Propaganda

This is default featured slide 1 title

Go to Blogger edit html and find these sentences.Now replace these sentences with your own descriptions.This theme is Bloggerized by Lasantha Bandara - Premiumbloggertemplates.com.

This is default featured slide 2 title

Go to Blogger edit html and find these sentences.Now replace these sentences with your own descriptions.This theme is Bloggerized by Lasantha Bandara - Premiumbloggertemplates.com.

This is default featured slide 3 title

Go to Blogger edit html and find these sentences.Now replace these sentences with your own descriptions.This theme is Bloggerized by Lasantha Bandara - Premiumbloggertemplates.com.

This is default featured slide 4 title

Go to Blogger edit html and find these sentences.Now replace these sentences with your own descriptions.This theme is Bloggerized by Lasantha Bandara - Premiumbloggertemplates.com.

This is default featured slide 5 title

Go to Blogger edit html and find these sentences.Now replace these sentences with your own descriptions.This theme is Bloggerized by Lasantha Bandara - Premiumbloggertemplates.com.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

O medo



Se você ama, terá AIDS; se fuma, terá câncer; se respira, terá poluição - ou, hoje, partículas tóxicas e vírus no ar; - se bebe, terá acidentes - ou cirrose, ou dependência -; se come, terá colesterol - ou obesidade, diabetes, ou alimentos envenenados por agrotóxicos -; se fala, terá desemprego - ou cancelamento, vigilância digital, ou retaliação -; se caminha, terá violência - ou assédio, ou bala perdida -; se pensa, terá angústia; se dúvida, terá loucura; se sente, terá solidão. (Eduardo Galeano)

Essa lista implacável, escrita décadas atrás, continua ecoando com uma força perturbadora. Galeano desenhava o retrato de uma sociedade que transforma cada ato vital em risco calculado, cada prazer em ameaça iminente, cada gesto humano em potencial castigo. Viver, nessa lógica, deixa de ser um direito e passa a ser uma sucessão de advertências.

O medo já não é apenas uma experiência íntima, subjetiva. Ele é fabricado, administrado e distribuído em escala industrial. Alimenta-se de campanhas alarmistas, de manchetes incessantes, de estatísticas descontextualizadas, de algoritmos que aprendem rapidamente aquilo que nos paralisa. O medo, hoje, é um produto eficiente: mantém a atenção, gera consumo, controla comportamentos.

Nos anos 1980 e 1990, quando Galeano mencionava a AIDS como punição pelo amor, o pânico era generalizado. O vírus carregava um julgamento moral embutido: amar demais, amar errado, amar fora da norma.

Embora os avanços médicos tenham transformado radicalmente o tratamento e a expectativa de vida das pessoas soropositivas, o estigma ainda sobrevive, silencioso e cruel, em muitos cantos do mundo.

O mesmo ocorreu com o medo do câncer ligado ao cigarro, que se expandiu e se ramificou. Hoje, tudo parece potencialmente cancerígeno: telas, plásticos, radiação invisível, alimentos ultra processados, microplásticos que já circulam no sangue humano. A sensação é de cerco permanente, como se não houvesse refúgio possível.

A esses temores soma-se o medo climático - se você vive, consome; se consome, destrói; se respira, aquece o planeta. Soma-se também o medo da vigilância total - se você usa o celular, deixa rastros; se fala, é monitorado; se cala, é suspeito.

E, mais recentemente, o medo da precariedade infinita - se trabalha, será substituído por uma máquina; se descansa, será considerado improdutivo; se sonha, estará fora do jogo.

O medo da solidão, paradoxalmente, se aprofunda na era das conexões incessantes. Nunca estivemos tão expostos, tão visíveis, tão disponíveis - e, ao mesmo tempo, tão carentes de presença real, de toque, de escuta verdadeira. Multiplicam-se os contatos, rarefaz-se o encontro.

Ainda assim, Galeano não se detinha apenas na denúncia. Sua escrita nunca foi um convite à rendição. Ele sempre contrapôs o terror paralisante à teimosia humana de continuar vivendo: amando, respirando, pensando, sentindo, apesar de tudo. Em seus textos, o medo é onipresente, mas nunca soberano.

Há sempre a criança que ri na rua, o cachorro que insiste no passeio, a mulher que cultiva flores num terreno abandonado, o gesto pequeno que desafia a lógica do desespero.

Galeano era, nesse sentido, um pessimista da razão e um otimista da ação. Reconhecia a infelicidade produzida pelo sistema - pelo capital, pelo medo vendido como método de controle -, mas acreditava na persistência inexplicável da dignidade humana.

Não estamos condenados sem saída. Estamos ameaçados, sim. Cercados, muitas vezes. Mas a rebeldia cotidiana, o afeto que resiste, a utopia que insiste em reaparecer quando tudo parece perdido continuam sendo formas legítimas de resistência.

Talvez o medo não seja apenas aquilo que nos paralisa. Talvez ele também seja o sinal de que ainda estamos vivos o suficiente para perceber que o mundo poderia - e deveria - ser diferente. 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Henri Charrière - O Papillon

 


Henri Charrière: vida, mito e controvérsia

Henri Charrière nasceu em 16 de novembro de 1906, em Saint-Étienne-de-Lugdarés, no departamento de Ardèche, sul da França. Tornou-se mundialmente conhecido como o suposto autor do livro Papillon, publicado em 1969 e posteriormente adaptado para o cinema em 1973.

