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sábado, janeiro 03, 2026

As Mulheres


 

A noite de quarta-feira me encontrou no aeroporto, esperando por Íris. Sentei-me e fiquei olhando as mulheres que passavam. Nenhuma delas - só uma ou duas - era tão bonita quanto Íris. Havia algo errado comigo: eu pensava demais em sexo.

Cada mulher que eu via, logo a imaginava na cama ao meu lado. Era um jeito interessante de matar o tempo num aeroporto, melhor que ler jornais velhos ou ouvir anúncios idiotas pelo alto-falante.

Mulheres: eu gostava das cores de suas roupas; do jeito como andavam, com aquela mistura de graça e determinação; da crueldade em algumas faces, aquele olhar que cortava como faca.

De vez em quando, surgia um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina, que me fazia parar e pensar no quanto a vida era uma merda desigual. Elas levavam vantagem sobre nós: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas, mais frias quando precisavam ser.

Enquanto os homens assistiam a futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam em nós - concentradas, estudiosas, decididas a nos aceitar, nos descartar, nos trocar, nos matar ou simplesmente nos abandonar.

No fim das contas, pouco importava o que decidissem. Seja lá o que fosse, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura, bebendo sozinho à noite, olhando para o teto e imaginando por que tudo sempre dava errado.

Era assim que o mundo girava: sexo, poder, ilusão. E eu, ali no aeroporto, só esperando a próxima dose de caos.

Mulheres, de Charles Bukowski

Esse trecho é do romance Mulheres (Women, 1978), um dos mais famosos de Charles Bukowski. O narrador é Henry Chinaski, o alter ego semi-autobiográfico do autor: um escritor alcoólatra na casa dos 50 anos, cínico, obcecado por sexo, álcool e corridas de cavalos, que vive uma vida marginal em Los Angeles.

No livro todo, Chinaski, após anos de "seca" sexual, começa a atrair dezenas de mulheres - muitas jovens e admiradoras de sua poesia - graças ao sucesso tardio como escritor.

Elas o procuram por cartas, telefonemas ou viagens, fascinadas pelo homem por trás dos textos crus. Ele as recebe, transa com elas, bebe excessivamente, briga, reconcilia e, no fim, as relações sempre desmoronam em ciúmes, violência ou tédio.

Especificamente sobre Íris - uma das muitas amantes no livro -: ela é uma mulher que Chinaski encontra em uma de suas fases de excessos. Ele vai buscá-la no aeroporto após ela viajar, e o encontro leva a mais sexo intenso, bebedeiras e conversas tagarelas (no original, Íris é descrita como falante, o que irrita um pouco Chinaski).

Logo após essa cena, eles vão para casa dele, bebem, transam, e o padrão se repete: atração inicial explosiva seguida de desgaste. Íris não é uma das relações mais longas (como Lydia ou Sara), mas ilustra o ciclo vicioso do livro - mulheres vindo e indo, sempre deixando Chinaski mais vazio, apesar do prazer momentâneo.

O romance é uma confissão brutal sobre desejo masculino, medo de compromisso, alcoolismo e a impossibilidade de conexões reais. Bukowski escreveu isso em uma fase de fama crescente, refletindo sua própria vida cheia de amantes, brigas e ressacas.

Muitos leitores veem misógino à primeira vista, mas outros interpretam como uma crítica honesta à fragilidade humana (de ambos os sexos).

Fogo Santo: A Inquisição e a Arte de Matar sem Sangue



A utilização das fogueiras como forma de execução dos condenados entregues ao braço secular pela Inquisição tornou-se o método mais emblemático da pena capital associada aos tribunais inquisitoriais, embora não tenha sido o único.

Prisão perpétua, confisco de bens, degredo e penitências públicas também figuravam entre as sanções aplicadas. Ainda assim, o fogo consolidou-se como o símbolo máximo do castigo imposto aos considerados hereges, apóstatas ou inimigos da fé.

O significado da fogueira era essencialmente religioso e simbólico. Em uma sociedade profundamente marcada pela religiosidade, que permeava não apenas a população em geral, mas também monarcas, clérigos e senhores feudais, o fogo representava a purificação espiritual.

Queimar o corpo do condenado expressava a ideia de expurgar o pecado, ilustrando a desobediência a Deus e evocando, de forma pedagógica e aterradora, a imagem do Inferno.

O suplício tinha, portanto, uma função moralizante: não se destinava apenas a punir o indivíduo, mas a servir de advertência coletiva. O historiador Brian Innes sustenta que a lógica subjacente a esse castigo extremo baseava-se na crença de que a alma eterna do herege poderia, em última instância, ser preservada.

Segundo essa visão, ao destruir o corpo e a mente considerados corrompidos pelo erro doutrinário, libertava-se a alma para que, purificada, pudesse escapar de punições ainda mais severas na vida após a morte. Assim, paradoxalmente, a violência era apresentada como um ato de misericórdia espiritual.

Já Jennifer Deane destaca o aspecto jurídico-teológico da escolha do fogo como meio de execução. De acordo com as determinações do Concílio de Verona, em 1184, o corpo do condenado deveria ser aniquilado de tal forma que não pudesse ser ressuscitado, eliminando qualquer possibilidade simbólica de retorno ou redenção terrena.

