Por milhares de anos, a humanidade vem
escrevendo a verdadeira Bíblia - e ela continua sendo escrita dia após dia.
Jamais estará concluída enquanto houver no ser humano vida, consciência e
fôlego. Trata-se de um livro sem capa, sem dogmas finais, sem autores
exclusivos, mas pleno de experiências, erros, descobertas e superações.
Nele estão
inscritos todos os fatos que realmente conhecemos, os acontecimentos que de
fato ocorreram; as descobertas científicas que rasgaram o véu da ignorância e
as invenções que transformaram radicalmente a maneira como vivemos.
Estão ali as máquinas extraordinárias, cujas
engrenagens parecem pulsar com vida própria, fruto da inteligência acumulada de
gerações que ousaram imaginar o impossível.
Também fazem
parte dessa escritura viva todos os poemas que tocam a alma e expandem o
sentir; as joias do intelecto humano; as flores do coração que brotam em gestos
simples e profundos; as canções de amor - tristes ou jubilosas - que embalam a
memória coletiva.
Estão registrados os grandes dramas da
imaginação, as pinturas admiráveis, verdadeiros milagres de forma, cor, luz e
sombra; as esculturas que parecem respirar e sentir; os segredos revelados
pelas rochas e pelas estrelas, pelo pó e pelas flores, pela chuva e pela neve,
pelo frio e pelo fogo, pelas correntes de ar e pela areia do deserto, pelas
alturas das montanhas e pelo eterno movimento das ondas do mar.
Nessa Bíblia
escrita pela humanidade encontram-se ainda toda a sabedoria que prolonga e
enobrece a existência: aquela que previne e cura doenças, que enfrenta a dor e
alivia o sofrimento, que transforma o medo em conhecimento. Estão ali as leis
verdadeiramente justas, criadas não para oprimir, mas para orientar a
convivência humana em direção à harmonia, à dignidade e à equidade.
Ela também reúne
todos os pensamentos que alimentam as chamas do amor genuíno; a música que
transfigura, arrebata e enfeitiça a alma; as vitórias do coração e da mente
sobre a ignorância, o preconceito e o ódio.
Estão registrados os milagres construídos por
mãos humanas: as mãos sábias e calejadas daqueles que trabalharam
incansavelmente por suas famílias, suas comunidades e pelas gerações futuras.
Fazem parte
dessa narrativa as histórias de feitos nobres, de homens e mulheres corajosos e
produtivos; os exemplos de amor leal entre companheiros e companheiras; o amor
incondicional das mães; os conflitos travados em nome da justiça; os
sacrifícios assumidos em defesa da verdade e da liberdade. Cada escolha ética,
cada renúncia em favor do bem comum, cada resistência contra a barbárie
acrescenta uma nova página a esse livro coletivo.
Tudo isso - e
muito mais - constitui os tesouros acumulados do coração e do intelecto humano
ao longo dos séculos. São essas realizações, esses lampejos de genialidade,
compaixão e coragem que formam as verdadeiras Sagradas Escrituras da raça
humana.
Foi essa a visão
expressa por Robert G. Ingersoll, conhecido como “o Grande Agnóstico”, em seu
ensaio About
the Holy Bible (1894). Orador brilhante e defensor intransigente do
livre-pensamento, Ingersoll criticava severamente o que via como erros,
contradições e crueldades presentes na Bíblia tradicional, sobretudo no Antigo
Testamento.
Para ele, a verdadeira revelação não estava
em um livro antigo, supostamente ditado por Deus, mas no progresso contínuo da
humanidade - nas ciências, nas artes, na ética e nos atos cotidianos de
bondade.
Ingersoll via a
“Bíblia real” como um livro vivo, escrito coletivamente por todos os povos, em
todas as épocas, por meio de suas conquistas, aprendizados e fracassos.
Em vez de uma revelação divina estática e
imutável, ele defendia uma escritura em permanente construção, moldada pela
razão, pela empatia e pelo esforço humano para melhorar o mundo.
Essa ideia
ressoa com força ainda hoje, em um tempo marcado por avanços científicos
vertiginosos - como a medicina genômica, a exploração espacial e a inteligência
artificial -, por lutas globais em defesa dos direitos humanos e por novas
formas de expressão artística que continuam a desafiar e inspirar gerações.
Ao mesmo tempo, ela nos confronta com nossas
responsabilidades: cada descoberta pode curar ou destruir; cada tecnologia pode
libertar ou controlar; cada escolha moral pode ampliar ou restringir a
dignidade humana.
A “verdadeira Bíblia”, segundo Ingersoll,
jamais se fecha. Ela se renova a cada vida salva, a cada injustiça combatida, a
cada gesto de solidariedade, a cada criação que eleva o espírito humano.
Seu texto não exige fé cega, mas consciência; não impõe dogmas, mas convida à reflexão; não promete salvação em outro mundo, mas aponta para a possibilidade - sempre inacabada - de construir um mundo melhor aqui e agora.








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