Escritor tardio, Charrière construiu sua fama a partir de uma narrativa marcada por sofrimento extremo, fugas audaciosas e uma permanente afirmação de inocência, elementos que contribuíram tanto para o sucesso da obra quanto para as dúvidas sobre sua veracidade.

Antes de se tornar um nome célebre da literatura de memórias, Charrière teve uma juventude conturbada. Filho de uma família modesta, tinha duas irmãs mais velhas e sofreu um golpe profundo ainda criança: a morte de sua mãe, quando ele tinha apenas dez anos.

Esse episódio marcou sua personalidade e, segundo relatos posteriores, contribuiu para sua rebeldia e instabilidade emocional. Aos 17 anos, em 1923, alistou-se na Marinha Francesa, onde serviu por cerca de dois anos.

Após deixar o serviço militar, mergulhou no submundo parisiense do final dos anos 1920 e início dos anos 1930, vivendo como vagabundo e aplicando pequenos golpes. Foi nesse ambiente de criminalidade, miséria e violência que seu destino tomou um rumo irreversível.

A condenação e o envio à Guiana Francesa

Segundo a versão apresentada em Papillon, Charrière foi condenado em 26 de outubro de 1931 pelo assassinato de um cafetão chamado Roland Le Petit, crime que sempre negou com veemência.

Apesar das provas frágeis e das inconsistências do processo, foi sentenciado à prisão perpétua com dez anos de trabalhos forçados, uma pena comum na França da época para crimes considerados graves.

Pouco depois da condenação, em 22 de dezembro de 1931, casou-se com Georgette Fourel, então prefeita do 1º arrondissement de Paris, uma união que mais tarde se dissolveria, culminando no divórcio oficial em 1970.

Em 1933, após uma passagem pela prisão de Beaulieu, em Caen, Charrière foi transportado para a Guiana Francesa, desembarcando no temido complexo penal de Saint-Laurent-du-Maroni, às margens do rio Maroni.

A colônia penal francesa era conhecida por suas condições desumanas, altas taxas de mortalidade e pelo uso sistemático do isolamento como punição psicológica.

Fugas, castigos e versões conflitantes

Em Papillon, Charrière descreve uma série de fugas espetaculares, iniciadas em 28 de novembro de 1933, ao lado de companheiros como André Maturette e Joanes Clousiot. Após semanas à deriva, o grupo teria sido capturado na Colômbia e posteriormente disperso.

Em outra fuga, afirma ter vivido por meses com uma tribo indígena na Península de La Guajira, experiência que descreve com tons quase míticos. No entanto, documentos oficiais franceses divulgados posteriormente contradizem vários desses episódios.

Os registros indicam que Charrière nunca esteve preso na Ilha do Diabo, como afirma no livro, mas sim em outras unidades do sistema penal, incluindo a Ilha de São José, onde passou dois anos em confinamento solitário após uma tentativa de fuga frustrada em 1934.

Ainda segundo os arquivos oficiais, ele trabalhou como auxiliar de enfermagem no Hospital Colonial André-Bouron, o que lhe garantiu melhores condições de sobrevivência em comparação aos prisioneiros enviados a campos madeireiros, onde muitos morriam em poucos meses.

Ali, ouviu inúmeros relatos de fugas de outros condenados, histórias que, mais tarde, seriam incorporadas à narrativa de Papillon. A fuga definitiva teria ocorrido entre 18 e 19 de março de 1944, quando escapou do acampamento florestal de Cascades, acompanhado de outros quatro prisioneiros.

Exílio, liberdade e reconstrução da vida

Após um período de liberdade provisória, Charrière recebeu a liberdade total em 1945. Estabeleceu-se na Venezuela, onde se naturalizou cinco anos depois. Casou-se novamente, dessa vez com uma venezuelana chamada Rita Bensimon, e abriu restaurantes nas cidades de Caracas e Maracaibo.

Na Venezuela, passou a ser tratado como uma celebridade local, frequentemente convidado para programas de televisão. Sua vida tomou um rumo inesperado quando decidiu transformar suas memórias em livro.

Papillon: sucesso, cinema e polêmica

Publicado em 1969, Papillon foi um sucesso imediato, vendendo mais de 1,5 milhão de exemplares apenas na França. O impacto cultural foi tão grande que um ministro francês chegou a atribuir “o declínio moral da França” a dois fenômenos: as minissaias e Papillon.

A obra foi adaptada para o cinema em 1973, em um filme dirigido por Franklin J. Schaffner, estrelado por Steve McQueen no papel de Charrière e com roteiro de Dalton Trumbo. O próprio Charrière atuou como consultor durante as filmagens. Em 2017, uma nova adaptação foi lançada, dirigida por Michael Noer, com Charlie Hunnam no papel principal.

Apesar do sucesso, a autoria de Papillon permanece profundamente contestada. Pesquisadores e historiadores afirmam que Charrière teria se apropriado de experiências vividas por outros prisioneiros, especialmente o escritor René Belbenoît, autor de relatos detalhados sobre a vida na colônia penal da Guiana Francesa.

Para muitos estudiosos, Papillon seria menos uma autobiografia fiel e mais um mosaico de histórias alheias, habilmente costuradas sob um único nome.

