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terça-feira, janeiro 20, 2026

Peter Ustinov - Ator que interpretou Nero em Quo Vadis



 

Sir Peter Ustinov - nome completo: Peter Alexander Freiherr von Ustinov - nasceu em Londres, Inglaterra, no dia 16 de abril de 1921, e faleceu em Genolier, na Suíça, em 28 de março de 2004, aos 82 anos, vítima de insuficiência cardíaca.

Ele já sofria de diabetes e problemas cardíacos nos últimos anos. Foi um dos mais versáteis e talentosos artistas britânicos do século XX: ator, roteirista, diretor, dramaturgo, escritor, humorista, narrador e humanitário internacional.

Filho de Jona von Ustinov, um jornalista de origem russa - com raízes nobres alemãs e russas -, e de Nadezhda Leontievna "Nadia" Benois, uma pintora descendente de franceses e russos, Peter cresceu em um ambiente multicultural e intelectual.

Desde jovem, sonhava em escrever peças de teatro, o que o levou a estudar artes dramáticas na Westminster School e, posteriormente, na London Theatre Studio. Aos 17 anos, em 1938, estreou como ator profissional interpretando um personagem bem mais velho que ele próprio - um sinal precoce de sua habilidade para transformações e caracterizações.

Com um talento natural para a comédia, imitações e diálogos afiados, logo chamou a atenção de diretores e do público britânico. Sua carreira no cinema decolou internacionalmente em 1951, com o papel do imperador Nero no épico Quo Vadis? (dirigido por Mervyn LeRoy e produzido pela MGM).

Sua interpretação de um Nero caprichoso, vaidoso e instável rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar (melhor ator coadjuvante) e um Globo de Ouro na mesma categoria.

O filme foi um enorme sucesso de bilheteria e ajudou a salvar a MGM de dificuldades financeiras. Ustinov conquistou dois Oscars de melhor ator coadjuvante: o primeiro em 1960, por Lentulus Batiatus, o astuto dono de escola de gladiadores em Spartacus (dirigido por Stanley Kubrick); o segundo em 1964 (entregue em 1965), pelo ladrão atrapalhado em Topkapi, um clássico de assalto.

Ele também foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original em 1969 pela comédia Hot Millions (no Brasil, A Máquina de Fazer Milhões), que escreveu e estrelou. Além dos Oscars, venceu três Emmys (como melhor ator em minissérie ou telefilme), um Grammy por melhor álbum infantil (narrando histórias), um Globo de Ouro e foi nomeado para prêmios como BAFTA, Tony e Laurence Olivier.

Atuou em mais de 70 filmes, destacando-se também em Billy Budd (1962, que dirigiu, roteirizou e atuou), The Sundowners (1960), Death on the Nile (1978) e Logan's Run (1976).

Um de seus papéis mais icônicos foi como o detetive Hercule Poirot em várias adaptações de Agatha Christie, como Death on the Nile e Evil Under the Sun, onde capturou perfeitamente o charme excêntrico do personagem.

Como dramaturgo e escritor, Ustinov publicou cerca de 20 livros (incluindo romances, ensaios e sua autobiografia Dear Me, de 1977) e escreveu peças de sucesso como The Love of Four Colonels (1951), Romanoff and Juliet (1956, adaptada para o cinema como Adorável Júlia) e Beethoven’s Tenth (1983), muitas vezes dirigindo-as ele mesmo.

Dirigiu óperas, como A Flauta Mágica de Mozart, e foi um narrador brilhante em documentários e animações (como a voz do Príncipe John em Robin Hood da Disney). Em 1990, foi condecorado pela rainha Elizabeth II como Cavaleiro da Ordem do Império Britânico (Knight Bachelor), passando a ser chamado de Sir Peter Ustinov.

Serviu como chanceler da Universidade de Durham (1992–2004), reitor da Universidade de Dundee e presidente do World Federalist Movement. Seu compromisso humanitário foi marcante: de 1969 até sua morte, atuou como embaixador de boa vontade da UNICEF, viajando pelo mundo para ajudar crianças em situações de pobreza e conflito.

Ele usava seu humor para aproximar-se das pessoas e arrecadar fundos - a diretora executiva da UNICEF, Carol Bellamy, disse que "Sir Peter conseguia fazer qualquer um rir". Um episódio tocante ocorreu em 2002, quando Ustinov visitou pela primeira vez Berlim em uma missão da UNICEF para conhecer os United Buddy Bears, uma exposição de ursos pintados que promovem paz entre nações, culturas e religiões.

Ele insistiu que o Iraque - país em crise e prestes a ser invadido - fosse incluído no círculo de cerca de 140 nações representadas. Em 2003, patrocinou e inaugurou a segunda exposição dos United Buddy Bears em Berlim, reforçando sua defesa da inclusão e da tolerância mesmo em tempos de tensão geopolítica.

Peter Ustinov faleceu em 28 de março de 2004, em uma clínica perto do Lago Genebra, na Suíça, onde residia em seu castelo em Bursins (com vinhedo próprio). Foi sepultado no Cemitério de Bursins, em Nyon, no cantão de Vaud.

Seu legado continua vivo através de sua fundação (Sir Peter Ustinov Stiftung, criada em 1999 com o filho Igor), do Ustinov College na Universidade de Durham e de seu incansável trabalho pela paz e pelos direitos das crianças.

Um verdadeiro "homem renascentista", Ustinov combinou genialidade artística com compaixão humana, deixando um impacto duradouro no cinema, no teatro e no mundo.

