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terça-feira, janeiro 20, 2026

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“Por que eu deveria permitir que o mesmo Deus que abandonou o seu próprio filho, na hora mais terrível, me diga como criar ou proteger o meu?”

Essa frase faz referência direta a um dos momentos mais dramáticos dos Evangelhos: a crucificação de Jesus. Segundo os relatos de Mateus (27:46) e Marcos (15:34), em meio à dor extrema e à iminência da morte, Jesus clama em aramaico:

“Eli, Eli, lamá sabactâni?”

- “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Esse grito, carregado de angústia existencial, é interpretado pela teologia cristã como parte do sacrifício redentor. No entanto, para pensadores críticos como Robert G. Ingersoll, ele representa algo muito diferente: o ápice de uma contradição moral difícil de conciliar com a ideia de um Deus ao mesmo tempo onipotente, onisciente e infinitamente amoroso.

Ingersoll utiliza esse episódio - talvez o mais emocionalmente intenso de todo o Novo Testamento - para questionar a autoridade moral de um Deus que, segundo a própria doutrina cristã, teria permitido - ou mesmo planejado - que seu filho unigênito enfrentasse uma morte cruel, pública, humilhante e aparentemente solitária.

O contraste com a experiência humana

O argumento ganha força quando Ingersoll estabelece um paralelo com a experiência humana comum. Pais e mães, em sua imensa maioria, fariam qualquer coisa para poupar seus filhos de um sofrimento extremo.

Mesmo pessoas imperfeitas, limitadas e falíveis, sentem um impulso quase instintivo de proteger aqueles que amam, especialmente seus filhos, do abandono, da tortura e da morte.

Diante disso, Robert G. Ingersoll provoca:

Se Deus é todo-poderoso e todo-amoroso, por que não interveio? Se o sofrimento era necessário, por que exigir fé cega diante de tamanha crueldade? Como alguém que, no momento decisivo, não poupou o próprio filho pode reivindicar autoridade moral para ensinar os seres humanos a amar, educar e proteger os seus?

A pergunta não é apenas teológica; ela é profundamente ética e emocional.

A crítica mais ampla de Robert G. Ingersoll

Essa frase se insere perfeitamente no pensamento mais amplo de Robert G. Ingersoll, um dos mais influentes oradores livres-pensadores do século XIX. Em obras e palestras como The Gods, Some Mistakes of Moses e Orthodoxy, ele atacava com veemência aquilo que considerava incoerências morais da religião institucionalizada. Entre suas ideias recorrentes, destacam-se afirmações como: Um Deus infinito não necessita de leis humanas para protegê-lo de críticas ou piadas.

A doutrina do inferno eterno reflete mais a crueldade de quem a criou do que qualquer noção elevada de justiça. Se existe um Deus que condena seus filhos ao sofrimento eterno, então esse Deus se assemelha mais a um tirano do que a um pai amoroso.

Nesse sentido, a imagem de um Deus que abandona o próprio filho no momento de maior desespero torna-se, para Ingersoll, simbólica de um problema maior: a tentativa de conciliar amor divino infinito com sofrimento extremo, tanto no caso de Jesus quanto na experiência cotidiana da humanidade.

Atualidade e impacto

Mais de um século depois, essa pergunta continua a incomodar, exatamente porque toca em um ponto sensível da fé cristã. Ela não oferece respostas fáceis, nem pretende fazê-lo. Seu poder está em obrigar o leitor ou ouvinte a encarar a tensão entre doutrina, moralidade e experiência humana.

Trata-se de uma pergunta retórica devastadora, que não busca destruir a fé individual, mas desafiar sistemas teológicos que exigem obediência absoluta enquanto justificam dor, silêncio e abandono como virtudes sagradas.

É por isso que essa frase ainda circula, ainda provoca debates e ainda causa desconforto: ela expõe uma ferida que nunca foi completamente cicatrizada.


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