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quarta-feira, janeiro 07, 2026

Caryl Chessman - O Bandido da Luz Vermelha



Caryl Whittier Chessman, conhecido simplesmente como Caryl Chessman, foi um criminoso de notável astúcia que acabou se tornando uma figura controversa e midiática nos Estados Unidos da década de 1950.

Sua trajetória influenciou outros criminosos ao redor do mundo, entre eles, no Brasil, João Acácio Pereira da Costa, que mais tarde ficaria conhecido como o Bandido da Luz Vermelha.

Chessman nasceu em Saint Joseph, Michigan, em 27 de maio de 1921. Desde jovem, envolveu-se em delitos diversos, passando por furtos, assaltos e crimes mais graves. Sua vida foi marcada por reincidência criminal, prisões sucessivas e uma escalada de violência que culminaria em sua condenação à morte.

Em 2 de maio de 1960, após anos no corredor da morte, foi executado na câmara de gás, no estado da Califórnia. Eu ainda era muito criança na época, mas lembro-me claramente de ouvir meu pai comentar sobre a execução programada desse homem nos Estados Unidos.

O caso atravessou fronteiras e gerou comoção internacional. Manifestações, abaixo-assinados e apelos foram feitos em diversos países pedindo clemência, como se o condenado fosse um símbolo de injustiça maior.

Pouco se falava, no entanto, das vítimas de seus crimes, pessoas reais, com vidas interrompidas ou marcadas para sempre pela violência que sofreram. Esse fenômeno revela o que se pode chamar de síndrome do bandido-herói: a transformação do criminoso em personagem quase romântico, intelectualmente admirado, enquanto as vítimas são empurradas para o esquecimento.

Chessman soube explorar esse papel como poucos. Durante sua permanência no corredor da morte, recusou advogados, estudou Direito por conta própria e passou a elaborar suas próprias defesas, utilizando a palavra como arma e a escrita como forma de sobrevivência simbólica.

Na prisão, escreveu livros de forte teor autobiográfico, como 2455 – Cela da Morte e A Lei Quer Que Eu Morra, além do romance O Garoto Era um Assassino. As obras tiveram circulação mundial, foram traduzidas para vários idiomas e provocaram reações extremas: despertaram compaixão em alguns leitores e repulsa absoluta em outros.

Chessman passou a ser visto, por parte da opinião pública, mais como escritor e intelectual do que como criminoso condenado.

No Brasil, João Acácio Pereira da Costa, inspirado pela figura de Chessman, construiu sua própria mitologia criminosa. Diferentemente do americano, cumpriu a pena máxima prevista pela legislação brasileira à época, trinta anos de prisão e foi colocado em liberdade.

Poucos dias depois, acabou assassinado em um bar da cidade onde residia. Foi então que surgiram discursos indignados em sua defesa: “O pobrezinho, depois de trinta anos na prisão, não sabia mais viver em comunidade.” A afirmação soa frágil. Durante três décadas, ele viveu em uma comunidade, ainda que distinta da sociedade livre.

A prisão também é um espaço social, com regras, hierarquias, convivência e conflitos. Ninguém cumpre pena no isolamento absoluto do deserto humano. Voltando a Chessman, sua fama cresceu justamente após sua prisão, o que diz muito sobre o fascínio que o crime exerce quando envolto em inteligência, eloquência e narrativa bem construída.

Sua execução, acompanhada em tempo real por rádios e jornais, marcou um dos episódios mais emblemáticos do debate sobre a pena de morte no século XX. No fim, permanece a pergunta incômoda: até que ponto a palavra bem escrita é capaz de reconfigurar a imagem de um criminoso?

E quantas vezes a sociedade se deixa seduzir pela história do algoz, esquecendo-se silenciosamente das vítimas que jamais tiveram voz, livros ou leitores?

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