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sábado, janeiro 24, 2026

Princípio do fim



 

Esta fotografia captura o instante exato em que uma marmota se dá conta de que seu destino foi selado: à sua frente está uma raposa tibetana, silenciosa, atenta, pronta para o ataque. O olhar da presa, congelado no tempo, traduz um medo primal, aquele que antecede o fim e que atravessa todas as espécies.

A imagem foi registrada no planalto tibetano pelo fotógrafo chinês Yongqing Bao e conquistou o mais prestigioso reconhecimento da fotografia de natureza: o Wildlife Photographer of the Year, concedido pelo Museu de História Natural de Londres.

O júri destacou a obra por ter “capturado uma interação tão poderosa”, capaz de revelar, em um único quadro, a tensão absoluta entre vida e morte, predador e presa.

O medo da marmota é compreensível. Naquele ambiente inóspito, a mais de 4.500 metros acima do nível do mar, não há espaço para distrações nem segundas chances.

O planalto tibetano é um dos ecossistemas mais extremos do planeta, onde o frio intenso, o ar rarefeito e a escassez de recursos tornam a sobrevivência um desafio diário.

A raposa tibetana (Vulpes ferrilata) é um caçador diurno, astuto e solitário, perfeitamente adaptado a essas condições severas. Habita regiões elevadas do Nepal, da China e da Índia, e desenvolveu uma estratégia de caça baseada na paciência, no silêncio e na observação minuciosa.

Sua principal presa são pequenos mamíferos, especialmente marmotas e pikas, dos quais depende para sobreviver. O momento retratado na fotografia não é encenação nem crueldade gratuita: é a própria natureza em seu estado mais cru e honesto.

A imagem nos força a encarar uma verdade incômoda, a de que a vida selvagem é regida por um equilíbrio delicado, sustentado pela morte tanto quanto pela vida.

Sim, a raposa matou a marmota. Mas, ao fazê-lo, garantiu sua própria sobrevivência e a continuidade de um ciclo que existe muito antes da presença humana.

O impacto da fotografia não está apenas no desfecho trágico, mas na capacidade de revelar, com brutal clareza, a fragilidade da existência e a implacável lógica natural que governa o mundo selvagem.

Mais do que um registro técnico impecável, a imagem de Yongqing Bao é um lembrete visual de que, na natureza, não há vilões nem vítimas morais, apenas seres vivos lutando, cada um à sua maneira, para permanecer por mais um dia sob o céu vasto e indiferente do planalto tibetano.


Testemunhas de Jeová



Para compreendermos essa questão, é necessário começar por uma pergunta fundamental: o que é uma seita?

O Dicionário Aurélio - Século XXI define, entre outras acepções, seita como uma “comunidade fechada, de cunho radical”. Essa definição, embora simples, fornece um ponto de partida importante para a análise de determinados movimentos religiosos contemporâneos.

Ao tratar especificamente das Testemunhas de Jeová, a própria revista A Sentinela, edição de 15 de fevereiro de 1994, levanta a seguinte indagação:
“São as Testemunhas de Jeová uma seita?”

E prossegue afirmando que membros de seitas, com frequência, se isolam da família, dos amigos e até da sociedade em geral. A pergunta então se impõe: isso ocorre com as Testemunhas de Jeová? Deixemos que a própria organização responda por meio de suas publicações oficiais.

Isolamento da família e dos amigos

“Ainda há aqueles que pensam que podem permitir a si mesmos buscar associação com amigos ou familiares mundanos para entretenimento”
(A Sentinela, 15 de fevereiro de 1960 - edição em inglês).

Isolamento da sociedade

“Não deve haver nenhuma parceria, nenhuma associação, nenhuma parte, nenhuma partilha com incrédulos. Por outras palavras, nenhuma associação com eles...”

(A Sentinela, mesma edição).

Isolamento de quem discorda

“Não queremos confraternizar com pecadores deliberados, porque não temos nada em comum com eles.”

(A Sentinela, 15 de março de 1996).

Essas declarações demonstram um padrão claro de separação sistemática, não apenas do mundo exterior, mas também de qualquer pessoa que não compartilhe integralmente da visão da organização.

Radicalismo e hostilidade aos dissidentes

Como são tratados aqueles que abandonam a organização ou passam a discordar de seus ensinos?

“Nunca os receba em seu lar nem os cumprimente... Estas são palavras enfáticas, orientações claras.”

(A Sentinela, 15 de março de 1986, p. 13).

Mais adiante, a própria revista legitima esse comportamento com base em uma interpretação bíblica:

“Queremos ter a lealdade que o rei Davi evidenciou ao dizer: ‘Acaso não odeio os que te odeiam intensamente, ó Jeová? Odeio-os com ódio consumado...’”

(A Sentinela, 15 de março de 1996, p. 16).

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: esse ensinamento promove amor ou fomenta o ódio?

A contradição evidente

A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando se compara tais declarações com outras publicações da própria organização:

“É verdade que as pessoas talvez discordem veementemente entre si nas suas crenças religiosas, mas não existe base para odiar uma pessoa só porque ela tem um ponto de vista diferente...”

(O Homem em Busca de Deus, p. 10).

Se não há base para o ódio, por que então ensinar o afastamento, a rejeição e até o desprezo por aqueles que pensam diferente ou que deixaram a organização?

