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terça-feira, fevereiro 17, 2026

Além do mais


Além disso, assim como o país mais feliz e autossuficiente é aquele que precisa de pouca ou nenhuma importação - pois depende minimamente de fatores externos imprevisíveis -, também o homem mais feliz e verdadeiramente afortunado é aquele cuja riqueza interior lhe basta plenamente e que requer, para seu entretenimento, prazer e sentido na vida, muito pouco ou quase nada do mundo exterior.

Pois semelhante “importação” - ou seja, a busca incessante por estímulos, validações, bens, companhia ou distrações alheias - costuma ser cara demais: cobra alto preço em tempo, energia e tranquilidade; gera dependência de circunstâncias volúveis; expõe a perigos constantes (decepções, traições, perdas, inveja alheia).

Provoca desgosto frequente quando o suprimento externo falha ou se revela inferior ao esperado; e, no fundo, oferece apenas um pobre e instável substituto para aquilo que o próprio “solo” interior poderia produzir em abundância e com autenticidade. Do exterior, dos outros, da sociedade em geral, nunca se pode esperar muito - e, na maioria das vezes, esperar pouco já é prudente.

Os acontecimentos da vida cotidiana confirmam isso de forma implacável: amizades se desfazem por motivos mesquinhos, amores se transformam em indiferença ou rancor, reputações são construídas com esforço e destruídas num instante por fofocas ou mal-entendidos, honrarias e aplausos vêm e vão como modas passageiras, e até as maiores conquistas materiais se mostram insuficientes quando a saúde fraqueja ou o tédio se instala.

A sucessão de eventos - promoções que não trazem paz, viagens que logo se esquecem, festas que deixam vazio maior no dia seguinte - revela sempre a mesma lição: o que vem de fora é transitório, incerto e, em última análise, incapaz de preencher o vazio essencial do ser.

O que alguém pode ser verdadeiramente para outrem tem limites bastante estreitos. Podemos oferecer companhia, apoio temporário, palavras de consolo, risos compartilhados, até mesmo amor - mas nunca podemos habitar a consciência alheia, nem curar suas angústias mais profundas, nem a livrar do confronto inevitável consigo mesma.

No final das contas, cada um permanece só. E então se trata precisamente disso: saber quem está só. Se nessa solidão inevitável encontramos um companheiro interessante, culto, sereno e capaz de se entreter com seus próprios pensamentos, leituras, memórias e criações, então a solidão se torna um refúgio privilegiado.

Se, ao contrário, nela só encontramos tédio, inquietação, remorsos ou um vazio insuportável, então a solidão se transforma em castigo - e é exatamente aí que reside a diferença decisiva entre o homem sábio e o homem comum. Cultivar essa riqueza interior - por meio da reflexão, do estudo, da arte, da observação lúcida da própria mente, do cultivo de um temperamento equilibrado e de uma imaginação fecunda - é, portanto, o maior investimento que se pode fazer.

Ele nos torna menos vulneráveis aos caprichos do destino, menos dependentes das flutuações do mundo social e mais capazes de atravessar, com dignidade e até com uma certa alegria discreta, as inevitáveis tormentas e calmarias da existência.

Essa ideia, tão cara a Schopenhauer, não é um convite ao isolamento misantropo, mas a uma independência serena: saber que o centro da vida está dentro de nós mesmos, e que tudo o mais - por mais atraente que pareça - é, em última instância, acessório.

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