Além disso, as proibições canônicas contra o derramamento de sangue, reafirmadas no Quarto Concílio de Latrão, em 1215, influenciaram diretamente essa prática. Como a Inquisição se apresentava formalmente como um tribunal eclesiástico, evitava-se a execução direta, transferindo-se o condenado à autoridade secular, que aplicava a pena capital sem “manchar” a Igreja com o sangue do réu.

No contexto português, o historiador A. J. Saraiva, ao estudar a Inquisição de Lisboa, descreve os autos de fé como eventos públicos cuidadosamente encenados. Os condenados à fogueira eram amarrados à estaca em posição elevada, em locais abertos e frequentemente sujeitos ao vento.

O objetivo era prolongar o espetáculo, transformando o sofrimento em um ritual coletivo assistido por multidões. Esses eventos reuniam fiéis, autoridades e curiosos, criando uma atmosfera de excitação e fervor religioso que reforçava o poder do tribunal inquisitorial e a ideia de ordem divina.

A destruição pelo fogo não se limitava às pessoas. Livros considerados heréticos ou perigosos à fé também eram queimados em praças públicas, como símbolos materiais do pecado e da desobediência intelectual.

Um registro de maio de 1624 relata que, ao final de um auto de fé, foi lida a sentença contra livros proibidos, determinando-se a queima de três canastras inteiras dessas obras. A eliminação do texto equivalia à tentativa de apagar ideias, memórias e questionamentos.

Um caso emblemático é o do Cavaleiro de Oliveira, condenado por sua obra Discours pathétique au sujet des calamités, publicada em Londres em 1756. Considerado herege convicto, foi relaxado à justiça secular e simbolicamente queimado em estátua durante o auto de fé realizado em Lisboa, em 1761, com o livro suspenso ao pescoço.

O gesto evidenciava que, mesmo quando o corpo físico estava ausente, a Inquisição buscava aniquilar publicamente a reputação, a obra e o pensamento do acusado.

Assim, o uso do fogo na Inquisição ultrapassava a mera execução penal. Tratava-se de um instrumento de controle social, religioso e intelectual, destinado a reforçar a autoridade da Igreja, suprimir a dissidência e moldar consciências por meio do medo e da ritualização da punição.

O lema implícito de “matar sem derramar sangue” revelava uma tentativa de conciliar violência extrema com justificativas teológicas, deixando marcas profundas na história da intolerância religiosa no Ocidente.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

A Desconhecida do Sena

 

A Mulher Desconhecida do Sena foi uma jovem jamais identificada cuja máscara mortuária atravessou o tempo e se tornou um dos objetos mais enigmáticos e fascinantes da cultura europeia moderna.

A partir do início do século XX, sua imagem passou a adornar as paredes de ateliês, salões e residências de artistas, escritores e intelectuais, transformando-se em um ícone silencioso da melancolia e do mistério.

Nos Estados Unidos, a máscara ficou conhecida como La Belle Italienne, um nome que reforça o caráter idealizado e quase mítico atribuído à jovem. Seu rosto inspirou inúmeras obras literárias, poemas, ensaios e reflexões filosóficas, tornando-se um símbolo que ultrapassa a própria história do corpo que lhe deu origem.

Segundo um relato amplamente difundido, o corpo da jovem teria sido retirado do rio Sena, no Quai du Louvre, em Paris, por volta do final da década de 1880. Não havia sinais aparentes de violência, o que levou à suspeita de suicídio, uma hipótese que, desde então, passou a acompanhar sua imagem como uma sombra inevitável.

A ausência de documentos, testemunhas ou identificação oficial contribuiu para que o caso permanecesse envolto em especulações. Conta-se que um patologista do necrotério de Paris ficou tão impressionado com a serenidade e a beleza do rosto da jovem que decidiu moldar uma máscara mortuária em gesso e cera, um gesto incomum, mas não totalmente raro à época.

No entanto, desde cedo surgiram dúvidas: muitos questionaram se aquela expressão tranquila, quase sorridente, poderia realmente pertencer a alguém que teria morrido afogada. O rosto não exibia os sinais habituais de distorção ou sofrimento associados a esse tipo de morte.

O desenhista Georges Villa afirmou ter recebido de seu mestre, o pintor Jules Joseph Lefebvre, uma versão alternativa da história: segundo ele, a máscara teria sido feita a partir do rosto de uma jovem modelo que morreu de tuberculose por volta de 1875.

O molde original, contudo, teria se perdido, impossibilitando qualquer verificação definitiva. Outros relatos ainda sugerem que o rosto seria o da filha de um fabricante de máscaras na Alemanha, usada apenas como modelo para reprodução comercial.

A identidade da jovem nunca foi esclarecida. A historiadora Claire Forestier estimou que a modelo não teria mais de 16 anos, com base na firmeza da pele e na delicadeza das feições, o que apenas reforça o impacto emocional causado por sua imagem.

Nos anos seguintes, inúmeras cópias da máscara foram produzidas e rapidamente se tornaram um objeto de moda na sociedade boêmia parisiense. Apesar do caráter mórbido, a máscara era vista como uma espécie de ideal estético, uma celebração silenciosa da beleza efêmera e da morte romantizada, temas recorrentes na sensibilidade artística da época.

Albert Camus comparou o sorriso enigmático da Desconhecida ao da Mona Lisa, observando que aquela expressão serena e ambígua parecia conter pistas indecifráveis sobre sua vida, sua morte e seu lugar na sociedade. O sorriso, ao mesmo tempo doce e distante, alimentou interpretações que oscilaram entre o trágico e o sublime.

