“O olhar interior transforma tudo e confere a cada coisa o complemento de beleza que lhe falta para que se torne verdadeiramente digna de nos agradar.” - Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais (1860)
Essa frase surge em um
contexto tão polêmico quanto fascinante. Em Os Paraísos Artificiais,
Baudelaire analisa os estados alterados de consciência provocados pelo haxixe -
e, em menor medida, pelo ópio - não como simples experiências recreativas, mas
como fenômenos estéticos e psicológicos.
Seu interesse não está apenas
na droga em si, mas no modo como ela afeta a percepção, amplia os sentidos e
desperta aquilo que ele chama de l’œil intérieur - o “olho interior”.
Sob a influência do haxixe,
segundo Baudelaire, o sujeito experimenta uma espécie de transfiguração
universal. Objetos triviais, paisagens comuns ou até situações desagradáveis
ganham uma intensidade estética extraordinária.
As cores parecem mais
vibrantes, os sons mais profundos, as ideias mais luminosas. O que antes
parecia imperfeito ou feio recebe um “suplemento de beleza” imaginado pela
mente exaltada. Tudo se reveste de significação. Tudo se torna digno de
contemplação.
Ele chega a afirmar que, nesse
estado, “tudo se torna matéria para gozo”. O indivíduo sente-se engrandecido,
quase soberano em sua própria percepção, como um rei solitário em sua convicção
íntima.
Há, contudo, uma ambiguidade:
esse sentimento de superioridade pode ser também uma ilusão narcísica, uma
exaltação temporária que dissolve os limites entre o real e o imaginado.
Essa reflexão conecta-se
profundamente à estética baudelairiana como um todo, especialmente à visão
apresentada em As Flores do Mal. Para Baudelaire, a beleza nunca é apenas
objetiva ou puramente exterior.
Ela nasce da tensão entre o
mundo e a consciência que o percebe. O poeta não é um simples observador; ele é
um transfigurador. Sua função é extrair do real uma dimensão oculta, revelar
correspondências invisíveis, encontrar o sublime até mesmo no decadente.
O “olhar interior” é,
portanto, uma potência criadora. Ele não apenas vê - ele recria. Completa o
mundo com aquilo que lhe falta: harmonia, intensidade, mistério, idealidade.
Essa capacidade não depende
necessariamente de substâncias externas. Ao contrário, Baudelaire sugere que o
verdadeiro artista possui naturalmente esse dom. A imaginação disciplinada, a
sensibilidade cultivada e a recusa do prosaico são suficientes para despertar
essa visão ampliada.
Ao mesmo tempo, Os Paraísos
Artificiais não é uma apologia ingênua das drogas. Baudelaire reconhece os
riscos: a dependência, o enfraquecimento da vontade, a perda da autonomia
criativa. Para ele, o haxixe oferece apenas uma caricatura do gênio - uma
simulação de inspiração.
O que a droga concede de forma
artificial e efêmera, o artista autêntico deve conquistar por meio do esforço e
da lucidez. Em sentido mais amplo, essa reflexão antecipa discussões modernas
sobre subjetividade, arte e percepção.
A psicologia contemporânea, a
fenomenologia e até a neurociência confirmariam, séculos depois, que a
percepção não é um espelho passivo da realidade, mas uma construção ativa da
mente.
O belo não está simplesmente
nas coisas; ele emerge da relação entre o objeto e o olhar que o interpreta. Assim,
o “olhar interior” pode ser entendido como uma metáfora poderosa para a
imaginação humana.
Ele nos lembra que o mundo não
é apenas aquilo que vemos, mas também aquilo que somos capazes de acrescentar a
ele. A realidade pode ser árida, imperfeita ou banal - mas a consciência criadora
tem o poder de insuflar sentido, profundidade e beleza onde antes havia apenas
indiferença.
Talvez seja essa a grande
lição de Baudelaire: não precisamos transformar o mundo exterior para que ele
nos agrade; precisamos, antes, transformar o modo como o contemplamos.









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