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segunda-feira, janeiro 19, 2026

Charles Manson e suas ideias


Charles Manson e a Construção de um Delírio Coletivo

Charles Manson cultivava ideias grandiosas e, ao seu redor, formou um grupo de seguidores conhecido como Família Manson. Eram homens e mulheres, em sua maioria jovens, muitos provenientes de famílias abastadas, mas marcados por conflitos familiares, rejeição emocional e rupturas profundas com seus lares.

Esse afastamento os levou a uma vida errante pelas ruas da Califórnia, em plena efervescência da contracultura dos anos 1960. Para alguns admiradores, Manson assumia contornos quase messiânicos.

Havia quem o enxergasse como uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo, não no sentido religioso tradicional, mas como alguém que prometia libertar os jovens de antigas amarras e conduzi-los a “novos horizontes”.

O próprio Manson, no entanto, negava abertamente essa comparação, embora se aproveitasse da aura de líder espiritual que o cercava. Em 1966, aos 32 anos, Manson teve a oportunidade de deixar a prisão, mas, paradoxalmente, demonstrou resistência à liberdade.

Após passar mais da metade da vida em instituições correcionais, declarou não se sentir capaz de sobreviver fora delas. Ainda assim, acabou libertado. Uma vez em liberdade, mergulhou no universo hippie, onde encontrou terreno fértil para recrutar seguidores, sobretudo jovens mulheres emocionalmente fragilizadas.

O uso recorrente de drogas psicodélicas, como o LSD, tornou-se uma ferramenta de manipulação e controle psicológico. Apresentando-se como um guru, Manson pregava o rompimento com o que chamava de “prisões mentais” impostas pelo capitalismo e pela sociedade tradicional.

Com o tempo, a Família se aproximou de discursos místicos e de supostas ciências ocultas, como a enigmática e pouco documentada chamada “Ordem de Circe do Cachorro Sanguinário”, elemento que reforçava o caráter esotérico e confuso de suas crenças.

Em 1968, Manson estabeleceu uma comunidade alternativa no Spahn Ranch, uma antiga área de filmagens próxima a Los Angeles. Ali, os membros da Família viviam de pequenos furtos, da coleta de restos de comida em restaurantes e da exploração ocasional de pessoas que cruzavam seu caminho.

Foi nesse período que o grupo conheceu Dennis Wilson, baterista da banda The Beach Boys. Inicialmente seduzido pelo estilo de vida do grupo, Wilson acabou se afastando ao perceber o comportamento instável e manipulador de Manson.

Apesar de sua condição marginal, Charles alimentava o sonho de se tornar uma estrela da música ou do cinema. Tentou gravar um disco e até produzir um filme, mas encontrou resistência, sobretudo por parte do produtor Terry Melcher, que recusou lançar sua carreira artística. Para Manson, essa recusa foi vivida como uma traição pessoal e uma confirmação de que o sistema conspirava contra ele.

Nesse mesmo período, Manson passou a defender uma teoria delirante sobre uma iminente guerra racial, na qual os negros triunfariam sobre os brancos, mas seriam incapazes de governar. Segundo ele, após o conflito, caberia à Família Manson assumir o controle da nova ordem mundial.

Essa fantasia ganhou força quando os Beatles lançaram, em 1968, o álbum The Beatles, conhecido como Álbum Branco. Canções como Revolution, Piggies e Helter Skelter passaram a ser interpretadas por Manson como mensagens cifradas dirigidas diretamente a ele.

Para Manson, Helter Skelter não era apenas uma música, mas o nome da guerra que destruiria o mundo conhecido. Ele se via como o “quinto anjo” do apocalipse, enquanto os quatro Beatles ocupariam as demais posições simbólicas.

Acreditava ainda que, no deserto da Califórnia, existiria uma entrada secreta para uma cidade subterrânea de ouro, onde ele e sua Família se esconderiam até o fim do conflito. Quando a guerra não começou no momento previsto por ele, Manson concluiu que seria necessário “ensinar” o mundo a agir.

O Crime

Na noite de 9 de agosto de 1969, membros da Família Manson invadiram uma residência localizada na Cielo Drive, nº 10050, em Bel Air, alugada pelo diretor Roman Polanski. Na casa estavam sua esposa, Sharon Tate, grávida, e quatro amigos do casal. Todos foram mortos, e frases foram escritas com o sangue das vítimas nas paredes, entre elas a palavra “Pigs” (“porcos”).

Na noite seguinte, o grupo atacou a casa de Rosemary e Leno LaBianca, que também foram assassinados. No local, surgiram inscrições como “Helter Skelter”, “Death to pigs” (“morte aos porcos”) e “Rise” (“ascensão”), referências diretas às músicas dos Beatles. Esses crimes ficaram conhecidos como o Caso Tate–LaBianca.

Segundo o promotor Vincent Bugliosi, embora Manson não estivesse presente nas cenas dos crimes, ele foi o mentor intelectual das ações. Bugliosi construiu a tese conhecida como Teoria Helter Skelter, segundo a qual os assassinatos tinham como objetivo provocar o caos racial, levando a sociedade a uma explosão de violência entre brancos e negros.