A popularidade da figura também é relevante para a história da reprodução artística e da mídia visual. O molde original foi fotografado, e novos moldes passaram a ser criados a partir dos negativos, permitindo uma disseminação em larga escala.

Curiosamente, essas reproduções exibiam detalhes faciais que normalmente se perdem em corpos retirados da água, o que paradoxalmente reforçou, para muitos, a crença em sua autenticidade.

O crítico Al Alvarez, em seu livro The Savage God, dedicado ao tema do suicídio, escreveu: “Disseram-me que toda uma geração de garotas alemãs modelou sua aparência nela”. Segundo o historiador Hans Hesse, da Universidade de Sussex, citado por Alvarez, “a Inconnue tornou-se o ideal erótico de seu tempo, assim como Brigitte Bardot seria para os anos 1950”.

Ele acredita que atrizes alemãs, como Elisabeth Bergner, tenham se inspirado em suas feições, até que esse ideal fosse finalmente substituído por outro ícone: Greta Garbo.

Assim, a Desconhecida do Sena permanece como um rosto sem nome, um corpo sem história oficial, mas com um legado cultural profundo. Seu silêncio atravessa décadas, transformando-a não apenas em um mistério histórico, mas em um espelho no qual sucessivas gerações projetaram seus desejos, angústias e fascínio pela beleza que resiste à morte.

O beijo da vida!


O Beijo da Vida: a extraordinária história da fotografia que conquistou o Pulitzer em 1968

O trabalho de um fotógrafo vai muito além do domínio das técnicas, dos equipamentos e da composição visual. Exige sensibilidade, atenção constante e, por vezes, uma dose inesperada de acaso, aquele instante irrepetível em que a realidade se impõe diante da lente.

Foi exatamente essa combinação que marcou a carreira do fotógrafo nova-iorquino Rocco Morabito, responsável por uma das imagens mais impactantes do fotojornalismo do século XX.

Há mais de meio século, Morabito conquistou o Prêmio Pulitzer de Fotografia graças a uma imagem captada de forma absolutamente fortuita, em julho de 1967. Naquele dia, ele seguia de carro para cobrir um evento para o Jacksonville Journal, na Flórida, quando avistou uma manifestação de ferroviários à beira da estrada. Como bom repórter visual, decidiu parar para registrar o protesto.

Enquanto realizava as fotografias, um acontecimento inesperado desviou completamente sua atenção. Próximo dali, dois funcionários da companhia elétrica - J.D. Thompson e Randall Champion - realizavam trabalhos de manutenção em linhas de alta tensão.

Em um momento crítico, Champion sofreu um forte choque elétrico, perdeu a consciência e ficou pendurado de cabeça para baixo, sustentado apenas pelo cinturão de segurança preso ao poste.

O choque da cena provocou um alvoroço imediato. Morabito, alertado pelos gritos e pela movimentação, ergueu os olhos e se deparou com uma imagem angustiante: Thompson, visivelmente desesperado, tentava salvar o colega, equilibrando-se com dificuldade enquanto buscava reanimá-lo.

Sem hesitar, o fotógrafo acionou uma ambulância pelo rádio de seu carro e, em seguida, passou a registrar cada segundo daquele dramático esforço pela vida. Foi nesse instante que ocorreu o gesto que eternizaria a cena.

Suspenso no ar, sem qualquer apoio adequado, J.D. Thompson realizou respiração boca a boca em Champion, ainda desacordado e pendurado no poste. Morabito captou o exato momento em que o socorro humano se sobrepôs ao perigo, transformando um ato de emergência em uma imagem de força simbólica avassaladora.

A fotografia recebeu o título de “O Beijo da Vida” (The Kiss of Life) e rapidamente ganhou destaque internacional. A ação rápida e corajosa de Thompson foi decisiva. Randall Champion recuperou a consciência ainda no local, sobreviveu ao acidente e pôde retomar sua vida.

Viveu por mais 34 anos após aquele dia, falecendo em 2002, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco - um desfecho natural, distante do risco extremo que quase o levou prematuramente.

A fotografia de Morabito não apenas lhe rendeu o Pulitzer em 1968, como também se tornou um ícone do fotojornalismo, frequentemente citada como exemplo máximo do poder da imagem em narrar histórias humanas reais, cruas e profundamente emocionantes.

O fotógrafo aposentou-se em 1982 e faleceu em 2009, aos 88 anos, deixando um legado marcado por esse instante decisivo congelado no tempo. Dos três protagonistas daquela cena dramática, J.D. Thompson, o então novato que salvou a vida do colega com coragem e sangue-frio, é o único ainda vivo.

Seu gesto permanece eternizado não apenas na memória da fotografia, mas como um símbolo universal de solidariedade, bravura e do valor inestimável da vida humana.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Calças caídas e o significado

Se você acha que andar com as calças caídas abaixo da cintura é super estiloso e moderno, talvez valha a pena conhecer a história por trás dessa tendência e, separar fato de lenda urbana.

A moda de "sagging", como é chamada em inglês, realmente tem ligação com o sistema prisional dos Estados Unidos, mas não do jeito que muitos contam. O que aconteceu foi o seguinte: nas prisões americanas, os uniformes são padronizados e muitas vezes grandes demais para os detentos, pois não há opções de tamanhos personalizados.

Além disso, cintos são proibidos por razões de segurança, eles poderiam ser usados como arma ou para suicídio. Sem cinto para segurar as calças, elas naturalmente caíam, ficando baixas na cintura.

