“Se eu tivesse de ir para
o inferno depois de beijar você, eu iria. Pois, então, poderia me gabar diante
dos demônios de ter conhecido o paraíso sem jamais ter entrado nele.”
A frase
expressa, de forma intensa e paradoxal, a concepção do amor como experiência
absoluta, capaz de transcender noções morais, religiosas e até metafísicas.
Nela, o beijo - gesto simples e humano - é
elevado à condição de êxtase supremo, tão pleno que justifica qualquer punição
futura. O eu lírico não teme o inferno, pois já teria vivido algo maior: o
instante em que o amor se confunde com o próprio paraíso.
O contraste
entre inferno e paraíso
não aparece aqui como mero recurso retórico, mas como um jogo simbólico
profundamente shakespeareano. O paraíso não é um lugar distante ou prometido
após a morte; ele se manifesta no presente, no corpo e no afeto.
O inferno, por sua vez, perde sua função de
castigo eterno e transforma-se em palco de orgulho: mesmo entre demônios, o
amante pode afirmar que conheceu aquilo que muitos passam a vida inteira
buscando sem jamais alcançar.
Essa inversão de
valores é recorrente na obra de Shakespeare, especialmente em suas tragédias e
sonetos, onde o amor surge frequentemente associado ao risco, à perda e à
transgressão.
Amar, nesse contexto, não é um ato seguro ou
confortável, mas uma escolha radical, que aceita as consequências em nome da
intensidade do sentir. O prazer e a dor caminham juntos, e a grandeza do amor
mede-se justamente pelo que se está disposto a perder por ele.
Além disso, a
frase sugere que certas experiências são tão completas em si mesmas que
dispensam continuidade. Um único momento pode conter uma vida inteira de
sentido.
Beijar, aqui, não é apenas tocar os lábios,
mas acessar uma dimensão do humano onde o tempo se suspende e o mundo se
reorganiza ao redor do sentimento.
Assim, a citação
ecoa uma das ideias centrais da literatura shakespeariana: a de que o amor
verdadeiro não obedece a promessas futuras, recompensas celestiais ou temores
infernais.
Ele basta a si mesmo. E, uma vez vivido
plenamente, nenhum castigo posterior é capaz de diminuí-lo, pois quem já esteve
no paraíso do amor carrega essa eternidade consigo, onde quer que esteja.








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