Julgamento, Condenação e Morte

Charles Manson foi acusado de seis assassinatos e levado a julgamento ao lado de seus seguidores mais próximos: Tex Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Leslie Van Houten. Embora alegasse não ter participado diretamente dos crimes, o júri foi convencido de que sua influência psicológica foi determinante.

Em 1971, todos foram condenados à pena de morte, posteriormente convertida em prisão perpétua após mudanças na legislação da Califórnia. Durante décadas, Manson teve pedidos de liberdade condicional sistematicamente negados, sendo considerado perigoso até o fim da vida.

Ele passou grande parte do tempo encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, em regime de isolamento parcial, mantendo contato restrito com outros presos de alta periculosidade. Tornou-se uma figura quase mítica, recebendo cartas, visitas e até propostas de casamento.

Charles Manson morreu em 19 de novembro de 2017, aos 83 anos, em um hospital de Bakersfield, na Califórnia, por causas naturais. Não demonstrou arrependimento público pelos crimes associados a seu nome.

Sua morte encerrou a trajetória de um homem que, apesar de não ter cometido pessoalmente os assassinatos mais famosos, tornou-se um dos maiores símbolos da manipulação, do fanatismo e da violência do século XX.


Oswald Pohl



Oswald Pohl: o Administrador do Sistema de Extermínio Nazista

Oswald Ludwig Pohl nasceu em 30 de junho de 1892, na cidade alemã de Duisburg. Tornou-se um dos mais importantes oficiais da Schutzstaffel (SS), desempenhando papel central no funcionamento do sistema de campos de concentração e extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora não atuasse diretamente como carrasco, Pohl foi o principal responsável pelo controle administrativo, financeiro e econômico desses campos, organizando a exploração sistemática da mão de obra forçada e viabilizando, do ponto de vista logístico e burocrático, o assassinato em massa de milhões de judeus e outros grupos perseguidos pelo Terceiro Reich.

Após concluir a escola secundária em 1912, Pohl ingressou na Marinha Imperial Alemã, onde serviu durante a Primeira Guerra Mundial, atuando no Mar Báltico e na costa de Flandres.

Com a derrota alemã em 1918 e o colapso do Império, a Alemanha mergulhou em uma profunda crise política, econômica e social, cenário que favoreceu o surgimento de movimentos nacionalistas radicais.

No período pós-guerra, Pohl iniciou estudos em comércio e direito, mas abandonou a universidade para integrar os Freikorps, corpos paramilitares formados por veteranos de guerra e voluntários armados, frequentemente envolvidos na repressão violenta de movimentos socialistas e comunistas.

Essas experiências contribuíram para a radicalização política de Pohl e para sua futura adesão ao nacional-socialismo. Em Berlim, foi aceito na nova marinha alemã do pós-guerra e posteriormente transferido para a Polônia.

Em 1925, tornou-se membro das SA (Sturmabteilung), a milícia paramilitar do Partido Nazista, filiando-se formalmente ao NSDAP no ano seguinte. Sua ascensão foi rápida, impulsionada por sua habilidade administrativa e por sua lealdade ideológica.

O ponto decisivo de sua carreira ocorreu em 1933, quando conheceu Heinrich Himmler, líder da SS. Tornando-se um de seus protegidos, Pohl foi nomeado chefe do departamento administrativo do escritório do Reichsführer-SS.

Em 1934, recebeu a patente de SS-Standartenführer, passando a atuar diretamente no planejamento, organização e financiamento dos campos de concentração.

A partir de 1935, Pohl passou a supervisionar o sistema de campos, consolidando sua influência. Em 1939, assumiu o comando dos principais departamentos responsáveis pela construção, administração, orçamento e exploração econômica dos campos.

Sob sua direção, os prisioneiros passaram a ser tratados como recursos econômicos, sendo distribuídos conforme a demanda de trabalho forçado e até mesmo “alugados” a empresas privadas e projetos do Estado nazista.

O campo de Mauthausen tornou-se um dos exemplos mais brutais dessa política, com taxas de mortalidade extremamente elevadas.

Em 1942, Pohl foi promovido a SS-Obergruppenführer e general das Waffen-SS, alcançando um dos mais altos postos da hierarquia nazista. Dois anos depois, tornou-se o chefe administrativo das próprias Waffen-SS, ampliando ainda mais seu poder dentro do regime.

Nesse período, esteve à frente do WVHA (Escritório Central Econômico-Administrativo da SS), órgão diretamente ligado à implementação da chamada “Solução Final”.

Com o colapso do Terceiro Reich em 1945, Pohl fugiu e escondeu-se inicialmente na Baviera, depois nos subúrbios de Bremen. Foi localizado e preso pelas forças britânicas em 27 de maio de 1946.

No ano seguinte, foi levado a julgamento por um tribunal militar norte-americano, no chamado Julgamento de Pohl, um dos processos subsequentes aos Julgamentos de Nuremberg.

Pohl foi condenado à morte por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e assassinato em massa, devido à sua responsabilidade administrativa direta sobre os campos de concentração e extermínio.

A defesa sustentou que ele seria apenas um “funcionário técnico”, argumento rejeitado pelo tribunal, que considerou sua atuação essencial para o funcionamento do sistema genocida.