Quando ex-detentos saíam da prisão, alguns continuavam usando as calças assim, seja por hábito ou como uma forma de exibir "credibilidade de rua", mostrando que já tinham passado pelo sistema.

Nos anos 1990, essa estética foi adotada e popularizada pela cultura hip-hop. Artistas como Ice-T, Too Short, Kriss Kross e Tupac usavam calças largas e caídas como símbolo de rebeldia, autenticidade e conexão com a vida nas ruas.

A tendência explodiu entre os jovens, especialmente na comunidade negra urbana, e se espalhou globalmente, influenciando moda skate, rap e até o mainstream.

O mito do “sinal sexual”

Uma história que circula há décadas e, que aparece muito em correntes de e-mail, posts no Facebook e conversas de pais preocupados, diz que os detentos usavam calças caídas para sinalizar que estavam "disponíveis" para relações sexuais com outros presos, mostrando parte das nádegas como um código discreto para não alertar os guardas.

Segundo essa versão, quem usava assim na rua estaria, sem saber, copiando esse sinal. Mas isso é falso. Sites de checagem de fatos como Snopes, historiadores de moda e até relatos de ex-detentos confirmam que não há evidências históricas ou documentadas de que isso fosse um código intencional nas prisões.

É uma lenda urbana, muitas vezes espalhada com tom homofóbico para assustar jovens e desencorajá-los a usar a moda associando-a a algo negativo como prisão ou homossexualidade. Na realidade, as calças caíam simplesmente porque não tinham como ficar no lugar.

Polêmicas e acontecimentos ao longo dos anos

Essa tendência gerou muita controvérsia: Nos anos 2000, várias cidades americanas, como Dallas, Brooklyn e Wildwood, lançaram campanhas públicas contra o "sagging", com cartazes e até multas em praias ou transporte público. Escolas proibiram o estilo no uniforme, e até companhias aéreas recusaram passageiros por causa dele.

Em 2008, Barack Obama comentou o assunto, dizendo que leis contra calças caídas eram "perda de tempo", mas que "os irmãos deveriam puxar as calças para cima" por respeito próprio.

Em 2010, uma música viral chamada "Pants on the Ground", de um participante do American Idol, virou hit zoando a moda, comparando quem usa calças caídas a "pinguim andando".

Hoje, a tendência diminuiu bastante, jeans skinny e cortes mais ajustados dominam, mas ainda aparece em alguns estilos streetwear. No fim das contas, moda é expressão cultural e rebeldia juvenil.

Se alguém usa calças caídas, provavelmente é só por achar cool, influenciado pelo hip-hop, e não por nenhum "código secreto" da prisão. Se a gurizada soubesse a história real, talvez rissem do mito em vez de se preocupar. 


Não Volte ao Lugar Onde Foi Feliz


 

Nunca volte ao lugar onde você viveu no passado e foi feliz. Ali já não haverá ninguém esperando por você, apenas a saudade e a nostalgia, como fantasmas silenciosos que vagueiam entre as ruínas do tempo.

Os lugares onde um dia fomos plenamente felizes jamais permanecem os mesmos. O tempo, implacável e paciente, transforma tudo: as pessoas partem, os cenários se reinventam, as fachadas mudam, as vozes se calam.

Até o ar parece carregar uma melancolia discreta, como se soubesse que ali algo precioso já se foi. O que antes era abrigo agora soa estranho; o que era familiar torna-se distante.

As alegrias intensas que você experimentou não podem ser recriadas. Elas pertencem a um instante irrepetível, tecido com quem você era naquela época, com seus sonhos ainda intactos, com as pessoas que caminhavam ao seu lado e com as circunstâncias que jamais se repetirão da mesma forma.

A felicidade do passado não está apenas no lugar - ela estava em você. Talvez por isso seja melhor preservar apenas as lembranças puras, guardadas no coração como tesouros intocados.

Elas aquecem nos dias frios, confortam nas horas de silêncio, inspiram a seguir em frente e nos lembram de que fomos capazes de sentir luz, plenitude e pertencimento. A memória, quando respeitada, pode ser abrigo; quando confrontada, pode se tornar ferida.

A nostalgia, afinal, não é apenas uma dor doce. Estudos psicológicos indicam que ela pode ser um recurso valioso: ajuda a combater a solidão, fortalece a resiliência emocional e nos reconecta com nossa identidade mais profunda.

Ao lembrar de quem fomos, reafirmamos quem ainda somos e, sobretudo, quem ainda podemos ser. A nostalgia dá sentido à vida mesmo em tempos difíceis, desde que não nos aprisione.

Mas, se apesar de tudo, um dia você decidir voltar, saiba que corre o risco de perder até mesmo aquilo que preservava com carinho dentro de si. Ao confrontar a realidade atual - talvez um lugar remodelado, esvaziado ou transformado além do reconhecimento - a imagem idealizada pode se desfazer como névoa ao sol.

O que era mágico vira comum; o que parecia eterno revela sua fragilidade. Voltar, muitas vezes, não resgata o passado, apenas o desmistifica. Como já se observou com sabedoria: há encantos que só sobrevivem na memória. Tocá-los novamente pode ser o gesto que os destrói.

No fim, o passado não é um lugar para morar, mas uma luz distante para orientar o presente. Ele existe para ensinar, não para aprisionar. Deixe-o brilhar à distância, com respeito e gratidão, e siga adiante.