Por Que




“Por que eu deveria permitir que o mesmo Deus que abandonou o seu próprio filho, na hora mais terrível, me diga como criar ou proteger o meu?”

Essa frase faz referência direta a um dos momentos mais dramáticos dos Evangelhos: a crucificação de Jesus. Segundo os relatos de Mateus (27:46) e Marcos (15:34), em meio à dor extrema e à iminência da morte, Jesus clama em aramaico:

“Eli, Eli, lamá sabactâni?”

- “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Esse grito, carregado de angústia existencial, é interpretado pela teologia cristã como parte do sacrifício redentor. No entanto, para pensadores críticos como Robert G. Ingersoll, ele representa algo muito diferente: o ápice de uma contradição moral difícil de conciliar com a ideia de um Deus ao mesmo tempo onipotente, onisciente e infinitamente amoroso.

Ingersoll utiliza esse episódio - talvez o mais emocionalmente intenso de todo o Novo Testamento - para questionar a autoridade moral de um Deus que, segundo a própria doutrina cristã, teria permitido - ou mesmo planejado - que seu filho unigênito enfrentasse uma morte cruel, pública, humilhante e aparentemente solitária.

O contraste com a experiência humana

O argumento ganha força quando Ingersoll estabelece um paralelo com a experiência humana comum. Pais e mães, em sua imensa maioria, fariam qualquer coisa para poupar seus filhos de um sofrimento extremo.

Mesmo pessoas imperfeitas, limitadas e falíveis, sentem um impulso quase instintivo de proteger aqueles que amam, especialmente seus filhos, do abandono, da tortura e da morte.

Diante disso, Robert G. Ingersoll provoca:

Se Deus é todo-poderoso e todo-amoroso, por que não interveio? Se o sofrimento era necessário, por que exigir fé cega diante de tamanha crueldade? Como alguém que, no momento decisivo, não poupou o próprio filho pode reivindicar autoridade moral para ensinar os seres humanos a amar, educar e proteger os seus?

A pergunta não é apenas teológica; ela é profundamente ética e emocional.

A crítica mais ampla de Robert G. Ingersoll

Essa frase se insere perfeitamente no pensamento mais amplo de Robert G. Ingersoll, um dos mais influentes oradores livres-pensadores do século XIX. Em obras e palestras como The Gods, Some Mistakes of Moses e Orthodoxy, ele atacava com veemência aquilo que considerava incoerências morais da religião institucionalizada. Entre suas ideias recorrentes, destacam-se afirmações como: Um Deus infinito não necessita de leis humanas para protegê-lo de críticas ou piadas.

A doutrina do inferno eterno reflete mais a crueldade de quem a criou do que qualquer noção elevada de justiça. Se existe um Deus que condena seus filhos ao sofrimento eterno, então esse Deus se assemelha mais a um tirano do que a um pai amoroso.

Nesse sentido, a imagem de um Deus que abandona o próprio filho no momento de maior desespero torna-se, para Ingersoll, simbólica de um problema maior: a tentativa de conciliar amor divino infinito com sofrimento extremo, tanto no caso de Jesus quanto na experiência cotidiana da humanidade.

Atualidade e impacto

Mais de um século depois, essa pergunta continua a incomodar, exatamente porque toca em um ponto sensível da fé cristã. Ela não oferece respostas fáceis, nem pretende fazê-lo. Seu poder está em obrigar o leitor ou ouvinte a encarar a tensão entre doutrina, moralidade e experiência humana.

Trata-se de uma pergunta retórica devastadora, que não busca destruir a fé individual, mas desafiar sistemas teológicos que exigem obediência absoluta enquanto justificam dor, silêncio e abandono como virtudes sagradas.

É por isso que essa frase ainda circula, ainda provoca debates e ainda causa desconforto: ela expõe uma ferida que nunca foi completamente cicatrizada.


segunda-feira, janeiro 19, 2026

Charles Manson e suas ideias


Charles Manson e a Construção de um Delírio Coletivo

Charles Manson cultivava ideias grandiosas e, ao seu redor, formou um grupo de seguidores conhecido como Família Manson. Eram homens e mulheres, em sua maioria jovens, muitos provenientes de famílias abastadas, mas marcados por conflitos familiares, rejeição emocional e rupturas profundas com seus lares.

Esse afastamento os levou a uma vida errante pelas ruas da Califórnia, em plena efervescência da contracultura dos anos 1960. Para alguns admiradores, Manson assumia contornos quase messiânicos.

Havia quem o enxergasse como uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo, não no sentido religioso tradicional, mas como alguém que prometia libertar os jovens de antigas amarras e conduzi-los a “novos horizontes”.

O próprio Manson, no entanto, negava abertamente essa comparação, embora se aproveitasse da aura de líder espiritual que o cercava. Em 1966, aos 32 anos, Manson teve a oportunidade de deixar a prisão, mas, paradoxalmente, demonstrou resistência à liberdade.

Após passar mais da metade da vida em instituições correcionais, declarou não se sentir capaz de sobreviver fora delas. Ainda assim, acabou libertado. Uma vez em liberdade, mergulhou no universo hippie, onde encontrou terreno fértil para recrutar seguidores, sobretudo jovens mulheres emocionalmente fragilizadas.

O uso recorrente de drogas psicodélicas, como o LSD, tornou-se uma ferramenta de manipulação e controle psicológico. Apresentando-se como um guru, Manson pregava o rompimento com o que chamava de “prisões mentais” impostas pelo capitalismo e pela sociedade tradicional.

