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domingo, fevereiro 08, 2026

A verdadeira Bíblia


Por milhares de anos, a humanidade vem escrevendo a verdadeira Bíblia - e ela continua sendo escrita dia após dia. Jamais estará concluída enquanto houver no ser humano vida, consciência e fôlego. Trata-se de um livro sem capa, sem dogmas finais, sem autores exclusivos, mas pleno de experiências, erros, descobertas e superações.

Nele estão inscritos todos os fatos que realmente conhecemos, os acontecimentos que de fato ocorreram; as descobertas científicas que rasgaram o véu da ignorância e as invenções que transformaram radicalmente a maneira como vivemos.

Estão ali as máquinas extraordinárias, cujas engrenagens parecem pulsar com vida própria, fruto da inteligência acumulada de gerações que ousaram imaginar o impossível.

Também fazem parte dessa escritura viva todos os poemas que tocam a alma e expandem o sentir; as joias do intelecto humano; as flores do coração que brotam em gestos simples e profundos; as canções de amor - tristes ou jubilosas - que embalam a memória coletiva.

Estão registrados os grandes dramas da imaginação, as pinturas admiráveis, verdadeiros milagres de forma, cor, luz e sombra; as esculturas que parecem respirar e sentir; os segredos revelados pelas rochas e pelas estrelas, pelo pó e pelas flores, pela chuva e pela neve, pelo frio e pelo fogo, pelas correntes de ar e pela areia do deserto, pelas alturas das montanhas e pelo eterno movimento das ondas do mar.

Nessa Bíblia escrita pela humanidade encontram-se ainda toda a sabedoria que prolonga e enobrece a existência: aquela que previne e cura doenças, que enfrenta a dor e alivia o sofrimento, que transforma o medo em conhecimento. Estão ali as leis verdadeiramente justas, criadas não para oprimir, mas para orientar a convivência humana em direção à harmonia, à dignidade e à equidade.

Ela também reúne todos os pensamentos que alimentam as chamas do amor genuíno; a música que transfigura, arrebata e enfeitiça a alma; as vitórias do coração e da mente sobre a ignorância, o preconceito e o ódio.

Estão registrados os milagres construídos por mãos humanas: as mãos sábias e calejadas daqueles que trabalharam incansavelmente por suas famílias, suas comunidades e pelas gerações futuras.

Fazem parte dessa narrativa as histórias de feitos nobres, de homens e mulheres corajosos e produtivos; os exemplos de amor leal entre companheiros e companheiras; o amor incondicional das mães; os conflitos travados em nome da justiça; os sacrifícios assumidos em defesa da verdade e da liberdade. Cada escolha ética, cada renúncia em favor do bem comum, cada resistência contra a barbárie acrescenta uma nova página a esse livro coletivo.

Tudo isso - e muito mais - constitui os tesouros acumulados do coração e do intelecto humano ao longo dos séculos. São essas realizações, esses lampejos de genialidade, compaixão e coragem que formam as verdadeiras Sagradas Escrituras da raça humana.

Foi essa a visão expressa por Robert G. Ingersoll, conhecido como “o Grande Agnóstico”, em seu ensaio About the Holy Bible (1894). Orador brilhante e defensor intransigente do livre-pensamento, Ingersoll criticava severamente o que via como erros, contradições e crueldades presentes na Bíblia tradicional, sobretudo no Antigo Testamento.

Para ele, a verdadeira revelação não estava em um livro antigo, supostamente ditado por Deus, mas no progresso contínuo da humanidade - nas ciências, nas artes, na ética e nos atos cotidianos de bondade.

Ingersoll via a “Bíblia real” como um livro vivo, escrito coletivamente por todos os povos, em todas as épocas, por meio de suas conquistas, aprendizados e fracassos.

Em vez de uma revelação divina estática e imutável, ele defendia uma escritura em permanente construção, moldada pela razão, pela empatia e pelo esforço humano para melhorar o mundo.

Essa ideia ressoa com força ainda hoje, em um tempo marcado por avanços científicos vertiginosos - como a medicina genômica, a exploração espacial e a inteligência artificial -, por lutas globais em defesa dos direitos humanos e por novas formas de expressão artística que continuam a desafiar e inspirar gerações.

Ao mesmo tempo, ela nos confronta com nossas responsabilidades: cada descoberta pode curar ou destruir; cada tecnologia pode libertar ou controlar; cada escolha moral pode ampliar ou restringir a dignidade humana.

A “verdadeira Bíblia”, segundo Ingersoll, jamais se fecha. Ela se renova a cada vida salva, a cada injustiça combatida, a cada gesto de solidariedade, a cada criação que eleva o espírito humano.

Seu texto não exige fé cega, mas consciência; não impõe dogmas, mas convida à reflexão; não promete salvação em outro mundo, mas aponta para a possibilidade - sempre inacabada - de construir um mundo melhor aqui e agora.

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