A execução, no entanto, não ocorreu imediatamente. Pohl apresentou diversos recursos legais e pedidos de clemência, inclusive apelos de caráter humanitário e religioso.

Após ter se afastado da Igreja Católica em 1935, reconciliou-se com ela durante o período de prisão, buscando apoio espiritual e institucional para evitar a pena capital.

Todas as apelações foram negadas. Em 7 de junho de 1951, Oswald Pohl foi enforcado na prisão de Landsberg, local onde outros criminosos nazistas também cumpriram suas sentenças.

Até o fim, insistiu em sua inocência, afirmando ter sido apenas um administrador obediente às ordens do Estado. A história de Oswald Pohl evidencia como o genocídio nazista não foi apenas obra de assassinos diretos, mas também de burocratas eficientes, que transformaram o extermínio humano em um sistema organizado, racionalizado e economicamente explorado.

domingo, janeiro 18, 2026

Loucura

“Amamos a vida não porque estamos acostumados a viver, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre também alguma razão na loucura.”

- Friedrich Nietzsche

Essa frase belíssima captura uma das ideias mais profundas do filósofo sobre a existência humana: o amor não é apenas um acidente ou um hábito da vida, ele é o que dá sentido e vigor à própria vida.

Não amamos a existência simplesmente por estarmos nela há anos, por rotina ou por inércia biológica. Amamos a vida porque o ato de amar - seja a uma pessoa, uma causa, uma arte, um ideal ou o próprio mistério do existir - nos torna capazes de afirmar a vida com entusiasmo, mesmo diante de suas dores e contradições.

Nietzsche sugere que o amor carrega inevitavelmente um elemento de loucura, ele nos faz exagerar, idealizar, arriscar, perder a medida, ignorar cálculos frios de conveniência.

Quem ama de verdade frequentemente age de modo que, aos olhos da razão estreita e utilitária, parece absurdo ou imprudente. No entanto, nessa aparente desrazão há uma sabedoria mais profunda: a loucura do amor muitas vezes revela verdades que a pura racionalidade não alcança.

Ela nos conecta ao instinto vital, à força dionisíaca que impulsiona a criação, a superação e a afirmação do mundo tal como ele é, belo e cruel ao mesmo tempo.

Em um mundo cada vez mais calculista e controlado - especialmente nestes tempos de algoritmos, métricas de produtividade e relacionamentos “otimizados” -, essa frase de Nietzsche soa quase como um manifesto de resistência.

Ela nos lembra que o que realmente nos mantém vivos não é a segurança, a previsibilidade ou o conforto, mas a capacidade de nos entregarmos a algo maior que nós mesmos - mesmo que isso envolva um pouco de desatino.

E você, já sentiu essa loucura razoável em algum momento da sua vida? Aquele instante em que o coração gritou mais alto que qualquer argumento sensato? Nietzsche diria que, nesses momentos, estamos mais próximos daquilo que realmente vale a pena ser chamado de “viver”.

Nos Banheiros da Roma Antiga



Na Roma Antiga, a higiene pessoal ocupava um lugar de grande importância no cotidiano da população. Por essa razão, os governantes investiram na construção de numerosos balneários públicos, espaços amplos e sofisticados onde homens e mulheres, em horários distintos, tomavam longos banhos coletivos.

Esses locais não eram apenas destinados à limpeza do corpo, mas também funcionavam como centros de convivência social, lazer e até negócios. Entretanto, quando se tratava da eliminação de resíduos corporais, a situação era bem diferente.

Inicialmente, muitas pessoas utilizavam vasilhas domésticas, descartando seu conteúdo em terrenos baldios, ruas ou cursos d’água. Outros simplesmente faziam suas necessidades no mato, o que contribuía para a sujeira, o mau cheiro e a proliferação de doenças dentro da cidade.



Com o crescimento urbano e o agravamento desses problemas, o governo romano passou a se preocupar mais seriamente com a limpeza e a salubridade urbana.

Assim, durante o período republicano (509–27 a.C.), surgiram os primeiros banheiros públicos, conhecidos como latrinae. Diferentemente dos balneários, esses espaços eram destinados exclusivamente à micção e à defecação.

A latrina pública consistia, em geral, em uma longa bancada de pedra com diversos orifícios alinhados, sobre os quais as pessoas se sentavam para realizar suas necessidades.

Nas construções mais avançadas para a época, havia um engenhoso sistema hidráulico: um fluxo contínuo de água corria sob os assentos, conduzindo os dejetos para os esgotos, frequentemente ligados à famosa Cloaca Máxima, uma das maiores obras de engenharia sanitária do mundo antigo.

Havia, sim, separação entre banheiros masculinos e femininos, mas a noção de privacidade praticamente não existia. Homens e mulheres faziam suas necessidades diante de outras pessoas, conversando naturalmente.

 


As latrinas tornaram-se, assim, espaços de sociabilidade inesperada: ali se discutiam acontecimentos políticos, fofocas do dia, combinavam-se jantares, encontros e até negócios. Em alguns casos, especialmente entre as mulheres, aproveitava-se o tempo para pequenos trabalhos manuais, como bordados.

Esses locais eram mantidos por escravos e escravas, responsáveis pela limpeza e pela manutenção básica. Também auxiliavam os usuários com utensílios de higiene, entre eles a famosa tersorium: uma esponja presa a um cabo, utilizada para limpeza íntima e compartilhada por todos.

