Nasci branco, então eu… A partir desse dado biológico elementar, passei a carregar rótulos que
não escolhi.
Não votei no PT,
no PCdoB ou no PSOL; logo, sou imediatamente classificado como fascista, como
se a democracia se resumisse a um único espectro ideológico e toda divergência
fosse crime moral.
Sou heterossexual, o que, para alguns, basta
para me transformar em homofóbico, não por minhas atitudes, mas por uma
identidade presumida e mal interpretada.
Nunca fui
sindicalizado. Por isso, sou acusado de trair a causa operária, de ser racista
social, de agir como aliado automático do patrão. Como se a dignidade do
trabalho estivesse condicionada à filiação, e não à honestidade do esforço
cotidiano.
Penso por conta própria e não engulo, sem
questionar, tudo o que a mídia ou os formadores de opinião me empurram.
Resultado: sou rotulado de reacionário, alguém que ameaça o progresso apenas
por exercer o direito de duvidar.
Atenho-me aos
meus valores morais e culturais, construídos ao longo de uma vida inteira, e
isso me transforma, segundo certos julgamentos apressados, em xenófobo.
Desejo viver em segurança e acredito que
criminosos devam responder por seus atos dentro da lei; por isso, dizem que sou
um saudosista do DOI-CODI, como se exigir ordem fosse o mesmo que defender a
barbárie.
Cumpro as leis e
espero que todos - inclusive o governo - também as cumpram. Essa expectativa
básica de cidadania basta para que eu seja empurrado para a prateleira da
“direita”, como se o respeito às regras fosse um privilégio ideológico, e não
um pilar civilizatório.
Acredito na
meritocracia, no valor do esforço individual aliado à responsabilidade
coletiva. Logo, sou liberal. Fui educado com severidade, disciplina e limites
claros. Sou grato aos meus pais, aos meus avós e à escola que me formou.
Mas, sob o olhar de certos discursos
contemporâneos, isso me transforma num carrasco de crianças, alguém que teria
impedido seu “pleno desabrochar”, como se disciplina e afeto fossem
incompatíveis.
Acredito que
todo cidadão é corresponsável pela defesa do país, não apenas no sentido
bélico, mas também moral, institucional e cultural. Por isso, sou chamado de
militarista.
Gosto de me esforçar, de estabelecer metas e
superá-las. Isso basta para que eu seja visto como alguém desprovido de
solidariedade, insensível àqueles que se contentam em cumprir apenas o mínimo.
Vivi uma vida
regrada. Poupei, trabalhei, renunciei a prazeres imediatos em nome de
estabilidade futura. Hoje, sou chamado de burguês por comunistas, socialistas e
“petralhas”, como se a responsabilidade pessoal fosse uma afronta social.
No fundo, este
não é apenas um relato individual. É o retrato de um tempo em que o debate foi
substituído pelo rótulo, e a divergência, pela condenação sumária. Um tempo em
que identidades valem mais do que argumentos, e em que pensar diferente
tornou-se um ato de resistência.
Ainda assim,
sigo em frente. Sou grato aos amigos que permanecem, àqueles que não me
reduziram a caricaturas ideológicas. E, apesar de tudo, continuo acreditando
que pensar, discordar e viver com dignidade não deveria ser um crime, mas um
direito.









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