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segunda-feira, agosto 10, 2026

Não acredite...



Não Acredite Apenas Porque Disseram

Há coisas que aprendemos tão cedo que, com o passar dos anos, deixamos de perceber que foram aprendidas. Tornam-se parte de nós como se sempre tivessem estado ali.

Entram pela infância, atravessam a adolescência, acomodam-se na vida adulta e, quando finalmente nos damos conta, já não sabemos distinguir aquilo que realmente pensamos daquilo que simplesmente nos ensinaram a pensar.

Foi assim que recebemos muitas das nossas certezas. Disseram-nos o que era certo e o que era errado. O que deveríamos amar, temer, respeitar ou rejeitar. Ensinaram-nos em quem acreditar, o que considerar sagrado, quais verdades não deveriam ser questionadas e até quais perguntas seriam consideradas perigosas.

E nós acreditamos. Muitas vezes, não porque tivéssemos compreendido, mas porque confiávamos em quem falava. É justamente nesse território delicado entre a fé, a tradição e a razão que uma antiga reflexão atribuída a Siddhartha Gautama, o Buda, continua encontrando espaço no mundo contemporâneo:

Não acredite em qualquer coisa simplesmente porque você a escutou.

Parece uma recomendação simples. Entretanto, poucas coisas são tão difíceis quanto desconfiar daquilo que ouvimos durante toda a vida.

Não acredite em algo apenas porque foi repetido muitas vezes. A repetição não transforma uma mentira em verdade. Uma multidão pode estar enganada. O número de pessoas que acredita em alguma coisa não é prova de que essa coisa seja verdadeira.

Hoje, talvez essa advertência seja ainda mais necessária. Vivemos cercados por informações. Notícias, opiniões, vídeos, mensagens, discursos, teorias, interpretações e julgamentos chegam até nós a cada instante.

Muitas vezes, antes mesmo de terminarmos de ler uma frase, já estamos compartilhando outra. A informação tornou-se abundante. A reflexão, nem sempre. Quantas vezes alguém diz:

- Todo mundo está falando disso!

Como se “todo mundo” fosse uma espécie de certificado de autenticidade. Mas quem verificou? Quem pesquisou? Quem confrontou as versões? Quem procurou saber se aquilo era fato ou apenas uma história convenientemente repetida?

Também não devemos acreditar em alguma coisa simplesmente porque ela está escrita em um livro religioso, filosófico ou considerado sagrado. Um livro pode ser importante, profundo e transformador, mas isso não significa que devemos abandonar nossa capacidade de pensar diante dele.

Respeitar uma tradição não significa entregar a ela a própria consciência. Da mesma maneira, não devemos aceitar uma ideia apenas porque foi ensinada por um professor, por um sacerdote, por um líder, por um intelectual ou por alguém mais velho.

A experiência dos outros merece respeito. A autoridade pode merecer consideração. Mas nenhuma autoridade deveria exigir que abandonássemos completamente nossa capacidade de discernir.

Há uma diferença enorme entre respeitar alguém e terceirizar o próprio pensamento. As tradições também merecem ser examinadas. Uma tradição pode carregar sabedoria acumulada ao longo dos séculos.

Pode preservar valores, histórias, costumes e experiências que ajudam uma comunidade a compreender a própria existência. Mas o fato de algo ter sido transmitido de geração em geração não significa, por si só, que seja necessariamente verdadeiro, justo ou adequado ao presente.

Nossos antepassados também erravam. E reconhecer isso não é desrespeitá-los. Talvez seja justamente uma forma de honrá-los. A humanidade só avançou porque algumas pessoas tiveram coragem de olhar para antigas certezas e perguntar:

– E se estivermos enganados?

Essa pequena pergunta já foi responsável por grandes transformações. Foi assim com muitas descobertas científicas. Foi assim com mudanças sociais. Foi assim quando costumes considerados naturais e imutáveis começaram a ser questionados.

Pensar não é necessariamente destruir aquilo em que acreditamos. Às vezes, pensar é descobrir por que acreditamos. E, em outras ocasiões, é perceber que precisamos abandonar uma crença que já não consegue sobreviver ao confronto com a realidade. Isso exige coragem.