Doenças e riscos à saúde

Apesar de representarem um avanço em termos de organização urbana, as latrinas estavam longe de serem ambientes saudáveis. Eram geralmente úmidas, escuras e mal ventiladas, o que favorecia o surgimento de ratos, insetos e outros animais que, não raramente, mordiam ou picavam as nádegas e as pernas dos usuários.

Além disso, o acúmulo de gases como o metano nos esgotos chegou, em alguns relatos, a provocar pequenas chamas ou explosões ocasionais, aumentando ainda mais o temor em torno desses espaços.



O uso compartilhado das esponjas de limpeza contribuía significativamente para a disseminação de bactérias e parasitas, podendo favorecer doenças graves, como a febre tifoide, infecções intestinais e outras enfermidades transmitidas por contaminação fecal. Some-se a isso o contato constante com o ambiente do esgoto, onde não era raro sofrer mordidas ou picadas de animais que ali habitavam.

Assim, as latrinas romanas simbolizam um paradoxo da civilização antiga: ao mesmo tempo em que revelam o alto nível de engenharia, organização urbana e vida social dos romanos, também expõem os limites do conhecimento sanitário da época e os riscos cotidianos enfrentados por uma população que buscava, à sua maneira, conciliar convivência, higiene e sobrevivência.


sábado, janeiro 17, 2026

Voo Helios Airways 522


 

No dia 14 de agosto de 2005, um Boeing 737-300 da companhia cipriota Helios Airways, operando o voo 522, tornou-se protagonista de uma das mais silenciosas e perturbadoras tragédias da aviação civil europeia.

A aeronave decolou de Larnaca, no Chipre, com destino a Praga, fazendo escala em Atenas. Nada indicava, nos primeiros minutos, que aquele voo terminaria de forma tão devastadora.

Horas depois, o Boeing passou a sobrevoar a região de Atenas em círculos, em um padrão incomum e inquietante. Alarmadas pela ausência de comunicação com a cabine, as autoridades gregas enviaram dois caças F-16 da Força Aérea Helênica para interceptar a aeronave e verificar o que acontecia.

Os pilotos dos caças se aproximaram e conseguiram observar o interior do cockpit. Viram uma pessoa sentada no assento do comandante, aparentemente inconsciente, enquanto o copiloto permanecia imóvel.

A cabine estava silenciosa. Nenhum sinal de reação. O avião seguia sob o controle exclusivo do piloto automático, obedecendo apenas à lógica fria dos sistemas de navegação.

Pouco depois, sem intervenção humana possível, o Boeing 737-300 colidiu com uma montanha a nordeste de Atenas. Todos os 121 passageiros e tripulantes morreram.

As investigações revelaram uma sequência trágica de erros e omissões. A causa inicial do acidente foi a não pressurização da cabine. Durante uma inspeção em solo, engenheiros de manutenção deixaram o sistema de pressurização ajustado para o modo manual, quando o procedimento correto exigia que estivesse em automático. Esse detalhe aparentemente banal selou o destino da aeronave.

À medida que o avião ganhava altitude, o ar na cabine tornou-se cada vez mais rarefeito. Em poucos minutos, por volta dos 3.000 metros, a tripulação e a maioria dos passageiros já apresentavam sintomas severos de hipóxia.

Pouco depois, cerca de 120 das 121 pessoas a bordo perderam completamente a consciência, entrando em estado de anoxia profunda.

A autópsia confirmou que a causa da morte foi o impacto da queda, e não a despressurização em si - um dado que apenas reforça o caráter cruel da tragédia: muitos ainda estavam vivos quando o avião tocou a montanha.

Entre todos, apenas Andreas Prodromou, comissário de bordo, conseguiu manter-se consciente por mais tempo. Acredita-se que ele tenha sobrevivido graças ao uso de cilindros extras de oxigênio, disponíveis para emergências. Em um esforço heroico, Andreas percorreu o corredor da aeronave, utilizou máscaras suplementares e conseguiu chegar ao cockpit.

Seu objetivo era claro: assumir o controle do avião e tentar salvá-lo. O gesto era ainda mais carregado de simbolismo. Andreas havia recebido recentemente sua licença de pilotagem e sonhava, um dia, tornar-se piloto da própria Helios Airways.

Diante do caos absoluto, tentou transformar esse sonho em última esperança. Contudo, o tempo, o combustível e as limitações técnicas já não estavam a seu favor. Sem combustível suficiente e sem condições reais de recuperação, o voo 522 continuou em voo automático por quase três horas, até o desfecho inevitável.

O acidente da Helios Airways permanece como um dos exemplos mais dramáticos de como uma falha humana aparentemente simples, aliada à ausência de resposta rápida e à fragilidade do corpo humano diante da falta de oxigênio, pode desencadear uma cadeia irreversível de eventos.

É também um lembrete contundente de que, na aviação, cada detalhe importa - e que, muitas vezes, o silêncio pode ser tão mortal quanto o erro.

O Padre Moderno


Era sábado à noite quando aquele padre moderninho, adepto de homilias leves e discursos atualizados, resolveu fazer uma visita pastoral a um dos membros mais assíduos da paróquia.