Há novas felicidades esperando para nascer no caminho que ainda está por vir - e elas só se revelam a quem aceita continuar caminhando.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

A Piedade como Capital Político no Brasil


 

Em muitos países da América Latina - incluindo o Brasil - a influência religiosa permanece social e politicamente significativa, apesar da separação formal entre Estado e Igreja.

Nesse contexto, não é raro que políticos alcancem ou preservem o poder exibindo sinais públicos de piedade: participam de cultos e missas, contribuem para instituições de caridade, citam passagens bíblicas em discursos e, sobretudo, apresentam-se como “tementes a Deus”.

Trata-se de uma estratégia recorrente, enraizada em uma herança cultural profunda, inicialmente marcada pelo catolicismo histórico e, mais recentemente, pelo crescimento acelerado do evangelicalismo.

No caso brasileiro, é importante corrigir uma ideia comum, mas imprecisa: o Estado é oficialmente laico desde a Proclamação da República, em 1889. A separação entre Igreja e Estado foi estabelecida pelo Decreto nº 119-A, de 1890, e consagrada na Constituição de 1891, encerrando o catolicismo como religião oficial do Império.

Esse princípio foi reafirmado e fortalecido ao longo do século XX, culminando na Constituição de 1988, que proíbe o estabelecimento de cultos oficiais ou alianças privilegiadas com organizações religiosas (art. 19), ainda que permita colaborações em nome do interesse público.

Na América Latina, a laicidade seguiu trajetórias diversas. Enquanto países como o Uruguai adotaram uma separação rigorosa - a ponto de renomear feriados cristãos, como o “Dia da Família” em substituição ao Natal - outros, como Argentina, Bolívia e Costa Rica, ainda mantêm o catolicismo como religião oficial do Estado.

Essas variações revelam que a laicidade latino-americana, em muitos casos, é mais jurídica do que cultural. A história recente demonstra, contudo, que um político teísta - ou que se apresenta como tal - não é, por definição, mais ético, competente ou justo do que um ateu ou agnóstico.

A crença em Deus não imuniza ninguém contra práticas corruptas, autoritárias ou ineficientes. Escândalos políticos envolvendo figuras que se declaravam profundamente religiosas são abundantes e atravessam diferentes confissões e espectros ideológicos.

Ainda assim, em sociedades culturalmente conservadoras, a imagem pública de fé continua a conferir vantagens eleitorais significativas. No Brasil, onde aproximadamente metade da população ainda se declara católica e cerca de um terço evangélica, alianças com líderes religiosos podem mobilizar votos em bloco e influenciar decisivamente eleições.

O crescimento evangélico - que saltou de uma presença minoritária no final do século XX para mais de 30% da população nas últimas décadas - transformou o cenário político. Igrejas pentecostais e neopentecostais, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, passaram a atuar de forma organizada, orientando seus fiéis sob lemas como “irmão vota em irmão”.

Acontecimentos recentes ilustram esse fenômeno de maneira eloquente. Nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro construiu uma narrativa fortemente associada a valores religiosos e conservadores, incluindo seu batismo no rio Jordão e o slogan “Deus acima de todos”. O apoio evangélico foi decisivo para sua vitória, influenciando pautas como a oposição ao aborto e à chamada “ideologia de gênero”.

Em 2022, embora Luiz Inácio Lula da Silva tenha vencido o pleito, Bolsonaro manteve expressivo apoio entre evangélicos, enquanto o eleitorado católico mostrou-se mais dividido. Hoje Jair Bolsonaro está preso e enganado por maioria dos seus seguidores sem nenhuma proteção divina.

Eventos de grande visibilidade pública, como a Marcha para Jesus, tornaram-se espaços disputados por políticos de diferentes partidos e ideologias - inclusive integrantes do atual governo - evidenciando que a busca por legitimidade religiosa transcende alinhamentos políticos tradicionais.

No Congresso Nacional, a chamada Bancada Evangélica - ou “bancada bíblica” - cresceu de forma consistente, atuando na defesa de agendas morais conservadoras. Figuras como Damares Alves e Marco Feliciano tornaram-se símbolos dessa influência, enquanto setores do catolicismo conservador, ligados a movimentos como o Opus Dei ou à Renovação Carismática, também reforçam esse padrão de atuação.

Em síntese, embora o Brasil não seja mais um “Império sacralizado” do ponto de vista jurídico, a mentalidade social ainda tende a premiar a piedade pública. Manter boas relações com igrejas - sejam católicas ou evangélicas - e invocar Deus no discurso político continuam sendo estratégias eficazes para conquistar e preservar poder.

Isso não revela uma simples “mentalidade medieval”, mas sim uma sociedade em transição religiosa, marcada pelo pluralismo, na qual a fé permanece um capital simbólico e eleitoral de grande valor, mesmo sob um regime formalmente laico.

Avançar rumo a um debate público mais racional, ético e menos instrumentalizado exigiria investimento consistente em educação cívica, fortalecimento das instituições republicanas e, sobretudo, uma separação mais efetiva entre púlpito e palanque.

Somente assim a fé poderia ocupar seu espaço legítimo na esfera privada e comunitária, sem se converter em ferramenta de manipulação política.

Matar Sem Punhal: As Mortes que a Lei Tolera


 

“Há muitas maneiras de matar uma pessoa: cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando-a à miséria, fazendo-a trabalhar até arrebentar, impelindo-a ao desespero, enviando-a para a guerra etc. Só a primeira é proibida por nosso Estado.”