Outra publicação reforça essa incoerência:

“Não tem sido culpada de representar uma farsa por dizerem ‘amamos a Deus’ ao passo que odeiam seus irmãos de outra nacionalidade, tribo ou raça.”

(Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, pp. 189–190).

À luz dessas próprias palavras, é legítimo questionar: o que foi apresentado até aqui pode realmente ser chamado de amor cristão?

Consequências práticas na vida dos adeptos

Não é necessário recorrer apenas à literatura para perceber os efeitos desse sistema de crenças. Basta observar a vida cotidiana de um membro das Testemunhas de Jeová. Eles são proibidos de receber transfusões de sangue, mesmo em situações de risco de vida; não participam de celebrações amplamente aceitas na sociedade, como Natal, Ano Novo ou aniversários; recusam-se a prestar serviço militar e afirmam ser a única religião verdadeira.

Esses elementos revelam um conjunto de práticas que reforçam o isolamento social, a obediência irrestrita à organização e uma visão exclusiva da verdade religiosa. Diante disso, a pergunta final é inevitável: você estaria disposto a viver sob tais restrições e sob constante vigilância doutrinária?

Conclusão

À luz das definições apresentadas, das próprias declarações oficiais da organização e das consequências práticas impostas aos seus membros, torna-se difícil negar que as Testemunhas de Jeová se enquadram no conceito de uma seita de cunho radical. Como tal, devem ser analisadas com cautela e discernimento.

O próprio Jesus advertiu:

“Acautelai-vos dos falsos profetas.”

Essa advertência permanece atual e serve como um chamado à reflexão crítica diante de qualquer sistema religioso que, em nome de Deus, promova o medo, a exclusão e a ruptura dos laços humanos mais básicos.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Crepúsculo


Contra a fachada do crepúsculo erguem-se sombras, fogo e silêncio. Não um silêncio absoluto, mas um silêncio em combustão, um fogo invisível que faz a sombra respirar, pulsar, como se tivesse vida própria. É um silêncio que não se limita à ausência de som; ele pesa, observa, envolve.

Para atravessar esse muro silencioso, não basta avançar o corpo. É preciso abandonar algo de si. Cada passo exige um desprendimento, uma renúncia íntima, como se o passado precisasse ficar do outro lado para que o presente pudesse existir.

O muro não impede apenas a passagem física; ele testa a coragem de quem ousa atravessá-lo. Nesse limiar entre luz e escuridão, o sujeito se dissolve. A identidade se fragmenta, e o que resta é um estado de espera, um intervalo onde o eu se confronta com o vazio.

Penetrar o silêncio é aceitar o risco da perda, é compreender que nem toda travessia garante retorno.

Como na obra de Paul Auster, o silêncio aqui não é ausência, mas revelação. Ele expõe aquilo que tentamos ocultar de nós mesmos: o medo, a solidão, a consciência de que toda jornada interior cobra um preço.

Para seguir adiante, é inevitável deixar-se para trás, ainda que não se saiba exatamente o que será encontrado do outro lado.

Os hipócritas

 


Em 1986, durante a Copa do Mundo do México, Diego Maradona entrou em campo vestindo uma camisa com a frase “Não às drogas”. No mesmo período, Michel Platini, outro ícone do futebol mundial, apareceu com uma mensagem igualmente contundente: “Não à corrupção”. As imagens correram o mundo e foram celebradas como exemplos de consciência social por parte de grandes atletas.

O tempo, porém, tratou de desmontar essas narrativas. Anos depois, Maradona travou uma longa e pública batalha contra a dependência química, chegando a sofrer overdoses que quase lhe custaram a vida. Platini, por sua vez, acabou envolvido em escândalos administrativos e foi investigado, julgado e punido por irregularidades ligadas à corrupção no futebol, manchando uma reputação antes considerada exemplar.

E Pelé? O maior nome da história do futebol não estampou slogans em camisetas. No encerramento de sua carreira profissional, fez um discurso emocionado pedindo que o mundo cuidasse melhor das crianças, defendendo um futuro mais justo e humano.

No entanto, anos depois, sua vida pessoal entrou em contradição com esse discurso quando se recusou, por longo tempo, a reconhecer publicamente uma filha legítima, obrigando-a a recorrer à Justiça.

Esses episódios não anulam o talento esportivo de nenhum deles, nem apagam suas conquistas dentro de campo. Maradona, Platini e Pelé foram gênios da bola, cada um à sua maneira.

O problema surge quando se tenta transformá-los em referências morais absolutas, como se habilidade esportiva fosse sinônimo de virtude ética.

A moral da história é simples e desconfortável: o ser humano é contraditório, falho e, muitas vezes, hipócrita. Ídolos também erram, às vezes de forma grave. Por isso, talvez seja mais saudável admirar o atleta pelo que ele faz no esporte - e apenas por isso.

Um craque do futebol é, no fim das contas, apenas um craque do futebol, não um guia moral para a vida.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Gloria Stewart - Rose DeWitt Bukater velha do Titanic


Gloria Frances Stuart, nascida Gloria Stewart, nasceu em Santa Mônica, Califórnia, em 4 de julho de 1910. Foi uma atriz norte-americana de cinema, teatro e televisão, além de artista visual, pintora e ativista política.