Imaginava encontrar uma família reunida, talvez um café simples, algumas queixas espirituais e a costumeira conversa edificante.

Mal tocou a campainha, porém, foi recebido por uma cena que nenhum seminário ousaria preparar: o anfitrião surgiu completamente nu, sorridente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Antes mesmo que o padre pudesse articular qualquer palavra, foi atingido por uma explosão de sons vindos do interior da casa: gritaria, música sensual em volume exagerado e gargalhadas escancaradas. Bastou um rápido olhar para perceber que ali acontecia uma festa nada convencional, dessas que jamais entram nos relatórios paroquiais.

- Entre, padre! - convidou o dono da casa, com a maior naturalidade, abrindo espaço na porta.

O sacerdote recuou instintivamente, mas a curiosidade - e talvez um resquício de ingenuidade pastoral - o fez espiar para dentro. Foi então que o anfitrião, orgulhoso do espetáculo, explicou:

- Estamos brincando de um joguinho muito interessante! Está vendo aquelas garotas de olhos vendados? Pois é… elas precisam apalpar o peru dos homens para descobrir quem é quem. Um desafio de percepção, entende? Quer participar? É divertidíssimo!

O padre sentiu o rosto arder. Endireitou o colarinho, pigarreou e respondeu, tentando manter a dignidade:

- Desculpe, meu filho, mas creio sinceramente que aqui não é o meu lugar.

Já se preparava para virar as costas quando ouviu a réplica, carregada de malícia:

- Ora, padre! Deixe de cerimônias! O senhor está fazendo sucesso… Seu nome já foi citado três vezes nas tentativas de adivinhação!

O padre saiu apressado, murmurando uma oração que misturava espanto, constrangimento e um leve questionamento interior. Afinal, naquela noite, quem mais precisaria de absolvição: os fiéis ou a própria ideia de modernidade?

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Violet Hilton e Daisy Hilton



Violet e Daisy Hilton foram gêmeas siamesas nascidas em 5 de fevereiro de 1908, em Brighton, na Inglaterra. Elas se tornaram famosas como artistas de entretenimento, passando de atrações de espetáculos secundário para estrelas de vaudeville e cinema nos Estados Unidos.

Sua mãe, Kate Skinner, era uma garçonete solteira que trabalhava em um pub. As meninas nasceram unidas pelos quadris e nádegas, compartilhando a circulação sanguínea e fundidas na pelve, mas possuíam órgãos vitais separados, o que, hoje em dia, facilitaria uma separação cirúrgica, mas na época era considerado impossível sem risco fatal.

O parto foi assistido pela empregadora de Kate, Mary Hilton, uma parteira e dona de pub que imediatamente viu potencial comercial nas gêmeas. Kate, possivelmente acreditando que a condição das filhas era um castigo divino por sua gravidez fora do casamento, entregou-as a Mary Hilton, que assumiu efetivamente a custódia.

As gêmeas passaram a infância sendo exibidas em pubs de Brighton, como o Queen's Head e depois o Evening Star, onde o público pagava para vê-las e até tocá-las. Mary Hilton, junto com o marido e a filha, exercia controle rígido, com relatos de abusos físicos, forçando-as a chamá-la de "Auntie Lou" (Tia Lou) e o marido de "Sir".

Elas foram treinadas intensivamente em canto, dança, sapateado e instrumentos musicais - como saxofone, violino, piano e clarinete - para se destacarem de outras atrações. Um relato médico detalhado do nascimento foi publicado no British Medical Journal pelo Dr. James Augustus Rooth, que atendeu o parto.

Ele destacou que as Hilton foram as primeiras gêmeas siamesas nascidas no Reino Unido a sobreviverem mais do que algumas semanas. A Sussex Medico-Chiurgical Society avaliou a possibilidade de separação, mas decidiu unanimemente contra, pois a cirurgia mataria pelo menos uma delas.

Aos três anos (1911), elas iniciaram turnês como "The United Twins" ou "The Double Bosses" na Grã-Bretanha, depois na Alemanha, Austrália e, a partir de 1916, nos Estados Unidos. Mary Hilton explorava-as em espetáculos com narrativas sensacionalistas, ficando com todo o dinheiro ganho.

Após a morte de Mary em 1919 sua filha Edith e o genro Myer (ou Meyer) Meyers assumiram o controle, continuando os abusos e treinando-as em jazz para torná-las mais únicas.

Em 1926, elas atuaram no show "Dancemedians" de Bob Hope, com números de sapateado. Moraram em uma mansão em San Antônio, Texas, por volta de 1930. Em 1931, as irmãs processaram os empresários Meyers em San Antônio, conquistando a emancipação legal, o rompimento do contrato e US$ 100.000 em danos (equivalente a cerca de US$ 1,7 milhão hoje).

Livre, elas abandonaram os espetáculos e passaram ao vaudeville com "The Hilton Sisters' Revue". Daisy tingiu o cabelo de loiro, e elas adotaram roupas diferentes para se distinguirem visualmente.

Tornaram-se atrações populares, com performances sofisticadas. A vida amorosa foi complicada: tiveram vários relacionamentos, mas pedidos de licença de casamento foram negados em pelo menos 21 estados por "indecência".

