A origem da palavra “baitola”
Quem nunca ouviu um cearense –
ou mesmo alguém de fora do Ceará – chamar um amigo, conhecido ou companheiro
pela curiosa alcunha de “baitola”? No Ceará, a palavra entrou há muito
tempo no vocabulário popular e ganhou uma força que ultrapassou as fronteiras
do estado.
Dependendo do contexto,
“baitola” pode ser usada como brincadeira, provocação ou insulto, embora,
tradicionalmente, tenha sido empregada pejorativamente para se referir a um
homem homossexual.
Mas de onde veio essa palavra tão peculiar?
Existe uma história bastante
conhecida no Ceará que tenta explicar sua origem. Não há, porém, consenso
histórico de que essa seja, de fato, a origem comprovada do termo.
A narrativa sobre o inglês
conhecido como Mr. Hull pertence, sobretudo, à tradição oral cearense e
atravessou gerações como uma dessas histórias que sobrevivem justamente porque
são curiosas, engraçadas e parecem ter um pouco de verdade misturada à
imaginação popular.
Vamos à história.
No início do século XX, por
volta de 1913, o Ceará vivia um período de transformações. As ferrovias
representavam uma das grandes promessas de modernização. Trilhos cortavam a
paisagem, locomotivas transportavam pessoas e mercadorias, e trabalhadores
enfrentavam longas jornadas sob o sol forte do sertão.
Foi nesse contexto que teria
chegado ao Ceará o engenheiro inglês Francis Reginald Hull, conhecido
como Mr. Hull – pronúncia aproximada de “Mister Ráu”.
Hull esteve ligado à
administração ferroviária no estado e tornou-se uma figura conhecida entre os
trabalhadores envolvidos na construção e manutenção das linhas férreas. Mais
tarde, seu nome seria eternizado em Fortaleza na conhecida Avenida Mister
Hull, uma das principais vias da cidade.
Imagine a cena.
O sol castigava a terra. O
calor parecia subir dos trilhos e transformar o ar numa espécie de miragem.
Homens suados, cobertos de poeira, trabalhavam carregando ferramentas,
assentando dormentes, ajustando os trilhos e executando tarefas que exigiam
força e resistência. No meio daquela rotina, surgia o supervisor estrangeiro.
Mr. Hull caminhava entre os
trabalhadores, observando tudo com atenção. Para alguns, era apenas um chefe
rigoroso. Para outros, representava a figura do estrangeiro que chegara para
fiscalizar o trabalho de homens acostumados a obedecer às ordens dos seus
superiores. E havia, ainda, uma dificuldade curiosa: o idioma.
Uma das palavras mais
importantes para quem trabalhava numa ferrovia era “bitola”, termo
técnico utilizado para designar a distância entre os dois trilhos.
Segundo a história contada
popularmente, Mr. Hull teria dificuldades para pronunciar corretamente a palavra
em português. Em vez de “bitola”, pronunciaria algo parecido com “baitola”.
A situação, aparentemente
banal, teria provocado risos entre os trabalhadores.
E trabalhador, quando encontra
uma oportunidade para brincar com o chefe, dificilmente desperdiça.
– Lá vem o inglês falar da
baitola! – teria dito um deles, em tom de deboche. Outro, percebendo a graça da
situação, completaria:
– Cuidado! Quando ele chegar,
ninguém sabe se ele vai falar da bitola ou da baitola!
Os homens riam.
O chefe, talvez sem entender
exatamente o motivo da brincadeira, continuava seu trabalho. E foi assim,
segundo a tradição popular, que a palavra teria começado a circular entre os
trabalhadores das ferrovias.
Com o tempo, porém, o
significado teria mudado. A pronúncia supostamente equivocada de “bitola” teria
deixado de ser apenas uma brincadeira relacionada aos trilhos e passado a ser
utilizada para designar homens considerados afeminados ou homossexuais.
A expressão se espalharia pelo
Ceará e, posteriormente, alcançaria outras regiões do Brasil.
Mas há um detalhe importante
A história é interessante, mas
não deve ser apresentada como uma verdade histórica incontestável. A associação
entre Mr. Hull, a palavra “bitola” e a origem de “baitola” aparece
principalmente em relatos populares e na tradição oral cearense.
Não existe consenso
linguístico ou documentação histórica suficientemente sólida que permita
afirmar, com absoluta certeza, que foi exatamente assim que a palavra nasceu. Aliás,
a própria língua portuguesa é cheia dessas histórias.
Palavras atravessam gerações,
mudam de significado, incorporam sotaques, sofrem deformações e, muitas vezes,
acabam carregando histórias que ninguém mais consegue comprovar completamente.
Talvez “baitola” seja um
desses casos. O curioso é que, independentemente de sua verdadeira origem, a
palavra ganhou vida própria. Saiu dos trilhos das ferrovias, entrou nas ruas,
nos bares, nas rodas de conversa e no imaginário popular.
No Ceará, particularmente,
determinadas palavras parecem ganhar uma personalidade própria. São
pronunciadas com humor, ironia, intimidade e, às vezes, com uma dose
considerável de malícia. Entre amigos, alguém pode ouvir:
– Ei, baitola, tu vai mesmo
sair hoje?
E responder, rindo:
– Vou. E tu vai ficar aí
reclamando ou vai junto?
Nesse contexto, a palavra pode
funcionar quase como um apelido, dependendo da relação entre as pessoas. Mas,
quando utilizada contra alguém com a intenção de humilhar ou discriminar, deixa
de ser brincadeira e é ofensa.
Essa diferença é importante. A
língua muda porque a sociedade muda. Palavras que ontem eram consideradas
engraçadas podem hoje ser percebidas como agressivas. Expressões que nasceram
como apelidos podem ganhar significados diferentes conforme o lugar, a época e
a intenção de quem fala.
No fim das contas, talvez essa
seja a parte mais interessante da história. Não sabemos com absoluta certeza se
foi mesmo um inglês chamado Mr. Hull quem transformou “bitola” em “baitola”.
Talvez tenha acontecido. Talvez não.
Talvez a história tenha
começado de outra maneira e, com o passar dos anos, recebido novos detalhes,
personagens e episódios. Mas uma coisa é certa: a cultura popular tem uma
memória própria. E, no Ceará, essa memória costuma vir acompanhada de uma
boa dose de humor.
Por isso, quando alguém
perguntar de onde veio a palavra “baitola”, pode-se contar a velha história do
inglês que teria pronunciado “bitola” de maneira diferente e provocado a
criatividade dos trabalhadores. Depois, porém, vale acrescentar:
– Mas essa é a história que o
povo conta. A história verdadeira talvez ainda esteja perdida em algum lugar entre
os trilhos, a poeira e a memória de quem viveu naquele Ceará de mais de um
século atrás.
E talvez seja justamente isso
que torne a história tão interessante. Porque, quando uma palavra consegue
atravessar mais de cem anos, sobreviver às mudanças da língua e continuar sendo
reconhecida nas conversas do cotidiano, ela deixa de ser apenas uma palavra.
Ela passa a fazer parte da memória cultural de um povo. E, no Ceará, até as palavras têm histórias para contar.









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