Perdão e morte

Em 1970, o sistema de justiça francês concedeu a Charrière um perdão oficial pela condenação de 1931. Três anos depois, em 29 de julho de 1973, Henri Charrière morreu em Madri, na Espanha, vítima de câncer na garganta.

Entre a realidade documentada e o mito literário, Henri Charrière permanece como uma figura ambígua: símbolo de resistência e liberdade para alguns, impostor habilidoso para outros.

Ainda assim, Papillon segue como uma das narrativas mais impactantes já escritas sobre o sistema penal francês, seja como verdade literal ou como poderosa ficção inspirada em vidas reais.


Protestantismo



O protestantismo é uma das grandes vertentes do cristianismo e teve origem no século XVI, a partir da chamada Reforma Protestante, um amplo movimento religioso, político e cultural que surgiu como reação ao que seus seguidores consideravam desvios doutrinários, morais e institucionais da Igreja Católica Romana.

De modo geral, os protestantes rejeitam a doutrina da supremacia papal e a concepção católica dos sacramentos, embora não formem um bloco homogêneo. Há divergências significativas entre as diversas denominações protestantes, especialmente no que diz respeito à presença real de Cristo na Eucaristia, à organização eclesiástica, à sucessão apostólica e às relações entre Igreja e poder político.

Essa pluralidade, longe de ser um detalhe marginal, tornou-se uma de suas marcas constitutivas. Entre os princípios centrais do protestantismo destacam-se o sacerdócio universal dos crentes, segundo o qual todo fiel pode se relacionar diretamente com Deus sem a mediação exclusiva de um clero hierarquizado; a doutrina da justificação somente pela fé (sola fide), em oposição à ideia de que as boas obras contribuiriam para a salvação; e o entendimento de que a salvação decorre unicamente da graça divina (sola gratia), concebida como favor imerecido.

Soma-se a isso a afirmação da Bíblia como única autoridade máxima em matéria de fé e doutrina (sola scriptura), em contraste com a tradição sagrada e o magistério eclesiástico católico. Esses princípios, sintetizados nos chamados cinco solae, expressam as diferenças teológicas fundamentais em relação ao catolicismo romano.

O marco simbólico inicial da Reforma ocorreu em 1517, na Alemanha, quando Martinho Lutero publicou suas Noventa e Cinco Teses, denunciando sobretudo os abusos na venda de indulgências, prática pela qual a Igreja prometia a remissão das penas temporais dos pecados em troca de pagamento.

O que começou como uma crítica teológica rapidamente se transformou em um movimento de grandes proporções, impulsionado por fatores políticos, econômicos, sociais e tecnológicos, como a recente invenção da imprensa.

O termo “protestante”, contudo, surgiu apenas em 1529, a partir da carta de protesto apresentada por príncipes luteranos alemães contra um édito da Dieta de Speyer, que condenava oficialmente os ensinamentos de Lutero como heréticos.

Embora a história da Igreja registre tentativas anteriores de reforma, como as de Pedro Valdo, John Wycliffe e Jan Hus, foi Lutero quem conseguiu desencadear um movimento amplo, duradouro e profundamente transformador, capaz de redefinir o cristianismo ocidental.

Ao longo do século XVI, o luteranismo se espalhou da Alemanha para países como Dinamarca, Noruega, Finlândia, Letônia, Estônia e Islândia. Paralelamente, o calvinismo ganhou força em regiões como Suíça, França, Holanda, Escócia, Hungria e partes da Alemanha, por meio de reformadores como João Calvino, Huldrych Zwingli e John Knox.

Na Inglaterra, a separação política da Igreja Anglicana da autoridade papal, durante o reinado de Henrique VIII, deu origem ao anglicanismo, integrando Inglaterra e País de Gales ao vasto movimento reformista, ainda que com características próprias.

Atualmente, o protestantismo constitui a segunda maior vertente do cristianismo, atrás apenas do catolicismo, reunindo entre 800 milhões e 1 bilhão de fiéis em todo o mundo, cerca de 37% da população cristã global.

Ao longo dos séculos, os protestantes desenvolveram uma cultura própria, deixando contribuições profundas na educação, nas ciências, nas humanidades, na organização política e social, na economia e nas artes, influenciando decisivamente a formação do mundo moderno.

Diferentemente da Igreja Católica e das diversas igrejas ortodoxas, o protestantismo não possui uma unidade estrutural nem uma autoridade humana central. Em seu lugar, desenvolveu-se o conceito de uma “igreja invisível”, composta por todos os verdadeiros crentes, independentemente de filiação institucional.

Essa concepção contrasta com a autocompreensão das igrejas que se afirmam como a única Igreja histórica fundada por Jesus Cristo. O protestantismo apresenta grande diversidade interna.

Algumas denominações possuem alcance global, enquanto outras permanecem restritas a determinados contextos nacionais ou culturais. A maioria dos protestantes está vinculada a grandes famílias denominacionais, como luteranos, reformados/calvinistas, anglicanos, batistas, metodistas, adventistas, anabatistas, morávios, pentecostais, quakers e valdenses.

Nas últimas décadas, igrejas não denominacionais, evangélicas, carismáticas e independentes cresceram significativamente, ampliando ainda mais o espectro protestante.

Um dos legados mais duradouros da Reforma foi o amplo acesso às Escrituras Sagradas. Ao traduzir a Bíblia do latim para o alemão, Martinho Lutero não apenas democratizou o texto bíblico, mas também contribuiu para a consolidação das línguas nacionais e para o aumento da alfabetização.