Violet ficou noiva do músico Maurice Lambert, mas sem sucesso. Houve um casamento de Violet com James Moore em 1936 no Cotton Bowl (Dallas), mas foi admitido como façanha publicitário (ele era gay).

Daisy engravidou uma vez, mas o filho foi dado para adoção. Elas apareceram no filme clássico Freaks (1932), de Tod Browning, interpretando a si mesmas. Em 1951, estrelaram Chained for Life, um filme exploração vagamente baseado em suas vidas, com trama de crime.

Com o declínio do vaudeville e burlesca nos anos 1940-1950, a fama diminuiu. Elas tentaram negócios como um snack bar em Miami, mas falhou. A última aparição pública foi em 1961, promovendo uma reexibição de Freaks em um drive-in em Charlotte, Carolina do Norte.

Abandonadas pelo gerente da turnê, sem dinheiro para voltar, aceitaram emprego em um supermercado (Park-N-Shop), trabalhando no caixa e na seção de hortifrúti - o dono adaptou o balcão para duas pessoas.

Em 4 de janeiro de 1969, após faltarem ao trabalho durante a pandemia de gripe Hong Kong (1968-1969, que matou milhões globalmente), o chefe chamou a polícia.

Elas foram encontradas mortas em casa, aos 60 anos. A autópsia indicou que Daisy morreu primeiro de complicações da gripe; Violet sobreviveu de 2 a 4 dias, devido à circulação compartilhada, Violet provavelmente enfraqueceu rapidamente.

Foram enterradas no Forest Lawn West Cemetery, em Charlotte, dividindo túmulo com outro falecido (sem lápide própria). Seu legado continua em obras culturais: em 1989, o musical Twenty Fingers Twenty Toes estreou off-Broadway (35 apresentações), com enredo fiel no início, mas fictício depois (tentativa de separação adulta).

Em 1997, Side Show (livro e letras de Bill Russell, música de Henry Krieger) estreou na Broadway, recebendo 4 indicações ao Tony Awards; revival em 2014. A história inspirou documentários e livros, destacando exploração, resiliência e busca por aceitação.

As Hilton representam uma trajetória trágica de exploração desde a infância até a independência tardia, mas com talento e determinação que as tornaram ícones da era do vaudeville.

 

Incitatus - O cavalo Senador de Roma


A História, com sua vastidão de episódios e personagens, reserva acontecimentos tão insólitos que beiram o inacreditável. Entre eles está um dos fatos mais curiosos da Roma Antiga: a nomeação de um cavalo como senador.

Seu nome era Incitatus, e sua trajetória tornou-se símbolo não apenas da excentricidade imperial, mas também da decadência política de um dos períodos mais turbulentos do Império Romano.

Roma foi governada, entre os anos 37 e 41 d.C., por Caio Júlio César Augusto Germânico, mais conhecido como Calígula. Terceiro imperador romano e membro da dinastia júlio-claudiana - inaugurada por Augusto -, Calígula subiu ao poder ainda jovem, aos 24 anos, cercado de expectativas.

No entanto, seu reinado logo se transformou em sinônimo de arbitrariedade, extravagância, crueldade e desequilíbrio. O apelido “Calígula”, que significa “botinhas”, foi-lhe dado ainda na infância pelos soldados das legiões comandadas por seu pai, Germânico.

Achavam curioso vê-lo vestido como um pequeno legionário, calçando as caligae, as sandálias militares romanas. O que começou como uma alcunha afetuosa acabou por se tornar o nome pelo qual seria eternamente lembrado, ironicamente associado à tirania e à loucura.

Entre as muitas excentricidades atribuídas ao imperador, nenhuma ganhou tanta notoriedade quanto sua obsessão por um cavalo de corrida chamado Incitatus.

O animal teria sido trazido da Hispânia, região de onde Roma importava, à época, cerca de dez mil cavalos por ano, destinados às corridas, ao exército e às elites aristocráticas.

Segundo o historiador Suetônio, autor de A Vida dos Doze Césares, Calígula dedicava a Incitatus cuidados dignos de um membro da família imperial. O cavalo possuía dezoito criados pessoais, responsáveis por seu trato, alimentação e descanso.

Para evitar qualquer ruído que pudesse perturbá-lo antes das corridas, o imperador ordenava silêncio absoluto nas redondezas de seu estábulo. Incitatus usava um colar adornado com pedras preciosas, dormia envolto em mantas de púrpura - cor reservada exclusivamente à realeza - e era alimentado em comedouros de marfim.

Havia ainda uma estátua em tamanho natural, esculpida em mármore, com pedestal igualmente luxuoso, perpetuando a imagem do cavalo como um verdadeiro símbolo de ostentação imperial.

Entretanto, o episódio mais controverso - e emblemático - foi a decisão de nomear Incitatus senador de Roma. Mais do que um gesto de loucura isolada, muitos historiadores interpretam essa atitude como uma provocação deliberada ao Senado.

Ao elevar um animal à mais alta esfera política, Calígula teria demonstrado seu desprezo pela elite senatorial, insinuando que até um cavalo seria mais digno do cargo do que muitos dos homens que o ocupavam.