Alcançou fama mundial sobretudo por sua interpretação da idosa Rose Dawson Calvert - anteriormente Rose DeWitt Bukater - no épico Titanic (1997), dirigido por James Cameron.

O filme tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema à época, arrecadando mais de US$ 2 bilhões mundialmente e conquistando 11 estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme.

Em 1998, aos 87 anos, Gloria Stuart tornou-se a pessoa mais idosa da história a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Até hoje, ela mantém esse recorde especificamente nessa categoria, embora outros artistas tenham sido indicados em idades semelhantes ou superiores em categorias distintas.

Sua atuação sensível e comovente como a centenária Rose - que relembra o naufrágio do Titanic em 1912 - também lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e a vitória no Screen Actors Guild Award de Melhor Atriz Coadjuvante, em um empate com Kim Basinger por L.A. Confidential.

Curiosamente, Gloria Stuart foi a única integrante do elenco de Titanic que já estava viva na época do desastre real, em 1912. Além disso, viveu exatamente até os 100 anos, a mesma idade aproximada de sua personagem no filme, um detalhe que contribuiu para o simbolismo e a força de sua presença na obra.

Sua carreira teve início nos anos 1930. Após participar de grupos de teatro universitários e produções amadoras - ela estudou na Universidade da Califórnia, em Berkeley -, assinou contrato com os estúdios Universal Pictures em 1932.

Destacou-se especialmente em filmes de terror e suspense dirigidos por James Whale, como The Old Dark House (1932) e The Invisible Man (1933), este último ao lado de Claude Rains. Também atuou em The Kiss Before the Mirror (1933), igualmente sob a direção de Whale.

Pouco depois, transferiu-se para a 20th Century Fox, onde participou de mais de 40 filmes até o final da década de 1930. Embora frequentemente elogiada pela crítica por sua elegância e presença cênica, não alcançou o estrelato absoluto típico de algumas atrizes da Era de Ouro de Hollywood.

Ainda assim, trabalhou com nomes consagrados como Shirley Temple - em Rebecca of Sunnybrook Farm (1938) -, Lionel Barrymore, Kay Francis, Raymond Massey e Paul Lukas, além de aparecer em musicais como Gold Diggers of 1935.

Na década de 1940, atuou em poucos filmes e, desiludida com papéis repetitivos - frequentemente limitados ao estereótipo da “repórter” ou “detetive” -, aposentou-se das telas em 1946 para se dedicar à pintura. Como artista visual, conquistou reconhecimento: suas obras foram expostas em galerias nos Estados Unidos e na Europa.

Também se envolveu com impressão artística de livros e com a arte da jardinagem de bonsais. Paralelamente, Gloria Stuart manteve um forte engajamento político e social ao longo da vida.

Foi uma das fundadoras do Screen Actors Guild (SAG) em 1933 e integrou a Hollywood Anti-Nazi League durante os anos 1930, posicionando-se contra o avanço do fascismo e em defesa dos direitos dos artistas.

Após quase três décadas afastada do cinema, retornou às telas em 1975, no telefilme The Legend of Lizzie Borden. A partir de então, passou a atuar de forma esporádica em produções para a televisão e o cinema, como My Favorite Year (1982).

Nesse período, também enfrentou e superou um câncer de mama, demonstrando mais uma vez sua notável força pessoal. Seu grande renascimento artístico ocorreu com Titanic, em 1997.

Embora tivesse 86 anos na época das filmagens, foi envelhecida com maquiagem para interpretar Rose aos 101 anos. O papel lhe trouxe aclamação crítica, renovou sua visibilidade pública e abriu caminho para trabalhos posteriores, como The Million Dollar Hotel (2000) e Land of Plenty (2004), ambos dirigidos por Wim Wenders.

Gloria Stuart faleceu na noite de 26 de setembro de 2010, em sua residência em Los Angeles, aos 100 anos, em decorrência de falência respiratória. Seu corpo foi cremado.

Ela deixou um legado notável de resiliência, talento multifacetado e longevidade artística, com uma carreira que atravessou mais de sete décadas, tornando-se um símbolo de que o reconhecimento e o sucesso podem chegar em qualquer fase da vida.

O Beijo


 

“Se eu tivesse de ir para o inferno depois de beijar você, eu iria. Pois, então, poderia me gabar diante dos demônios de ter conhecido o paraíso sem jamais ter entrado nele.”

A frase expressa, de forma intensa e paradoxal, a concepção do amor como experiência absoluta, capaz de transcender noções morais, religiosas e até metafísicas.

Nela, o beijo - gesto simples e humano - é elevado à condição de êxtase supremo, tão pleno que justifica qualquer punição futura. O eu lírico não teme o inferno, pois já teria vivido algo maior: o instante em que o amor se confunde com o próprio paraíso.

O contraste entre inferno e paraíso não aparece aqui como mero recurso retórico, mas como um jogo simbólico profundamente shakespeareano. O paraíso não é um lugar distante ou prometido após a morte; ele se manifesta no presente, no corpo e no afeto.

O inferno, por sua vez, perde sua função de castigo eterno e transforma-se em palco de orgulho: mesmo entre demônios, o amante pode afirmar que conheceu aquilo que muitos passam a vida inteira buscando sem jamais alcançar.