Com o tempo, a Família se aproximou de discursos místicos e de supostas ciências ocultas, como a enigmática e pouco documentada chamada “Ordem de Circe do Cachorro Sanguinário”, elemento que reforçava o caráter esotérico e confuso de suas crenças.

Em 1968, Manson estabeleceu uma comunidade alternativa no Spahn Ranch, uma antiga área de filmagens próxima a Los Angeles. Ali, os membros da Família viviam de pequenos furtos, da coleta de restos de comida em restaurantes e da exploração ocasional de pessoas que cruzavam seu caminho.

Foi nesse período que o grupo conheceu Dennis Wilson, baterista da banda The Beach Boys. Inicialmente seduzido pelo estilo de vida do grupo, Wilson acabou se afastando ao perceber o comportamento instável e manipulador de Manson.

Apesar de sua condição marginal, Charles alimentava o sonho de se tornar uma estrela da música ou do cinema. Tentou gravar um disco e até produzir um filme, mas encontrou resistência, sobretudo por parte do produtor Terry Melcher, que recusou lançar sua carreira artística. Para Manson, essa recusa foi vivida como uma traição pessoal e uma confirmação de que o sistema conspirava contra ele.

Nesse mesmo período, Manson passou a defender uma teoria delirante sobre uma iminente guerra racial, na qual os negros triunfariam sobre os brancos, mas seriam incapazes de governar. Segundo ele, após o conflito, caberia à Família Manson assumir o controle da nova ordem mundial.

Essa fantasia ganhou força quando os Beatles lançaram, em 1968, o álbum The Beatles, conhecido como Álbum Branco. Canções como Revolution, Piggies e Helter Skelter passaram a ser interpretadas por Manson como mensagens cifradas dirigidas diretamente a ele.

Para Manson, Helter Skelter não era apenas uma música, mas o nome da guerra que destruiria o mundo conhecido. Ele se via como o “quinto anjo” do apocalipse, enquanto os quatro Beatles ocupariam as demais posições simbólicas.

Acreditava ainda que, no deserto da Califórnia, existiria uma entrada secreta para uma cidade subterrânea de ouro, onde ele e sua Família se esconderiam até o fim do conflito. Quando a guerra não começou no momento previsto por ele, Manson concluiu que seria necessário “ensinar” o mundo a agir.

O Crime

Na noite de 9 de agosto de 1969, membros da Família Manson invadiram uma residência localizada na Cielo Drive, nº 10050, em Bel Air, alugada pelo diretor Roman Polanski. Na casa estavam sua esposa, Sharon Tate, grávida, e quatro amigos do casal. Todos foram mortos, e frases foram escritas com o sangue das vítimas nas paredes, entre elas a palavra “Pigs” (“porcos”).

Na noite seguinte, o grupo atacou a casa de Rosemary e Leno LaBianca, que também foram assassinados. No local, surgiram inscrições como “Helter Skelter”, “Death to pigs” (“morte aos porcos”) e “Rise” (“ascensão”), referências diretas às músicas dos Beatles. Esses crimes ficaram conhecidos como o Caso Tate–LaBianca.

Segundo o promotor Vincent Bugliosi, embora Manson não estivesse presente nas cenas dos crimes, ele foi o mentor intelectual das ações. Bugliosi construiu a tese conhecida como Teoria Helter Skelter, segundo a qual os assassinatos tinham como objetivo provocar o caos racial, levando a sociedade a uma explosão de violência entre brancos e negros.

Julgamento, Condenação e Morte

Charles Manson foi acusado de seis assassinatos e levado a julgamento ao lado de seus seguidores mais próximos: Tex Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Leslie Van Houten. Embora alegasse não ter participado diretamente dos crimes, o júri foi convencido de que sua influência psicológica foi determinante.

Em 1971, todos foram condenados à pena de morte, posteriormente convertida em prisão perpétua após mudanças na legislação da Califórnia. Durante décadas, Manson teve pedidos de liberdade condicional sistematicamente negados, sendo considerado perigoso até o fim da vida.

Ele passou grande parte do tempo encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, em regime de isolamento parcial, mantendo contato restrito com outros presos de alta periculosidade. Tornou-se uma figura quase mítica, recebendo cartas, visitas e até propostas de casamento.

Charles Manson morreu em 19 de novembro de 2017, aos 83 anos, em um hospital de Bakersfield, na Califórnia, por causas naturais. Não demonstrou arrependimento público pelos crimes associados a seu nome.

Sua morte encerrou a trajetória de um homem que, apesar de não ter cometido pessoalmente os assassinatos mais famosos, tornou-se um dos maiores símbolos da manipulação, do fanatismo e da violência do século XX.


Oswald Pohl



Oswald Pohl: o Administrador do Sistema de Extermínio Nazista

Oswald Ludwig Pohl nasceu em 30 de junho de 1892, na cidade alemã de Duisburg. Tornou-se um dos mais importantes oficiais da Schutzstaffel (SS), desempenhando papel central no funcionamento do sistema de campos de concentração e extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora não atuasse diretamente como carrasco, Pohl foi o principal responsável pelo controle administrativo, financeiro e econômico desses campos, organizando a exploração sistemática da mão de obra forçada e viabilizando, do ponto de vista logístico e burocrático, o assassinato em massa de milhões de judeus e outros grupos perseguidos pelo Terceiro Reich.

Após concluir a escola secundária em 1912, Pohl ingressou na Marinha Imperial Alemã, onde serviu durante a Primeira Guerra Mundial, atuando no Mar Báltico e na costa de Flandres.