Relatos indicam ainda que o imperador cogitou torná-lo cônsul e até sacerdote, cargos de extrema importância política e religiosa. Contudo, seus planos foram interrompidos quando Calígula foi assassinado, aos 28 anos, em uma conspiração liderada pela Guarda Pretoriana, cansada de seus abusos e temerosa por sua própria sobrevivência.

Com a morte do imperador, a improvável carreira política de Incitatus chegou ao fim. O cavalo senador tornou-se, ao longo dos séculos, um símbolo da degradação do poder absoluto, da vaidade desenfreada e da fragilidade das instituições quando submetidas à tirania.

Assim, Incitatus permanece na memória histórica não apenas como um episódio curioso, mas como um retrato vívido de um império que, mesmo em seu esplendor, já dava sinais claros de sua própria decadência.


quinta-feira, janeiro 15, 2026

Amor na Estação

 


Veja como a geada realça lindamente os detalhes desta escultura, destacando texturas, contornos e até uma certa melancolia poética no bronze. A obra se chama Departure (Partida) e é uma escultura em bronze de tamanho real criada pelo artista americano George Lundeen - nascido em 1948, em Holdrege, Nebraska.

O próprio artista conta a origem da peça: “A peça original veio de um esboço que fiz na estação ferroviária de Roma, Itália. Havia alguns jovens sentados no chão de mármore à minha frente.

Tornou-se a primeira escultura em tamanho natural que eu fiz.” Lundeen, que estudou na Accademia di Belle Arti em Florença (Itália) como bolsista Fulbright-Hayes, capturou naquele momento casual um instante universal: um casal jovem esperando um trem, abraçados em um banco, com uma mala ao lado.

O homem envolve a mulher com o braço, transmitindo conforto e intimidade em meio à incerteza da partida. A escultura transmite o impulso humano de viajar, crescer e mudar, temas que o artista explora frequentemente ao transformar cenas cotidianas em bronze.

O processo de criação começou com um esboço rápido em 1973, evoluiu para um modelo em argila e culminou em bronze entre 1984 e 1986. Departure foi premiada pela National Sculpture Society, medalha de bronze em 1981 e medalha de bronze na exposição Prizewinner em 1983, o que ajudou a consolidar Lundeen como um dos principais escultores figurativos dos EUA.

Ele fundou o estúdio Lundeen Sculptures em Loveland, Colorado, hoje um dos maiores centros de escultura em bronze do país, onde várias cópias da obra foram fundidas.

A versão que aparece coberta de geada está nos Jardins Botânicos VanDusen, em Vancouver, Canadá (especificamente na área Cleghorn Family Landing). Foi doada à VanDusen Botanical Garden Association em 2013 e faz parte da coleção de arte pública da cidade.

Não é uma peça única: existem outras cópias idênticas ou semelhantes em locais como Greenwood Village (Colorado), Idaho State University e possivelmente Loveland.

Um detalhe curioso: em março de 2021, uma foto tirada em uma manhã fria no VanDusen viralizou nas redes (especialmente no Reddit e em sites de arte), mostrando exatamente essa camada fina de geada que dá à escultura um ar etéreo, quase como se o casal estivesse "congelado no tempo".

A geada destaca os relevos do bronze, realçando o abraço protetor e a expressão serena, transformando a obra em algo ainda mais poético e emocional - um contraste perfeito entre o frio externo e o calor humano interno.

George Lundeen continua ativo, produzindo esculturas figurativas realistas que celebram a vida cotidiana, e Departure permanece uma de suas peças mais queridas e reconhecidas, simbolizando transições, despedidas e a força dos laços afetivos.

Sabei políticos.


A política, em sua essência frequentemente corrompida, revela-se como a arte sutil de conduzir os menos escrupulosos às posições mais elevadas de poder e de generosa remuneração.

Não raras vezes, o exercício do governo deixa de ser um serviço à coletividade para tornar-se um mecanismo de autopreservação, no qual interesses particulares se sobrepõem ao bem comum.

O governante assemelha-se à abelha: aquela que produz o mínimo de mel é, paradoxalmente, a que mais fere com seu ferrão. Quanto menos entrega à sociedade, mais se arma de privilégios, discursos vazios e instrumentos de coerção para sustentar sua permanência no poder.

Em vez de fertilizar o campo social com ações concretas, prefere impor sua autoridade pela ameaça, pela manipulação ou pela indiferença.

Sabei, ó deputados; sabei, ó governadores; sabei, ó presidente: prestar-vos-eis estreita conta não apenas dos atos que praticastes, mas com rigor ainda maior, daquilo que, por conveniência, covardia ou cálculo político, deixastes de realizar.

A omissão, no exercício do poder, não é neutra; ela produz consequências tão devastadoras quanto os atos deliberadamente injustos. Escolher não agir diante da miséria, da desigualdade, da violência ou da corrupção é, em si, uma forma de ação perversa.

Tal advertência não é nova. Já no século XVII, o Padre Antônio Vieira, em seu Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650), ecoava uma verdade incômoda e atemporal:

“Sabei, cristãos, sabei, príncipes, sabei, ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito mais estreita do que deixastes de fazer.”

Pelo que fizeram, condenam-se muitos; pelo que não fizeram, condenam-se todos. Essa máxima atravessa os séculos como um julgamento silencioso, lembrando que a verdadeira responsabilidade do poder reside menos nos gestos espetaculares e mais na constância das ações que nunca chegaram a existir.