Essa inversão de valores é recorrente na obra de Shakespeare, especialmente em suas tragédias e sonetos, onde o amor surge frequentemente associado ao risco, à perda e à transgressão.

Amar, nesse contexto, não é um ato seguro ou confortável, mas uma escolha radical, que aceita as consequências em nome da intensidade do sentir. O prazer e a dor caminham juntos, e a grandeza do amor mede-se justamente pelo que se está disposto a perder por ele.

Além disso, a frase sugere que certas experiências são tão completas em si mesmas que dispensam continuidade. Um único momento pode conter uma vida inteira de sentido.

Beijar, aqui, não é apenas tocar os lábios, mas acessar uma dimensão do humano onde o tempo se suspende e o mundo se reorganiza ao redor do sentimento.

Assim, a citação ecoa uma das ideias centrais da literatura shakespeariana: a de que o amor verdadeiro não obedece a promessas futuras, recompensas celestiais ou temores infernais.

Ele basta a si mesmo. E, uma vez vivido plenamente, nenhum castigo posterior é capaz de diminuí-lo, pois quem já esteve no paraíso do amor carrega essa eternidade consigo, onde quer que esteja.

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Características do Titanic



O Titanic era, à época de seu lançamento, um verdadeiro titã dos mares. Com 269 metros de comprimento, 28 metros de largura e cerca de 53 metros de altura, impressionava não apenas pelas dimensões colossais, mas também pela engenharia considerada de ponta para o início do século XX.

Sua arqueação bruta era de aproximadamente 46 mil toneladas, cerca de mil toneladas a mais que seu navio-irmão, o Olympic, reforçando a imagem de supremacia tecnológica da White Star Line.

O navio operava com uma tripulação de aproximadamente 892 pessoas e tinha capacidade para transportar até 2.435 passageiros, distribuídos em três classes, que refletiam com clareza as profundas desigualdades sociais da época.

Enquanto os passageiros da primeira classe desfrutavam de luxo comparável aos melhores hotéis europeus, os da terceira classe enfrentavam acomodações simples, embora ainda superiores às de muitos outros navios do período.

Além do transporte de pessoas, o Titanic também carregava correspondências oficiais, o que lhe conferiu o prefixo RMS – Royal Mail Ship, indicando sua função como navio postal do Império Britânico.

Estima-se que sua construção tenha custado cerca de 7,5 milhões de dólares da época, um valor exorbitante que simbolizava o auge da ambição industrial e marítima daquele tempo.

O navio era dividido em dez conveses. O mais alto, conhecido como convés superior ou convés dos botes, abrigava os botes salva-vidas, os alojamentos dos oficiais e a ponte de comando.

Abaixo dele, estendiam-se os conveses identificados pelas letras A até G, quase todos destinados aos passageiros, com exceção do convés inferior, que também comportava compartimentos de carga.

Mais abaixo ainda ficavam as caldeiras, a casa das máquinas, os alojamentos da tripulação, além das reservas de suprimentos e carvão, essenciais para manter a gigantesca estrutura em funcionamento. Apesar de toda essa grandiosidade, o Titanic carregava em seu projeto e em sua operação um grave problema: o excesso de confiança.

A crença de que o navio era praticamente “inafundável”, graças aos seus compartimentos estanques, contribuiu para a negligência em treinamentos de emergência e para a quantidade insuficiente de botes salva-vidas, que atendia apenas ao mínimo exigido pela legislação da época, e não ao número real de pessoas a bordo.

Na noite de 14 de abril de 1912, em águas geladas do Atlântico Norte, essa confiança mostrou-se fatal. O navio recebeu diversos avisos de gelo, mas manteve sua velocidade. Soma-se a isso o fato de que os vigias no mastro de observação não dispunham de binóculos, o que pode ter dificultado a identificação do iceberg a tempo de uma manobra eficaz. Quando o iceberg finalmente foi avistado, já era tarde demais.

O choque não foi violento aos olhos de muitos passageiros, mas o dano abaixo da linha d’água foi suficiente para comprometer vários compartimentos estanques.

Em poucas horas, o maior e mais luxuoso navio do mundo sucumbia ao oceano, levando consigo mais de 1.500 vidas e tornando-se um dos maiores desastres marítimos da história.

O naufrágio do Titanic não foi apenas uma tragédia humana, mas também um marco de mudança na segurança marítima, levando à revisão de normas internacionais, à exigência de botes suficientes para todos a bordo e à criação de sistemas de monitoramento mais rigorosos.

Assim, o navio que simbolizava o triunfo da engenharia acabou se tornando um poderoso lembrete dos limites da tecnologia diante da natureza - e da arrogância humana.

Grace Kelly - De Atriz a Princesa de Mônaco


Grace Patrícia Kelly, conhecida mundialmente como Grace Kelly, nasceu em 12 de novembro de 1929 na Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos. Filha de uma família abastada.

Seu pai, John Brendan "Jack" Kelly, era um campeão olímpico de remo e empresário bem-sucedido no ramo de construção, ela cresceu em um ambiente privilegiado, mas com forte ênfase em disciplina e realizações.

