Contra a fachada do crepúsculo erguem-se
sombras, fogo e silêncio. Não um silêncio absoluto, mas um silêncio em combustão, um fogo invisível que
faz a sombra respirar, pulsar, como se tivesse vida própria. É um silêncio que
não se limita à ausência de som; ele pesa, observa, envolve.
Para atravessar
esse muro silencioso, não basta avançar o corpo. É preciso abandonar algo de
si. Cada passo exige um desprendimento, uma renúncia íntima, como se o passado
precisasse ficar do outro lado para que o presente pudesse existir.
O muro não impede apenas a passagem física;
ele testa a coragem de quem ousa atravessá-lo. Nesse limiar entre luz e
escuridão, o sujeito se dissolve. A identidade se fragmenta, e o que resta é um
estado de espera, um intervalo onde o eu se confronta com o vazio.
Penetrar o silêncio é aceitar o risco da
perda, é compreender que nem toda travessia garante retorno.
Como na obra de Paul
Auster, o silêncio aqui não é ausência, mas revelação. Ele
expõe aquilo que tentamos ocultar de nós mesmos: o medo, a solidão, a
consciência de que toda jornada interior cobra um preço.
Para seguir adiante, é inevitável deixar-se
para trás, ainda que não se saiba exatamente o que será encontrado do outro
lado.








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