Posteriormente, a Bíblia foi traduzida para diversos idiomas, permitindo que homens e mulheres comuns pudessem ler, interpretar e refletir sobre os textos sagrados por si mesmos, um gesto que transformou não apenas a religião, mas a própria relação do indivíduo com o conhecimento, a consciência e a fé.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Insanidade



A afirmação de que Deus criou o homem à sua própria imagem tiquetaqueia como uma bomba-relógio nas fundações do Cristianismo - e, em sentido mais amplo, de toda teologia que projeta no divino os traços, paixões e limitações humanas.

Pois, se Deus se parece conosco, então nossas violências, vaidades e crueldades passam a encontrar uma justificativa transcendental. O sagrado deixa de ser medida e torna-se espelho.

A religião, nesse sentido, pode ser compreendida como um subproduto do medo. Medo da morte, do caos, do desconhecido; medo de uma existência sem garantias últimas.

Diante de um universo indiferente e silencioso, o homem cria narrativas que ofereçam ordem, propósito e consolo. O problema não está apenas no nascimento da fé, mas no que se fez dela ao longo do tempo.

Na maior parte da história humana, a religião pode ter funcionado como um mal necessário: estruturou comunidades, estabeleceu códigos morais, conteve impulsos destrutivos e ofereceu esperança onde nada mais havia.

Contudo, permanece a pergunta incômoda: por que, tantas vezes, foi mais má do que o necessário? Por que o remédio se converteu com tanta facilidade em veneno?

Ao se institucionalizar, a religião passou a confundir o divino com o poder, a fé com a obediência, o mistério com o dogma. Aquilo que deveria elevar o espírito tornou-se instrumento de controle.

Cruzadas, inquisições, guerras santas, perseguições, fogueiras, atentados e massacres - todos cometidos sob a convicção de se estar cumprindo uma vontade superior. O medo original transforma-se, então, em terror organizado.

Matar pessoas em nome de Deus não seria uma das definições mais perturbadoras de insanidade? Pois trata-se de uma violência que se julga virtuosa, de um crime cometido com a consciência limpa, de uma barbárie blindada pela certeza moral.

Quando o assassino acredita agir por mandato divino, já não há espaço para o arrependimento, nem para o diálogo, nem para a dúvida, apenas para a aniquilação do outro.

Arthur C. Clarke, com a lucidez que marca seu pensamento, não atacava apenas a fé em si, mas a pretensão humana de falar em nome do absoluto. Seu alerta aponta para um paradoxo central: quanto mais o homem afirma conhecer a vontade de Deus, menos humano ele se torna.

A transcendência, em vez de ampliar a consciência, encolhe-a. Talvez o verdadeiro desafio espiritual do nosso tempo não seja abolir a religião, mas desarmá-la. Libertá-la do medo, do poder e da violência; devolvê-la ao campo da experiência íntima, da ética compassiva e da humildade diante do mistério.

Pois, se Deus existe - ou se o sagrado significa algo - ele certamente não necessita de exércitos, tribunais ou cadáveres para se afirmar. E talvez a maior heresia não seja duvidar de Deus, mas matar em seu nome acreditando honrá-lo.




A Vida é uma Mulher!


Para contemplar a beleza última de uma obra de arte, de um gesto ou de um instante da existência, não bastam todo o saber acumulado nem toda a boa disposição da alma. O erudito pode passar indiferente diante do sublime, e o sensível pode atravessar o extraordinário sem percebê-lo.

São necessários, antes, os acasos mais raros e felizes - aqueles encontros improváveis em que o mundo exterior e a disposição interior se reconhecem mutuamente. Só então o véu de nuvens se afasta, ainda que por um breve instante, desses cumes excelsos, e nós os vemos refulgir, subitamente, sob o sol pleno.

Não se trata apenas de estar no lugar certo, no momento exato; trata-se de ser, naquele instante, a pessoa capaz de ver. É preciso que a própria alma tenha arrancado, com esforço, risco e sofrimento, o véu que cobria suas próprias alturas.

Apenas quem já enfrentou suas zonas de sombra, quem suportou o desamparo e a vertigem do autoconhecimento, torna-se digno da revelação. E, justamente por isso, necessita agora de uma expressão externa - uma obra, um gesto, um rosto, uma paisagem - como símbolo visível, como ponto de apoio que impeça a dissolução, que permita permanecer senhor de si mesmo em meio ao êxtase.

Mas é tão raro que todos esses elementos convirjam ao mesmo tempo, que me inclino a crer que as maiores culminâncias do que há de bom - um ato verdadeiramente heroico, um lampejo de humanidade plena, a súbita revelação da natureza em sua glória mais pura - permaneceram até hoje, em grande parte, ocultas e veladas à maioria dos homens, e mesmo aos melhores entre eles.

O que se nos revela, revela-se apenas uma vez - e depois torna a se esconder. Essa é a lei cruel e magnífica da existência. Os gregos, em sua sabedoria luminosa e trágica, sabiam disso. Por isso invocavam: “Duas e três vezes tudo o que é belo!”

Tinham razão de sobra para suplicar aos deuses essa repetição milagrosa, pois a realidade profana e cotidiana não nos concede o belo com generosidade. Ou o nega por completo, ou no-lo oferece apenas uma única vez, de modo fugaz, quase irônico, como se quisesse testar nossa capacidade de atenção e gratidão.

