A noite de quarta-feira me encontrou no
aeroporto, esperando por Íris. Sentei-me e fiquei olhando as mulheres que
passavam. Nenhuma delas - só uma ou duas - era tão bonita quanto Íris. Havia
algo errado comigo: eu pensava demais em sexo.
Cada mulher que eu via, logo a imaginava na
cama ao meu lado. Era um jeito interessante de matar o tempo num aeroporto,
melhor que ler jornais velhos ou ouvir anúncios idiotas pelo alto-falante.
Mulheres: eu gostava das cores de suas
roupas; do jeito como andavam, com aquela mistura de graça e determinação; da
crueldade em algumas faces, aquele olhar que cortava como faca.
De vez em quando, surgia um rosto de beleza
quase pura, total e completamente feminina, que me fazia parar e pensar no
quanto a vida era uma merda desigual. Elas levavam vantagem sobre nós:
planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas, mais frias quando
precisavam ser.
Enquanto os homens assistiam a futebol,
tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam em nós -
concentradas, estudiosas, decididas a nos aceitar, nos descartar, nos trocar,
nos matar ou simplesmente nos abandonar.
No fim das contas, pouco importava o que
decidissem. Seja lá o que fosse, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura,
bebendo sozinho à noite, olhando para o teto e imaginando por que tudo sempre
dava errado.
Era assim que o mundo girava: sexo, poder,
ilusão. E eu, ali no aeroporto, só esperando a próxima dose de caos.
Mulheres, de Charles Bukowski
Esse trecho é do romance Mulheres (Women,
1978), um dos mais famosos de Charles Bukowski. O narrador é Henry Chinaski, o
alter ego semi-autobiográfico do autor: um escritor alcoólatra na casa dos 50
anos, cínico, obcecado por sexo, álcool e corridas de cavalos, que vive uma
vida marginal em Los Angeles.
No livro todo, Chinaski, após anos de
"seca" sexual, começa a atrair dezenas de mulheres - muitas jovens e
admiradoras de sua poesia - graças ao sucesso tardio como escritor.
Elas o procuram por cartas, telefonemas ou
viagens, fascinadas pelo homem por trás dos textos crus. Ele as recebe, transa
com elas, bebe excessivamente, briga, reconcilia e, no fim, as relações sempre
desmoronam em ciúmes, violência ou tédio.
Especificamente sobre Íris - uma das muitas
amantes no livro -: ela é uma mulher que Chinaski encontra em uma de suas fases
de excessos. Ele vai buscá-la no aeroporto após ela viajar, e o encontro leva a
mais sexo intenso, bebedeiras e conversas tagarelas (no original, Íris é
descrita como falante, o que irrita um pouco Chinaski).
Logo após essa cena, eles vão para casa dele,
bebem, transam, e o padrão se repete: atração inicial explosiva seguida de
desgaste. Íris não é uma das relações mais longas (como Lydia ou Sara), mas
ilustra o ciclo vicioso do livro - mulheres vindo e indo, sempre deixando
Chinaski mais vazio, apesar do prazer momentâneo.
O romance é uma confissão brutal sobre desejo
masculino, medo de compromisso, alcoolismo e a impossibilidade de conexões
reais. Bukowski escreveu isso em uma fase de fama crescente, refletindo sua
própria vida cheia de amantes, brigas e ressacas.
Muitos leitores veem misógino à primeira vista, mas outros interpretam como uma crítica honesta à fragilidade humana (de ambos os sexos).







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