Com a derrota alemã em 1918 e o colapso do Império, a Alemanha mergulhou em uma profunda crise política, econômica e social, cenário que favoreceu o surgimento de movimentos nacionalistas radicais.

No período pós-guerra, Pohl iniciou estudos em comércio e direito, mas abandonou a universidade para integrar os Freikorps, corpos paramilitares formados por veteranos de guerra e voluntários armados, frequentemente envolvidos na repressão violenta de movimentos socialistas e comunistas.

Essas experiências contribuíram para a radicalização política de Pohl e para sua futura adesão ao nacional-socialismo. Em Berlim, foi aceito na nova marinha alemã do pós-guerra e posteriormente transferido para a Polônia.

Em 1925, tornou-se membro das SA (Sturmabteilung), a milícia paramilitar do Partido Nazista, filiando-se formalmente ao NSDAP no ano seguinte. Sua ascensão foi rápida, impulsionada por sua habilidade administrativa e por sua lealdade ideológica.

O ponto decisivo de sua carreira ocorreu em 1933, quando conheceu Heinrich Himmler, líder da SS. Tornando-se um de seus protegidos, Pohl foi nomeado chefe do departamento administrativo do escritório do Reichsführer-SS.

Em 1934, recebeu a patente de SS-Standartenführer, passando a atuar diretamente no planejamento, organização e financiamento dos campos de concentração.

A partir de 1935, Pohl passou a supervisionar o sistema de campos, consolidando sua influência. Em 1939, assumiu o comando dos principais departamentos responsáveis pela construção, administração, orçamento e exploração econômica dos campos.

Sob sua direção, os prisioneiros passaram a ser tratados como recursos econômicos, sendo distribuídos conforme a demanda de trabalho forçado e até mesmo “alugados” a empresas privadas e projetos do Estado nazista.

O campo de Mauthausen tornou-se um dos exemplos mais brutais dessa política, com taxas de mortalidade extremamente elevadas.

Em 1942, Pohl foi promovido a SS-Obergruppenführer e general das Waffen-SS, alcançando um dos mais altos postos da hierarquia nazista. Dois anos depois, tornou-se o chefe administrativo das próprias Waffen-SS, ampliando ainda mais seu poder dentro do regime.

Nesse período, esteve à frente do WVHA (Escritório Central Econômico-Administrativo da SS), órgão diretamente ligado à implementação da chamada “Solução Final”.

Com o colapso do Terceiro Reich em 1945, Pohl fugiu e escondeu-se inicialmente na Baviera, depois nos subúrbios de Bremen. Foi localizado e preso pelas forças britânicas em 27 de maio de 1946.

No ano seguinte, foi levado a julgamento por um tribunal militar norte-americano, no chamado Julgamento de Pohl, um dos processos subsequentes aos Julgamentos de Nuremberg.

Pohl foi condenado à morte por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e assassinato em massa, devido à sua responsabilidade administrativa direta sobre os campos de concentração e extermínio.

A defesa sustentou que ele seria apenas um “funcionário técnico”, argumento rejeitado pelo tribunal, que considerou sua atuação essencial para o funcionamento do sistema genocida.

A execução, no entanto, não ocorreu imediatamente. Pohl apresentou diversos recursos legais e pedidos de clemência, inclusive apelos de caráter humanitário e religioso.

Após ter se afastado da Igreja Católica em 1935, reconciliou-se com ela durante o período de prisão, buscando apoio espiritual e institucional para evitar a pena capital.

Todas as apelações foram negadas. Em 7 de junho de 1951, Oswald Pohl foi enforcado na prisão de Landsberg, local onde outros criminosos nazistas também cumpriram suas sentenças.

Até o fim, insistiu em sua inocência, afirmando ter sido apenas um administrador obediente às ordens do Estado. A história de Oswald Pohl evidencia como o genocídio nazista não foi apenas obra de assassinos diretos, mas também de burocratas eficientes, que transformaram o extermínio humano em um sistema organizado, racionalizado e economicamente explorado.

domingo, janeiro 18, 2026

Loucura

“Amamos a vida não porque estamos acostumados a viver, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre também alguma razão na loucura.”

- Friedrich Nietzsche

Essa frase belíssima captura uma das ideias mais profundas do filósofo sobre a existência humana: o amor não é apenas um acidente ou um hábito da vida, ele é o que dá sentido e vigor à própria vida.

Não amamos a existência simplesmente por estarmos nela há anos, por rotina ou por inércia biológica. Amamos a vida porque o ato de amar - seja a uma pessoa, uma causa, uma arte, um ideal ou o próprio mistério do existir - nos torna capazes de afirmar a vida com entusiasmo, mesmo diante de suas dores e contradições.

Nietzsche sugere que o amor carrega inevitavelmente um elemento de loucura, ele nos faz exagerar, idealizar, arriscar, perder a medida, ignorar cálculos frios de conveniência.

Quem ama de verdade frequentemente age de modo que, aos olhos da razão estreita e utilitária, parece absurdo ou imprudente. No entanto, nessa aparente desrazão há uma sabedoria mais profunda: a loucura do amor muitas vezes revela verdades que a pura racionalidade não alcança.

Ela nos conecta ao instinto vital, à força dionisíaca que impulsiona a criação, a superação e a afirmação do mundo tal como ele é, belo e cruel ao mesmo tempo.

Em um mundo cada vez mais calculista e controlado - especialmente nestes tempos de algoritmos, métricas de produtividade e relacionamentos “otimizados” -, essa frase de Nietzsche soa quase como um manifesto de resistência.