Porque mudar de opinião pode ser doloroso. Significa admitir que, em algum momento, estivemos equivocados. E o ser humano costuma ter dificuldade para reconhecer os próprios erros. Preferimos, muitas vezes, defender uma ideia ruim durante anos a admitir que passamos anos defendendo algo que não fazia sentido.

Talvez por isso seja tão importante cultivar a dúvida. Não a dúvida que paralisa, mas aquela que investiga. Não a dúvida que destrói por prazer, mas aquela que procura compreender. Após ouvir, observe. Após receber uma informação, investigue.

Depois de encontrar uma afirmação, procure evidências. Depois de ouvir uma opinião, pergunte-se de onde ela veio, quais interesses pode carregar e se existem outras perspectivas. E, principalmente, não confunda convicção com verdade.

Uma pessoa pode estar absolutamente convencida de alguma coisa e, ainda assim, estar completamente errada. A verdadeira sabedoria talvez comece quando percebemos que nossa compreensão do mundo é limitada.

Por isso, após observar, analisar e refletir, quando descobrirmos que determinada ideia está de acordo com a razão, com a experiência e, sobretudo, que contribui para o bem-estar e o benefício de todos, então poderemos acolhê-la não porque alguém mandou, mas porque nós mesmos compreendemos seu valor.

E há uma diferença imensa entre obedecer a uma verdade que nos foi imposta e viver de acordo com uma verdade que conseguimos reconhecer. Talvez seja essa a essência da mensagem.

Não aceite uma ideia apenas porque é antiga. Não a aceite apenas porque é nova. Não a aceite porque uma multidão acredita nela. Não a rejeite apenas porque poucos acreditam. Não a aceite porque alguém famoso disse.

Não a rejeite simplesmente porque veio de alguém de quem você discorda. Observe. Questione. Analise. Reflita. E, depois de tudo isso, decida. A liberdade intelectual não consiste em acreditar em tudo nem em duvidar de tudo. Consiste em desenvolver a capacidade de distinguir.

Vivemos em uma época em que qualquer pessoa pode publicar uma afirmação e, em poucos minutos, milhares podem transformá-la em verdade. Por isso, talvez uma das formas mais importantes de liberdade seja conservar em nós um espaço onde nenhuma voz externa tenha autoridade absoluta.

Um espaço silencioso. Um lugar onde possamos perguntar: “Isso é realmente verdade ou eu apenas aprendi a acreditar que é?” Talvez seja nesse instante que começamos, de fato, a pensar. E talvez pensar, no sentido mais profundo da palavra, seja uma das formas mais difíceis – e mais bonitas – de liberdade.

Siddhartha Gautama, o Buda, ensinou que não devemos aceitar algo apenas porque ouvimos, porque muitos repetem, porque está escrito, porque uma autoridade afirmou ou porque a tradição o transmitiu.

Devemos observar, investigar e compreender. E, quando reconhecermos aquilo que está de acordo com a razão e conduz ao bem, então poderemos acolhê-lo conscientemente e viver segundo esse entendimento.

No fim, talvez a sabedoria não esteja em ter respostas para tudo. Talvez esteja em nunca perder a coragem de fazer perguntas.

Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole



Israel Kamakawiwo'ole: a voz que o Havaí entregou ao mundo

Havia algo de profundamente comovente na voz de Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole. Era uma voz aparentemente simples, quase desarmada, acompanhada apenas pelo som delicado de um ukulele.

Mas, por trás daquela suavidade, havia um homem inteiro: sua terra, sua ancestralidade, suas dores, seus sonhos e a memória de um povo que jamais deixou de lutar para preservar a própria identidade.

Conhecido carinhosamente como “Braddah IZ”, Israel nasceu em 20 de maio de 1959, em Honolulu, no Havaí, descendente de uma linhagem de nativos havaianos. Cresceu em um ambiente no qual a música não era apenas entretenimento, mas também uma forma de preservar histórias, sentimentos e tradições.

Desde cedo, a relação de Israel com o Havaí ultrapassava o orgulho de ter nascido em uma das ilhas mais bonitas do planeta. Ele carregava consigo a consciência de pertencer a uma cultura que havia sofrido profundas transformações após a chegada das potências estrangeiras.

