Quando me libertei do conforto da religião
Fui criado por pessoas que me diziam que tudo
o que acontece é por vontade de Deus - e, quando as coisas não davam certo,
simplesmente era chamado de “plano de Deus”.
Essa explicação era reconfortante na
superfície: oferecia respostas prontas para o sofrimento, a injustiça e o
imprevisível da vida. Mas, mesmo criança, eu já carregava questionamentos
profundos.
Desde o jardim de infância, a grande questão
que me incomodava era a justiça. Como poderia ser justo que minha salvação
eterna dependesse da religião na qual nasci por acaso?
Se eu tivesse sido criado em outra fé -
muçulmana, hindu, budista ou em nenhuma -, teria a mesma chance de “ir para o
céu” que um cristão? Por que um Deus amoroso e onisciente condicionaria a
eternidade a uma loteria geográfica e cultural?
Essas perguntas não vinham de rebeldia, mas
de uma busca genuína por coerência e equidade no mundo. Quando finalmente me
desprendi daquele suposto “conforto” religioso, não vivi isso como uma perda da
fé.
Pelo contrário: foi uma descoberta de mim
mesmo. Percebi que não precisava de uma autoridade externa para me guiar ou me
consolar. Eu tenho convicção plena de que sou capaz de enfrentar qualquer
situação, de aprender com os erros, de me reerguer das quedas e de construir
sentido a partir das minhas próprias escolhas.
Há uma paz profunda - quase libertadora - na
compreensão de que tenho apenas uma vida, aqui e agora. Não há ensaio, não há
recompensa póstuma garantida, não há plano divino que justifique o sofrimento
ou absolva a responsabilidade.
Sou o único responsável por ela: pelas minhas
ações, pelas relações que cultivo, pelo impacto que deixo no mundo e pela forma
como enfrento o inevitável fim. Essa perspectiva não traz desespero; traz
urgência e valorização. Cada momento ganha peso real.
O amor, a empatia, a busca por justiça, a
criação de beleza ou de conhecimento - tudo isso se torna mais precioso
exatamente porque é finito e porque depende de nós.
Não há mais espaço para culpar um “plano
maior” pelas falhas humanas ou pelas injustiças sociais; cabe a nós, humanos
imperfeitos, corrigi-las. Essa ideia ecoa reflexões que Brad Pitt expressou em
entrevistas ao longo dos anos.
Criado em um lar batista conservador no
Missouri, ele também questionou o “plano de Deus” quando as coisas não se
resolviam como esperado, e chegou a uma visão semelhante: a religião pode
oferecer conforto temporário, mas a verdadeira autonomia surge quando assumimos
o leme da própria existência.
No fim das contas, não se trata de rejeitar
toda espiritualidade ou conexão com algo maior - muitos encontram isso na
natureza, na humanidade ou na arte. Trata-se de recusar dogmas que diminuem
nossa agência.
Quando paramos de esperar por respostas
prontas do alto, começamos a construir as nossas próprias. E nisso reside uma
das liberdades mais poderosas que um ser humano pode experimentar.









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