Grace iniciou sua carreira como modelo e atriz na televisão antes de conquistar Hollywood. Sua beleza elegante, compostura e talento a tornaram uma estrela em ascensão rápida. Estrelou apenas 11 filmes em uma carreira cinematográfica curta, mas impactante, entre 1951 e 1956.

Seus trabalhos mais memoráveis incluem colaborações com o mestre do suspense Alfred Hitchcock, como Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), Dial M for Murder (Disque M para Matar, 1954) e To Catch a Thief (Ladrão de Casaca, 1955), além de High Noon (Matar ou Correr, 1952) e Mogambo (1953).

Seu maior reconhecimento veio com The Country Girl (Amar é Sofrer, 1954), pelo qual venceu o Oscar de Melhor Atriz em 1955, superando Judy Garland, e também o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático.

Ao todo, recebeu diversas nomeações a prêmios prestigiosos como Oscar, Globo de Ouro e BAFTA, vencendo vários deles. Em 1955, durante o Festival de Cannes, Grace conheceu o Príncipe Rainier III de Mônaco em uma sessão de fotos.

O encontro evoluiu para um romance intenso, culminando no noivado em janeiro de 1956. O casamento, realizado em abril de 1956 - com cerimônia civil no dia 18 e religiosa no dia 19 na Catedral de São Nicolau -, foi um evento global, assistido por milhões na televisão e apelidado de "o casamento do século".

Grace abandonou a carreira de atriz aos 26 anos para se dedicar integralmente ao papel de Princesa Consorte de Mônaco, tornando-se Sua Alteza Serena Princesa Grace de Mônaco.

O casal teve três filhos: a Princesa Caroline (1957), o Príncipe Albert (1958, atual soberano de Mônaco) e a Princesa Stéphanie (1965).Como princesa, Grace se destacou como ícone de moda e elegância, sendo frequentemente chamada de "a princesa mais bonita da história".

O American Film Institute a classificou como a 13ª maior lenda do cinema clássico americano. Além disso, dedicou-se intensamente ao trabalho filantrópico, especialmente em causas relacionadas a crianças, artes e juventude.

Após o casamento, impossibilitada de atuar, intensificou seu engajamento humanitário. Fundou a AMADE Mondiale (Association Mondiale des Amis de l'Enfance) em 1963, uma organização internacional dedicada à proteção e aos direitos das crianças carentes, que ganhou status consultivo na UNICEF e UNESCO.

Também criou a Princess Grace Foundation em 1964 para apoiar artesãos locais e iniciativas culturais em Mônaco. Presidiu a Cruz Vermelha de Mônaco, o clube de jardinagem local e promoveu eventos anuais para órfãos.

Nos Estados Unidos, após sua morte, o Príncipe Rainier fundou a Princess Grace Foundation-USA para continuar seu apoio a artistas emergentes em teatro, dança e cinema.

Em 2014, o filme Grace of Monaco (dirigido por Olivier Dahan e estrelado por Nicole Kidman) retratou um período específico de sua vida (1961-1962), focando na crise política entre Mônaco e a França sob Charles de Gaulle (devido a disputas fiscais e ameaças de anexação), e no dilema de Grace sobre retornar ao cinema para estrelar Marnie, de Hitchcock.

Embora o longa tenha sido criticado pela família Grimaldi por imprecisões históricas e dramatizações excessivas (como o suposto papel decisivo de Grace em um discurso que resolveu a crise), ele destacou sua humanidade, conflitos internos e dedicação ao principado.

Tragicamente, em 13 de setembro de 1982, aos 52 anos, Grace sofreu um acidente automobilístico fatal. Enquanto dirigia um Rover P6 3500 de volta a Mônaco com sua filha mais nova, Stéphanie (então com 17 anos), no banco do passageiro, ela sofreu um derrame cerebral (hemorragia cerebral leve), perdeu o controle do veículo em uma curva acentuada na estrada sinuosa perto de La Turbie, e o carro despencou cerca de 30 metros por um declive íngreme.

Grace sofreu graves lesões cerebrais (incluindo uma segunda hemorragia) e fraturas; foi levada ao hospital em coma e declarada morta no dia seguinte, 14 de setembro de 1982, após a família decidir desligar os aparelhos de suporte.

Stéphanie sobreviveu com ferimentos menos graves, como fratura cervical e outros traumas. Rumores persistentes sugeriram que Stéphanie estaria dirigindo (apesar de não ter carteira e ser menor), alimentados por testemunhas confusas e pelo fato de ela ter saído pela porta do motorista (a do passageiro estava destruída).

No entanto, investigações oficiais, testemunhas oculares (incluindo um policial) e a própria Stéphanie negaram veementemente: ela afirmou ter tentado ajudar puxando o freio de mão, mas sem sucesso, e sempre se disse inocente, sem culpa pela morte da mãe.

O funeral, em 18 de setembro de 1982, na Catedral de São Nicolau em Mônaco, foi um evento de luto mundial, com presença de figuras como a então Princesa Diana, a Rainha da Espanha, Nancy Reagan, Cary Grant e outros.

Cerca de 100 milhões de pessoas assistiram pela televisão. Grace foi sepultada no jazigo da família Grimaldi. Em sua cidade natal, Filadélfia, um monumento em sua homenagem foi erguido às margens do rio Schuylkill.