Por isso, nunca escondeu suas posições políticas e culturais. Defendia os direitos dos nativos havaianos e manifestava simpatia pela ideia de independência do arquipélago.

Para Israel, cantar era também uma maneira de falar sobre aquilo que muitas vezes permanecia em silêncio. E talvez seja justamente por isso que sua voz tenha atravessado tantas fronteiras.

Uma voz maior que o próprio corpo

Israel enfrentou durante praticamente toda a vida problemas relacionados ao peso. Seu corpo chegou a atingir aproximadamente 343 quilos, distribuídos por uma estrutura de 1,88 metro.

A obesidade mórbida trouxe graves consequências para sua saúde e tornou sua existência cotidiana cada vez mais difícil. Mas seria injusto contar sua história apenas pela dimensão física de sua doença.

Havia um homem por trás daquele corpo. Um homem sensível, ligado à sua cultura e profundamente apaixonado por sua terra. Alguém que encontrou na música uma forma de existir, de resistir e de permanecer próximo das próprias raízes.

Israel não precisava de grandes orquestras para emocionar. Bastava-lhe o ukulele e aquela voz limpa, tranquila, quase como se estivesse cantando para alguém sentado ao seu lado.

Em suas interpretações, havia uma espécie de intimidade. O ouvinte tinha a sensação de que não estava diante de um artista tentando impressionar uma multidão, mas de alguém contando uma história baixinho.

E foi justamente essa simplicidade que o tornou inesquecível.

“Facing Future”

Em 1993, Israel lançou o álbum Facing Future, trabalho que o projetou internacionalmente e o transformou em um dos mais conhecidos representantes da música havaiana.

Entre as faixas estava uma interpretação que mudaria para sempre sua trajetória: “Somewhere Over the Rainbow/What a Wonderful World”.

A gravação reunia dois clássicos da música norte-americana – “Somewhere Over the Rainbow”, imortalizada no filme O Mágico de Oz, e “What a Wonderful World” – em uma combinação inesperada e extremamente delicada.

Não havia ali uma produção musical grandiosa. Havia apenas Israel, seu ukulele e sua voz. E isso parecia suficiente. A interpretação começou a conquistar ouvintes muito além das praias e das montanhas do Havaí.

A música ganhou o mundo, tornou-se presença constante em programas de televisão, filmes, comerciais e diferentes momentos da cultura popular. Sua gravação apareceu em produções como Cold Case, E.R. e Young Americans.

Nesta última, “Somewhere Over the Rainbow” foi utilizada tanto no primeiro episódio quanto no encerramento da série, criando uma espécie de círculo musical que começava e terminava com a mesma voz.

Também integrou trilhas sonoras de filmes como Encontro Marcado (1998), Encontrando Forrester (2000) e Como Se Fosse a Primeira Vez (2004). Era curioso pensar que aquela voz, nascida em uma ilha distante do centro da indústria musical norte-americana, havia conseguido chegar tão longe.

Israel cantava sobre um lugar específico, mas sua música passou a pertencer a pessoas de lugares que ele provavelmente jamais conheceria.

O homem por trás da canção

Existe uma tendência humana de transformar artistas em símbolos depois que eles morrem. Pegamos suas fotografias, suas músicas e suas histórias e construímos uma imagem quase perfeita.

Mas Israel não foi perfeito. Foi humano. Tinha limitações, fragilidades, problemas de saúde e contradições. Carregava um corpo que, com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais difícil de sustentar. Sua saúde se deteriorava enquanto sua carreira ganhava reconhecimento.

Talvez essa seja uma das partes mais dolorosas de sua história. Enquanto o mundo descobria sua voz, Israel enfrentava uma batalha silenciosa contra o próprio corpo. A fama não conseguiu protegê-lo. Os aplausos não conseguiram curá-lo. E o sucesso não foi suficiente para impedir que sua saúde chegasse ao limite.

A despedida

Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole faleceu em 26 de junho de 1997, em Honolulu, aos 38 anos. A causa da morte esteve relacionada a uma insuficiência respiratória decorrente de graves problemas de saúde associados à obesidade mórbida.

