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domingo, fevereiro 22, 2026

Falhas Divinas


Quando alguém agradece a Deus por ter sido salvo de uma doença grave, de um acidente ou de uma tragédia, na verdade está celebrando apenas o cumprimento de uma obrigação mínima.

Afinal, se Deus é o criador absoluto de todas as coisas - o universo inteiro, as leis da natureza, a biologia, o tempo e o espaço -, ele também criou (ou ao menos permitiu) as condições para que existissem desgraças, doenças, desastres naturais, pandemias, terremotos, cânceres, guerras e sofrimentos de toda ordem.

Salvar alguém de um mal que ele mesmo instituiu ou consentiu não é um ato extraordinário de bondade; é, no mínimo, reparar parcialmente o dano que o sistema por ele projetado permite ou provoca.

O conceito de livre-arbítrio apresentado pela teologia tradicional também é problemático. Na prática, ele não é verdadeiramente livre: reduz-se a uma escolha binária forçada entre o "bem" (obedecer a Deus, seguir os mandamentos) e o "mal" (desobedecer, pecar).

Quem opta pelo "mal" enfrenta punição eterna ou sofrimento; quem opta pelo "bem" recebe recompensa. Isso se assemelha mais a uma coação disfarçada do que a uma liberdade genuína.

Um livre-arbítrio autêntico implicaria a existência de múltiplas opções viáveis, todas positivas ou neutras, sem ameaça de castigo desproporcional ou eterno por uma escolha "errada".

Na realidade, o modelo teísta clássico apresenta uma dicotomia coercitiva: obediência sob pena de tormento infinito ou submissão recompensada. Isso não é liberdade; é ultimato.

O argumento mais forte contra a existência de um Deus onisciente, onipotente e misericordioso permanece o clássico problema do mal, formulado já na Antiguidade (atribuído a Epicuro).

Se Deus é onisciente, ele sabia perfeitamente - desde a eternidade - que Adão e Eva (ou a humanidade em geral) iriam pecar, que o mal moral se espalharia, que bilhões sofreriam e que a maioria das almas acabaria condenada (segundo muitas doutrinas).

Se é onipotente, ele poderia ter criado um mundo onde o pecado fosse impossível sem violar a liberdade (por exemplo, um paraíso sem árvore do conhecimento, ou seres que livremente nunca escolhessem o mal).

Se é verdadeiramente misericordioso e amoroso, sem dúvida alguma teria evitado - ou ao menos minimizado drasticamente - tanto sofrimento inocente (crianças com câncer, vítimas de catástrofes, genocídios).

A coexistência desses três atributos (onisciência + onipotência + bondade infinita) com a quantidade e a qualidade do mal observável no mundo é logicamente incompatível.

Teólogos tentaram respostas como a "defesa do livre-arbítrio" (o mal moral seria necessário para que houvesse liberdade genuína) ou a ideia de Leibniz de que este seria "o melhor dos mundos possíveis" (onde o mal serve a um bem maior que não compreendemos).

No entanto, essas defesas esbarram em contraexemplos: por que um Deus onipotente não poderia criar seres livres que, por sua própria natureza, sempre escolhessem o bem?

Ou por que permitir males "desnecessários" (sofrimento animal antes da existência humana, desastres que matam milhares de inocentes) se o objetivo fosse apenas testar ou aperfeiçoar o livre-arbítrio?

Em resumo, a gratidão por "salvações" seletivas, o conceito restritivo de livre-arbítrio e a persistência inexplicável do mal formam um conjunto de incoerências que questionam seriamente as qualidades tradicionalmente atribuídas a Deus.

Se ele existe, ou não é onisciente, ou não é onipotente, ou não é misericordioso - ou, talvez, nenhuma dessas três coisas ao mesmo tempo, segundo a opinião de Perrone

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