Ela nos lembra que o que realmente nos mantém vivos não é a segurança, a previsibilidade ou o conforto, mas a capacidade de nos entregarmos a algo maior que nós mesmos - mesmo que isso envolva um pouco de desatino.

E você, já sentiu essa loucura razoável em algum momento da sua vida? Aquele instante em que o coração gritou mais alto que qualquer argumento sensato? Nietzsche diria que, nesses momentos, estamos mais próximos daquilo que realmente vale a pena ser chamado de “viver”.

Nos Banheiros da Roma Antiga



Na Roma Antiga, a higiene pessoal ocupava um lugar de grande importância no cotidiano da população. Por essa razão, os governantes investiram na construção de numerosos balneários públicos, espaços amplos e sofisticados onde homens e mulheres, em horários distintos, tomavam longos banhos coletivos.

Esses locais não eram apenas destinados à limpeza do corpo, mas também funcionavam como centros de convivência social, lazer e até negócios. Entretanto, quando se tratava da eliminação de resíduos corporais, a situação era bem diferente.

Inicialmente, muitas pessoas utilizavam vasilhas domésticas, descartando seu conteúdo em terrenos baldios, ruas ou cursos d’água. Outros simplesmente faziam suas necessidades no mato, o que contribuía para a sujeira, o mau cheiro e a proliferação de doenças dentro da cidade.



Com o crescimento urbano e o agravamento desses problemas, o governo romano passou a se preocupar mais seriamente com a limpeza e a salubridade urbana.

Assim, durante o período republicano (509–27 a.C.), surgiram os primeiros banheiros públicos, conhecidos como latrinae. Diferentemente dos balneários, esses espaços eram destinados exclusivamente à micção e à defecação.

A latrina pública consistia, em geral, em uma longa bancada de pedra com diversos orifícios alinhados, sobre os quais as pessoas se sentavam para realizar suas necessidades.

Nas construções mais avançadas para a época, havia um engenhoso sistema hidráulico: um fluxo contínuo de água corria sob os assentos, conduzindo os dejetos para os esgotos, frequentemente ligados à famosa Cloaca Máxima, uma das maiores obras de engenharia sanitária do mundo antigo.

Havia, sim, separação entre banheiros masculinos e femininos, mas a noção de privacidade praticamente não existia. Homens e mulheres faziam suas necessidades diante de outras pessoas, conversando naturalmente.

 


As latrinas tornaram-se, assim, espaços de sociabilidade inesperada: ali se discutiam acontecimentos políticos, fofocas do dia, combinavam-se jantares, encontros e até negócios. Em alguns casos, especialmente entre as mulheres, aproveitava-se o tempo para pequenos trabalhos manuais, como bordados.

Esses locais eram mantidos por escravos e escravas, responsáveis pela limpeza e pela manutenção básica. Também auxiliavam os usuários com utensílios de higiene, entre eles a famosa tersorium: uma esponja presa a um cabo, utilizada para limpeza íntima e compartilhada por todos.

Doenças e riscos à saúde

Apesar de representarem um avanço em termos de organização urbana, as latrinas estavam longe de serem ambientes saudáveis. Eram geralmente úmidas, escuras e mal ventiladas, o que favorecia o surgimento de ratos, insetos e outros animais que, não raramente, mordiam ou picavam as nádegas e as pernas dos usuários.

Além disso, o acúmulo de gases como o metano nos esgotos chegou, em alguns relatos, a provocar pequenas chamas ou explosões ocasionais, aumentando ainda mais o temor em torno desses espaços.



O uso compartilhado das esponjas de limpeza contribuía significativamente para a disseminação de bactérias e parasitas, podendo favorecer doenças graves, como a febre tifoide, infecções intestinais e outras enfermidades transmitidas por contaminação fecal. Some-se a isso o contato constante com o ambiente do esgoto, onde não era raro sofrer mordidas ou picadas de animais que ali habitavam.

Assim, as latrinas romanas simbolizam um paradoxo da civilização antiga: ao mesmo tempo em que revelam o alto nível de engenharia, organização urbana e vida social dos romanos, também expõem os limites do conhecimento sanitário da época e os riscos cotidianos enfrentados por uma população que buscava, à sua maneira, conciliar convivência, higiene e sobrevivência.


sábado, janeiro 17, 2026

Voo Helios Airways 522


 

No dia 14 de agosto de 2005, um Boeing 737-300 da companhia cipriota Helios Airways, operando o voo 522, tornou-se protagonista de uma das mais silenciosas e perturbadoras tragédias da aviação civil europeia.

A aeronave decolou de Larnaca, no Chipre, com destino a Praga, fazendo escala em Atenas. Nada indicava, nos primeiros minutos, que aquele voo terminaria de forma tão devastadora.

Horas depois, o Boeing passou a sobrevoar a região de Atenas em círculos, em um padrão incomum e inquietante. Alarmadas pela ausência de comunicação com a cabine, as autoridades gregas enviaram dois caças F-16 da Força Aérea Helênica para interceptar a aeronave e verificar o que acontecia.

Os pilotos dos caças se aproximaram e conseguiram observar o interior do cockpit. Viram uma pessoa sentada no assento do comandante, aparentemente inconsciente, enquanto o copiloto permanecia imóvel.

A cabine estava silenciosa. Nenhum sinal de reação. O avião seguia sob o controle exclusivo do piloto automático, obedecendo apenas à lógica fria dos sistemas de navegação.