Grace Kelly permanece um símbolo eterno de glamour, graça e transição de Hollywood para a realeza, deixando um legado de beleza, talento e generosidade humanitária que transcende gerações.


terça-feira, janeiro 20, 2026

Peter Ustinov - Ator que interpretou Nero em Quo Vadis



 

Sir Peter Ustinov - nome completo: Peter Alexander Freiherr von Ustinov - nasceu em Londres, Inglaterra, no dia 16 de abril de 1921, e faleceu em Genolier, na Suíça, em 28 de março de 2004, aos 82 anos, vítima de insuficiência cardíaca.

Ele já sofria de diabetes e problemas cardíacos nos últimos anos. Foi um dos mais versáteis e talentosos artistas britânicos do século XX: ator, roteirista, diretor, dramaturgo, escritor, humorista, narrador e humanitário internacional.

Filho de Jona von Ustinov, um jornalista de origem russa - com raízes nobres alemãs e russas -, e de Nadezhda Leontievna "Nadia" Benois, uma pintora descendente de franceses e russos, Peter cresceu em um ambiente multicultural e intelectual.

Desde jovem, sonhava em escrever peças de teatro, o que o levou a estudar artes dramáticas na Westminster School e, posteriormente, na London Theatre Studio. Aos 17 anos, em 1938, estreou como ator profissional interpretando um personagem bem mais velho que ele próprio - um sinal precoce de sua habilidade para transformações e caracterizações.

Com um talento natural para a comédia, imitações e diálogos afiados, logo chamou a atenção de diretores e do público britânico. Sua carreira no cinema decolou internacionalmente em 1951, com o papel do imperador Nero no épico Quo Vadis? (dirigido por Mervyn LeRoy e produzido pela MGM).

Sua interpretação de um Nero caprichoso, vaidoso e instável rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar (melhor ator coadjuvante) e um Globo de Ouro na mesma categoria.

O filme foi um enorme sucesso de bilheteria e ajudou a salvar a MGM de dificuldades financeiras. Ustinov conquistou dois Oscars de melhor ator coadjuvante: o primeiro em 1960, por Lentulus Batiatus, o astuto dono de escola de gladiadores em Spartacus (dirigido por Stanley Kubrick); o segundo em 1964 (entregue em 1965), pelo ladrão atrapalhado em Topkapi, um clássico de assalto.

Ele também foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original em 1969 pela comédia Hot Millions (no Brasil, A Máquina de Fazer Milhões), que escreveu e estrelou. Além dos Oscars, venceu três Emmys (como melhor ator em minissérie ou telefilme), um Grammy por melhor álbum infantil (narrando histórias), um Globo de Ouro e foi nomeado para prêmios como BAFTA, Tony e Laurence Olivier.

Atuou em mais de 70 filmes, destacando-se também em Billy Budd (1962, que dirigiu, roteirizou e atuou), The Sundowners (1960), Death on the Nile (1978) e Logan's Run (1976).

Um de seus papéis mais icônicos foi como o detetive Hercule Poirot em várias adaptações de Agatha Christie, como Death on the Nile e Evil Under the Sun, onde capturou perfeitamente o charme excêntrico do personagem.

Como dramaturgo e escritor, Ustinov publicou cerca de 20 livros (incluindo romances, ensaios e sua autobiografia Dear Me, de 1977) e escreveu peças de sucesso como The Love of Four Colonels (1951), Romanoff and Juliet (1956, adaptada para o cinema como Adorável Júlia) e Beethoven’s Tenth (1983), muitas vezes dirigindo-as ele mesmo.

Dirigiu óperas, como A Flauta Mágica de Mozart, e foi um narrador brilhante em documentários e animações (como a voz do Príncipe John em Robin Hood da Disney). Em 1990, foi condecorado pela rainha Elizabeth II como Cavaleiro da Ordem do Império Britânico (Knight Bachelor), passando a ser chamado de Sir Peter Ustinov.

Serviu como chanceler da Universidade de Durham (1992–2004), reitor da Universidade de Dundee e presidente do World Federalist Movement. Seu compromisso humanitário foi marcante: de 1969 até sua morte, atuou como embaixador de boa vontade da UNICEF, viajando pelo mundo para ajudar crianças em situações de pobreza e conflito.

Ele usava seu humor para aproximar-se das pessoas e arrecadar fundos - a diretora executiva da UNICEF, Carol Bellamy, disse que "Sir Peter conseguia fazer qualquer um rir". Um episódio tocante ocorreu em 2002, quando Ustinov visitou pela primeira vez Berlim em uma missão da UNICEF para conhecer os United Buddy Bears, uma exposição de ursos pintados que promovem paz entre nações, culturas e religiões.

Ele insistiu que o Iraque - país em crise e prestes a ser invadido - fosse incluído no círculo de cerca de 140 nações representadas. Em 2003, patrocinou e inaugurou a segunda exposição dos United Buddy Bears em Berlim, reforçando sua defesa da inclusão e da tolerância mesmo em tempos de tensão geopolítica.

Peter Ustinov faleceu em 28 de março de 2004, em uma clínica perto do Lago Genebra, na Suíça, onde residia em seu castelo em Bursins (com vinhedo próprio). Foi sepultado no Cemitério de Bursins, em Nyon, no cantão de Vaud.

