“Por que eu deveria permitir que o mesmo Deus
que abandonou o seu próprio filho, na hora mais terrível, me diga como criar ou
proteger o meu?”
Essa frase faz referência direta a um dos
momentos mais dramáticos dos Evangelhos: a crucificação de Jesus. Segundo os
relatos de Mateus (27:46) e Marcos (15:34), em meio à dor extrema e à iminência
da morte, Jesus clama em aramaico:
“Eli, Eli, lamá sabactâni?”
- “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?”
Esse grito, carregado de angústia
existencial, é interpretado pela teologia cristã como parte do sacrifício
redentor. No entanto, para pensadores críticos como Robert G. Ingersoll, ele
representa algo muito diferente: o ápice de uma contradição moral difícil de
conciliar com a ideia de um Deus ao mesmo tempo onipotente, onisciente e
infinitamente amoroso.
Ingersoll utiliza esse episódio - talvez o
mais emocionalmente intenso de todo o Novo Testamento - para questionar a
autoridade moral de um Deus que, segundo a própria doutrina cristã, teria
permitido - ou mesmo planejado - que seu filho unigênito enfrentasse uma morte
cruel, pública, humilhante e aparentemente solitária.
O contraste com a experiência humana
O argumento ganha força quando Ingersoll
estabelece um paralelo com a experiência humana comum. Pais e mães, em sua
imensa maioria, fariam qualquer coisa para poupar seus filhos de um sofrimento
extremo.
Mesmo pessoas imperfeitas, limitadas e
falíveis, sentem um impulso quase instintivo de proteger aqueles que amam,
especialmente seus filhos, do abandono, da tortura e da morte.
Diante disso, Robert G. Ingersoll provoca:
Se Deus é todo-poderoso e todo-amoroso, por
que não interveio? Se o sofrimento era necessário, por que exigir fé cega
diante de tamanha crueldade? Como alguém que, no momento decisivo, não poupou o
próprio filho pode reivindicar autoridade moral para ensinar os seres humanos a
amar, educar e proteger os seus?
A pergunta não é apenas teológica; ela é
profundamente ética e emocional.
A crítica mais ampla de Robert G. Ingersoll
Essa frase se insere perfeitamente no
pensamento mais amplo de Robert G. Ingersoll, um dos mais influentes oradores
livres-pensadores do século XIX. Em obras e palestras como The Gods, Some
Mistakes of Moses e Orthodoxy, ele atacava com veemência aquilo que considerava
incoerências morais da religião institucionalizada. Entre suas ideias
recorrentes, destacam-se afirmações como: Um Deus infinito não necessita de
leis humanas para protegê-lo de críticas ou piadas.
A doutrina do inferno eterno reflete mais a
crueldade de quem a criou do que qualquer noção elevada de justiça. Se existe
um Deus que condena seus filhos ao sofrimento eterno, então esse Deus se
assemelha mais a um tirano do que a um pai amoroso.
Nesse sentido, a imagem de um Deus que
abandona o próprio filho no momento de maior desespero torna-se, para
Ingersoll, simbólica de um problema maior: a tentativa de conciliar amor divino
infinito com sofrimento extremo, tanto no caso de Jesus quanto na experiência
cotidiana da humanidade.
Atualidade e impacto
Mais de um século depois, essa pergunta
continua a incomodar, exatamente porque toca em um ponto sensível da fé cristã.
Ela não oferece respostas fáceis, nem pretende fazê-lo. Seu poder está em
obrigar o leitor ou ouvinte a encarar a tensão entre doutrina, moralidade e
experiência humana.
Trata-se de uma pergunta retórica
devastadora, que não busca destruir a fé individual, mas desafiar sistemas
teológicos que exigem obediência absoluta enquanto justificam dor, silêncio e
abandono como virtudes sagradas.
É por isso que essa frase ainda circula,
ainda provoca debates e ainda causa desconforto: ela expõe uma ferida que nunca
foi completamente cicatrizada.










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