“Não se pode provar que Deus existe. Mas, se
Deus existe, o crente ganha tudo - o céu - e o descrente perde tudo - o
inferno. Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha.
Logo, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.”
O raciocínio é
conhecido. Foi formulado no século XVII por Blaise Pascal e atravessou os
séculos como se fosse uma peça de genial prudência filosófica. Mas, examinada
com cuidado, a chamada “aposta de Pascal” não é um argumento a favor da
existência de Deus.
É um argumento a favor da submissão. Não
apela à razão, mas ao medo. Não convida à verdade, mas à cautela covarde. Aceitar
essa lógica equivaleria a reduzir a fé a um seguro contra incêndio metafísico.
Não se acredita por convicção, assombro ou
amor à verdade, mas por precaução. Crê-se não porque Deus seja plausível ou
justo, mas porque o castigo pode ser eterno. Com esse tipo de raciocínio, a
busca espiritual torna-se um jogo de apostas, e a honestidade intelectual, um
luxo dispensável.
Levado às
últimas consequências, o argumento conduz ao absurdo: deveríamos escolher a
religião que descrevesse o inferno mais aterrador. O critério da verdade seria
substituído pelo grau de ameaça. O deus mais cruel venceria. Não o mais sábio,
nem o mais justo - apenas o mais vingativo.
Também é falso
afirmar que o crente nada perde se Deus não existir. Perde, sim. Perde tempo,
energia, recursos, e sobretudo perde está vida quando a subordina a uma
promessa incerta de outra.
Perde a chance de enfrentar a finitude com
lucidez. Sacrifica a honestidade intelectual em nome da repetição de um mito
herdado. Religiões não são apenas crenças abstratas: exigem dinheiro,
obediência, rituais, hierarquias, e frequentemente desviam talentos humanos do
esforço concreto de melhorar este mundo - o único cuja existência é
incontestável.
Não por acaso, o
conformismo religioso sempre foi um aliado conveniente dos tiranos. Prometer
recompensa no além é uma forma eficaz de anestesiar a revolta no presente.
A resignação travestida de virtude transforma
a injustiça em “vontade divina” e o sofrimento em prova de fé. Onde a religião
se torna incontestável, a liberdade costuma definhar.
Do outro lado,
também é falso dizer que o descrente nada ganha. Rejeitar a religião pode ser
uma experiência profundamente libertadora. Não no sentido vulgar da negação
vazia, mas no ganho de perspectiva, autonomia moral e coragem intelectual.
A possibilidade de questionar sem culpa, de
pensar sem dogmas, de errar sem pedir perdão ao invisível. Não é coincidência
que os grandes avanços científicos, éticos e sociais tenham surgido, muitas
vezes, da ousadia de quem desafiou verdades sagradas.
Há ainda uma
questão moral incontornável: que tipo de ser torturaria eternamente alguém por
duvidar honestamente? Se Deus existe e é justo, não pode condenar o cético
sincero. Se existe e condena, então não é justo - e, portanto, não merece
adoração.
Nesse cenário, os próprios teístas correm
risco semelhante ao dos ateus, pois acreditam não por virtude, mas por medo. Pode-se
ir além da ironia: e se Deus, cansado de bajulação interesseira, decidisse
salvar apenas aqueles que tiveram coragem suficiente para não crer?
Invertendo a aposta, a incredulidade honesta
tornar-se-ia a verdadeira virtude. O cálculo de Pascal ruiria por completo. Há
ainda um problema teológico que Pascal convenientemente ignorou.
Ele era católico e pressupôs que, se Deus
existisse, seria o Deus cristão. Mas e se for Alá? Ou um deus desconhecido? Ou
vários? Ou nenhum dos descritos pelas religiões históricas? A aposta, nesse
caso, deixa de ser prudente e torna-se temerária. Apostar sem saber as regras
do jogo não é sabedoria - é ilusão de controle.
No fim das
contas, crer por medo não gera admiração, nem amor, nem elevação moral. Produz
obediência ressentida. Um deus que exige fé sob ameaça pode ser temido, mas não
venerado.
E talvez a pergunta mais honesta não seja “e
se Deus existir?”, mas “que tipo de Deus mereceria existir?”.
Porque, se a divindade precisa do pavor humano para ser cultuada, talvez o problema não esteja na incredulidade - mas na própria ideia de Deus que nos foi ensinada a aceitar sem questionar.








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