É na ausência de políticas públicas eficazes, no abandono dos mais vulneráveis e no silêncio cúmplice diante das injustiças que se revelam os maiores crimes de um governo.

Os líderes que se omitem não apenas falham; eles perpetuam estruturas de sofrimento, aprofundam desigualdades e legitimam a corrupção como norma. Sua inércia transforma-se em herança social, deixando cicatrizes que perduram muito além de seus mandatos.

Assim, a política, quando desprovida de ética e compromisso humano, deixa de ser instrumento de transformação para tornar-se uma engrenagem de perpetuação do mal, um espaço onde o que não se faz pesa, muitas vezes, mais do que aquilo que se fez.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Jeanine Deckers e o sucesso Dominique


 Jeanine Deckers e o fenômeno “Dominique”


Jeanne-Paule Marie Deckers, conhecida mundialmente como Jeanine Deckers, nasceu em 17 de outubro de 1933, na Bélgica. Tornou-se famosa sob o nome artístico Irmã Sorriso - tradução de Sœur Sourire - apelido que refletia sua postura serena, afetuosa e sua presença carismática.

Freira dominicana, compositora e intérprete, ela se transformou, de maneira quase improvável, em um dos maiores fenômenos musicais dos anos 1960. Entre 1959 e 1966, viveu como freira no convento dominicano de Fichermont, em Waterloo.

Foi nesse ambiente de recolhimento que começou a compor canções simples, inspiradas na fé, na vida comunitária e em figuras religiosas. Inicialmente, suas músicas eram cantadas apenas para as irmãs do convento, sem qualquer intenção comercial.

No entanto, a espontaneidade e a doçura de sua voz chamaram a atenção de produtores, e suas gravações foram realizadas mantendo, por algum tempo, sua identidade em segredo.

Em 1963, Jeanine alcançou fama internacional com a canção “Dominique”, dedicada a São Domingos, fundador da Ordem Dominicana. Gravada originalmente em francês, a música ganhou posteriormente uma versão em inglês, mais adaptada ao mercado internacional.

O sucesso foi avassalador: Dominique alcançou o primeiro lugar da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos, feito extraordinário para uma canção religiosa em língua estrangeira.

Naquele ano, a Irmã Sorriso desbancou nomes como Elvis Presley e The Beatles, tornando-se um símbolo inesperado da chamada invasão cultural europeia no mercado musical americano.

O disco vendeu cerca de três milhões de cópias em todo o mundo. No entanto, fiel ao voto de pobreza, Jeanine nunca recebeu os rendimentos financeiros desse sucesso.

Todo o dinheiro arrecadado foi destinado ao convento ao qual pertencia. O que parecia um gesto coerente com sua vida religiosa acabou se transformando, anos depois, em uma tragédia burocrática e humana: não houve registros formais nem recibos das doações feitas à instituição religiosa.

Após deixar o convento, Jeanine tentou retomar a carreira musical sob seu próprio nome, agora buscando uma expressão artística mais livre e alinhada a suas convicções pessoais.

No entanto, o público já não a reconhecia da mesma forma, e suas tentativas de sucesso comercial fracassaram. Paralelamente, o Fisco belga passou a exigir o pagamento de impostos retroativos sobre os lucros obtidos com Dominique.

Apesar de ela nunca ter recebido o dinheiro, a ausência de comprovação oficial das doações levou a um longo e desgastante processo judicial, que se arrastou por anos e jamais foi concluído antes de sua morte.

O peso das dificuldades financeiras, somado à frustração artística, ao isolamento e à depressão, minou profundamente sua saúde emocional. Em 29 de março de 1985, Jeanine Deckers morreu por suicídio, em um trágico pacto de morte com Annie Pécher, sua companheira e amiga íntima, por meio da ingestão de álcool e barbitúricos.

As duas foram enterradas juntas, gesto final que simboliza a intensidade do vínculo que compartilharam nos últimos anos de vida. Apesar de sua trajetória marcada por contrastes - fé e indústria cultural, sucesso e abandono, reconhecimento e esquecimento -, o legado de Jeanine Deckers permanece vivo.

No Brasil, a canção “Dominique” ganhou versões de destaque, como a gravação de Giane, em 1965, e a interpretação popular do Trio Esperança, que ajudaram a eternizar a melodia no imaginário nacional.

Em 2013, a música voltou a alcançar grande visibilidade ao ser utilizada na série American Horror Story: Asylum, reacendendo o interesse de novas gerações. Desde então, Dominique passou a circular amplamente em vídeos curtos na internet, memes e trilhas sonoras, mantendo-se surpreendentemente atual e reconhecível mais de sessenta anos após seu lançamento.

A história de Jeanine Deckers é, acima de tudo, um retrato cruel de como o sucesso pode ser efêmero e de como estruturas institucionais - religiosas, jurídicas ou culturais - nem sempre protegem aqueles que ajudam a construir seus símbolos.

Entre o sorriso que encantou o mundo e o silêncio que marcou seu fim, permanece uma voz suave que atravessou décadas, lembrando que até os fenômenos mais luminosos podem carregar sombras profundas.