Seu legado continua vivo através de sua fundação (Sir Peter Ustinov Stiftung, criada em 1999 com o filho Igor), do Ustinov College na Universidade de Durham e de seu incansável trabalho pela paz e pelos direitos das crianças.

Um verdadeiro "homem renascentista", Ustinov combinou genialidade artística com compaixão humana, deixando um impacto duradouro no cinema, no teatro e no mundo.

Por Que




“Por que eu deveria permitir que o mesmo Deus que abandonou o seu próprio filho, na hora mais terrível, me diga como criar ou proteger o meu?”

Essa frase faz referência direta a um dos momentos mais dramáticos dos Evangelhos: a crucificação de Jesus. Segundo os relatos de Mateus (27:46) e Marcos (15:34), em meio à dor extrema e à iminência da morte, Jesus clama em aramaico:

“Eli, Eli, lamá sabactâni?”

- “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Esse grito, carregado de angústia existencial, é interpretado pela teologia cristã como parte do sacrifício redentor. No entanto, para pensadores críticos como Robert G. Ingersoll, ele representa algo muito diferente: o ápice de uma contradição moral difícil de conciliar com a ideia de um Deus ao mesmo tempo onipotente, onisciente e infinitamente amoroso.

Ingersoll utiliza esse episódio - talvez o mais emocionalmente intenso de todo o Novo Testamento - para questionar a autoridade moral de um Deus que, segundo a própria doutrina cristã, teria permitido - ou mesmo planejado - que seu filho unigênito enfrentasse uma morte cruel, pública, humilhante e aparentemente solitária.

O contraste com a experiência humana

O argumento ganha força quando Ingersoll estabelece um paralelo com a experiência humana comum. Pais e mães, em sua imensa maioria, fariam qualquer coisa para poupar seus filhos de um sofrimento extremo.

Mesmo pessoas imperfeitas, limitadas e falíveis, sentem um impulso quase instintivo de proteger aqueles que amam, especialmente seus filhos, do abandono, da tortura e da morte.

Diante disso, Robert G. Ingersoll provoca:

Se Deus é todo-poderoso e todo-amoroso, por que não interveio? Se o sofrimento era necessário, por que exigir fé cega diante de tamanha crueldade? Como alguém que, no momento decisivo, não poupou o próprio filho pode reivindicar autoridade moral para ensinar os seres humanos a amar, educar e proteger os seus?

A pergunta não é apenas teológica; ela é profundamente ética e emocional.

A crítica mais ampla de Robert G. Ingersoll

Essa frase se insere perfeitamente no pensamento mais amplo de Robert G. Ingersoll, um dos mais influentes oradores livres-pensadores do século XIX. Em obras e palestras como The Gods, Some Mistakes of Moses e Orthodoxy, ele atacava com veemência aquilo que considerava incoerências morais da religião institucionalizada. Entre suas ideias recorrentes, destacam-se afirmações como: Um Deus infinito não necessita de leis humanas para protegê-lo de críticas ou piadas.

A doutrina do inferno eterno reflete mais a crueldade de quem a criou do que qualquer noção elevada de justiça. Se existe um Deus que condena seus filhos ao sofrimento eterno, então esse Deus se assemelha mais a um tirano do que a um pai amoroso.

Nesse sentido, a imagem de um Deus que abandona o próprio filho no momento de maior desespero torna-se, para Ingersoll, simbólica de um problema maior: a tentativa de conciliar amor divino infinito com sofrimento extremo, tanto no caso de Jesus quanto na experiência cotidiana da humanidade.

Atualidade e impacto

Mais de um século depois, essa pergunta continua a incomodar, exatamente porque toca em um ponto sensível da fé cristã. Ela não oferece respostas fáceis, nem pretende fazê-lo. Seu poder está em obrigar o leitor ou ouvinte a encarar a tensão entre doutrina, moralidade e experiência humana.

Trata-se de uma pergunta retórica devastadora, que não busca destruir a fé individual, mas desafiar sistemas teológicos que exigem obediência absoluta enquanto justificam dor, silêncio e abandono como virtudes sagradas.

É por isso que essa frase ainda circula, ainda provoca debates e ainda causa desconforto: ela expõe uma ferida que nunca foi completamente cicatrizada.


segunda-feira, janeiro 19, 2026

Charles Manson e suas ideias


Charles Manson e a Construção de um Delírio Coletivo

Charles Manson cultivava ideias grandiosas e, ao seu redor, formou um grupo de seguidores conhecido como Família Manson. Eram homens e mulheres, em sua maioria jovens, muitos provenientes de famílias abastadas, mas marcados por conflitos familiares, rejeição emocional e rupturas profundas com seus lares.

Esse afastamento os levou a uma vida errante pelas ruas da Califórnia, em plena efervescência da contracultura dos anos 1960. Para alguns admiradores, Manson assumia contornos quase messiânicos.

Havia quem o enxergasse como uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo, não no sentido religioso tradicional, mas como alguém que prometia libertar os jovens de antigas amarras e conduzi-los a “novos horizontes”.

O próprio Manson, no entanto, negava abertamente essa comparação, embora se aproveitasse da aura de líder espiritual que o cercava. Em 1966, aos 32 anos, Manson teve a oportunidade de deixar a prisão, mas, paradoxalmente, demonstrou resistência à liberdade.

