A ideia de que a cidade grande corrompe o
homem, tornando-o pior, é uma das crenças modernas mais difundidas e, talvez,
mais cômodas. Ao atribuir às metrópoles a responsabilidade pela degradação
moral do indivíduo, isentamos o próprio ser humano de encarar a sua natureza.
As grandes concentrações urbanas, na verdade,
não criam novos vícios: apenas tornam mais visível aquilo que sempre existiu,
gestado no egocentrismo primordial e mantido pela ignorância da própria
condição humana.
A violência,
frequentemente apontada como um produto exclusivo da vida urbana, está
espalhada por todos os lugares. Ela não nasce do concreto, do trânsito ou da
pressa; nasce do instinto humano, presente desde os primórdios da humanidade.
Antes das cidades, já havia conflitos,
disputas por território, dominação e morte. O que as metrópoles fazem é ampliar
o palco, nelas, tudo acontece diante de muitos olhos, em ritmo acelerado e sob
constante exposição.
Nas grandes
cidades, a violência se torna mais perceptível porque há maior densidade
populacional, maior desigualdade social e um estado permanente de tensão.
O anonimato urbano permite que atos violentos
ocorram sem vínculos afetivos, sem rosto, sem história compartilhada. A
indiferença, mais do que a brutalidade, torna-se regra: passa-se ao lado da dor
como quem desvia de um obstáculo na calçada.
Entretanto, o
erro mais comum é supor que a violência se dilui nos pequenos municípios. Ao
contrário, em muitas cidades do interior, onde todos se conhecem e a aparência
de harmonia é preservada a qualquer custo, as atitudes violentas assumem formas
mais silenciosas e, por vezes, mais cruéis.
A agressão se esconde nos lares, nos abusos
naturalizados, nas vinganças pessoais, no controle social rígido e na ausência
de mecanismos de denúncia. O que falta em visibilidade sobra em intensidade
emocional e em impunidade moral.
Enquanto nas
grandes cidades a violência é estatística, no interior ela é memória. Não se
esquece quem feriu, quem matou, quem foi humilhado, tudo permanece inscrito no
cotidiano, nos olhares desviados, nas histórias sussurradas. A proximidade
entre agressor e vítima torna o ato mais íntimo, mais perturbador, mais
duradouro.
Assim, não é a
cidade que transforma o homem, mas o homem que imprime à cidade a sua própria
complexidade, suas virtudes e seus abismos. A violência não pertence ao espaço
urbano ou rural; pertence à condição humana.
O ambiente apenas define a forma, o ritmo e o alcance com que ela se manifesta. Negar isso é continuar acreditando que o problema está sempre fora quando, na verdade, ele habita o centro de nós mesmos.








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