Quero dizer com isso que o mundo está repleto de coisas belas - paisagens, rostos, obras-primas, gestos de grandeza - e, no entanto, é terrivelmente pobre em belos instantes, em revelações autênticas e completas dessas mesmas coisas.

A beleza existe em abundância, mas quase sempre permanece encoberta, distante, tímida ou indiferente ao nosso olhar apressado e fatigado. Talvez seja exatamente aí que resida o mais forte encanto da vida.

Sobre ela paira, entretecido de fios de ouro, um véu sutil de belas possibilidades - um véu feito de promessas, resistências, pudor, desdém altivo, compaixão súbita, sedução perigosa. A vida não se entrega inteira: ela se mostra, se insinua, se retrai; provoca, castiga e recompensa. Nessa alternância reside sua inesgotável fascinação.

Sim, a vida é uma mulher.

Essa imagem final, tão provocadora quanto poética, condensa uma das intuições mais profundas de Friedrich Nietzsche. A vida, tal como a mulher em sua visão - nem sempre gentil, nem jamais domesticável -, não é algo que se possui ou se domina por completo.

Ela é movimento, mistério, distância sedutora; recusa e oferta simultâneas. Exige força, coragem, dança, e sobretudo a capacidade de suportar a frustração sem cair no ressentimento. Por isso mesmo, os grandes momentos - aqueles em que o véu se rasga de verdade - são tão preciosos quanto raros.

E é precisamente essa raridade que os torna dignos de serem desejados com toda a força da vontade de potência, com toda a paixão dionisíaca de quem sabe que o belo, assim como a felicidade suprema, quase nunca se repete - e que, quando retorna, nunca o faz da mesma forma.



domingo, janeiro 11, 2026

Minha vida está ficando difícil


Nasci branco, então eu… A partir desse dado biológico elementar, passei a carregar rótulos que não escolhi.

Não votei no PT, no PCdoB ou no PSOL; logo, sou imediatamente classificado como fascista, como se a democracia se resumisse a um único espectro ideológico e toda divergência fosse crime moral.

Sou heterossexual, o que, para alguns, basta para me transformar em homofóbico, não por minhas atitudes, mas por uma identidade presumida e mal interpretada.

Nunca fui sindicalizado. Por isso, sou acusado de trair a causa operária, de ser racista social, de agir como aliado automático do patrão. Como se a dignidade do trabalho estivesse condicionada à filiação, e não à honestidade do esforço cotidiano.

Penso por conta própria e não engulo, sem questionar, tudo o que a mídia ou os formadores de opinião me empurram. Resultado: sou rotulado de reacionário, alguém que ameaça o progresso apenas por exercer o direito de duvidar.

Atenho-me aos meus valores morais e culturais, construídos ao longo de uma vida inteira, e isso me transforma, segundo certos julgamentos apressados, em xenófobo.

Desejo viver em segurança e acredito que criminosos devam responder por seus atos dentro da lei; por isso, dizem que sou um saudosista do DOI-CODI, como se exigir ordem fosse o mesmo que defender a barbárie.

Cumpro as leis e espero que todos - inclusive o governo - também as cumpram. Essa expectativa básica de cidadania basta para que eu seja empurrado para a prateleira da “direita”, como se o respeito às regras fosse um privilégio ideológico, e não um pilar civilizatório.

Acredito na meritocracia, no valor do esforço individual aliado à responsabilidade coletiva. Logo, sou liberal. Fui educado com severidade, disciplina e limites claros. Sou grato aos meus pais, aos meus avós e à escola que me formou.

Mas, sob o olhar de certos discursos contemporâneos, isso me transforma num carrasco de crianças, alguém que teria impedido seu “pleno desabrochar”, como se disciplina e afeto fossem incompatíveis.

Acredito que todo cidadão é corresponsável pela defesa do país, não apenas no sentido bélico, mas também moral, institucional e cultural. Por isso, sou chamado de militarista.

Gosto de me esforçar, de estabelecer metas e superá-las. Isso basta para que eu seja visto como alguém desprovido de solidariedade, insensível àqueles que se contentam em cumprir apenas o mínimo.

Vivi uma vida regrada. Poupei, trabalhei, renunciei a prazeres imediatos em nome de estabilidade futura. Hoje, sou chamado de burguês por comunistas, socialistas e “petralhas”, como se a responsabilidade pessoal fosse uma afronta social.

No fundo, este não é apenas um relato individual. É o retrato de um tempo em que o debate foi substituído pelo rótulo, e a divergência, pela condenação sumária. Um tempo em que identidades valem mais do que argumentos, e em que pensar diferente tornou-se um ato de resistência.

Ainda assim, sigo em frente. Sou grato aos amigos que permanecem, àqueles que não me reduziram a caricaturas ideológicas. E, apesar de tudo, continuo acreditando que pensar, discordar e viver com dignidade não deveria ser um crime, mas um direito.

Tente



Você chega ao mundo completamente nu, sem possuir absolutamente nada. Essa é a única certeza absoluta com que nascemos: nada nos pertence de verdade. Vem ao mundo despido, porém cheio de ilusões.

É por isso que toda criança nasce com as mãozinhas cerradas, os punhos bem apertados, como se estivesse trazendo tesouros escondidos, preciosidades que ninguém mais pode tocar.