Após passar mais da metade da vida em instituições correcionais, declarou não se sentir capaz de sobreviver fora delas. Ainda assim, acabou libertado. Uma vez em liberdade, mergulhou no universo hippie, onde encontrou terreno fértil para recrutar seguidores, sobretudo jovens mulheres emocionalmente fragilizadas.

O uso recorrente de drogas psicodélicas, como o LSD, tornou-se uma ferramenta de manipulação e controle psicológico. Apresentando-se como um guru, Manson pregava o rompimento com o que chamava de “prisões mentais” impostas pelo capitalismo e pela sociedade tradicional.

Com o tempo, a Família se aproximou de discursos místicos e de supostas ciências ocultas, como a enigmática e pouco documentada chamada “Ordem de Circe do Cachorro Sanguinário”, elemento que reforçava o caráter esotérico e confuso de suas crenças.

Em 1968, Manson estabeleceu uma comunidade alternativa no Spahn Ranch, uma antiga área de filmagens próxima a Los Angeles. Ali, os membros da Família viviam de pequenos furtos, da coleta de restos de comida em restaurantes e da exploração ocasional de pessoas que cruzavam seu caminho.

Foi nesse período que o grupo conheceu Dennis Wilson, baterista da banda The Beach Boys. Inicialmente seduzido pelo estilo de vida do grupo, Wilson acabou se afastando ao perceber o comportamento instável e manipulador de Manson.

Apesar de sua condição marginal, Charles alimentava o sonho de se tornar uma estrela da música ou do cinema. Tentou gravar um disco e até produzir um filme, mas encontrou resistência, sobretudo por parte do produtor Terry Melcher, que recusou lançar sua carreira artística. Para Manson, essa recusa foi vivida como uma traição pessoal e uma confirmação de que o sistema conspirava contra ele.

Nesse mesmo período, Manson passou a defender uma teoria delirante sobre uma iminente guerra racial, na qual os negros triunfariam sobre os brancos, mas seriam incapazes de governar. Segundo ele, após o conflito, caberia à Família Manson assumir o controle da nova ordem mundial.

Essa fantasia ganhou força quando os Beatles lançaram, em 1968, o álbum The Beatles, conhecido como Álbum Branco. Canções como Revolution, Piggies e Helter Skelter passaram a ser interpretadas por Manson como mensagens cifradas dirigidas diretamente a ele.

Para Manson, Helter Skelter não era apenas uma música, mas o nome da guerra que destruiria o mundo conhecido. Ele se via como o “quinto anjo” do apocalipse, enquanto os quatro Beatles ocupariam as demais posições simbólicas.

Acreditava ainda que, no deserto da Califórnia, existiria uma entrada secreta para uma cidade subterrânea de ouro, onde ele e sua Família se esconderiam até o fim do conflito. Quando a guerra não começou no momento previsto por ele, Manson concluiu que seria necessário “ensinar” o mundo a agir.

O Crime

Na noite de 9 de agosto de 1969, membros da Família Manson invadiram uma residência localizada na Cielo Drive, nº 10050, em Bel Air, alugada pelo diretor Roman Polanski. Na casa estavam sua esposa, Sharon Tate, grávida, e quatro amigos do casal. Todos foram mortos, e frases foram escritas com o sangue das vítimas nas paredes, entre elas a palavra “Pigs” (“porcos”).

Na noite seguinte, o grupo atacou a casa de Rosemary e Leno LaBianca, que também foram assassinados. No local, surgiram inscrições como “Helter Skelter”, “Death to pigs” (“morte aos porcos”) e “Rise” (“ascensão”), referências diretas às músicas dos Beatles. Esses crimes ficaram conhecidos como o Caso Tate–LaBianca.

Segundo o promotor Vincent Bugliosi, embora Manson não estivesse presente nas cenas dos crimes, ele foi o mentor intelectual das ações. Bugliosi construiu a tese conhecida como Teoria Helter Skelter, segundo a qual os assassinatos tinham como objetivo provocar o caos racial, levando a sociedade a uma explosão de violência entre brancos e negros.

Julgamento, Condenação e Morte

Charles Manson foi acusado de seis assassinatos e levado a julgamento ao lado de seus seguidores mais próximos: Tex Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Leslie Van Houten. Embora alegasse não ter participado diretamente dos crimes, o júri foi convencido de que sua influência psicológica foi determinante.

Em 1971, todos foram condenados à pena de morte, posteriormente convertida em prisão perpétua após mudanças na legislação da Califórnia. Durante décadas, Manson teve pedidos de liberdade condicional sistematicamente negados, sendo considerado perigoso até o fim da vida.

Ele passou grande parte do tempo encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, em regime de isolamento parcial, mantendo contato restrito com outros presos de alta periculosidade. Tornou-se uma figura quase mítica, recebendo cartas, visitas e até propostas de casamento.

Charles Manson morreu em 19 de novembro de 2017, aos 83 anos, em um hospital de Bakersfield, na Califórnia, por causas naturais. Não demonstrou arrependimento público pelos crimes associados a seu nome.

Sua morte encerrou a trajetória de um homem que, apesar de não ter cometido pessoalmente os assassinatos mais famosos, tornou-se um dos maiores símbolos da manipulação, do fanatismo e da violência do século XX.