios da humanidade.

Antes das cidades, já havia conflitos, disputas por território, dominação e morte. O que as metrópoles fazem é ampliar o palco, nelas, tudo acontece diante de muitos olhos, em ritmo acelerado e sob constante exposição.

Nas grandes cidades, a violência se torna mais perceptível porque há maior densidade populacional, maior desigualdade social e um estado permanente de tensão.

O anonimato urbano permite que atos violentos ocorram sem vínculos afetivos, sem rosto, sem história compartilhada. A indiferença, mais do que a brutalidade, torna-se regra: passa-se ao lado da dor como quem desvia de um obstáculo na calçada.

Entretanto, o erro mais comum é supor que a violência se dilui nos pequenos municípios. Ao contrário, em muitas cidades do interior, onde todos se conhecem e a aparência de harmonia é preservada a qualquer custo, as atitudes violentas assumem formas mais silenciosas e, por vezes, mais cruéis.

A agressão se esconde nos lares, nos abusos naturalizados, nas vinganças pessoais, no controle social rígido e na ausência de mecanismos de denúncia. O que falta em visibilidade sobra em intensidade emocional e em impunidade moral.

Enquanto nas grandes cidades a violência é estatística, no interior ela é memória. Não se esquece quem feriu, quem matou, quem foi humilhado, tudo permanece inscrito no cotidiano, nos olhares desviados, nas histórias sussurradas. A proximidade entre agressor e vítima torna o ato mais íntimo, mais perturbador, mais duradouro.

Assim, não é a cidade que transforma o homem, mas o homem que imprime à cidade a sua própria complexidade, suas virtudes e seus abismos. A violência não pertence ao espaço urbano ou rural; pertence à condição humana.

O ambiente apenas define a forma, o ritmo e o alcance com que ela se manifesta. Negar isso é continuar acreditando que o problema está sempre fora quando, na verdade, ele habita o centro de nós mesmos.

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