Os Surmas, também conhecidos como Suri, formam um povo tradicional que
vive em uma região remota do sudoeste da Etiópia, especialmente no Vale do Omo,
uma área marcada por grande diversidade étnica e cultural.
Durante décadas, esse grupo manteve pouco contato com o mundo exterior,
preservando costumes ancestrais e um modo de vida fortemente ligado às
tradições tribais.
Por muitos anos, os Surmas viveram relativamente isolados. O contato com
estrangeiros foi raro e limitado, ocorrendo principalmente em missões
humanitárias e campanhas de saúde.
Um dos últimos registros significativos da presença ocidental na região
aconteceu durante campanhas de vacinação contra a poliomielite realizadas na
década de 1970.
Apesar do isolamento, algumas mudanças chegaram até a comunidade ao
longo do tempo. Entre elas está a adoção do fuzil Kalashnikov, utilizado na
defesa de seus territórios em conflitos com grupos rivais da região fronteiriça
entre Etiópia e Uganda.
Esses confrontos estão geralmente relacionados à disputa por terras,
água e rebanhos, elementos fundamentais para a sobrevivência das populações
locais.
Cultura e Tradições
Os Surmas são conhecidos mundialmente por suas tradições culturais,
especialmente pelo uso dos discos labiais, chamados popularmente de botoques. O
costume é praticado principalmente pelas mulheres e representa um importante
símbolo de identidade, beleza e status social.
Ainda jovens, muitas meninas iniciam um processo ritualístico de
modificação corporal. Em determinadas fases da adolescência, parte dos dentes
inferiores é removida e o lábio inferior é perfurado para receber pequenos
discos de argila ou madeira. Com o passar do tempo, esses adornos podem ser
substituídos por peças maiores, algumas chegando a medir até 40 centímetros de
diâmetro.
Na tradição Surma, o tamanho do disco pode estar associado ao prestígio
da mulher e à valorização no casamento, influenciando inclusive o valor do dote
oferecido pela família do noivo.
Contudo, além do aspecto matrimonial, o adorno possui profundo significado
cultural e simbólico, representando pertencimento, identidade e continuidade
das tradições ancestrais.
O significado do botoque
O botoque — também chamado de batoque — é um ornamento circular
introduzido em partes do corpo como lábios, orelhas ou narinas. Seu uso é
encontrado em diferentes povos indígenas da África e das Américas.
No Brasil, o artefato era originalmente conhecido pelos indígenas como
“metara”. O termo “botoque” foi criado pelos portugueses durante o período
colonial, devido à semelhança do adorno com as rolhas utilizadas para vedar
barris e tonéis.
Embora muitas vezes seja confundido com o tembetá, outro tipo de adorno
corporal indígena, existe uma diferença entre ambos: o botoque possui formato
circular, enquanto o tembetá apresenta uma forma mais alongada.
Entre diversos povos indígenas brasileiros, o botoque também carrega
significados sociais e espirituais importantes. Em algumas culturas, ele está
relacionado à oratória, liderança e prestígio na comunidade.
Os maiores adornos costumam ser utilizados por chefes e grandes
oradores, como ocorreu com o conhecido líder indígena Raoni, do povo Kayapó.
Mais do que simples adornos corporais, os botoques representam marcas
culturais profundas, transmitidas ao longo de gerações. Eles revelam diferentes
formas de compreender a beleza, a identidade e o pertencimento, demonstrando
como cada povo constrói sua própria relação com o corpo e a tradição.

