Pouco depois, sem intervenção humana possível, o Boeing 737-300 colidiu com uma montanha a nordeste de Atenas. Todos os 121 passageiros e tripulantes morreram.

As investigações revelaram uma sequência trágica de erros e omissões. A causa inicial do acidente foi a não pressurização da cabine. Durante uma inspeção em solo, engenheiros de manutenção deixaram o sistema de pressurização ajustado para o modo manual, quando o procedimento correto exigia que estivesse em automático. Esse detalhe aparentemente banal selou o destino da aeronave.

À medida que o avião ganhava altitude, o ar na cabine tornou-se cada vez mais rarefeito. Em poucos minutos, por volta dos 3.000 metros, a tripulação e a maioria dos passageiros já apresentavam sintomas severos de hipóxia.

Pouco depois, cerca de 120 das 121 pessoas a bordo perderam completamente a consciência, entrando em estado de anoxia profunda.

A autópsia confirmou que a causa da morte foi o impacto da queda, e não a despressurização em si - um dado que apenas reforça o caráter cruel da tragédia: muitos ainda estavam vivos quando o avião tocou a montanha.

Entre todos, apenas Andreas Prodromou, comissário de bordo, conseguiu manter-se consciente por mais tempo. Acredita-se que ele tenha sobrevivido graças ao uso de cilindros extras de oxigênio, disponíveis para emergências. Em um esforço heroico, Andreas percorreu o corredor da aeronave, utilizou máscaras suplementares e conseguiu chegar ao cockpit.

Seu objetivo era claro: assumir o controle do avião e tentar salvá-lo. O gesto era ainda mais carregado de simbolismo. Andreas havia recebido recentemente sua licença de pilotagem e sonhava, um dia, tornar-se piloto da própria Helios Airways.

Diante do caos absoluto, tentou transformar esse sonho em última esperança. Contudo, o tempo, o combustível e as limitações técnicas já não estavam a seu favor. Sem combustível suficiente e sem condições reais de recuperação, o voo 522 continuou em voo automático por quase três horas, até o desfecho inevitável.

O acidente da Helios Airways permanece como um dos exemplos mais dramáticos de como uma falha humana aparentemente simples, aliada à ausência de resposta rápida e à fragilidade do corpo humano diante da falta de oxigênio, pode desencadear uma cadeia irreversível de eventos.

É também um lembrete contundente de que, na aviação, cada detalhe importa - e que, muitas vezes, o silêncio pode ser tão mortal quanto o erro.

O Padre Moderno


Era sábado à noite quando aquele padre moderninho, adepto de homilias leves e discursos atualizados, resolveu fazer uma visita pastoral a um dos membros mais assíduos da paróquia.

Imaginava encontrar uma família reunida, talvez um café simples, algumas queixas espirituais e a costumeira conversa edificante.

Mal tocou a campainha, porém, foi recebido por uma cena que nenhum seminário ousaria preparar: o anfitrião surgiu completamente nu, sorridente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Antes mesmo que o padre pudesse articular qualquer palavra, foi atingido por uma explosão de sons vindos do interior da casa: gritaria, música sensual em volume exagerado e gargalhadas escancaradas. Bastou um rápido olhar para perceber que ali acontecia uma festa nada convencional, dessas que jamais entram nos relatórios paroquiais.

- Entre, padre! - convidou o dono da casa, com a maior naturalidade, abrindo espaço na porta.

O sacerdote recuou instintivamente, mas a curiosidade - e talvez um resquício de ingenuidade pastoral - o fez espiar para dentro. Foi então que o anfitrião, orgulhoso do espetáculo, explicou:

- Estamos brincando de um joguinho muito interessante! Está vendo aquelas garotas de olhos vendados? Pois é… elas precisam apalpar o peru dos homens para descobrir quem é quem. Um desafio de percepção, entende? Quer participar? É divertidíssimo!

O padre sentiu o rosto arder. Endireitou o colarinho, pigarreou e respondeu, tentando manter a dignidade:

- Desculpe, meu filho, mas creio sinceramente que aqui não é o meu lugar.

Já se preparava para virar as costas quando ouviu a réplica, carregada de malícia:

- Ora, padre! Deixe de cerimônias! O senhor está fazendo sucesso… Seu nome já foi citado três vezes nas tentativas de adivinhação!

O padre saiu apressado, murmurando uma oração que misturava espanto, constrangimento e um leve questionamento interior. Afinal, naquela noite, quem mais precisaria de absolvição: os fiéis ou a própria ideia de modernidade?

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Violet Hilton e Daisy Hilton



Violet e Daisy Hilton foram gêmeas siamesas nascidas em 5 de fevereiro de 1908, em Brighton, na Inglaterra. Elas se tornaram famosas como artistas de entretenimento, passando de atrações de espetáculos secundário para estrelas de vaudeville e cinema nos Estados Unidos.

Sua mãe, Kate Skinner, era uma garçonete solteira que trabalhava em um pub. As meninas nasceram unidas pelos quadris e nádegas, compartilhando a circulação sanguínea e fundidas na pelve, mas possuíam órgãos vitais separados, o que, hoje em dia, facilitaria uma separação cirúrgica, mas na época era considerado impossível sem risco fatal.

O parto foi assistido pela empregadora de Kate, Mary Hilton, uma parteira e dona de pub que imediatamente viu potencial comercial nas gêmeas. Kate, possivelmente acreditando que a condição das filhas era um castigo divino por sua gravidez fora do casamento, entregou-as a Mary Hilton, que assumiu efetivamente a custódia.