Sua morte provocou uma profunda comoção no Havaí. Pouco tempo depois, em 12 de julho de 1997, suas cinzas foram espalhadas pelo Oceano Pacífico. A imagem daquele momento parece carregar um simbolismo inevitável.

O homem que havia cantado para o mundo voltou ao mar de sua terra. O oceano que cercava as ilhas que tanto amava recebeu aquilo que restava de seu corpo, enquanto sua voz permanecia.

E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender o legado de Israel. Seu corpo desapareceu. Sua voz, não.

O arco-íris depois da tempestade

Israel Kamakawiwo'ole não viveu o suficiente para assistir à dimensão que sua interpretação de “Somewhere Over the Rainbow/What a Wonderful World” alcançaria após sua morte. Não viu novas gerações descobrirem sua música.

Não viu pessoas em diferentes países se emocionarem ao ouvir aquele ukulele aparentemente frágil acompanhado de uma voz que parecia carregar a tranquilidade do mar. Não viu sua imagem transformar-se em símbolo do Havaí. Mas talvez não precisasse ver.

Algumas obras continuam crescendo depois que seus autores partem. Aquela gravação simples tornou-se uma dessas obras. Quando Israel canta sobre o arco-íris, sobre um mundo maravilhoso e sobre a possibilidade de encontrar beleza depois da tristeza, sua voz parece carregar algo maior do que as palavras.

Carrega saudade. Carrega esperança. Carrega a memória de um povo. E carrega também uma pergunta silenciosa: o que fazemos com a nossa vida enquanto ainda estamos aqui?

Israel viveu apenas 38 anos. Foi pouco, sobretudo para alguém que ainda tinha tanto a oferecer. Mas há pessoas que conseguem transformar uma existência breve em algo que permanece por décadas.

Ele foi cantor, compositor, defensor de sua cultura e uma voz importante na valorização da identidade havaiana. Mas, acima de tudo, foi um homem que cantou com a própria alma. Talvez por isso sua voz continue chegando até nós com uma estranha sensação de proximidade.

Como se Israel ainda estivesse sentado em algum lugar do Havaí, segurando seu ukulele, olhando para o horizonte e cantando baixinho. E, ao fundo, o Pacífico continua respirando. As ondas continuam chegando.

O céu continua mudando de cor. E, em algum lugar entre o mar e o arco-íris, a voz de Braddah IZ continua dizendo que, apesar de tudo, talvez ainda exista beleza neste mundo.



domingo, agosto 09, 2026

Coisas do Ceará!



A origem da palavra “baitola”

Quem nunca ouviu um cearense – ou mesmo alguém de fora do Ceará – chamar um amigo, conhecido ou companheiro pela curiosa alcunha de “baitola”? No Ceará, a palavra entrou há muito tempo no vocabulário popular e ganhou uma força que ultrapassou as fronteiras do estado.

Dependendo do contexto, “baitola” pode ser usada como brincadeira, provocação ou insulto, embora, tradicionalmente, tenha sido empregada pejorativamente para se referir a um homem homossexual.

Mas de onde veio essa palavra tão peculiar?

Existe uma história bastante conhecida no Ceará que tenta explicar sua origem. Não há, porém, consenso histórico de que essa seja, de fato, a origem comprovada do termo.

A narrativa sobre o inglês conhecido como Mr. Hull pertence, sobretudo, à tradição oral cearense e atravessou gerações como uma dessas histórias que sobrevivem justamente porque são curiosas, engraçadas e parecem ter um pouco de verdade misturada à imaginação popular.

Vamos à história.

No início do século XX, por volta de 1913, o Ceará vivia um período de transformações. As ferrovias representavam uma das grandes promessas de modernização. Trilhos cortavam a paisagem, locomotivas transportavam pessoas e mercadorias, e trabalhadores enfrentavam longas jornadas sob o sol forte do sertão.

Foi nesse contexto que teria chegado ao Ceará o engenheiro inglês Francis Reginald Hull, conhecido como Mr. Hull – pronúncia aproximada de “Mister Ráu”.

Hull esteve ligado à administração ferroviária no estado e tornou-se uma figura conhecida entre os trabalhadores envolvidos na construção e manutenção das linhas férreas. Mais tarde, seu nome seria eternizado em Fortaleza na conhecida Avenida Mister Hull, uma das principais vias da cidade.