Essa contundente afirmação é atribuída ao dramaturgo, poeta e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores expoentes do teatro épico e do pensamento marxista no século XX.

Embora a frase circule em diferentes versões - muitas vezes apresentada como poema curto ou aforismo -, seu conteúdo reflete fielmente o núcleo da crítica brechtiana à hipocrisia moral do Estado e às violências estruturais do capitalismo.

Brecht dedicou grande parte de sua obra a desmontar a ideia de que a violência se limita ao ato direto e individual. Para ele, matar não é apenas ferir com uma arma; é também negar condições mínimas de existência, retirar direitos, explorar até o esgotamento, abandonar à doença, à fome ou ao desespero. Trata-se de uma violência silenciosa, cotidiana e institucionalizada, invisível aos códigos penais, mas devastadora em seus efeitos.

Exilado durante o regime nazista, Brecht foi crítico implacável tanto do fascismo quanto das desigualdades profundas geradas pelo sistema capitalista. Em suas peças, poemas e ensaios, ele demonstrou como o Estado condena severamente o homicídio individual - porque este ameaça à ordem pública -, enquanto tolera ou legitima mortes em massa provocadas pela exploração econômica, pela negligência social ou por guerras travadas em nome de interesses políticos e econômicos.

Assim, o que é considerado crime não depende do sofrimento causado, mas de quem sofre e de quem se beneficia. Essa concepção atravessa sua produção das décadas de 1930 e 1940, período marcado pela Grande Depressão, pela ascensão do nazismo e pelas tensões que culminariam na Segunda Guerra Mundial.

Obras como Mãe Coragem e Seus Filhos expõem a lógica perversa da guerra como negócio, em que vidas humanas são reduzidas a números e perdas “necessárias”.

Nos poemas escritos durante o exílio em Svendborg, Brecht observa uma Europa em colapso, onde Estados enviavam milhões à morte nas frentes de batalha enquanto ignoravam a fome e a miséria de suas próprias populações.

Mais de meio século após sua morte, a crítica permanece inquietantemente atual. Em um mundo que produz alimentos suficientes para todos, milhões ainda morrem vítimas da fome e da pobreza extrema, consequência direta de desigualdades econômicas persistentes e políticas que priorizam o lucro em detrimento da dignidade humana.

O acesso à saúde continua desigual: cortes em sistemas públicos e crises sanitárias recentes demonstraram como a omissão estatal atinge, sobretudo, os mais vulneráveis.

No campo do trabalho, jornadas exaustivas, condições precárias e a pressão constante por produtividade resultam em adoecimento físico e psicológico, levando a mortes prematuras que raramente são reconhecidas como violência social.

O crescimento de casos de sofrimento extremo e autodestruição em diferentes países revela o impacto do desemprego, do endividamento e da ausência de redes de apoio, fenômenos que não surgem do acaso, mas de estruturas econômicas excludentes.

As guerras, por sua vez, seguem como a expressão mais explícita dessa lógica. Conflitos contemporâneos continuam enviando jovens à morte, muitas vezes sob discursos de patriotismo ou segurança, enquanto os interesses geopolíticos e econômicos que os sustentam permanecem ocultos. A condenação moral da violência aparece, assim, de forma seletiva.

Ao afirmar que apenas o punhal é proibido, Brecht não relativiza o assassinato direto; ele expõe uma contradição fundamental: o verdadeiro crime não é apenas o ato individual, mas o sistema que produz e normaliza as outras formas de morte.

Sua reflexão é um convite incômodo à consciência crítica, à recusa da indiferença e à compreensão de que a justiça social não se limita à punição de indivíduos, mas exige a transformação das estruturas que tornam a morte cotidiana aceitável.

Mais do que uma denúncia, essa frase permanece como um chamado à responsabilidade coletiva - e à ação - diante das injustiças que, embora legalizadas, continuam a ceifar vidas em silêncio. 

terça-feira, dezembro 30, 2025

Encruzilhadas



Desde a minha infância escuto falar sobre os supostos malefícios das encruzilhadas. Histórias repetidas em voz baixa, advertências carregadas de medo, recomendações para jamais atravessá-las à noite ou nelas permanecer por muito tempo.

Confesso, porém, que nunca senti arrepio nem temor diante desses lugares. Ao contrário: sempre me pareceram espaços silenciosos, quase neutros, onde o mundo parece suspenso por um instante. Ainda assim, são inúmeras as narrativas que despertam inquietação em muitas pessoas, como se ali algo invisível estivesse à espreita.

Não é de hoje que as encruzilhadas são vistas como sítios especiais para as gentes. Desde tempos antigos, elas simbolizam o ponto de escolha, de transição, de ruptura.

Não pertencem totalmente a um caminho nem a outro; são territórios intermediários, fronteiras simbólicas entre o que foi e o que ainda pode ser. Por isso, ao longo da história, tornaram-se lugares carregados de significado espiritual, social e mítico.

Em diversas culturas, a encruzilhada é ponto de propiciação, local sagrado para determinados cultos e rituais. É ali que se fazem pedidos, que se agradece, que se firmam compromissos com forças consideradas superiores ou invisíveis. Também é ali que, segundo a crença popular, pactos são selados e promessas cobradas. O cruzamento dos caminhos espelha o cruzamento do destino.

Para alguns, trata-se de um ponto de encontro com o diabo, ideia fortemente difundida pelo imaginário cristão medieval, que associou esses espaços ao perigo, ao desvio moral e à tentação.

