Além disso, assim como o país mais feliz e
autossuficiente é aquele que precisa de pouca ou nenhuma importação - pois
depende minimamente de fatores externos imprevisíveis -, também o homem mais
feliz e verdadeiramente afortunado é aquele cuja riqueza interior lhe basta
plenamente e que requer, para seu entretenimento, prazer e sentido na vida,
muito pouco ou quase nada do mundo exterior.
Pois semelhante “importação” - ou seja, a
busca incessante por estímulos, validações, bens, companhia ou distrações
alheias - costuma ser cara demais: cobra alto preço em tempo, energia e
tranquilidade; gera dependência de circunstâncias volúveis; expõe a perigos
constantes (decepções, traições, perdas, inveja alheia).
Provoca desgosto frequente quando o
suprimento externo falha ou se revela inferior ao esperado; e, no fundo,
oferece apenas um pobre e instável substituto para aquilo que o próprio “solo”
interior poderia produzir em abundância e com autenticidade. Do exterior, dos
outros, da sociedade em geral, nunca se pode esperar muito - e, na maioria das
vezes, esperar pouco já é prudente.
Os acontecimentos da vida cotidiana confirmam
isso de forma implacável: amizades se desfazem por motivos mesquinhos, amores
se transformam em indiferença ou rancor, reputações são construídas com esforço
e destruídas num instante por fofocas ou mal-entendidos, honrarias e aplausos
vêm e vão como modas passageiras, e até as maiores conquistas materiais se
mostram insuficientes quando a saúde fraqueja ou o tédio se instala.
A sucessão de eventos - promoções que não
trazem paz, viagens que logo se esquecem, festas que deixam vazio maior no dia
seguinte - revela sempre a mesma lição: o que vem de fora é transitório,
incerto e, em última análise, incapaz de preencher o vazio essencial do ser.
O que alguém pode ser verdadeiramente para
outrem tem limites bastante estreitos. Podemos oferecer companhia, apoio temporário,
palavras de consolo, risos compartilhados, até mesmo amor - mas nunca podemos
habitar a consciência alheia, nem curar suas angústias mais profundas, nem a
livrar do confronto inevitável consigo mesma.
No final das contas, cada um permanece só. E
então se trata precisamente disso: saber quem está só. Se nessa solidão
inevitável encontramos um companheiro interessante, culto, sereno e capaz de se
entreter com seus próprios pensamentos, leituras, memórias e criações, então a
solidão se torna um refúgio privilegiado.
Se, ao contrário, nela só encontramos tédio,
inquietação, remorsos ou um vazio insuportável, então a solidão se transforma
em castigo - e é exatamente aí que reside a diferença decisiva entre o homem
sábio e o homem comum. Cultivar essa riqueza interior - por meio da reflexão,
do estudo, da arte, da observação lúcida da própria mente, do cultivo de um
temperamento equilibrado e de uma imaginação fecunda - é, portanto, o maior
investimento que se pode fazer.
Ele nos torna menos vulneráveis aos caprichos
do destino, menos dependentes das flutuações do mundo social e mais capazes de
atravessar, com dignidade e até com uma certa alegria discreta, as inevitáveis
tormentas e calmarias da existência.
Essa ideia, tão cara a Schopenhauer, não é um convite ao isolamento misantropo, mas a uma independência serena: saber que o centro da vida está dentro de nós mesmos, e que tudo o mais - por mais atraente que pareça - é, em última instância, acessório.









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