Acabamos de sair de mais um
processo eleitoral. E, enquanto uma parte da população comemora, outra observa
o futuro com preocupação, receio e descrença. As urnas se fecharam, os
discursos perderam força e as promessas voltaram a ocupar o lugar de sempre: o
das palavras que nem sempre se transformam em realidade.
O que deveria ser um momento
de reflexão sobre o destino do país acaba, muitas vezes, transformado em uma
disputa de paixões, interesses e narrativas. Em vez de discutir projetos,
resultados e propostas concretas, parte do eleitorado se deixa conduzir por
discursos emocionais, promessas fáceis e fidelidades políticas que sobrevivem
até mesmo às contradições mais evidentes. Quando a paixão substitui o
pensamento crítico, a democracia perde parte de sua força.
O Brasil é um país de
dimensões continentais, dono de imensas riquezas naturais, terras férteis,
recursos minerais, potencial energético e uma população trabalhadora e
criativa. Ainda assim, milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para ter acesso
a uma educação de qualidade, saúde adequada, segurança, moradia digna e
oportunidades de trabalho.
Como explicar tamanha
contradição?
Não basta apontar um único
culpado. A pobreza brasileira tem raízes históricas profundas, relacionadas à
concentração de renda e de terras, às desigualdades sociais, às deficiências
educacionais e a problemas estruturais que atravessam gerações. Mas seria
ingenuidade ignorar a responsabilidade dos governantes, dos partidos e das
instituições que, ao longo do tempo, tiveram o dever de enfrentar esses
problemas.
A corrupção, o uso político da
máquina pública, o favorecimento de interesses particulares e a falta de
compromisso com resultados concretos comprometem o desenvolvimento e
enfraquecem a confiança da sociedade. Quando o poder deixa de ser tratado como
responsabilidade pública, sendo visto como instrumento de permanência,
privilégios e enriquecimento, quem paga a conta é o cidadão.
E há algo ainda mais
preocupante: a deterioração do debate público. A intolerância cresce,
adversários são tratados como inimigos e a crítica passa a ser confundida com
traição. Em vez de cobrar resultados de quem governa, muitos preferem defender
seus representantes a qualquer custo. Os erros dos aliados são relativizados,
enquanto os dos adversários são transformados em provas de uma suposta
incapacidade moral absoluta.
Nesse ambiente, a verdade se
torna inconveniente, a mentira encontra defensores e a manipulação ganha
espaço. Uma democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta concentrar
o poder. Ela também se enfraquece quando os cidadãos deixam de questionar quem
o exerce.
O autoritarismo não precisa
chegar sempre acompanhado de rupturas espetaculares. Pode avançar gradualmente,
alimentado pelo desprezo às instituições, pela hostilidade à imprensa, pela
desqualificação dos críticos e pela tentativa de transformar um líder em alguém
acima de qualquer questionamento. Por isso, nenhuma corrente política deve
receber um cheque em branco.
É preciso compreender que
votar não significa entregar a própria consciência a um partido, a um candidato
ou a uma ideologia. O voto é uma escolha política, não uma declaração de
fidelidade eterna. Quem governa precisa ser avaliado por suas decisões, seus
resultados, sua transparência e sua capacidade de respeitar os limites do
poder.
Também não podemos confundir
esperança com ingenuidade. O progresso de uma nação exige planejamento,
responsabilidade fiscal, políticas públicas consistentes, educação, ciência,
inovação, combate à corrupção e respeito às liberdades individuais. Não se
constrói um país desenvolvido apenas com discursos patrióticos, promessas
grandiosas ou a repetição de slogans.
O Brasil não precisa de
salvadores da pátria. Precisa de instituições sólidas, governantes responsáveis
e cidadãos dispostos a pensar por conta própria.
Talvez o maior problema não
seja apenas quem vence uma eleição, mas o que acontece com a consciência
coletiva de um país entre uma eleição e outra. Se continuarmos escolhendo
representantes sem examinar suas propostas, seus históricos e suas
responsabilidades, continuaremos sujeitos aos mesmos erros, independentemente
das cores, das bandeiras ou dos discursos que estejam no poder.
O futuro brasileiro não está
condenado, mas tampouco está garantido. Ele depende das escolhas políticas, da
qualidade das instituições e da disposição da sociedade para exigir mudanças
reais.
Um país não se torna pobre
apenas pela falta de riquezas. Pode permanecer pobre quando não consegue
transformar suas riquezas em oportunidades, justiça e dignidade para seu povo.
E nenhuma mudança verdadeira
começará enquanto a fidelidade aos poderosos for maior do que o compromisso com
a verdade. Porque o Brasil não precisa apenas mudar de governantes. Precisa,
acima de tudo, amadurecer politicamente.
Francisco Silva
Sousa.
