Para outros, no entanto, a encruzilhada é lugar de respeito e reverência. No candomblé e em outras religiões de matriz africana, é o ponto certo para deixar oferendas àquele que abre os caminhos:

Exu, o mensageiro entre os mundos, senhor do movimento, da comunicação e das escolhas. Exu não representa o mal, mas o dinamismo da vida, a possibilidade de mudança e a responsabilidade por cada decisão tomada.

Muito antes disso, na Grécia Antiga, a encruzilhada já era sagrada. Hécate, deusa associada à lua, à magia, às sombras e às passagens, era venerada nesses locais. Estátuas com três faces eram colocadas nos cruzamentos, olhando para todas as direções, simbolizando seu domínio sobre os caminhos visíveis e invisíveis.

Era a ela que se pediam proteção, orientação e clareza diante das incertezas. Assim, as encruzilhadas nunca foram apenas espaços físicos. Elas representam o momento em que somos obrigados a escolher, mesmo quando preferiríamos permanecer parados.

Talvez o medo que muitos sentem não venha do lugar em si, mas do que ele simboliza: a impossibilidade de seguir adiante sem decidir, a consciência de que cada caminho implica perdas, renúncias e consequências.

No fundo, a encruzilhada não ameaça,  ela revela. Revela quem somos quando o conforto do trajeto único se desfaz e somos confrontados com a liberdade, essa dádiva tão desejada quanto temida. 

Somos todos iguais


Bruno Covas, como prefeito de São Paulo durante a pandemia de Covid-19, adotou uma postura rigorosa e, para muitos, autoritária. Alinhado ao governador João Doria, ele implementou o fechamento amplo do comércio na capital a partir de março de 2020, paralisando a maior economia urbana do país em nome do controle da doença.

Essas medidas, parte do Plano São Paulo e de decretos municipais, incluíram quarentenas prolongadas e restrições que afetaram milhões de trabalhadores e empresários.

Covas, que já lutava contra um câncer diagnosticado em outubro de 2019, continuou no cargo apesar de sua condição de saúde fragilizada, o que alguns criticaram como uma negligência pessoal em meio ao caos que ajudava a gerenciar.

A cidade de São Paulo, coração econômico do Brasil, ainda sente as consequências desse período de "desmando", como muitos o chamam. As restrições prolongadas contribuíram para uma recessão profunda: milhares de empresas faliram, o desemprego disparou e a recuperação tem sido lenta e desigual.

Estudos indicam que o PIB local sofreu quedas significativas, com impactos duradouros em setores como comércio, serviços e turismo. Todo o estado paulista enfrentou efeitos semelhantes, com perdas de arrecadação e aumento da informalidade, prolongando a crise econômica bem além do pico da pandemia.

Em uma das ações mais polêmicas, a Prefeitura de São Paulo, sob comando de Covas, chegou a interditar estabelecimentos comerciais de forma drástica: em maio de 2020, fiscais da Subprefeitura da Sé soldaram portas de lojas no centro da cidade, como na região da Rua 25 de Março e Barão de Duprat, que insistiam em abrir, desrespeitando as regras de quarentena.

Essas interdições, acompanhadas de multas e bloqueios com concreto, foram justificadas como necessárias para evitar aglomerações e preservar vidas, mas geraram revolta generalizada.

Para críticos, isso representou um excesso autoritário, impedindo que pessoas trabalhassem e sustentassem suas famílias em um momento de desespero econômico. Valeu a pena, Bruno Covas? Muitos dizem que não, apontando que as medidas radicais salvaram vidas, mas a que custo social e econômico?

No fim das contas, a única coisa verdadeiramente democrática que existe é a morte. Ela não faz distinções: não olha para poder aquisitivo, roupa, cargo, beleza ou influência. Quando chega a hora, todos são iguais perante ela.

Somos todos mortais, embora alguns se iludam achando que não. A mortalha não tem bolso, o caixão não tem gaveta e, mesmo se tivesse, o morto não poderia usá-los. Não queira se achar superior a ninguém, pois ninguém é.

Rico ou pobre, poderoso ou parte do "rebanho", todos enfrentam o mesmo fim inevitável. O lema de Covas e Doria era "salvar vidas acima de tudo", repetido incansavelmente para justificar as restrições. No entanto, no final, Covas não conseguiu salvar a própria.

Ele não foi vítima direta da Covid-19, embora tenha contraído a doença em 2020 e se recuperado, mas sucumbiu ao câncer que o acometia desde 2019, falecendo em 16 de maio de 2021, aos 41 anos, após uma longa batalha.

Sua morte, precoce e triste, serviu para muitos como um lembrete irônico: mesmo com todo o poder e acesso a tratamentos de ponta, a doença não perdoa. A pandemia expôs fragilidades humanas, e São Paulo ainda carrega as cicatrizes econômicas e sociais daquele período turbulento.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

A vida nos feudos


 A Vida nos Feudos: O Sistema Feudal na Europa Medieval

O feudalismo foi um sistema político, econômico e social predominante na Europa medieval, especialmente entre os séculos IX e XV, que surgiu após a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e as invasões bárbaras, vikings, muçulmanas e magiares.

Esse modelo organizava a sociedade em relações hierárquicas baseadas na posse da terra, com poder descentralizado e fundado em laços pessoais de lealdade. Os feudos eram porções de terra concedidas por um senhor (suserano) a vassalos em troca de fidelidade, serviços militares e outros deveres, como auxílio em tribunais ou conselhos.