Mas, se você abrir com cuidado esses pequenos punhos, não encontrará nada. Apenas o vazio generoso do começo. E todos, absolutamente todos, partem deste mundo com as mãos abertas.

Tente morrer com os punhos cerrados, até hoje ninguém conseguiu. Tente nascer com as mãos já abertas, também ninguém logrou êxito. Esses dois gestos extremos parecem guardar, em si mesmos, toda a sabedoria silenciosa da existência.

Entre o nascimento e a morte, porém, acontece o que realmente importa: a longa jornada em que vamos aprendendo - muitas vezes a duras penas - a abrir as mãos. Ao longo da vida, acumulamos coisas, pessoas, memórias, mágoas, conquistas, amores, rancores, diplomas, casas, carros, sonhos e medos.

Criamos a ilusão de posse: “isto é meu”, “aquilo me pertence”, “não abro mão disso por nada”. Vivemos boa parte do tempo tentando proteger, guardar, controlar, segurar com força.

Mas a vida, com sua sabedoria impiedosa e ao mesmo tempo compassiva, se encarrega de nos ensinar o contrário, através dos acontecimentos que não controlamos:

As perdas que nos devastam e, paradoxalmente, nos esvaziam para algo maior. As separações que doem como facadas e nos obrigam a soltar. As doenças que revelam a fragilidade do corpo que julgávamos eterno.

As mudanças inesperadas de rumo que destroem planos tão cuidadosamente traçados. As despedidas definitivas que nos mostram que até os amores mais profundos têm data de validade neste plano.

As crises financeiras que evaporam o que chamávamos de “segurança”. E, principalmente, o envelhecimento lento e inexorável, que vai abrindo nossas mãos quase sem que percebamos

Cada um desses momentos é um professor severo e amoroso ao mesmo tempo. Eles nos mostram, repetidas vezes, que segurança verdadeira não existe no que podemos perder, e tudo, absolutamente tudo que podemos tocar, mais cedo ou mais tarde será perdido.

Então, para que tanta ansiedade? Para que tanto apego? Para que tanto medo de perder o que, na verdade, nunca foi nosso? Tudo o que usamos aqui é apenas emprestado: o corpo, o tempo, as pessoas que amamos, os bens materiais, até mesmo os talentos que julgamos “nossos”.

Um dia teremos de devolver tudo e, seguiremos viagem com o que realmente carregamos: o que fomos capazes de amar, o quanto conseguimos perdoar, o quanto deixamos de bem pelo caminho, as sementes de gentileza que plantamos sem esperar colheita.

Talvez a verdadeira arte de viver consista exatamente nisso: aprender, aos poucos, a viver com as mãos mais abertas dando, acolhendo, deixando ir, confiando. Porque, no fim das contas, chegamos de mãos vazias e cerradas.

Partimos de mãos vazias e abertas. E o que realmente conta é o que aconteceu entre esses dois vazios: o quanto fomos capazes de abrir o coração enquanto as mãos aprendiam a se soltar.

Que tal começarmos hoje a praticar esse gesto tão simples e tão difícil?
Abrir a mão. Respirar. Deixar ir. E confiar que, no grande esquema da existência, nada do que é essencial pode ser verdadeiramente perdido.

sábado, janeiro 10, 2026

Josef Kramer: a Besta de Bergen-Belsen

Kramer sendo escoltado por soldados ingleses em Bergen-Belsen após ser capturado, 1945.


Josef Kramer foi um dos mais impiedosos criminosos de guerra nazistas, diretamente responsável pela morte de milhares de judeus durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

Seu nome está associado de forma indelével ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde atuou como comandante e ganhou dos próprios prisioneiros o sinistro apelido de “Besta de Belsen”, símbolo máximo da brutalidade desumana do regime nazista em seus estertores.

Nascido em 10 de novembro de 1906, na cidade de Munique, Kramer ingressou no Partido Nazista em 1931 e, no ano seguinte, alistou-se na SS (Schutzstaffel). Após o treinamento interno da organização, iniciou sua carreira como guarda prisional e, com o início da guerra, foi designado para atuar nos campos de concentração, espaços onde a ideologia nazista se materializava em violência sistemática e extermínio.

Em 1934, Kramer foi destacado para o campo de Dachau, onde rapidamente ascendeu na hierarquia. Passou a ocupar cargos de supervisão em outros campos, como Sachsenhausen e Mauthausen, consolidando sua reputação como um oficial rigoroso, violento e absolutamente fiel às diretrizes do regime.

Em 1940, tornou-se assistente de Rudolf Höss em Auschwitz, o maior complexo de extermínio do Terceiro Reich. Dois anos depois, em 1942, foi promovido ao posto de SS-Hauptsturmführer, assumindo responsabilidades diretas sobre as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau.

Durante o período em Auschwitz, Kramer destacou-se pela extrema crueldade com que tratava tanto prisioneiros quanto subordinados. O médico da SS Franz Lucas, posteriormente acusado em julgamentos de crimes de guerra, relatou que evitava ao máximo cumprir ordens dadas por Kramer, chegando a alegar dores estomacais e intestinais para fugir das tarefas impostas.

