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quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Beijo


 

“Se eu tivesse de ir para o inferno depois de beijar você, eu iria. Pois, então, poderia me gabar diante dos demônios de ter conhecido o paraíso sem jamais ter entrado nele.”

A frase expressa, de forma intensa e paradoxal, a concepção do amor como experiência absoluta, capaz de transcender noções morais, religiosas e até metafísicas.

Nela, o beijo - gesto simples e humano - é elevado à condição de êxtase supremo, tão pleno que justifica qualquer punição futura. O eu lírico não teme o inferno, pois já teria vivido algo maior: o instante em que o amor se confunde com o próprio paraíso.

O contraste entre inferno e paraíso não aparece aqui como mero recurso retórico, mas como um jogo simbólico profundamente shakespeareano. O paraíso não é um lugar distante ou prometido após a morte; ele se manifesta no presente, no corpo e no afeto.

O inferno, por sua vez, perde sua função de castigo eterno e transforma-se em palco de orgulho: mesmo entre demônios, o amante pode afirmar que conheceu aquilo que muitos passam a vida inteira buscando sem jamais alcançar.

Essa inversão de valores é recorrente na obra de Shakespeare, especialmente em suas tragédias e sonetos, onde o amor surge frequentemente associado ao risco, à perda e à transgressão.

Amar, nesse contexto, não é um ato seguro ou confortável, mas uma escolha radical, que aceita as consequências em nome da intensidade do sentir. O prazer e a dor caminham juntos, e a grandeza do amor mede-se justamente pelo que se está disposto a perder por ele.

Além disso, a frase sugere que certas experiências são tão completas em si mesmas que dispensam continuidade. Um único momento pode conter uma vida inteira de sentido.

Beijar, aqui, não é apenas tocar os lábios, mas acessar uma dimensão do humano onde o tempo se suspende e o mundo se reorganiza ao redor do sentimento.

Assim, a citação ecoa uma das ideias centrais da literatura shakespeariana: a de que o amor verdadeiro não obedece a promessas futuras, recompensas celestiais ou temores infernais.

Ele basta a si mesmo. E, uma vez vivido plenamente, nenhum castigo posterior é capaz de diminuí-lo, pois quem já esteve no paraíso do amor carrega essa eternidade consigo, onde quer que esteja.

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