No topo da hierarquia estava o rei ou os grandes senhores feudais, que detinham o domínio supremo das terras. Abaixo deles, os vassalos - geralmente nobres menores ou cavaleiros - recebiam feudos (benefícios ou feudos) e, em troca, prestavam homenagem, juravam fidelidade e forneciam tropas em tempos de guerra.

Essa relação era formalizada em cerimônias de homenagem e investidura. Os vassalos podiam, por sua vez, subdividir suas terras, criando uma pirâmide de obrigações. O senhor feudal era responsável pela proteção do feudo, administração da justiça local, por meio de tribunais senhoriais e coleta de tributos, como a banalidade, taxas pelo uso de moinhos, fornos ou pontes.

A base da sociedade feudal era composta pelos camponeses, que representavam a grande maioria da população - cerca de 90%. Divididos em vilãos, com mais direitos, podendo possuir pequenas parcelas e servos, ligados à terra, sem liberdade de movimento, eles trabalhavam nas terras do senhor.

Suas obrigações incluíam a corveia - trabalho gratuito nas terras senhoriais por vários dias por semana -, o pagamento de talha, imposto sobre a produção, censo, taxa pela uso da terra e dízimos à Igreja. Em troca, recebiam proteção e o direito de cultivar lotes para subsistência.

O clero ocupava uma posição privilegiada: igrejas, mosteiros e bispados possuíam vastas terras, às vezes um terço da Europa, isentas de muitos impostos, e ofereciam serviços espirituais, educação e assistência aos pobres.

A economia feudal era essencialmente agrária e autossuficiente, baseada no sistema de manso ou manor. Os feudos eram divididos em domínio senhorial, reservado ao senhor, terras dos camponeses e áreas comuns - pastos e florestas.

Utilizava-se o rodízio trienal de culturas, um terço da terra semeado com trigo no outono, outro com aveia na primavera e o restante em pousio para recuperação do solo, o que aumentou a produtividade a partir do século XI. Principais cultivos eram cereais - trigo, cevada, centeio -, legumes, vinhas e criação de animais.

Ferramentas eram simples, como arados de madeira puxados por bois. As moradias refletiam a estratificação social: senhores viviam em castelos fortificados, inicialmente de madeira, depois de pedra ou casas senhoriais com salão central para banquetes e audiências; vassalos em residências mais modestas; camponeses em cabanas de madeira, palha e barro, frequentemente com uma única divisão para família e animais.

As condições eram precárias: falta de higiene, infestações de parasitas e alta mortalidade infantil. A dieta era monótona e variava por classe. Camponeses consumiam pão preto de centeio, mingau, legumes, queijo e, raramente, carne, geralmente porco salgado; cerveja fraca era a bebida comum, pois a água era insegura.

Nobres tinham acesso a carnes, peixes, especiarias importadas após as Cruzadas e vinhos. Vestuário também indicava status: nobres usavam tecidos finos como seda e veludo, com joias; camponeses, lã grosseira e linho caseiro.

O entretenimento era limitado: para nobres, caçadas, torneios de cavalaria, banquetes e jogos como xadrez; para camponeses, festas religiosas, danças comunitárias e feiras sazonais. A Igreja organizava o calendário com numerosas festas santas, que interrompiam o trabalho.

Apesar da aparente estabilidade, a vida nos feudos era marcada por dificuldades: fome periódica, doenças devido à falta de saneamento e medicina, conflitos locais entre senhores e guerras. A Igreja exercia forte influência, controlando a educação em mosteiros e promovendo a ideia de uma sociedade tripartida (oratores - que rezam; bellatores - que lutam; laboratores - que trabalham).

Principais Acontecimentos e a Crise do Feudalismo

O feudalismo atingiu seu auge nos séculos XI-XIII, mas entrou em crise na Baixa Idade Média (séculos XIV-XV). As Cruzadas (1095-1291), expedições militares convocadas pela Igreja para reconquistar Jerusalém, tiveram impacto profundo: enfraqueceram nobres, muitos morreram ou se endividaram para financiar campanhas, estimularam o comércio com o Oriente, especiarias, sedas via cidades italianas como Veneza e Gênova, e promoveram o renascimento urbano e comercial.

Isso fortaleceu a burguesia e incentivou camponeses a fugirem para cidades em busca de liberdade. O golpe mais devastador veio com a Peste Negra (1347-1351), pandemia de peste bubônica que matou 30-60% da população europeia, cerca de 25-75 milhões.

Transmitida por pulgas de ratos via rotas comerciais, causou escassez de mão de obra, aumento de salários, revoltas camponesas, como a Jacquerie na França, 1358) e o enfraquecimento da servidão. Senhores tentaram manter obrigações antigas, mas muitos camponeses negociaram melhores condições ou migraram para cidades.

Outros fatores incluíram a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra, que exauriu recursos feudais, e o crescimento demográfico anterior, que pressionou as terras.

Essas crises aceleraram a transição para monarquias centralizadas, o capitalismo mercantil e o fim do feudalismo, pavimentando o caminho para a Idade Moderna.

Apesar dos desafios, o feudalismo moldou a Europa por séculos, influenciando estruturas sociais, jurídicas e culturais que persistem em traços como a propriedade da terra e hierarquias. Seu legado é uma marca indelével na história, refletindo uma era de resiliência em meio à adversidade.