Imagine a cena.

O sol castigava a terra. O calor parecia subir dos trilhos e transformar o ar numa espécie de miragem. Homens suados, cobertos de poeira, trabalhavam carregando ferramentas, assentando dormentes, ajustando os trilhos e executando tarefas que exigiam força e resistência. No meio daquela rotina, surgia o supervisor estrangeiro.

Mr. Hull caminhava entre os trabalhadores, observando tudo com atenção. Para alguns, era apenas um chefe rigoroso. Para outros, representava a figura do estrangeiro que chegara para fiscalizar o trabalho de homens acostumados a obedecer às ordens dos seus superiores. E havia, ainda, uma dificuldade curiosa: o idioma.

Uma das palavras mais importantes para quem trabalhava numa ferrovia era “bitola”, termo técnico utilizado para designar a distância entre os dois trilhos.

Segundo a história contada popularmente, Mr. Hull teria dificuldades para pronunciar corretamente a palavra em português. Em vez de “bitola”, pronunciaria algo parecido com “baitola”.

A situação, aparentemente banal, teria provocado risos entre os trabalhadores.

E trabalhador, quando encontra uma oportunidade para brincar com o chefe, dificilmente desperdiça.

– Lá vem o inglês falar da baitola! – teria dito um deles, em tom de deboche. Outro, percebendo a graça da situação, completaria:

– Cuidado! Quando ele chegar, ninguém sabe se ele vai falar da bitola ou da baitola!

Os homens riam.

O chefe, talvez sem entender exatamente o motivo da brincadeira, continuava seu trabalho. E foi assim, segundo a tradição popular, que a palavra teria começado a circular entre os trabalhadores das ferrovias.

Com o tempo, porém, o significado teria mudado. A pronúncia supostamente equivocada de “bitola” teria deixado de ser apenas uma brincadeira relacionada aos trilhos e passado a ser utilizada para designar homens considerados afeminados ou homossexuais.

A expressão se espalharia pelo Ceará e, posteriormente, alcançaria outras regiões do Brasil.

Mas há um detalhe importante

A história é interessante, mas não deve ser apresentada como uma verdade histórica incontestável. A associação entre Mr. Hull, a palavra “bitola” e a origem de “baitola” aparece principalmente em relatos populares e na tradição oral cearense.

Não existe consenso linguístico ou documentação histórica suficientemente sólida que permita afirmar, com absoluta certeza, que foi exatamente assim que a palavra nasceu. Aliás, a própria língua portuguesa é cheia dessas histórias.

Palavras atravessam gerações, mudam de significado, incorporam sotaques, sofrem deformações e, muitas vezes, acabam carregando histórias que ninguém mais consegue comprovar completamente.

Talvez “baitola” seja um desses casos. O curioso é que, independentemente de sua verdadeira origem, a palavra ganhou vida própria. Saiu dos trilhos das ferrovias, entrou nas ruas, nos bares, nas rodas de conversa e no imaginário popular.

No Ceará, particularmente, determinadas palavras parecem ganhar uma personalidade própria. São pronunciadas com humor, ironia, intimidade e, às vezes, com uma dose considerável de malícia. Entre amigos, alguém pode ouvir:

– Ei, baitola, tu vai mesmo sair hoje?

E responder, rindo:

– Vou. E tu vai ficar aí reclamando ou vai junto?

Nesse contexto, a palavra pode funcionar quase como um apelido, dependendo da relação entre as pessoas. Mas, quando utilizada contra alguém com a intenção de humilhar ou discriminar, deixa de ser brincadeira e é ofensa.

Essa diferença é importante. A língua muda porque a sociedade muda. Palavras que ontem eram consideradas engraçadas podem hoje ser percebidas como agressivas. Expressões que nasceram como apelidos podem ganhar significados diferentes conforme o lugar, a época e a intenção de quem fala.

No fim das contas, talvez essa seja a parte mais interessante da história. Não sabemos com absoluta certeza se foi mesmo um inglês chamado Mr. Hull quem transformou “bitola” em “baitola”. Talvez tenha acontecido. Talvez não.

