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domingo, janeiro 11, 2026

Minha vida está ficando difícil


Nasci branco, então eu… A partir desse dado biológico elementar, passei a carregar rótulos que não escolhi.

Não votei no PT, no PCdoB ou no PSOL; logo, sou imediatamente classificado como fascista, como se a democracia se resumisse a um único espectro ideológico e toda divergência fosse crime moral.

Sou heterossexual, o que, para alguns, basta para me transformar em homofóbico, não por minhas atitudes, mas por uma identidade presumida e mal interpretada.

Nunca fui sindicalizado. Por isso, sou acusado de trair a causa operária, de ser racista social, de agir como aliado automático do patrão. Como se a dignidade do trabalho estivesse condicionada à filiação, e não à honestidade do esforço cotidiano.

Penso por conta própria e não engulo, sem questionar, tudo o que a mídia ou os formadores de opinião me empurram. Resultado: sou rotulado de reacionário, alguém que ameaça o progresso apenas por exercer o direito de duvidar.

Atenho-me aos meus valores morais e culturais, construídos ao longo de uma vida inteira, e isso me transforma, segundo certos julgamentos apressados, em xenófobo.

Desejo viver em segurança e acredito que criminosos devam responder por seus atos dentro da lei; por isso, dizem que sou um saudosista do DOI-CODI, como se exigir ordem fosse o mesmo que defender a barbárie.

Cumpro as leis e espero que todos - inclusive o governo - também as cumpram. Essa expectativa básica de cidadania basta para que eu seja empurrado para a prateleira da “direita”, como se o respeito às regras fosse um privilégio ideológico, e não um pilar civilizatório.

Acredito na meritocracia, no valor do esforço individual aliado à responsabilidade coletiva. Logo, sou liberal. Fui educado com severidade, disciplina e limites claros. Sou grato aos meus pais, aos meus avós e à escola que me formou.

Mas, sob o olhar de certos discursos contemporâneos, isso me transforma num carrasco de crianças, alguém que teria impedido seu “pleno desabrochar”, como se disciplina e afeto fossem incompatíveis.

Acredito que todo cidadão é corresponsável pela defesa do país, não apenas no sentido bélico, mas também moral, institucional e cultural. Por isso, sou chamado de militarista.

Gosto de me esforçar, de estabelecer metas e superá-las. Isso basta para que eu seja visto como alguém desprovido de solidariedade, insensível àqueles que se contentam em cumprir apenas o mínimo.

Vivi uma vida regrada. Poupei, trabalhei, renunciei a prazeres imediatos em nome de estabilidade futura. Hoje, sou chamado de burguês por comunistas, socialistas e “petralhas”, como se a responsabilidade pessoal fosse uma afronta social.

No fundo, este não é apenas um relato individual. É o retrato de um tempo em que o debate foi substituído pelo rótulo, e a divergência, pela condenação sumária. Um tempo em que identidades valem mais do que argumentos, e em que pensar diferente tornou-se um ato de resistência.

Ainda assim, sigo em frente. Sou grato aos amigos que permanecem, àqueles que não me reduziram a caricaturas ideológicas. E, apesar de tudo, continuo acreditando que pensar, discordar e viver com dignidade não deveria ser um crime, mas um direito.

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