As gêmeas passaram a infância sendo exibidas em pubs de Brighton, como o Queen's Head e depois o Evening Star, onde o público pagava para vê-las e até tocá-las. Mary Hilton, junto com o marido e a filha, exercia controle rígido, com relatos de abusos físicos, forçando-as a chamá-la de "Auntie Lou" (Tia Lou) e o marido de "Sir".

Elas foram treinadas intensivamente em canto, dança, sapateado e instrumentos musicais - como saxofone, violino, piano e clarinete - para se destacarem de outras atrações. Um relato médico detalhado do nascimento foi publicado no British Medical Journal pelo Dr. James Augustus Rooth, que atendeu o parto.

Ele destacou que as Hilton foram as primeiras gêmeas siamesas nascidas no Reino Unido a sobreviverem mais do que algumas semanas. A Sussex Medico-Chiurgical Society avaliou a possibilidade de separação, mas decidiu unanimemente contra, pois a cirurgia mataria pelo menos uma delas.

Aos três anos (1911), elas iniciaram turnês como "The United Twins" ou "The Double Bosses" na Grã-Bretanha, depois na Alemanha, Austrália e, a partir de 1916, nos Estados Unidos. Mary Hilton explorava-as em espetáculos com narrativas sensacionalistas, ficando com todo o dinheiro ganho.

Após a morte de Mary em 1919 sua filha Edith e o genro Myer (ou Meyer) Meyers assumiram o controle, continuando os abusos e treinando-as em jazz para torná-las mais únicas.

Em 1926, elas atuaram no show "Dancemedians" de Bob Hope, com números de sapateado. Moraram em uma mansão em San Antônio, Texas, por volta de 1930. Em 1931, as irmãs processaram os empresários Meyers em San Antônio, conquistando a emancipação legal, o rompimento do contrato e US$ 100.000 em danos (equivalente a cerca de US$ 1,7 milhão hoje).

Livre, elas abandonaram os espetáculos e passaram ao vaudeville com "The Hilton Sisters' Revue". Daisy tingiu o cabelo de loiro, e elas adotaram roupas diferentes para se distinguirem visualmente.

Tornaram-se atrações populares, com performances sofisticadas. A vida amorosa foi complicada: tiveram vários relacionamentos, mas pedidos de licença de casamento foram negados em pelo menos 21 estados por "indecência".

Violet ficou noiva do músico Maurice Lambert, mas sem sucesso. Houve um casamento de Violet com James Moore em 1936 no Cotton Bowl (Dallas), mas foi admitido como façanha publicitário (ele era gay).

Daisy engravidou uma vez, mas o filho foi dado para adoção. Elas apareceram no filme clássico Freaks (1932), de Tod Browning, interpretando a si mesmas. Em 1951, estrelaram Chained for Life, um filme exploração vagamente baseado em suas vidas, com trama de crime.

Com o declínio do vaudeville e burlesca nos anos 1940-1950, a fama diminuiu. Elas tentaram negócios como um snack bar em Miami, mas falhou. A última aparição pública foi em 1961, promovendo uma reexibição de Freaks em um drive-in em Charlotte, Carolina do Norte.

Abandonadas pelo gerente da turnê, sem dinheiro para voltar, aceitaram emprego em um supermercado (Park-N-Shop), trabalhando no caixa e na seção de hortifrúti - o dono adaptou o balcão para duas pessoas.

Em 4 de janeiro de 1969, após faltarem ao trabalho durante a pandemia de gripe Hong Kong (1968-1969, que matou milhões globalmente), o chefe chamou a polícia.

Elas foram encontradas mortas em casa, aos 60 anos. A autópsia indicou que Daisy morreu primeiro de complicações da gripe; Violet sobreviveu de 2 a 4 dias, devido à circulação compartilhada, Violet provavelmente enfraqueceu rapidamente.

Foram enterradas no Forest Lawn West Cemetery, em Charlotte, dividindo túmulo com outro falecido (sem lápide própria). Seu legado continua em obras culturais: em 1989, o musical Twenty Fingers Twenty Toes estreou off-Broadway (35 apresentações), com enredo fiel no início, mas fictício depois (tentativa de separação adulta).

Em 1997, Side Show (livro e letras de Bill Russell, música de Henry Krieger) estreou na Broadway, recebendo 4 indicações ao Tony Awards; revival em 2014. A história inspirou documentários e livros, destacando exploração, resiliência e busca por aceitação.

As Hilton representam uma trajetória trágica de exploração desde a infância até a independência tardia, mas com talento e determinação que as tornaram ícones da era do vaudeville.

 

Incitatus - O cavalo Senador de Roma


A História, com sua vastidão de episódios e personagens, reserva acontecimentos tão insólitos que beiram o inacreditável. Entre eles está um dos fatos mais curiosos da Roma Antiga: a nomeação de um cavalo como senador.

Seu nome era Incitatus, e sua trajetória tornou-se símbolo não apenas da excentricidade imperial, mas também da decadência política de um dos períodos mais turbulentos do Império Romano.

Roma foi governada, entre os anos 37 e 41 d.C., por Caio Júlio César Augusto Germânico, mais conhecido como Calígula. Terceiro imperador romano e membro da dinastia júlio-claudiana - inaugurada por Augusto -, Calígula subiu ao poder ainda jovem, aos 24 anos, cercado de expectativas.

No entanto, seu reinado logo se transformou em sinônimo de arbitrariedade, extravagância, crueldade e desequilíbrio. O apelido “Calígula”, que significa “botinhas”, foi-lhe dado ainda na infância pelos soldados das legiões comandadas por seu pai, Germânico.