Em certa ocasião, ao ver seu nome incluído na lista de médicos responsáveis pela seleção de prisioneiros recém-chegados da Hungria - que determinava quem seria enviado ao trabalho forçado e quem seguiria diretamente para a morte - Lucas protestou. A resposta de Kramer foi direta e ameaçadora:

“Eu sei que você está sendo investigado por favorecer prisioneiros. Estou lhe ordenando agora que suba aquela rampa e faça seu trabalho. Se se recusar a obedecer, eu o mato no local.”

Em agosto de 1943, Auschwitz recebeu um grupo de quarenta mulheres destinadas à execução imediata. Kramer, auxiliado por homens da SS, ordenou que fossem despidas e empurradas para dentro das câmaras de gás.

Do lado de fora, observou calmamente, através de um pequeno visor, enquanto as mulheres gritavam em desespero até caírem mortas no chão. Questionado posteriormente sobre o que sentia ao presenciar tais cenas, respondeu com frieza:

- “Eu não sentia nada ao fazer essas coisas. Estava apenas obedecendo ordens. Foi assim que fui treinado.”

Em dezembro de 1944, Josef Kramer assumiu o comando do campo de concentração de Bergen-Belsen. Àquela altura, a Alemanha já caminhava para o colapso, mas as regras impostas por Kramer eram de uma brutalidade extrema.

As condições do campo deterioraram-se rapidamente: fome, doenças e abandono tornaram-se parte da rotina. Sua conduta cruel consolidou definitivamente o apelido de “Besta de Belsen” entre os prisioneiros.

Mesmo com a desintegração da administração nazista, Kramer permaneceu obsessivamente fiel à burocracia. Em março de 1945, registrou friamente em um relatório que, dos 25 mil prisioneiros sob sua custódia, cerca de 300 haviam morrido de tifo apenas na semana anterior.

Com a aproximação do fim da guerra, Bergen-Belsen passou a receber prisioneiros transferidos de outros campos evacuados às pressas diante do avanço dos Aliados. Em meados de abril, o campo abrigava mais de 80 mil pessoas, muito além de sua capacidade.

 

Sepultura simbólica de Anne Frank uma das vítimas de Kramer em Bergen-Belsen


A administração entrou em colapso total. A maioria dos guardas abandonou o campo para evitar represálias, deixando os prisioneiros entregues à própria sorte. Corpos em decomposição espalhavam-se por toda parte; ratos atacavam os vivos, especialmente aqueles fracos demais para se defender. A morte tornou-se onipresente.

Josef Kramer, no entanto, permaneceu no campo até o fim. Quando os soldados britânicos finalmente chegaram para libertar Bergen-Belsen, ele mostrou-se indiferente.

Conduziu-os em uma espécie de “visita” pelo local, exibindo sem qualquer sinal de arrependimento as cenas de degradação absoluta: pilhas de corpos esqueléticos amontoados, valas comuns cheias de cadáveres insepultos e barracões onde sobreviventes mal conseguiam distinguir a vida da morte, física e mentalmente destruídos.

Kramer foi preso juntamente com outros 44 membros da equipe de Bergen-Belsen, incluindo quinze mulheres. Todos foram levados a julgamento por uma corte militar britânica na cidade de Lüneburg. O processo ocorreu entre setembro e novembro de 1945 e ficou conhecido como um dos julgamentos mais emblemáticos do pós-guerra.

Em 17 de novembro de 1945, Josef Kramer foi condenado à morte por crimes contra a humanidade. A sentença foi cumprida em 13 de dezembro de 1945, na prisão de Hamelin. O responsável por sua execução foi o carrasco britânico Albert Pierrepoint, que também executou diversos outros criminosos nazistas.

Assim terminou a trajetória de um homem cuja obediência cega e desumanização extrema contribuíram para um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.


            Josef Kramer – A Besta de Belsen 

Fata Morgana - Trata-se de uma miragem que se deve a uma inversão térmica.



 

A Fata Morgana é um tipo particular de miragem, resultante de um fenômeno físico conhecido como inversão térmica. Seu nome remete à figura lendária da Fada Morgana, personagem da mitologia arturiana, meia-irmã do Rei Arthur, descrita como uma feiticeira capaz de mudar de forma e criar ilusões.

A associação não é casual: assim como a fada das lendas, o fenômeno parece enganar os sentidos, transformando o real em algo instável e mutável. Do ponto de vista científico, a Fata Morgana é um efeito óptico explicado pelo Princípio de Fermat, segundo o qual a luz percorre o caminho de menor tempo.

Quando há uma camada de ar frio, mais denso, próxima à superfície, e outra de ar quente logo acima, forma-se uma espécie de “lente atmosférica”. Essa lente refrata a luz de maneira complexa, fazendo com que objetos distantes - ilhas, falésias, embarcações, icebergs ou até cidades costeiras - pareçam elevados, alongados, multiplicados ou invertidos.

O resultado visual lembra castelos flutuantes ou paisagens saídas de contos de fadas. A Fata Morgana mais famosa ocorre no Estreito de Messina, entre a Calábria e a Sicília.

Desde a Antiguidade, marinheiros relataram visões de cidades suspensas no horizonte, alimentando mitos, medos e narrativas fantásticas. Em épocas em que a navegação dependia quase exclusivamente da observação visual, tais ilusões podiam ser interpretadas como sinais sobrenaturais ou presságios.

O fenômeno costuma ser observado nas primeiras horas da manhã, especialmente após noites frias e com tempo calmo. Nessas condições, a separação regular entre camadas de ar favorece a formação da miragem.

