Não Acredite Apenas Porque Disseram
Há coisas que aprendemos tão
cedo que, com o passar dos anos, deixamos de perceber que foram aprendidas.
Tornam-se parte de nós como se sempre tivessem estado ali.
Entram pela infância,
atravessam a adolescência, acomodam-se na vida adulta e, quando finalmente nos
damos conta, já não sabemos distinguir aquilo que realmente pensamos daquilo
que simplesmente nos ensinaram a pensar.
Foi assim que recebemos muitas
das nossas certezas. Disseram-nos o que era certo e o que era errado. O que
deveríamos amar, temer, respeitar ou rejeitar. Ensinaram-nos em quem acreditar,
o que considerar sagrado, quais verdades não deveriam ser questionadas e até
quais perguntas seriam consideradas perigosas.
E nós acreditamos. Muitas
vezes, não porque tivéssemos compreendido, mas porque confiávamos em quem
falava. É justamente nesse território delicado entre a fé, a tradição e a razão
que uma antiga reflexão atribuída a Siddhartha Gautama, o Buda, continua
encontrando espaço no mundo contemporâneo:
Não acredite em qualquer coisa simplesmente porque você a escutou.
Parece uma recomendação
simples. Entretanto, poucas coisas são tão difíceis quanto desconfiar daquilo
que ouvimos durante toda a vida.
Não acredite em algo apenas
porque foi repetido muitas vezes. A repetição não transforma uma mentira em
verdade. Uma multidão pode estar enganada. O número de pessoas que acredita em
alguma coisa não é prova de que essa coisa seja verdadeira.
Hoje, talvez essa advertência
seja ainda mais necessária. Vivemos cercados por informações. Notícias,
opiniões, vídeos, mensagens, discursos, teorias, interpretações e julgamentos
chegam até nós a cada instante.
Muitas vezes, antes mesmo de
terminarmos de ler uma frase, já estamos compartilhando outra. A informação
tornou-se abundante. A reflexão, nem sempre. Quantas vezes alguém diz:
- Todo mundo está falando
disso!
Como se “todo mundo”
fosse uma espécie de certificado de autenticidade. Mas quem verificou? Quem
pesquisou? Quem confrontou as versões? Quem procurou saber se aquilo era fato
ou apenas uma história convenientemente repetida?
Também não devemos acreditar
em alguma coisa simplesmente porque ela está escrita em um livro religioso,
filosófico ou considerado sagrado. Um livro pode ser importante, profundo e
transformador, mas isso não significa que devemos abandonar nossa capacidade de
pensar diante dele.
Respeitar uma tradição não
significa entregar a ela a própria consciência. Da mesma maneira, não devemos
aceitar uma ideia apenas porque foi ensinada por um professor, por um
sacerdote, por um líder, por um intelectual ou por alguém mais velho.
A experiência dos outros
merece respeito. A autoridade pode merecer consideração. Mas nenhuma autoridade
deveria exigir que abandonássemos completamente nossa capacidade de discernir.
Há uma diferença enorme entre respeitar
alguém e terceirizar o próprio pensamento. As tradições também merecem ser
examinadas. Uma tradição pode carregar sabedoria acumulada ao longo dos
séculos.
Pode preservar valores,
histórias, costumes e experiências que ajudam uma comunidade a compreender a
própria existência. Mas o fato de algo ter sido transmitido de geração em
geração não significa, por si só, que seja necessariamente verdadeiro, justo ou
adequado ao presente.
Nossos antepassados também
erravam. E reconhecer isso não é desrespeitá-los. Talvez seja justamente uma
forma de honrá-los. A humanidade só avançou porque algumas pessoas tiveram
coragem de olhar para antigas certezas e perguntar:
– E se estivermos enganados?
Essa pequena pergunta já foi
responsável por grandes transformações. Foi assim com muitas descobertas
científicas. Foi assim com mudanças sociais. Foi assim quando costumes
considerados naturais e imutáveis começaram a ser questionados.
Pensar não é necessariamente
destruir aquilo em que acreditamos. Às vezes, pensar é descobrir por que
acreditamos. E, em outras ocasiões, é perceber que precisamos abandonar uma crença
que já não consegue sobreviver ao confronto com a realidade. Isso exige
coragem.
Porque mudar de opinião pode
ser doloroso. Significa admitir que, em algum momento, estivemos equivocados. E
o ser humano costuma ter dificuldade para reconhecer os próprios erros. Preferimos,
muitas vezes, defender uma ideia ruim durante anos a admitir que passamos anos
defendendo algo que não fazia sentido.
Talvez por isso seja tão
importante cultivar a dúvida. Não a dúvida que paralisa, mas aquela que
investiga. Não a dúvida que destrói por prazer, mas aquela que procura
compreender. Após ouvir, observe. Após receber uma informação,
investigue.
Depois de encontrar uma
afirmação, procure evidências. Depois de ouvir uma opinião, pergunte-se de onde
ela veio, quais interesses pode carregar e se existem outras perspectivas. E,
principalmente, não confunda convicção com verdade.
Uma pessoa pode estar
absolutamente convencida de alguma coisa e, ainda assim, estar completamente
errada. A verdadeira sabedoria talvez comece quando percebemos que nossa
compreensão do mundo é limitada.
Por isso, após observar,
analisar e refletir, quando descobrirmos que determinada ideia está de acordo
com a razão, com a experiência e, sobretudo, que contribui para o bem-estar e o
benefício de todos, então poderemos acolhê-la não porque alguém mandou, mas
porque nós mesmos compreendemos seu valor.
E há uma diferença imensa
entre obedecer a uma verdade que nos foi imposta e viver de acordo com uma
verdade que conseguimos reconhecer. Talvez seja essa a essência da mensagem.
Não aceite uma ideia apenas
porque é antiga. Não a aceite apenas porque é nova. Não a aceite porque uma
multidão acredita nela. Não a rejeite apenas porque poucos acreditam. Não a
aceite porque alguém famoso disse.
Não a rejeite simplesmente
porque veio de alguém de quem você discorda. Observe. Questione. Analise.
Reflita. E, depois de tudo isso, decida. A liberdade intelectual não consiste
em acreditar em tudo nem em duvidar de tudo. Consiste em desenvolver a
capacidade de distinguir.
Vivemos em uma época em que
qualquer pessoa pode publicar uma afirmação e, em poucos minutos, milhares
podem transformá-la em verdade. Por isso, talvez uma das formas mais
importantes de liberdade seja conservar em nós um espaço onde nenhuma
voz externa tenha autoridade absoluta.
Um espaço silencioso. Um lugar
onde possamos perguntar: “Isso é realmente verdade ou eu apenas aprendi a
acreditar que é?” Talvez seja nesse instante que começamos, de fato, a
pensar. E talvez pensar, no sentido mais profundo da palavra, seja uma das
formas mais difíceis – e mais bonitas – de liberdade.
Siddhartha Gautama, o Buda,
ensinou que não devemos aceitar algo apenas porque ouvimos, porque muitos
repetem, porque está escrito, porque uma autoridade afirmou ou porque a
tradição o transmitiu.
Devemos observar, investigar e
compreender. E, quando reconhecermos aquilo que está de acordo com a razão e
conduz ao bem, então poderemos acolhê-lo conscientemente e viver segundo esse
entendimento.
No fim, talvez a sabedoria não
esteja em ter respostas para tudo. Talvez esteja em nunca perder a coragem de
fazer perguntas.


