Achavam curioso vê-lo vestido como um pequeno legionário, calçando as caligae, as sandálias militares romanas. O que começou como uma alcunha afetuosa acabou por se tornar o nome pelo qual seria eternamente lembrado, ironicamente associado à tirania e à loucura.

Entre as muitas excentricidades atribuídas ao imperador, nenhuma ganhou tanta notoriedade quanto sua obsessão por um cavalo de corrida chamado Incitatus.

O animal teria sido trazido da Hispânia, região de onde Roma importava, à época, cerca de dez mil cavalos por ano, destinados às corridas, ao exército e às elites aristocráticas.

Segundo o historiador Suetônio, autor de A Vida dos Doze Césares, Calígula dedicava a Incitatus cuidados dignos de um membro da família imperial. O cavalo possuía dezoito criados pessoais, responsáveis por seu trato, alimentação e descanso.

Para evitar qualquer ruído que pudesse perturbá-lo antes das corridas, o imperador ordenava silêncio absoluto nas redondezas de seu estábulo. Incitatus usava um colar adornado com pedras preciosas, dormia envolto em mantas de púrpura - cor reservada exclusivamente à realeza - e era alimentado em comedouros de marfim.

Havia ainda uma estátua em tamanho natural, esculpida em mármore, com pedestal igualmente luxuoso, perpetuando a imagem do cavalo como um verdadeiro símbolo de ostentação imperial.

Entretanto, o episódio mais controverso - e emblemático - foi a decisão de nomear Incitatus senador de Roma. Mais do que um gesto de loucura isolada, muitos historiadores interpretam essa atitude como uma provocação deliberada ao Senado.

Ao elevar um animal à mais alta esfera política, Calígula teria demonstrado seu desprezo pela elite senatorial, insinuando que até um cavalo seria mais digno do cargo do que muitos dos homens que o ocupavam.

Relatos indicam ainda que o imperador cogitou torná-lo cônsul e até sacerdote, cargos de extrema importância política e religiosa. Contudo, seus planos foram interrompidos quando Calígula foi assassinado, aos 28 anos, em uma conspiração liderada pela Guarda Pretoriana, cansada de seus abusos e temerosa por sua própria sobrevivência.

Com a morte do imperador, a improvável carreira política de Incitatus chegou ao fim. O cavalo senador tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da degradação do poder absoluto, da vaidade desenfreada e da fragilidade das instituições quando submetidas à tirania.

Assim, Incitatus permanece na memória histórica não apenas como um episódio curioso, mas como um retrato vívido de um império que, mesmo em seu esplendor, já dava sinais claros de sua própria decadência.


quinta-feira, janeiro 15, 2026

Amor na Estação

 


Veja como a geada realça lindamente os detalhes desta escultura, destacando texturas, contornos e até uma certa melancolia poética no bronze. A obra se chama Departure (Partida) e é uma escultura em bronze de tamanho real criada pelo artista americano George Lundeen - nascido em 1948, em Holdrege, Nebraska.

O próprio artista conta a origem da peça: “A peça original veio de um esboço que fiz na estação ferroviária de Roma, Itália. Havia alguns jovens sentados no chão de mármore à minha frente.

Tornou-se a primeira escultura em tamanho natural que eu fiz.” Lundeen, que estudou na Accademia di Belle Arti em Florença (Itália) como bolsista Fulbright-Hayes, capturou naquele momento casual um instante universal: um casal jovem esperando um trem, abraçados em um banco, com uma mala ao lado.

O homem envolve a mulher com o braço, transmitindo conforto e intimidade em meio à incerteza da partida. A escultura transmite o impulso humano de viajar, crescer e mudar, temas que o artista explora frequentemente ao transformar cenas cotidianas em bronze.

O processo de criação começou com um esboço rápido em 1973, evoluiu para um modelo em argila e culminou em bronze entre 1984 e 1986. Departure foi premiada pela National Sculpture Society, medalha de bronze em 1981 e medalha de bronze na exposição Prizewinner em 1983, o que ajudou a consolidar Lundeen como um dos principais escultores figurativos dos EUA.

Ele fundou o estúdio Lundeen Sculptures em Loveland, Colorado, hoje um dos maiores centros de escultura em bronze do país, onde várias cópias da obra foram fundidas.

A versão que aparece coberta de geada está nos Jardins Botânicos VanDusen, em Vancouver, Canadá (especificamente na área Cleghorn Family Landing). Foi doada à VanDusen Botanical Garden Association em 2013 e faz parte da coleção de arte pública da cidade.

Não é uma peça única: existem outras cópias idênticas ou semelhantes em locais como Greenwood Village (Colorado), Idaho State University e possivelmente Loveland.

Um detalhe curioso: em março de 2021, uma foto tirada em uma manhã fria no VanDusen viralizou nas redes (especialmente no Reddit e em sites de arte), mostrando exatamente essa camada fina de geada que dá à escultura um ar etéreo, quase como se o casal estivesse "congelado no tempo".

A geada destaca os relevos do bronze, realçando o abraço protetor e a expressão serena, transformando a obra em algo ainda mais poético e emocional - um contraste perfeito entre o frio externo e o calor humano interno.

George Lundeen continua ativo, produzindo esculturas figurativas realistas que celebram a vida cotidiana, e Departure permanece uma de suas peças mais queridas e reconhecidas, simbolizando transições, despedidas e a força dos laços afetivos.