É comum em vales de alta montanha, onde a curvatura do relevo intensifica o efeito, compensando parcialmente a curvatura da Terra. Também ocorre com frequência nos mares árticos, sobre águas muito calmas, e nas vastas superfícies geladas da Antártica, onde o contraste térmico é acentuado.

Classificada como uma miragem superior, a Fata Morgana difere das miragens inferiores, mais conhecidas, que criam a ilusão de poças d’água em desertos ou em estradas asfaltadas sob forte calor.

Enquanto estas fazem objetos parecerem refletidos no chão, a Fata Morgana projeta imagens acima do horizonte, distorcendo verticalmente a paisagem. No Brasil, o fenômeno ganhou destaque ao ser tema de uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2015, que levantava a hipótese de a Fata Morgana ter contribuído para o naufrágio do RMS Titanic, em 1912.

A inversão térmica no Atlântico Norte poderia ter distorcido a visão do horizonte, dificultando a percepção correta do iceberg pela tripulação. Embora essa explicação não seja conclusiva, ela reforça como fenômenos ópticos naturais podem influenciar decisões humanas com consequências históricas.

Fisicamente, a Fata Morgana resulta da combinação de refração, reflexão e difusão da luz, processos fundamentais na óptica atmosférica. Mais do que uma curiosidade científica, o fenômeno revela o quanto nossa percepção da realidade é mediada pelas condições do ambiente.

Entre ciência e mito, a Fata Morgana permanece como um lembrete de que nem tudo o que vemos é exatamente aquilo que parece ser.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Justiça?


Por que, no Brasil, existe uma lei que garante a uma pessoa que comete um crime, apenas por possuir “nível superior”, o direito de permanecer em cela especial? Desde quando escolaridade se tornou critério para diferenciar a dignidade de um preso?

Alguém que teve condições, sobretudo em um país profundamente desigual como o nosso, de cursar uma faculdade de Direito, Medicina ou qualquer outra área, teria mais “direito” de roubar, furtar ou fraudar do que um pobre sem instrução formal?

Se a lógica fosse moral, não deveria ser justamente o contrário? Quem teve acesso à educação, oportunidades e privilégios não deveria responder com maior rigor pelos próprios atos?

Existe, afinal, algo como um “crime de nível superior”? O dano causado por um furto praticado por um bacharel é menor do que aquele cometido por um analfabeto? O sofrimento da vítima muda conforme o diploma do agressor?

E o que pensam as vítimas diante dessa distinção? Para elas, a violência, o prejuízo e a humilhação são exatamente os mesmos, independentemente do currículo de quem os causou.

A Constituição afirma, com solenidade, que “todos são iguais perante a lei”. Mas como sustentar essa máxima diante de dispositivos legais que criam privilégios explícitos? Como falar em justiça igualitária quando a própria lei legitima diferenças baseadas em classe social, escolaridade e poder?

Essa contradição revela uma ferida profunda no sistema jurídico brasileiro: leis que, embora legais, são moralmente indefensáveis. Leis que não apenas toleram, mas institucionalizam a desigualdade, excluindo os pobres, os analfabetos e os socialmente invisíveis do conceito prático de cidadania plena.

O que torna um furto cometido por alguém com diploma “melhor” ou “menos grave” do que o mesmo crime praticado por um trabalhador sem estudo? A resposta honesta é simples: nada. A diferença não está no crime, mas no lugar social de quem o comete.

Essa distorção torna-se ainda mais evidente quando observamos a dificuldade quase intransponível de se quebrar o sigilo bancário e patrimonial de parlamentares, juízes ou altos funcionários acusados de enriquecimento ilícito.

Se há indícios claros de que determinado patrimônio não foi obtido de forma legal, por que tanto receio em o investigar? O que se protege, afinal: o direito à privacidade ou a impunidade institucionalizada?

A sensação que se impõe é a de que o sistema foi desenhado para proteger os seus próprios arquitetos. Pessoas que, conhecedoras das brechas da lei, ajudaram a moldá-la de modo a garantir salvaguardas para si mesmas no futuro.

Nesse contexto, o simbólico - e profundamente revelador - “Dia do Pindura”, celebrado em 11 de agosto por estudantes de Direito em diversas cidades brasileiras, ganha contornos ainda mais perturbadores.

Nesse dia, alunos comem e bebem em bares e restaurantes e, ao final, recusam-se a pagar a conta, alegando tratar-se de uma “tradição”. O que isso ensina? Que a lei pode ser dobrada, relativizada ou ignorada quando convém? Que certos grupos estão acima das regras que um dia aplicarão aos outros?

Que tipo de advogados, promotores e juízes nascem de uma formação que naturaliza pequenos abusos em nome de privilégios simbólicos? O que esperar de profissionais que crescem acreditando-se semideuses, acima do bem e do mal, legislando e julgando “os simples mortais”, enquanto se consideram imunes às mesmas normas?

Cada vez mais, a impressão é clara e inquietante: algumas leis no Brasil não foram criadas para garantir justiça, mas para administrar desigualdades; não para proteger a sociedade, mas para blindar seus autores.

Quando a lei deixa de ser instrumento de equidade e passa a ser mecanismo de autoproteção das elites, o Estado de Direito se transforma em mera ficção jurídica. E onde a justiça se torna privilégio, a democracia deixa de existir, restando apenas a aparência formal de legalidade.