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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Não a Religião



Quando me libertei do conforto da religião

Fui criado por pessoas que me diziam que tudo o que acontece é por vontade de Deus - e, quando as coisas não davam certo, simplesmente era chamado de “plano de Deus”.

Essa explicação era reconfortante na superfície: oferecia respostas prontas para o sofrimento, a injustiça e o imprevisível da vida. Mas, mesmo criança, eu já carregava questionamentos profundos.

Desde o jardim de infância, a grande questão que me incomodava era a justiça. Como poderia ser justo que minha salvação eterna dependesse da religião na qual nasci por acaso?

Se eu tivesse sido criado em outra fé - muçulmana, hindu, budista ou em nenhuma -, teria a mesma chance de “ir para o céu” que um cristão? Por que um Deus amoroso e onisciente condicionaria a eternidade a uma loteria geográfica e cultural?

Essas perguntas não vinham de rebeldia, mas de uma busca genuína por coerência e equidade no mundo. Quando finalmente me desprendi daquele suposto “conforto” religioso, não vivi isso como uma perda da fé.

Pelo contrário: foi uma descoberta de mim mesmo. Percebi que não precisava de uma autoridade externa para me guiar ou me consolar. Eu tenho convicção plena de que sou capaz de enfrentar qualquer situação, de aprender com os erros, de me reerguer das quedas e de construir sentido a partir das minhas próprias escolhas.

Há uma paz profunda - quase libertadora - na compreensão de que tenho apenas uma vida, aqui e agora. Não há ensaio, não há recompensa póstuma garantida, não há plano divino que justifique o sofrimento ou absolva a responsabilidade.

Sou o único responsável por ela: pelas minhas ações, pelas relações que cultivo, pelo impacto que deixo no mundo e pela forma como enfrento o inevitável fim. Essa perspectiva não traz desespero; traz urgência e valorização. Cada momento ganha peso real.

O amor, a empatia, a busca por justiça, a criação de beleza ou de conhecimento - tudo isso se torna mais precioso exatamente porque é finito e porque depende de nós.

Não há mais espaço para culpar um “plano maior” pelas falhas humanas ou pelas injustiças sociais; cabe a nós, humanos imperfeitos, corrigi-las. Essa ideia ecoa reflexões que Brad Pitt expressou em entrevistas ao longo dos anos.

Criado em um lar batista conservador no Missouri, ele também questionou o “plano de Deus” quando as coisas não se resolviam como esperado, e chegou a uma visão semelhante: a religião pode oferecer conforto temporário, mas a verdadeira autonomia surge quando assumimos o leme da própria existência.

No fim das contas, não se trata de rejeitar toda espiritualidade ou conexão com algo maior - muitos encontram isso na natureza, na humanidade ou na arte. Trata-se de recusar dogmas que diminuem nossa agência.

Quando paramos de esperar por respostas prontas do alto, começamos a construir as nossas próprias. E nisso reside uma das liberdades mais poderosas que um ser humano pode experimentar.

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