Talvez a história tenha começado de outra maneira e, com o passar dos anos, recebido novos detalhes, personagens e episódios. Mas uma coisa é certa: a cultura popular tem uma memória própria. E, no Ceará, essa memória costuma vir acompanhada de uma boa dose de humor.

Por isso, quando alguém perguntar de onde veio a palavra “baitola”, pode-se contar a velha história do inglês que teria pronunciado “bitola” de maneira diferente e provocado a criatividade dos trabalhadores. Depois, porém, vale acrescentar:

– Mas essa é a história que o povo conta. A história verdadeira talvez ainda esteja perdida em algum lugar entre os trilhos, a poeira e a memória de quem viveu naquele Ceará de mais de um século atrás.

E talvez seja justamente isso que torne a história tão interessante. Porque, quando uma palavra consegue atravessar mais de cem anos, sobreviver às mudanças da língua e continuar sendo reconhecida nas conversas do cotidiano, ela deixa de ser apenas uma palavra.

Ela passa a fazer parte da memória cultural de um povo. E, no Ceará, até as palavras têm histórias para contar.

Yara Amaral - Atriz Faleceu no Desastre do Bateau Mouche




Yara Silva do Amaral nasceu em 16 de setembro de 1936, em Jaboticabal, interior de São Paulo. Filha de um português e de uma brasileira, ainda no primeiro ano de vida a família se mudou para a capital.

Cresceu no Belenzinho, bairro de ruas estreitas, casas baixas e cheiro de pão fresco pela manhã. Ali, a menina quieta que observava o mundo pelas frestas das janelas, descobriu cedo o poder de inventar outras vidas.

Estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e se formou em 1964. O teatro a pegou de vez. Em 1968, no Teatro de Arena, entrou no elenco de Arena conta Tiradentes, de Gianfrancesco Guarnieri.

O palco era suado, as luzes quentes, o público perto demais. Yara sentia o chão vibrar sob os pés e entendia que aquele era o lugar onde conseguia ser mais verdadeira do que na vida comum. Passou também pelo Teatro Oficina, onde o excesso e a ousadia se misturavam ao talento.

Nos anos 1970, veio o primeiro grande reconhecimento: o Prêmio Molière de melhor atriz pelo trabalho em Réveillon, de Flávio Márcio, ao lado de Regina Duarte e Sérgio Mamberti. Ao todo, participou de cerca de trinta espetáculos e conquistou três Molières.

Cada um deles era mais do que um troféu: era a confirmação de que a menina do Belenzinho tinha encontrado a própria voz. No cinema, estreou em 1975 com O Rei da Noite, de Hector Babenco. Depois vieram papéis marcantes em A dama do lotação, Mulher objeto e Leila Diniz.

Na televisão, começou em 1968, na TV Tupi, com a novela O décimo mandamento, de Benedito Ruy Barbosa. Nos anos 1970, chegou à Globo e brilhou em Dancin’ Days, O amor é nosso, Sol de verão, Guerra dos Sexos, Um sonho a mais, Cambalacho, Anos dourados e Fera radical.

Cada personagem carregava um pedaço dela: a força, a ironia fina, a capacidade de tornar o ordinário extraordinário. Casou-se com o diretor Luiz Fernando Goulart. Juntos tiveram dois filhos, Bernardo e João Mário.

Em casa, Yara era a mulher que contava histórias antes de dormir, que ria alto das próprias gafes e que, mesmo cansada dos ensaios, ainda encontrava tempo para ouvir os meninos.

A mãe, presença constante, seguia ao lado dela em muitas noites importantes. Na virada de 1988 para 1989, Yara e a mãe embarcaram no Bateau Muche para o réveillon na Baía de Guanabara.

O barco estava lotado. A noite prometia fogos, champanhe e o recomeço que todo ano novo carrega. Yara não sabia nadar. Quando o naufrágio aconteceu, o mar frio e escuro engoliu dezenas de vidas.

Ela tinha 52 anos. A mãe também não sobreviveu. Hoje descansa no Cemitério São João Batista, em Botafogo, Rio de Janeiro. Mas quem a viu em cena ainda carrega o eco daquela presença: a atriz que transformava o cotidiano em teatro e o teatro em algo profundamente humano.